As minhas séries e filmes de 2023

Apesar de me ter maravilhado com Joe Pera Talks With You, vi poucas séries em 2023. Gostei muito de Jury Duty, que recalcula as fronteiras entre realidade e comédia de um jeito talvez mais palatável do que o de Nathan Fielder; e de Swarm, um "true crime" com sensibilidade Atlanta e interpretado por uma Dominique Fishback tão fenomenal que consegue roubar até cenas em que não tem falas. 

Mas o ano foi do cinema. Do Barbie vs. Oppenheimer. Dos "buyopics" (TetrisAirBlackBerry, outros tantos). E principalmente destes filmes incríveis que não me saem da cabeça:

9. Reality. A intervenção policial que vemos neste telefilme da HBO aconteceu de verdade. Os diálogos adaptam em tempo real a gravação que dela se fez, e a ausência de falas inventadas só torna mais admirável a forma como nos enreda na trama. É como se o mundo real tivesse escrito sozinho uma peça de teatro.

8. Cuando acecha la maldad. Mal-estar e inquietação permanentes num filme de terror argentino, levando a uma metáfora poderosa sobre a pandemia, a política do nosso tempo e as divisões de classe.

7. Saltburn. É um filme desconfortável de assistir, mas que se entranha. A diretora/roteirista Emerald Fennell é ótima na construção dos seus atos finais e Barry Keoghan é um ator inacreditável, detalhista ao nível da obsessão.

6. Rotting in the Sun. Não assistam com as crianças ou com pessoas mais impressionáveis e preparem-se para uma comédia escandalosa que não respeita nada nem ninguém, incluindo o seu próprio realizador e público.

5. Afire. Um filme muito elegante, que reflete nas suas personagens as tensões passadas e atuais na Europa, como o racismo, a imigração, os traumas históricos e a iminente sensação de ruína das tolerâncias do século XX.

4. Beau is Afraid. Reconciliei-me com Ari Aster quando, ao rever Midsommar e Hereditary, percebi que ele não é exatamente um cineasta de género, mas de temas: neuroses, o problema da família, a mãe sufocante, religiões opressivas, violências privadas e públicas, e por aí fora. Perceber isso antes de assistir este filme fez-me apreciá-lo mais. Longo, sim, mas muito impressionante.

3. May September. Grande jogo de espelhos entre Natalie Portman e Julianne Moore. Todd Haynes honra tanto Persona quanto a telenovela e constrói o que, acima de tudo, me parece uma sátira ao modo como hoje fazemos e consumimos histórias.

2. Retratos Fantasmas. Tudo de que gosto sobre cinema está neste documentário de Kleber Mendonça Filho, tanto no que mostra quanto no jeito de mostrar.

1. Asteroid City. Discordo em absoluto de quem diz que é igual a tudo que o Wes Anderson faz. Acho até que ele aponta para vários caminhos novos da obra do diretor. É um refresco de imagem e ritmos para os olhos e para a cabeça. Tudo tão bonito. Assisti três vezes.

Falos e falinhos

Li por aí sobre o tintinábulo, que, na Igreja Católica, é uma insígnia com um pequeno sino, mas que, na época romana, era um sino de ventos ("espanta-espíritos" em PT-PT) com pequenos pênis pendurados. Estes falos em miniatura eram vistos como proteção para o mau-olhado, ou seja, para a inveja, a "invidia", a olhadela maliciosa para as coisas do vizinho. 
 
Não sei como a proteção funcionaria; talvez os romanos gostassem de dar uma cacetada nos olhos aos curiosos. Mas há mais coisas fascinantes nesta história, porque o nome da mini-rolinha era "fascinus" e isso levou ao verbo "fascinare": usar o poder do fascinus, praticar magia, encantar, enfeitiçar. 
 
Portanto, nunca se esqueçam que, quando dizem que alguma coisa é "fascinante", estão dizendo que ela exerce o poder do marsápio sobre vocês.

Massa e Milei

Vejo o último debate das presidenciais argentinas, que serão daqui a uma semana. Massa é frio, experiente, do aparelho. Milei é um pistoleiro disparando para todos os lados. A estabilidade de Massa implica que pouco mude se ele ganhar. A novidade de Milei implica que, se ele ganhar, venha a ser mais manipulado do que manipulador. Achei tudo muito fraco.

"Pamonhas, pamonhas... pamonhas..."

Em Portugal, que eu saiba, pamonhas são mais as de duas pernas e falantes. As de comer, pouco se encontram e carrinhos com alto-falante não há mesmo. Por isso, sempre achei muito curioso quando ele passa aqui na rua, até pela impressão de que o homem vai ficando cada vez mais triste sempre que repete a palavra "pamonhas". Pamonhas... pamonhas... pamonhas...

A nova música dos Beatles

Os filmes de O Senhor dos Anéis geraram uma série de eventos que, de alguma forma, nos permitiu ter esta música hoje. Acho isso fascinante.

Feriado

Dia de tomar café na padaria, entre a classe média alta paulistana. 

Na mesa dum lado, uma velha desabafava com a garçonete. Ela acha que a sua empregada doméstica "tá roubando". Deve ter vindo falar disso na padaria porque em casa mais ninguém tem paciência para a ouvir.
 
Do outro lado, um casal. Ela queixando-se dum colega de trabalho. Ele com medo de que o sogro deixe o apartamento na praia para o cunhado no testamento.
 
Que mundo de gente pequena. Ser rico é ter segurança? Então ali é tudo pobre. "Ser livre é não ter medo" (Nina Simone).
 
A velha só tomou um café e foi-se embora. 

O casal fez um pedido enorme e ficou muito desapontado por não haver rabanada.

Joe Pera Talks With You (2018-2021)

Há uma semana exata, vi uma entrevista engraçadíssima de Joe Pera ao Seth Meyers. Ela levou-me até à série dele, Joe Pera Talks With You (originalmente do Adult Swim; no Brasil, está na HBO Max). Feita de três temporadas com episódios minúsculos, de 11 minutos, esperava que fosse só uma comédia divertida para relaxar um pouco depois de jantar, mas veio-me uma das produções de televisão mais perfeitas que alguma vez me passou pela frente. 
 
Parece um exagero, mas realmente não é. Não imagino como um episódio de televisão possa ser melhor do que, por exemplo, Joe Pera Reads You The Church Announcements, o sexto da primeira temporada, que tem uma classificação de 9,6 no IMDB. 
 
São episódios escritos com a precisão de um relógio, mas filmados e editados com tempo para respirar. O tom é carinhoso, lembra Derek e certamente influenciou Ted Lasso, mas o pé fica no chão, junto da comunidade que a inspirou e onde foi gravada, com aquela quarta parede translúcida ao jeito de P'tit Quinquin. Impressiona (ou talvez não) que uma história simultaneamente tão real e tão carinhosa, que passa o tempo a dizer-nos que os absurdos do mundo são para atravessar juntos, tenha surgido durante a presidência Trump. É um abraço em forma de série como nunca vi e não a posso recomendar mais.

Os ecologistas

Pessoas que conheço conseguiram emplacar uma série portuguesa de sucesso internacional na Netflix — e ficam já aqui os meus abraços de parabéns para todos.

Então, porque leio tantas opiniões do estilo «ah, mas a série devia ser assim e assado»? E porque o "assim e assado" parece coincidir com as características daqueles filmes portugueses que se dão por satisfeitos com 2 mil bilhetes vendidos ou daquelas séries que batalham para conquistar umas poucas centenas de milhar de espectadores?

