DARK (s03)

Ainda não vi a última temporada de Dark por inteiro. Porém, há um pensamento que me tem inquietado durante estes novos episódios. No género da viagem no tempo, há, digamos, um eixo de complexidade. Quando é baixo, consiste em simplesmente definir um conjunto de regras básicas e apostar na narrativa, à Back From The Future (ou à Bill & Ted). Quando é alto, a ciência e os paradoxos temporais acabam por dominar a história, à Primer. Eu sei que viagens no tempo que apostam na complexidade alta são boas para gerar "fandom", mas sempre me parece que elas correm um risco grande de entrar em contradição: por um lado, elas têm que formular uma hipótese racional sobre como a viagem no tempo poderá funcionar e, por outro, precisam manter a ambiguidade narrativa, acabando assim por colocar um espectador perante um resultado que parece tão aleatório como seria aquele em que a ciência não estivesse presente. Ao longo das suas temporadas, eu diria que Dark foi subindo nesse eixo, complexificando o seu universo num jogo de duplos e espelhos com ressonâncias místicas e religiosas, e multiplicando as suas personagens em diferentes encarnações históricas. Nestes novos episódios, parece-me várias vezes que é demais: há tempos demais, pessoas demais, enredos demais, e, em vez de as regras deste universo nos serem explicadas pouco a pouco, parece que novas regras são constantemente inventadas para lidar com a montanha de possibilidades que se levantou. Isto parece-me muito prejudicial para aquilo que é uma das principais qualidades da série: o tom e ambiente admiráveis, com um suspense de cortar à faca. Se tudo é possível, nada é fatal, e a tensão não será então mais do que um elaborado joguinho de luz e som.

Após terminar: foi um final muito bonito para uma série extremamente truqueira.
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GHOST IN THE SHELL (1995)

Nunca assisti muita animação, muito menos mangá, mas conheço tanta gente que gosta tanto deste filme que eu tinha que vê-lo em algum momento. 25 anos depois, ainda impressiona e ainda surpreende, nem que seja por perceber o quanto as Wachowski roubaram dele para colocar no Matrix. Porém, como a criatividade funciona como um belo sistema de trocas, é notório também o modo como ele pegou ambientes e tons do Blade Runner, então, tudo certo. Acima de tudo, um universo extremamente envolvente e persuasivo.

THE PRINCESS BRIDE (1987)

Hoje vi dois clássicos que me faltavam. Tenho lido tantas menções a The Princess Bride em artigos e posts que não resisti à curiosidade. Dá a sensação que o Rob Reiner disse "ei, já que estamos aqui um monte de lendas da comédia, mais umas tantas pessoas que virão a ser grandes estrelas, porque não fazemos esta fantasia infantil sem medo de sermos engraçados?". Bom ver que, um dia, já houve filmes divertidos e realmente para toda a família que não precisavam seguir um padrão homogéneo (estou a olhar para vós, Disney/Pixar). Mais: se para um roteirista é sempre inspirador ver uma obra de William Goldman, para qualquer pessoa será curiosíssimo ver Robin Wright quando tinha uns míseros 20 anos.

THE VAST OF NIGHT (2019)

Sci-fi retrô, com imaginário e reconstituição dos anos 50, inspirado por Twilight Zone e com um toque teatral graças a travellings longos e muitos diálogos e monólogos. Um belo filminho.

HORROR NOIRE: A HISTORY OF BLACK HORROR (2019)

Ontem falei aqui sobre um trabalho que fiz para o mestrado. Mais especificamente, era sobre o imaginário do "Us", de Jordan Peele, o que me levou a pesquisar fontes sobre a representatividade negra no cinema de Terror. O livro "Horror Noire", da professora Robin R. Means Coleman, foi essencial e, para minha felicidade, descobri que ele foi adaptado para documentário no ano passado. Interessantíssimo, necessário e com entrevistas divertidíssimas com alguns atores que fizeram História..

LE PETIT SOLDAT (1963)

Foi o segundo longa que Godard gravou, mas o quarto que ele lançou, porque a censura francesa não gostou das cenas de tortura e deixou o filme na prateleira durante dois anos até que passasse a guerra da Argélia. É um thriller de espionagem, um comentário político pesado e, ao mesmo tempo, uma mensagem de amor à ainda coadjuvante Anna Karina, por quem a câmera está claramente apaixonada. O diretor também estava: ela e Godard casaram-se logo após a filmagem. Curiosamente, no ano da estreia, a relação deles já estava tão tremida que Godard trocou-a por Brigitte Bardot para o papel principal em "Le Mépris". Enfim, escolhas.