DARK (s03, 2020)

Ainda não vi a última temporada de Dark por inteiro. Porém, há um pensamento que me tem inquietado durante estes novos episódios. No género da viagem no tempo, há, digamos, um eixo de complexidade. Quando é baixo, consiste em simplesmente definir um conjunto de regras básicas e apostar na narrativa, à Back From The Future (ou à Bill & Ted). Quando é alto, a ciência e os paradoxos temporais acabam por dominar a história, à Primer. Eu sei que viagens no tempo que apostam na complexidade alta são boas para gerar "fandom", mas sempre me parece que elas correm um risco grande de entrar em contradição: por um lado, elas têm que formular uma hipótese racional sobre como a viagem no tempo poderá funcionar e, por outro, precisam manter a ambiguidade narrativa, acabando assim por colocar um espectador perante um resultado que parece tão aleatório como seria aquele em que a ciência não estivesse presente. Ao longo das suas temporadas, eu diria que Dark foi subindo nesse eixo, complexificando o seu universo num jogo de duplos e espelhos com ressonâncias místicas e religiosas, e multiplicando as suas personagens em diferentes encarnações históricas. Nestes novos episódios, parece-me várias vezes que é demais: há tempos demais, pessoas demais, enredos demais, e, em vez de as regras deste universo nos serem explicadas pouco a pouco, parece que novas regras são constantemente inventadas para lidar com a montanha de possibilidades que se levantou. Isto parece-me muito prejudicial para aquilo que é uma das principais qualidades da série: o tom e ambiente admiráveis, com um suspense de cortar à faca. Se tudo é possível, nada é fatal, e a tensão não será então mais do que um elaborado joguinho de luz e som.

Após terminar: foi um final muito bonito para uma série extremamente truqueira.
.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente aqui...