Estou certo que quem critica não deixou passar nenhuma destas obras. Foram ver todas ao cinema e estiveram atentos sempre que um novo episódio estreou na televisão. Dito isso, eu não tenho nada contra nichos. Estou em vários, e vejo muitas dessas coisas que são pouco vistas. O que não entendo é porque neste caso a conversa é centrada na imposição de um padrão sobre a obra, a ver se encaixa, como um acetato num retroprojetor das antigas. Tenho a sensação que, nos últimos dias, li dezenas de variações da frase "a série fez sucesso, mas não é X".

O X pode ser a teoria de autor francesa, as formulações de Adorno sobre a cultura de massas ou o modelo narrativo hollywoodiano. Pode até ser outra série que se apreciou no passado e se tornou sombra da caverna de Platão particular que cada um carrega.

Outras coisas engrossam a mistura. Algumas são feias, como a inveja de quem não percebe que, em audiovisual, um sucesso é o que é preciso para puxar outros. Outras são pouco faladas, como a provável habituação do espectador a uma dose de "estrangeiro" — rostos, vozes, lugares, pensamento narrativo — na ficção.

Em vez do "vi e não gostei" (sempre legítimo, expectável, sem novidade), acho mais interessante perguntar porque finalmente uma série portuguesa se deu bem. «Ah, porque foi feita para o grande público». E qual série não é? Em Portugal ou fora dele, quantos filmes "feitos para o grande público" não afundaram na bilheteira e quantos filmes "de arte" não se deram bem? A divisão entre arte e público está tão gasta quanto o monóculo do Fritz Lang.

É preciso firmar a noção de que há diferentes modos de ver e que, em si mesmos, eles não são necessariamente maus ou bons. O mesmo raciocínio vale para o exemplo da poesia: não é porque chegamos a Mallarmé que não conseguiremos mais apreciar António Aleixo. A verdadeira conquista da literacia, mais do que o entendimento do complexo, é essa sensibilidade versátil. Não vale a pena dizer "Pacifiction é bom, mas não é MCU", tal como não faria sentido o contrário. Aliás, eu já não sei muito bem se "bom" e "mau" são conceitos que façam muito sentido nestas coisas. Identificar o modo de ver adequado para determinada obra e se ela é interessante nele parece mais acertado.

É verdade que o êxito e o fracasso dependem de muita coisa. Caprichos de programação ou distribuição, notícias de mexericos coladas à estreia, catástrofes que desviam a atenção do público. Abstraindo destes, formulo a seguinte hipótese: uma obra audiovisual tem sucesso quando é eficaz a provocar o gozo.

O gozo pode vir da história interessante ou do elenco carismático, do conhecimento de uma realidade nova ou duma catarse poderosa, do prazer estético provocado pela imagem ou da cadência dos diálogos. É um intangível, uma equação e um mistério que se resolve artisticamente (mesmo em obras feitas para o "grande público") e que depende do acerto de múltiplos olhares.

Vai do olhar de quem faz o casting ao de quem maquia os atores. Do de quem desenha a produção ao do motorista que um dia andou um bocado mais depressa só para a diária não atrasar. Do de quem inventou uma forma de escrever um mundo ao de quem decide como montar um enquadramento.

As coisas vão-se encaixando e, às vezes, encaixam com o público. Rabo de Peixe encaixou com o público da Netflix. Uma história de crime interessante, inspirada em fatos reais curiosos, com um elenco bonito e empático, num cenário belo e cruel que combina com o tema aspiracional.

Teve sorte de não ter rivalizado na mesma semana com uma grande estreia na plataforma? Talvez, mas, como se diz por aí, sorte é o encontro da preparação com a oportunidade. É uma obra que conseguiu provocar o gozo dos seus espectadores. Bravo!

Uma vez, vi uma palestra do António-Pedro Vasconcelos em que ele contou uma história muito curiosa (repetiu-a numa entrevista ao Jorge Leitão Ramos): quando estava em pré-produção para o Aqui d'El Rei!, obra de grande orçamento para a época, o Paulo Rocha disse que era preciso impedi-lo porque esse filme destruiria «o equilíbrio ecológico do cinema português». Às vezes, quando leio o que se escreve sobre quem fez algo bem e com proveito, penso se o mundo não andará é cheio de ecologistas.

Os anos do fermento

Durante as quarentenas da pandemia, fui daqueles que tentaram aprender a fazer pão, mas não consegui fazer crescer nenhum fermento. Não sabia do que estava atrás, não entendia os tempos e ritmos da coisa e 99,9% dos pães saíram-me solados.

Mas as tentativas frustradas aguçaram-me o jeito para mexer na farinha. Aprendi a fazer massa para pizzas, calzones, tortillas, empanadas. Fiz-me amigo do fermento seco, muito mais rápido e menos caprichoso do que o natural. Há uns meses, comecei a fazer uma receita de pão turco e percebi como a massa era versátil. Adaptei-a para farinha integral e, desde então, quase não comemos pão aqui em casa que não seja feito por mim.

Porém, os levains falhados sempre me tinham ficado na memória. Uma daquelas chatices no fundo da mente, a rirem-se e a dizerem "ahah, não conseguiste". Então, este mês, com os dias mais quentes, voltei à carga.

Na primeira tentativa, armei-me em esperto. Encontrei uma receita famosa de levain que pedia suco de abacaxi, mas não me apeteceu ir comprar um e substituí-o por mel. Resultado: não funcionou. Uma semana depois, o fermento não mostrava atividade nenhuma.

Continuava a não ter vontade de ir atrás de um abacaxi, então procurei uma nova receita. Encontrei a da Marina Leão, que começa a cultura com maçã fermentada e usa relativamente pouca farinha ao longo do processo.

Experimentei. Depois de deixar a maçã cortada em água durante uma semana, juntei o líquido à farinha e comecei a espera. Nos primeiros dias, as bactérias frescas que sobraram da fruta mexeram-se bem, mas a memória dos falhanços anteriores levou-me a introduzir uma variação no processo: em vez de depender de um único fermento, aproveitei o que seria o descarte de um dia para criar uma segunda cultura. As duas ficavam cobertas com um pano e fechadas na panela de ferro durante a noite. No dia seguinte, descartava a cultura que tivesse subido menos, dividia a mais poderosa em duas e assim por diante. Em suma, fiz a seleção natural trabalhar por mim.

Mesmo assim, uma semana depois, pareceu-me que o fermento subia bem menos do que deveria. Dobrar de tamanho, então, nem vê-lo. Ontem de manhã, as culturas estavam tristemente como as tinha deixado na noite anterior.

"Mais um fracasso. Tudo bem, ano que vem experimento de novo. Vou deixar isto aqui e logo à noite deito fora".

Não sei se foi porque as bactérias ainda estavam a batalhar pela supremacia ou porque o frio inesperado deste Carnaval as atrapalhou, mas, quando abri de novo a panela de ferro à noite, os dois fermentos tinham subido até sujar o pano que os cobria. Não conseguia acreditar.

Seria só um estertor desesperado antes da morte? Para ter certeza, de novo dividi o fermento que parecia mais robusto, alimentei-o e fechei-o na panela. Hoje de manhã, estava alto, borbulhante, em formato de teia. Enfim, um levain.

Não sei ainda se vou conseguir sacar um pão bom disto. Prevejo muitos erros e acertos até conseguir acertar a receita. De qualquer forma, a lição que fica é clara: tudo se aprende e todos somos capazes de fazer qualquer coisa. Pode demorar alguns anos, mas tempo há sempre; a paciência é que não pode faltar.

Tempo, narrativa e Sex and The City

Só agora assisti And Just Like That, a continuação de Sex and The City de final de 2021. Curiosamente, enquanto a via, dei por mim a pensar no tempo. Explico-me.

O tempo, em si mesmo, não existe fora da invenção humana. Falo dos relojoeiros do século XVI, dos assírios sexagesimais mas, principalmente, falo da nossa capacidade enquanto espécie para produzir os conceitos de antes, agora e depois. 

Antes dos relógios e dos calendários, antes de definirmos o segundo como «a duração de 9 192 631 770 períodos da radiação correspondente à transição entre os dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133», o que nós tínhamos, e temos, é a narrativa. "Isto aconteceu a tal pessoa, ela reagiu assim e tudo acabou assado": antes, durante e depois.  Ao articular eventos numa sequência temporal, criamos aquilo a que Ricœur chamava "tempo humano".

Ricœur também dizia que, «em compensação, a narrativa é significativa na medida em que esboça os traços da experiência temporal». Eu vou fazer uma leitura enviesada desta frase e propor que retiremos dela não só que as histórias criam o seu próprio tempo (o narrativo), mas também algo mais prosaico: que elas enformam o modo como vivemos o tempo que vivemos.

Antes do nosso primeiro beijo, quantos vimos na televisão e no cinema? Antes de perdermos alguém pela primeira vez, quantas vezes já tínhamos ensaiado mentalmente a experiência de perda, de Bambi a ET passando pela Capucinho Vermelho? 

No seu "Story", o Robert McKee cita Kenneth Burke para nos dizer que as histórias são «equipamento para viver». Isso encaixa com a etimologia de "narrativa": do sânscrito “gnâ” até aos latinos “narro” e “gnarus”, a palavra carrega consigo o "conhecer" e o "saber". De livros, filmes e séries até um cochicho ouvido de um colega de trabalho, histórias são pequenas lições que nos dizem "vive isto desta maneira". Aristóteles dizia que as pessoas “gostam de ver as imagens porque, olhando-as, têm oportunidade de aprender e de raciocinar sobre cada um dos elementos”. As histórias servem como uma espécie de vacina emocional e intelectual, que nos permite experimentar situações antes de as vivermos e refletir sobre como nos devemos comportar se e quando elas acontecerem. 

Os manuais de escrita para audiovisual seguiram a tendência da nova "Golden Age of Television" e disseram-nos que a narrativa televisiva não fica atrás da cinematográfica. Talvez por isso esta particularidade não costuma ser abordada neles, mas acho que, em termos daquilo que ela tem a oferecer ao público, a série de televisão possui uma aptidão particular. 

Como se prolonga no tempo, a série enreda-se na nossa vida. A sua contemporaneidade pode sugerir-nos como viver o cotidiano ao mesmo tempo que se enrosca nele. Está mais próxima do cochicho do colega de trabalho do que da epopeia, e este lado prosaico não é menos importante por sê-lo. Sex and The City podia não ter a importância ou a ambição de Romeu e Julieta, mas o que é mais provável nesta vida: que uma pessoa não goste do rabo do namorado novo ou que viva um amor trágico que leva ao suicídio?

Em "Homens Difíceis", um dos melhores livros que se escreveu sobre a televisão do século XXI, Brett Martin não tem grandes elogios para Sex and the City, mas até ele reconhece que as personagens da série «conversavam mais abertamente, sem dúvida sobre coisas do corpo, mas também sobre seus desejos e insatisfações fora do quarto, do que as mulheres jamais tinham falado na TV até então».

Essa, parece-me, é a razão por que Sex and The City foi melhor série do que alguma vez foi filme. O cinema pede que as suas afirmações sejam definitivas. Mesmo que um filme tenha um final em aberto, os significados que ele implica devem ficar claros para o espectador. Porém, é bem possível que o tema principal de Sex and The City seja precisamente a conversa. 

Da Lisístrata de Aristófanes até ao mais recente filme de Sarah Polley, Women Talking, 2500 anos de representações mostram-nos que o simples encontro de mulheres para conversar pode ser um ato profundamente subversivo. Consideremos que, quando Sex and the City estreou em 1998, ainda não passara um século desde a conquista do direito ao voto pelas sufragistas dos EUA. Para ocupar um lugar relevante na cultura popular, Sex and the City não precisou mais do que mostrar um grupo de amigas solteiras e independentes compartilhando a sua experiência afetiva e sexual na cidade contemporânea. Até as futilidades - os vestidos, os restaurantes, os cosmopolitans - eram as futilidades delas

Mas essa conversa precisava do tempo do cotidiano - o tempo da série - para se afirmar. Sem ele, os filmes acabaram focando nas histórias de amor, principalmente na de Carrie com Big. Não há nada de intrinsecamente mau em comédias românticas, mas, no cinema, Sex and the City perdeu força; virou menos Monólogos da Vagina e mais Cinderela. 

And Just Like That parece ter entendido que isso aconteceu e talvez por isso a comunicação seja um dos seus assuntos principais. Podcasts, ligações perdidas, amigas distantes, "como eu devo dizer isto para o meu marido?", "a minha filha não quer conversar comigo". As personagens principais chegaram à meia-idade e descobrem novas formas de conversar umas com as outras. Enquanto isso, a experiência feminina do tempo urbano volta a ganhar destaque em relação às histórias de amor. 

É injusto louvar a passagem dos anos no Boyhood do Linklater e não fazer o mesmo com And Just Like That. Seria ainda mais injusto não reconhecer que esta continuação reaproxima a história de Carrie e suas amigas do que ela nunca deveria ter deixado de ser: equipamento para a vida.

CINEMEMÓRIAS #2: El Secreto De Sus Ojos

São Paulo, 2010.

Terá sido o primeiro filme argentino que vi no cinema? É bem possível, mas não é por isso que ele está aqui. Aliás, não o achei assim tão memorável (exceção feita ao plano-sequência do estádio, claro; também não sou maluco). Mas lembro bem de quando o vi. Estava sozinho e era uma sessão bem tardia, quase de meia noite, bem do jeito que gosto. Desci a Augusta, comprei o bilhete, tomei um expresso num cafezinho bem agradável com quadros do Fellini e, quando já estava quase na hora, subi uma escada apertada até uma sala bem escura e pequenina. 

O filme não foi memorável, mas a sessão sim. Aquele lugar, àquela hora, estava cheio do mistério que o cinema às vezes tem. Há muita diversão à noite, muitos convites e possibilidades. Quem vai ao cinema à meia-noite renuncia. O público não se fala, mas sabe-se cúmplice e igual. Toda a gente ali era bicho de filme, uma mariposa hipnotizada por uma luz que brilha no escuro. É nesses momentos que o cinema nos dá a sua transcendência. Uma missa laica que se parece com os nossos sonhos.

El Secreto De Sus Ojos foi o primeiro filme que vi no Anexo do Itaú da Augusta, que acabou de fechar para dar lugar a um empreendimento imobiliário, provavelmente mais um prédio igual a todos os que têm pipocado por esta cidade, com muitas áreas comuns e muitos apartamentos de 35 a 45m². 

Depois dos 40 anos, já não tenho grandes pretensões em virar um magnata, mas, se virasse, sei o que faria: compraria empreendimentos imobiliários e transformá-los-ia em cinemas.

CINEMEMÓRIAS #1: Rain Man

Vila Praia de Âncora, 1989

— Não sei se vamos conseguir.
Eu e a minha mãe estávamos na varandinha da casa que alugamos naquele verão. O cineteatro dos bombeiros era alguns números mais à frente, e a fila para a bilheteria saía pela porta. Nunca vira isso nas poucas vezes que fora ao cinema.
— Vamos tentar. Queria muito ver o Rain Man, mas só tenho 8 anos. Não me vão deixar entrar sozinho.
Eu ainda não sabia do que a minha mãe falava: da pequena tragédia de uma sala vender todos os bilhetes e não conseguirmos entrar. Como assim, não conseguirmos entrar? No máximo, sentamo-nos no chão, não? 
A minha mãe sorriu.
— Vamos lá. 
Descemos a rua e enfrentamos a fila durante o que me pareceu horas (devem ter sido 30 minutos). Era lenta, mas andava.  
— Talvez nos safemos, disse a minha mãe.
O vidro da bilheteira estava cada vez mais próximo. Não havia mais sessões: era aquela ou esperar o filme passar na televisão. Para uma criança de 8 anos em Monção, ir ao clube de vídeo não era muito prático. Nem lembro se a minha pequena terra o tinha na época; se sim, também nada garantia que o filme estivesse lá.
A nossa vez finalmente chegou, e tudo parecia bem. "Ganhamos", pensei. Mas, antes que a minha mãe conseguisse pedir os bilhetes, o funcionário pendurou um letreiro no vidro: LOTAÇÃO ESGOTADA. 
Não era justo. Tanta gente lá dentro que certamente não queria ver o filme tanto quanto eu: por que eles podiam entrar e eu não? Naquela noite, eu criança aprendi algo sobre como o mundo funciona.
Anos depois, o filme passou na televisão e, desde então, vi-o muitas vezes.
Na última, já adulto, veio-me um pensamento: "será que eu vejo tantos filmes porque estou sempre tentando entrar no Rain Man?".
O certo é que nunca mais esqueci aquele maldito letreiro.

A minha lista dos melhores de 2022

Este ano, decidi fazer isto de forma um pouco diferente: o critério que escolhi foi «quais filmes e séries deste ano não me saem da cabeça e por quê?». Aviso que sou liberal em relação às datas: se eu vi este ano e estrearam em algum lugar este ano (mesmo que não em estreia mundial), entram.

15. COMPETENCIA OFICIAL e THE OFFER
O primeiro é uma comédia ácida sobre o processo de construção de um filme por dois atores egocêntricos e uma diretora caprichosa. O segundo é uma série que conta a história da produção de "The Godfather". 
À sua maneira, ambos mostram na perfeição as alegrias, tristezas e loucuras do trabalho no audiovisual.

14. SWAN SONG e BRIAN AND CHARLES
Duas comédias melancólicas sobre solidão. "Swan Song" é a celebração merecida do grandioso Udo Kier no papel de um cabeleireiro e ex "drag queen" idoso. A cena em que, de um banco de jardim, ele contempla um casal de homens passeando com os seus filhos e diz «eu não saberia mais como ser gay» é inesquecível. 
"Brian and Charles" é um "mockumentary" sobre um homem na Inglaterra rural que constrói um robô para o ajudar nas tarefas de casa e acaba por mudar a sua vida além do que esperava. Muito gervaisiano e muito bonito.

13. WHITE LOTUS, TEMPORADA 2
Coloco-a aqui principalmente por causa de Jennifer Coolidge. Ela já tinha relançado a carreira com a primeira temporada, mas os episódios deste ano mostraram o seu brilhantismo, até porque, pareceu-me, a sua personagem Tanya não estava tão bem escrita quanto em 2021. Coolidge poderia ter interpretado Tanya como simplesmente mais uma mulher rica e fútil, mas ela consegue transformar a futilidade e a apatia na ponta visível de um gigantesco iceberg emocional, uma dor que passeia pelo mundo com vestidos caros e maquiagem pesada num rosto que às vezes parece a máscara clássica da Comédia e, no minuto seguinte, a da Tragédia. Não consegui cansar-me de vê-la.

12. RESURRECTION e BLONDE
Dois filmes que falam de violência contra mulheres de formas pouco óbvias. "Resurrection" retrata uma relação de dominação e submissão de uma forma que nunca vi em cinema, principalmente porque livre do folclore do "bondage" e outras ideias feitas sobre BDSM. 
"Blonde", mais do que um "biopic", é uma leitura da figura de Marilyn Monroe a partir do seu corpo: um corpo do qual a verdadeira Marilyn nunca poderia dispor porque, no imaginário popular e no mundo real, ele existia para ser violado.

11. ORANGES SANGUINES
Uma mistura de "Relatos Selvagens" com "Happiness". Uma comédia tão ácida que só lhe falta espremer as suas personagens para o nosso bel-prazer. 

10. BARDO, FALSA CRÓNICA DE UNAS CUANTAS VERDADES
«Pretensioso» é uma crítica que se ouve muito por aí, por exemplo, quando um filme leva as suas aspirações artísticas muito longe. Eu não gosto dela, porque diz muito pouco. Exatamente a partir de que momento é que algo é pretensioso? De quem é a sensibilidade definitiva que diz se se foi longe demais ou não? "Bardo" poderia facilmente ser chamado de pretensioso. Porém, são muito raros os filmes que, sempre que um plano começa, deixam o espectador em pulgas para ver como vai acabar. Iñarritu rouba inspirações de Fellini aos Radiohead, e ainda bem que o fez: se este filme fosse uma praça, caberiam nele muito mais do que três culturas.

9. SEVERANCE
Uma temporada construída ao pormenor e com a precisão de um relógio até chegar a um episódio final que me fez sentir o coração bater dentro do peito. Ao ensinar sobre suspense na universidade, fale-se de Hitchcock, mas fale-se também de "Severance".

8. THE BANSHEES OF INISHERIN
Sou daqueles que acham que qualquer obra do Martin McDonagh deve ser celebrada. Esta, com pessoas a discutirem por insignificâncias e a recusarem conversar umas com as outras — tudo isso enquanto uma guerra está a acontecer — pareceu-me uma metáfora perfeita para uma época em que as formas de socializar e comunicar foram irremediavelmente afetadas pelos vícios das redes sociais.

7. THE SOUVENIR: PART II
Acho que é preciso ver esta segunda parte para entender bem o jogo de espelhos no díptico da diretora Joanna Hogg. Hogg faz um filme autobiográfico sobre uma diretora que faz um filme autobiográfico: um curta-metragem de fim de curso. Ora, este filme é uma adaptação do curta-metragem de fim de curso de Hogg, "Caprice", que foi protagonizado por Tilda Swinton, sua amiga há décadas. Na vida real, Swinton é mãe da atriz principal de "The Souvenir" e, por acaso, também interpreta a sua mãe ficcional (só que, no caso, esta seria a mãe de Hogg). Ou seja, mais do que um filme que expõe uma cronologia, Hogg trouxe a sua vida para dentro do seu cinema, ligando os dois inextricavelmente. 

6. YOU WON’T BE ALONE
É o melhor filme de terror que vi esse ano e, ao mesmo tempo, é uma pena dizer isso, porque vai afastar muita gente que rejeita o gênero. Esta história de uma moça que se torna bruxa contra a sua vontade fala sobre identidade de gênero, sororidade e crescimento de maneira muito sensível e bela. 

5. TRIANGLE OF SADNESS
Os filmes de Ruben Östlund não são apenas extremamente bem feitos: são também um desafio muito estimulante para o espectador. É divertido que um dos cineastas mais celebrados do cinema europeu atual seja também um dos seus maiores provocadores.

4. RIGET: EXODUS
Lars von Trier termina a sua série 25 anos depois do final suspenso da segunda temporada. Gosto muito dos projetos mais dinamarqueses do von Trier, porque parece-me que, sem a pressão dum público internacional, ele fica solto e mais disposto a arriscar. Se "Riget" sempre teve uma grande dose de autoironia, esta terceira temporada leva-a ao delírio. É absurda, inconstante, brincalhona, assustadora e o claro produto de um gênio que, na maturidade, parece tão inquieto e iconoclasta quanto sempre.

3. EVERYTHING EVERYWHERE ALL AT ONCE
Os Daniels são criadores audiovisuais inesperados e poderosos, capazes de nos fazerem rir enquanto olhamos para duas pedras e chorar com pessoas que têm dedos de salsicha. Com este filme, eles concorrem ao lugar de Fellini do nosso tempo, criando imagens que não só parecem sonhos como parecem querer ensinar-nos a sonhar.

2. SUNDOWN
Quem é este homem silencioso, este estrangeiro camusiano que parece perder-se da vida nas praias de Acapulco? Tim Roth é um portento neste filme que surpreende a cada volta. Levou-me a ver toda a obra de Michel Franco e tenho uma certeza: Haneke mexicano ou não, é dos melhores escritores de filmes da atualidade.

1. THE REHEARSAL
É normal que alguém se pergunte «quero contar esta história: qual o melhor formato e gênero para contá-la?». Normalmente, isso implica pensar em termos de comédia ou drama, filme ou série de televisão. Porém, para Nathan Fielder, "The Rehearsal" pareceu ter implicado algo assim: «para contar uma história sobre o meu encontro com a ideia de paternidade e a relevância das projeções de mim mesmo na amálgama de coisas que me fazem, o melhor é usar a própria materialidade do gênero do reality como instrumento narrativo».

O jogo com o simulacro já não existe, como em "Nathan For You", no sentido da subversão que revela o novo significado da verdade no mundo do ciclo noticioso de 24 horas e das mídias sociais. Aqui as simulações servem como ensaios de vida que acabam construindo uma viagem pessoal marcada pela autoperformatividade. E a subversão de Fielder é feita de outra forma. Primeiro, ele adota uma linguagem audiovisual popular — a do "reality" de confinamento — e resgata-a da ideia de concurso para se revelar a si mesmo enquanto personagem. Depois, ele prova que essa confusão entre realidade e ficção é o melhor caminho para contar a história da germinação da sua verdade pessoal. O "ensaio" é montado para externar uma ficção imaginada por Fielder para si mesmo e que, por isso mesmo, é tão ficção quanto realidade.

Enquanto contador de histórias, Fielder trabalha num nível narrativo diferente do normal e completamente inesperado neste contexto televisivo. É o nível em que reconhecemos o real na ficção (como naqueles momentos de um filme em que um ator não se contém e ri de uma piada) e a ficção no real (como a estrutura ficcional construída sobre o mundo por uma teoria da conspiração). Por isso, discutir se o que vemos em "The Rehearsal" é verdade ou mentira não é tão interessante quanto perceber que Fielder reconfigura os gêneros até nos fazer questionar, não só os seus limites, mas o que realmente ideias como "ficção", "realidade", "verdade" e "mentira" significam no audiovisual. É por isso que o coloco no topo da minha lista de 2022.

A rede dos desastres

Lembro-me de ter lido há anos que a Web é feita de nostalgia e imagens de gatos. Esses seriam os dois significantes principais dela, as duas coisas em que pensaríamos quando pensamos nela. Acho que o autor do texto não mencionava a pornografia, certamente porque não queria correr o risco de não ser levado a sério. Poderia também ter falado das teorias da conspiração, que andam por aqui desde os fóruns dedicados aos X-Files e ao "The Shining". 

Anos depois, as redes sociais da Web 2.0, que cresceram paralelamente à ascensão da direita autoritária pelo mundo, adicionaram à mistura a intolerância e o radicalismo. Não que eles já não andassem por aqui, mas talvez não fossem uma componente imprescindível de uma vivência on-line. Hoje, porém, qualquer pessoa se lembra da primeira vez que ensaiou uma palavra de indignação sobre Bolsonaro, ou Trump, ou Orban, ou André Ventura, e foi alvo de comentários indignados e raivosos de parentes ou conhecidos que, até então, considerava pessoas razoáveis. 

As redes sociais foram movimentadas por desastres. No 11 de Setembro de 2001, o dia em que nenhuma imagem na televisão parecia confiável, os blogueiros foram como radioamadores que descreviam com veracidade o que acontecia no Ground Zero. O Twitter foi o principal instrumento de comunicação, interna e externa, durante a Primavera Árabe. Depois que a evolução dos celulares permitiu que qualquer pessoa andasse com uma câmera viável no bolso, o Instagram e o Youtube tornaram-se canais privilegiados de denúncia de brutalidade policial. Até o Facebook tem uma ferramenta que nos permite dizer às nossas relações se estamos seguros de alguma calamidade que tenha acontecido na nossa área. 

O último desastre que movimentou as redes sociais aconteceu na noite da última quinta-feira, 17 de Novembro. Felizmente, ninguém morreu, mas várias pessoas perderam o trabalho depois de o novo dono do Twitter, Elon Musk, fazer um ultimato aos seus engenheiros após uma primeira onda de demissões: «preparem-se para serem trabalhadores "extremely hardcore" ou saiam». Tanta gente preferiu sair que a rede aparentemente ficou presa por fios. Por todo o mundo, os utilizadores tiveram medo de perderem seguidores e seguidos e foram atrás de alternativas. 

Como um martelo ou um telefone, as redes sociais são um produto tecnológico. O seu sucesso deriva da eficácia com quem conseguem facilitar ou substituir uma função da nossa vida. O Facebook, na sua raiz, procura ser um espaço para encontros de amigos. O Instagram é a versão on-line de "mostrar as fotos de viagem". O LinkedIn serve como currículo profissional e o Twitter é um "ao vivo" permanente, divulgando notícias e temas da atualidade em tempo real. 

O Twitter nunca teve o tamanho do gigante Facebook, mas o número de jornalistas, académicos e fazedores de opinião nele presentes fizeram dele um espaço mais incisivo. Aquilo que aparece no Twitter aparece nos jornais e na televisão. Por isso ele é tão importante para políticos, e por isso ele é um campo de batalha ideológico, onde qualquer opinião é amplificada, discutida e ressignificada frequentemente além da proporção que se intencionava. Se as redes sociais são praças públicas, o Twitter é a nossa ágora.

Até ao momento em que escrevo estas linhas, as trapalhadas de Elon Musk não derrubaram o Twitter. Se um utilizador mais distraído entrasse hoje na rede, acharia que nada tinha mudado. Mas os tuiteiros não são particularmente distraídos — e a hashtag #RIPTwitter continua alta para prová-lo. A noite de quinta-feira foi determinante para impor a dúvida sobre a capacidade do Twitter de continuar a informar, entreter e, no fundo, manter a sua importância no discurso público. O efeito foi mais grave do que o de um chilique do mercado que derruba a Bolsa após as declarações de um político: é como se o próprio contrato social que sustentava a rede tivesse sido quebrado.

Nos dias seguintes, vários artistas, jornalistas e influenciadores brasileiros jogaram pelo seguro e criaram contas no Koo, uma rede indiana que emula a de Musk. Levaram com eles milhares de seguidores. De um dia para o outro, o Brasil tornou-se o segundo país com mais utilizadores no Koo depois da Índia. Trocadilhos com o nome inundaram a Internet. 

Porém, nota-se também uma prudência: como alguns dias não chegam para reconstruir no Koo o número de seguidores que anos de Twitter juntaram, ninguém parece ter efetivamente trocado de rede, postando em simultâneo nas duas (o mesmo conteúdo ou não). A memória do Clubhouse, a rede social de áudio que foi febre em 2021 e abandonada pouco depois, ainda está presente na mente de muita gente.

De qualquer modo, o que esta "Grande Migração" está a mostrar é uma dispersão dos tuiteiros, que deixa a dúvida sobre qual será o próximo espaço privilegiado de discussão pública. Enquanto muitos abriram conta no Koo, vários simplesmente remeteram para as suas contas já existentes em outras redes, como o Facebook ou o Instagram. Outros ainda preferiram abrir conta no Mastodon, uma alternativa open-source menos ruidosa, comprometida contra o discurso de ódio e organizada em servidores moderados por pessoas físicas. 

O Mastodon foi a alternativa que eu escolhi (https://mastodon.social/@nande). Fi-lo ainda antes do 17 de Novembro, por várias razões. Nos meus quinze anos de redes sociais, aprendi como é fácil tornarmo-nos um produto vendido para anunciantes que nos disparam com publicidade a todos os momentos, e eu não estava com muita paciência para ser gado de outro algoritmo. Depois, alguns amigos abriram conta lá, criando um ambiente muito parecido com os meus primeiros tempos de Facebook, com poucas conexões, mas muito relevantes. Por fim, parece uma rede mais cordial e equilibrada, que não precisa da discórdia e do chauvinismo para sobreviver. Quando faço login no Mastodon, sinto uma sanidade que o Twitter teve que abandonar para se tornar grande e movimentado (como fica, de resto, demonstrado pela última jogada de Musk para responder à ameaça de abandono: a ressuscitação da conta de Donald Trump).

Por enquanto, entrar no Mastodon é como estar numa mesa de café com pessoas de temperamentos afins: essa é a função que ele ocupa tecnologicamente. Pelo seu design e pela sua comunidade reduzida, ele não serve (ainda?) para substituir o Twitter enquanto provedor de informação em tempo real. O Koo também não, concentrado que está na Índia e agora no Brasil. 

De qualquer forma, estas convulsões dão a sensação que os tempos de discórdia e tumulto social e político que alimentaram e foram alimentados pelas redes sociais da Web 2.0 podem estar a chegar ao fim. Porém, só saberemos em definitivo quais serão os novos protagonistas on-line quando vier o próximo grande desastre.

Os filmes de Kevin Smith

Depois de alguns meses, terminei hoje os longas do Kevin Smith pré Clerks III. Já conhecia metade, mas agora acabei por assistir tudo na ordem de estreia. Havendo uma palavra que caracteriza cada cineasta, se não na temática que aborda, pelo menos na forma como a sua obra é recepcionada pelo público, a de Kevin Smith é "simpatia". Os seus filmes são filmes de encontro e reencontro: de personagens, de lugares e, principalmente, de amigos. 

Ocasionalmente ele teve azar. Jersey Girl é um filme muito bonito sobre paternidade que só não foi um êxito por causa do fim da primeira encarnação da Bennifer. Zack and Miri Make a Porno, que ele fez para aproveitar a onda dos filmes de Judd Apatow, acabou como uma comédia demasiado "blue-collar" e independente para ter o sucesso que ele queria. 

Muito frequentemente ele também é mal-entendido. Chasing Amy é um "stoner movie" irónico, que discute e desconstrói o machismo da classe média branca dos "stoner movies" da viragem do século e, ao fazê-lo, cria uma das personagens femininas mais incríveis que se viu numa comédia. Dogma, que foi tão atacado por cristãos fundamentalistas, é apenas uma exegese da iconografia religiosa feita por uma mente que cresceu com a cultura popular do século XX. 

De qualquer forma, o mais bonito na obra de Kevin Smith é perceber como, ao longo do tempo, ele tanto constrói a sua vida no cinema quanto o cinema com a sua vida. Em Clerks, ele era um jovem que estourou o limite de vários cartões de crédito para fazer um filme independente com os amigos. Em Jay and Silent Bob Reboot, 25 anos depois, os amigos continuam, mas agora já trazem as esposas e os filhos. Ver estes filmes é como ir a um bar para encontrar gente engraçada com quem podemos falar bobagem, mas que também vai amadurecendo ao longo do tempo. São filmes que nos fazem sentir bem, e isso é tão raro. Bravo, Sr. Smith, e obrigado.

JLG, 1930-2022

Ver Godard exige uma disponibilidade específica da mente e do espírito, sem a qual pode acontecer como a mim aconteceu, quando, após uma noite pouco dormida em Coimbra, arrisquei o Prénom Carmen no TAGV e descobri que as sessões das 19h são aquelas em que estou mais susceptível a cair num belo e clandestino soninho. 

Isso não quer dizer que assistir os seus filmes exija necessariamente um grande esforço intelectual. Ver um filme, qualquer um, no fundo não é um ato muito intelectual: sentamo-nos, imagens passam, vemo-las e pronto. Podemos apreciar Le Mépris como quem contempla postais da Riviera e a Brigitte Bardot. 

O problema é que Godard implica-nos na posição de espectador, exercício pouco e cada vez menos praticado. Vemos os seus filmes e percebemos que cada um deles é um pensamento construído sobre política e estética, sobre linguagem e cultura e o próprio cinema (porque, quando Godard começou, já havia cinema suficiente para garantir que a sua obra fosse principalmente sobre ele). O propósito não será tanto entender os filmes imediatamente quanto deixar a mente atenta, mas solta, e depois pensar "o que vi?". 

Por que mostrar-nos esta imagem, e não aquela? Por que esta frase, e não outra? Por que este final em vez daquele? Quando ele escolhe falar sobre isto, ele fala sobre o quê? Godard não nos dá duas horas de diversão, mas dá-nos tudo o que vem depois: uma reflexão que nos constrói e forma enquanto espectadores. 

Por outro lado o cinema é uma história.

O racismo em Portugal e no Brasil

Neste fim de semana, viralizou o vídeo de Giovanna Ewbank revidando contra uma mulher num restaurante na Costa da Caparica, em Portugal. A mulher chamou os filhos negros da atriz e uma família angolana que lá estava de "pretos imundos" e disse-lhes que voltassem para África. O presidente português Marcelo Rebelo de Sousa chegou a pronunciar-se hoje sobre o caso.

Além das condenações óbvias, eu não gosto de falar sobre racismo porque considero que na maior parte das vezes não é o meu lugar de fala e eu não tenho o que acrescentar. 

Mas, neste caso, eu, português que mora no Brasil, acho que tenho, porque ele toca muito claramente em algo que me é notório: uma diferença silenciosa do racismo em cada país e como este revela as iniquidades próprias de cada lugar.

Tenho uma noção muito forte do racismo brasileiro como sendo principalmente classista. Ele traduz uma visão do país dividido em espaços de pertencimento. A favela e o asfalto do Rio de Janeiro. O quarto de empregada dentro da casa dos patrões, a mesma empregada que tem que preparar uma comida para si diferente da que prepara para eles. O shopping aonde os adolescentes negros não podem ir, porque eles têm de ir ao shopping "deles". 

É como se o racista brasileiro tolerasse um negro perto dele, mas não na sua classe. O negro pode trabalhar para o branco rico, mas será mantido num lugar de pobreza relativa em relação a ele. É um racismo que revela um conservadorismo econômico radicado nos espaços definidos pela escravidão.

Parece-me que em Portugal o racismo não é construído tanto em cima dessa aporofobia, mas da xenofobia. Para o racista português, a pele negra é o símbolo acabado do estrangeiro. Mesmo quando a pessoa já mora no país há muito tempo, mesmo quando nasceu em Portugal e nunca conheceu outro lugar, não importa: a pele negra cataloga-a como alguém que não é dali.

O racista português importa-se menos com a classe econômica do negro e mais com ele estar perto, pisar o mesmo chão. O racista português não diz "volta lá pra tua quebrada", ele diz "volta pra tua terra, volta pra África". O espaço de pertencimento e exclusão é todo o país. Ou seja, se no Brasil o outro é sempre pobre, em Portugal o outro é sempre estrangeiro.

E eu não acho que isto venha tão diretamente da escravidão, mas vem sim da colonização africana e da condição de Portugal enquanto metrópole, de ter sido um país que enriquecia à custa dos invisíveis que estavam longe e que nunca resolveu completamente, primeiro, a perda dessas colônias e, segundo, o fato de esses invisíveis terem começado a aparecer como imigrantes. As mesmas pessoas que deixaram de enriquecer o país, de repente, entravam no país para "tomar os seus empregos".


Uma vez, eu conversei sobre isto com uma amiga, portuguesa, negra, e ela encolheu os ombros e disse "que importa?". Realmente, que importa? Se alguém é atacado em Portugal por causa da cor da pele, que lhe importa se é porque ela é símbolo de classe social ou de ser estrangeiro? E, se uma pessoa é excluída num processo seletivo no Brasil por ser negra, ir pra casa sem o emprego é um "vai pra tua terra" do mesmo jeito.

Ainda assim, eu acho importante falar sobre isto, porque pressinto que talvez o racismo não seja a doença, mas o sintoma que revela a doença, cultural e social, que cada país deve tratar. 

No Brasil, ela tem a ver com desigualdade e mobilidade econômica. Em Portugal, ela tem a ver com a fobia ao estrangeiro e ao diferente.

Se os brasileiros começarem a pôr em causa e a atacar a exclusividade da condição econômica dos mais abastados, talvez alguma coisa mude. Se os portugueses forem acostumados a ver o seu país como um espaço aberto ao outro, talvez alguma coisa mude.

Enquanto não mudar, a minha amiga tem toda a razão: não importa.

Sonho

Tenho reparado que às vezes os meus sonhos vêm em série, com episódios mais ou menos contínuos.

Hoje consegui lembrar um desses sonhos depois de acordar. A série passa-se num festival de cinema. Como é normal nestas coisas, o protagonista sou eu. 

Uma das contrapartidas para eu estar no festival era gravar vídeos com os convidados. Enquanto gravava uma conversa muito interessante com uma idosa e veneranda cineasta, a câmara enguiçou. Deixei que a cineasta terminasse a resposta, agradeci e fui ver se estava tudo bem. Percebi então que todas as gravações que fizera durante o festival tinham sido apagadas do cartão de memória, e ainda tinha a terrível impressão de que não copiara nenhum material para o computador. Perdera tudo.

Sentei-me estarrecido na primeira fila. O filme era uma animação; os desenhos eram em 2D e estilo realista, mas com um efeito gráfico que deixava a imagem ligeiramente desfocada, como o mundo visto por um astigmático sem óculos. No filme, um grupo de personagens aparentemente sem conexão entre si enchia a tela. Elas falavam todas ao mesmo tempo, como uma calçada na cidade momentaneamente ocupada por monologuistas. Seria impossível distinguir as frases individuais no meio do burburinho, mas cada personagem tinha uma legenda na altura do peito com a sua fala. Achei uma solução engenhosa.

O incómodo das gravações perdidas não me deixava tranquilo. Por um segundo, esqueci-me completamente que estava num lugar fechado e acendi um cigarro. Só percebi o erro depois de dois tragos. Apaguei o cigarro no encosto de braço e coloquei a bituca na mochila. Tentei concentrar-me no filme, mas a história não fazia sentido e eu não estava com cabeça para o encontrar. Então, o pessoal do festival começou a abrir as grandes janelas que ocupavam toda a parede lateral da sala. Estranho. Nunca vi isto acontecer num cinema.... Ah! É por causa do fumo do meu cigarro. A noite lá fora não incomodava a projeção, mas não consegui mais prestar atenção ao filme, só à espera que alguém viesse para me expulsar do festival. 

Se estivesse acordado, tinha-me ido embora.

(foto: Radio City Music Hall, New York, 1978, de Hiroshi Sugimoto)

Fui ao ato da CUT e vi o Lula

Já era tarde. O discurso do Lula chegava ao fim quando pisei no fundo da praça Charles Miller, no mesmo lugar onde às vezes me sentara para comer o pastel da Maria na feira do Pacaembu. Quando foi a última vez que o comi? Nem me lembro mais. Certamente antes da pandemia, esse antes e depois elástico que todos entendemos.

Algumas pessoas, também membras do clube de retardatários, apressavam-se para a praça para conseguirem ouvir as últimas frases de Lula. Os jornais disseram que falou sobre reforma trabalhista, sobre os polícias, sobre Bolsonaro. É o que se esperava. Não foi um discurso como os das primeiras greves do ABC que afrontaram a ditadura, nem como o que fez em São Bernardo do Campo antes de ir para a prisão em Brasília e se transformar, de político preso, em preso político. Mas um discurso do Lula continua a ser o discurso duma das maiores personalidades do século XXI, e as pessoas correm para ouvi-lo. Porém, desta vez os retardatários não tiveram sorte: Lula despediu-se e saiu do palco.


Os Francisco, el Hombre iam começar a tocar dali a pouco. Fui tirando umas fotografias enquanto subia a praça. Sorrisos, camisetas vermelhas, bandeiras sindicais. A minha mãe foi sindicalista a minha vida inteira: eu sei quem são estas pessoas, e gosto delas. Também gosto dos Francisco, el Hombre. Pensei em esperar um pouco e ver o show. Sempre daria para abanar o quadril habituado demais à posição sentada.




Reparei então que, do lado direito, algumas dezenas de pessoas esperavam encostadas numa grade. Havia uma abertura entre os tapumes que protegiam os bastidores, logo abaixo da escada de acesso ao palco. Lula estava no topo da escada e acenou para a multidão, que lhe respondeu com entusiasmo. Não consegui tirar a câmara a tempo, mas as pessoas continuaram por ali. Gritavam "Lula, guerreiro do povo brasileiro" com os punhos cerrados e esperavam para vê-lo de perto.



Seria uma daquelas alucinações coletivas a que às vezes as multidões se entregam? Sabe-se que é fácil o engano de alguns tornar-se a ilusão de muitos. Porém, ninguém arredava pé, mesmo enquanto os Francisco, el Hombre tocavam as primeiras músicas. Um homem de cabelo grisalho aproximou-se e perguntou-me se o Lula iria sair por ali. Respondi que, pelo menos, todo mundo esperava que sim. Ele falou «não, ele já saiu! Foi por trás. Tem segurança, aqui é muita gente, não vai sair, não». Encolhi os ombros, sem saber o que dizer perante tanta certeza, mas questionei as palavras do grisalho quando, uns minutos depois, percebi que até ele se juntara à multidão. 

Enquanto nada acontecia, tirei umas fotos em volta. Ambulantes vendendo comida, pessoas dançando, jovens paquerando. Cadê o ódio, cadê a polarização? Lamento, aqui não havia nada disso. As pessoas da praça são todos nós. Têm a marca de quem perdeu algo não faz muito tempo; agora só querem dançar um pouco e seguir em frente.




De repente, noto um burburinho na grade. Lula finalmente se preparava para encontrar a multidão. Coloquei a lente automática na câmara e corri para lá. Ele ficou na minha frente, abraçando as pessoas e segurando as suas mãos. Uma mulher chorava enquanto o abraçava. Toda a gente ergueu o celular com uma mão e estendeu a outra, procurando o toque deste homem. Confesso que também estendi a minha. Enquanto o Suplicy observava e o Stuckert fotografava, Lula passou por toda a extensão da grade, conversou o que conseguiu e depois foi-se embora. 



É indiferente se se concorda politicamente com ele ou não. A presença de Lula parece inspirar as pessoas a quererem ser melhores do que são. A sua resiliência e a sua história levam o povo a reunir-se à sua volta, e o Brasil, esgotado depois de anos de divisões internas, precisa de pessoas que o façam reencontrar-se consigo mesmo.

Arrumei a câmara e vi um pouco do show do Francisco, el Hombre. Continuam tão incríveis quanto eram na primeira vez que os vi, bem antes de serem conhecidos. Depois, subi a escada de pedra que me levaria ao caminho de casa através de paradas de ônibus com bandeiras do PT e bares carregados com a fauna de Higienópolis. A escada estava identificada como a "saída de emergência".

União Latina?

Acho grandiosa esta visão de Lula da América Latina como um bloco autônomo de poder, para a qual o Brasil poderá estar como a Alemanha está para a UE. O contraste com a subserviência de Bolsonaro aos EUA não pode ser maior. 
É por isso também que a cobrança ao PT sobre a Venezuela sempre me pareceu sensacionalista. Não hostilizar a Venezuela hoje pode significar o Brasil liderando uma das maiores uniões econômicas amanhã — e, se a entrada nessa união implicar o cumprimento de critérios como os de Copenhaga, esta pode ser a saída para a redemocratização do país fora do quadro estadunidense e para a América do Sul acabar definitivamente com a condição de quintal do hemisfério norte.

25 de abris

25 de abris, meus países, ou fechais
os meus democratas, que elegem fascistas
disparam salvas coloridas, matam seus pretos
cravo no ar, pistola no check in
discursos e salões nobres, cifrões secretos, indultos
carnais vais, em fome chegais
livres como um elon, não
faias queimadas pagando a inflação
e vendo a rua do arsenal no jacarezinho
e as migalhas de flores na avenida noturna
e o dia, final sujo, em pedaços
e os gritos de socorro 
às margens ácidas

A guerra simples

Só esta noite, a Rússia comunicou que um dos negociadores de paz ucranianos foi executado por traição (o governo de Kiev nega) e que a Ucrânia planeia arrebentar um reator nuclear em Kharkov para depois culpar os russos. Verdade, jogo duplo, jogo triplo?

Vibramos com a bravura dos soldados ucranianos assassinados após dizerem "vá-se foder" ao navio russo que exigia a sua rendição. Dias depois, vimos as imagens deles a chegarem, rendidos, a Sebastopol. Putin diz que não faz uma guerra e, ao mesmo tempo, destrói cidades inteiras, áreas residenciais, hospitais pediátricos.

O que é verdade, mentira, simples confusão ou desinformação deliberada?

Um clichê que corre por aí de novo: na guerra, a primeira vítima é a verdade. 

Este combate é na Ucrânia, nas mesas da diplomacia e nas redes sociais. Há dias, gente ucraniana que procurava o amor percebeu que a invasão vinha aí quando começou a receber likes de soldados russos no Tinder. Hoje, o TikTok entra na onda de sanções e limitou o acesso da Rússia ao seu app. Zelensky, um ator, compreende o poder das imagens e usa-o a seu favor. Putin, outro ator, envia mensagens gravadas para o mundo como se fossem em direto e esmaga os seus próprios jornalistas.

Outro clichê que se ouve por aí: quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado. 

O batalhão Azov, que a Rússia diz estar por trás do suposto plano de explodir um reator nuclear, é nacionalista, reconhecidamente neonazi. Foi integrado na Guarda Nacional ucraniana em 2014 e combate os separatistas em Donbass desde então. Ouvimos que guardas fronteiriços discriminam os emigrantes negros que tentam fugir. Enquanto isso, as Patrulhas do Povo, um grupo de extrema-direita anti-imigrantes, manifesta-se em Belgrado a favor de Putin, que há anos prende e assassina adversários, músicos e jornalistas.

Quem controla o presente?

As culpas parecem baratas quando se começa a escavar a História. Não é por acaso que o Estado Islâmico era obcecado com o acordo Sykes–Picot de 1916. Podemos apontar a responsabilidade pessoal imediata de quem deu a ordem que começou esta guerra. Talvez devamos. Mas também devemos saber que o primeiro dedo apontado vai levantar outro, e outro, e outro, e assim os dedos se levantarão até se perderem na escuridão do tempo e já não sobrar ninguém para quem apontar. 

No futuro, as armas que a OTAN deu para a Ucrânia se defender ficarão com o batalhão Azov? As sanções vão levar à ascensão da oposição democrática na Rússia ou o regime vai fechar-se ainda mais? A guerra vai levar a uma nova ascensão dos nacionalismos em toda a Europa, destruindo lentamente a União Europeia, ou, pelo contrário, vai levar a que ela se fortaleça?

Quem controlará o passado? Quem controlará o futuro?

O certo é que vemos os mortos e os refugiados e pensamos em nós, porque esta gente é parecida conosco. Hoje é segunda-feira: vamos trabalhar, cuidar da nossa vida. Pensamos se, daqui a uma curta semana, também teremos que encher uma mochila e caminhar até à fronteira.

Leio por aí muitas ironias com quem diz "é complexo". As ironias tanto erram quanto acertam. Não é que a situação seja simples por causa das causas históricas ou pelos enredos da política internacional. É simples porque, como diz o provérbio português, quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão. 

E, claro, nós somos o mexilhão.

Quatro séries

Depois de vê-la ganhar o Oscar com The Favourite e dos belos papéis em The Father e The Lost Daughter, é fácil esquecer que Olivia Colman foi e é uma grande atriz de comédia e uma grande atriz de televisão. Tenho visto várias séries com ela e não me canso de admirar o domínio que esta mulher tem do pormenor, do gesto ou esgar sutil que constrói e revela completamente uma personagem. 
Então, se ainda não viram Peep Show, façam-no. Se então descobrirem que a comédia inglesa do início dos anos 2000 vos agrada, partam para Look Around You, uma série que parodia os programas educacionais da BBC dos anos 80. A primeira temporada, de 2002, é desconcertante e viciante, a segunda (2005) entra a fundo pelo "nonsense" e tem um elenco surpreendente, com pessoas como Edgar Wright e Simon Pegg a fazerem "cameos".

Quem também apareceu brevemente em Look Around You foi Ed Sinclair, o marido de Colman e autor de Landscapers (2021), uma minissérie brilhante que a todo momento escancara os mecanismos ficcionais que a sustentam, ocupando um território fascinante de experimentação e de liberdade de linguagem. Aqui Colman já foi produtora executiva, e eu sou capaz de apostar que foi ela quem chamou o jovem diretor Will Sharpe, que ano passado ainda arranjou tempo para fazer The Electrical Life of Louis Wain e mostrou o seu domínio da representação da doença mental e da ternura familiar com arrojo visual. 

Em 2015, Sharpe já tinha dirigido Colman em Flowers, série criada por ele e cuja primeira temporada acabei de acabar: uma viagem impressionante que começa cheia de humor ácido, parecendo satirizar as suas personagens, e termina como uma elegia enternecedora do amor entre pais e filhos. 

Se ainda estiverem a ler e conseguirem encaixar uma recomendação que não tem nada a ver com a Olivia Colman, vejam Reservation Dogs (2021), uma série criada pelo Taika Waititi sobre jovens que vivem numa reserva indígena nos EUA. Além de ser uma lição de diversidade e representação — os atores, diretores e autores são quase todos indígenas —, é uma história incrível sobre a adolescência enquanto idade de grandiosos planos e frustrações.