O MEU TOP 11 DE 2020

Estas são as produções audiovisuais de 2020 de que mais gostei. Não distingo entre séries e cinema, porque, caramba, é 2020, não 1990. Ficaram de fora dois grandes filmes — Portrait De La Jeune Fille en Feu e Martin Eden — porque as primeiras estreias nacionais foram no ano passado e aqui trabalhamos com rigor. 

É da HBO e empata com Tales From The Loop na categoria "série tão triste que nos faz ansiar por um raiozinho de sol de vez em quando". A entrega de Mark Ruffalo para interpretar dois gémeos é notória, até fisicamente: depois de ele gravar todas as suas cenas enquanto Dominick, a produção parou seis semanas para que ele pudesse engordar 15 quilos e então regravar todas as cenas enquanto Thomas. Porém, não é um puro exercício de comiseração ou de virtuosismo, mas uma história poderosa e melodramática sobre descoberta e autodeterminação com personagens com tantos defeitos e qualidades que evitam julgamentos morais chatos. 

10. Druk 
É um filme centrado no conceito da perda em mais do que um sentido: é a perda de quem chega à meia idade sem perspectivas, mas também a do próprio realizador Thomas Vinterberg, cuja filha morreu num acidente no início da gravação. Isso tudo parece resultar em personagens e numa obra em estado de vertigem, que, na maior parte do tempo, parece arrastar-nos com ela numa queda livre sem que saibamos onde e quando vamos cair. A ambiguidade do seu final é marcante e talvez seja mesmo inevitável. 

Homecoming tinha um problema grande a resolver na segunda temporada: como continuar uma história que parecia fechada sem fazer muitas concessões ao género antológico? Os autores Eli Horowitz e Micah Bloomberg entenderam certeiramente que o elemento central da série é a consciência e o conflito entre o mundo e a nossa percepção, e resolveram a equação de forma brilhante.

Já quase tudo foi dito sobre esta série da Netflix, então, não vou ser repetitivo. Só vou reparar que, após 62 milhões de pessoas a terem visto, as vendas de tabuleiros de xadrez triplicaram, desmentindo qualquer argumento possível sobre o fim da influência da ficção. 

Uma das características de Michaela Coel como atriz que mais me agrada é a forma como ela dá corpo às personagens. É um corpo às vezes forte, outras frágil, às vezes agitado, às vezes destruído, mas sempre presente, nunca se escondendo por trás das palavras. Isso permanece no seu trabalho como autora: Chewing Gum era uma comédia sobre uma jovem evangélica que não conseguia perder a virgindade, I May Destroy You é uma análise pungente sobre o abuso que a própria Coel sofreu. O corpo intocado tornou-se corpo roubado, e a autora não perdoa ninguém — nem ela própria — nesta série que parece ser sobre consentimento, mas acaba por ser sobre o próprio ato de narrar.

6. Ramy
2020 continuou um bom ano para o género "melancómico", com as segundas temporadas de After Life e de Kidding a proporcionarem grandes momentos de televisão. No mesmo tom, Ramy destacou-se por aprofundar o que já parecia impossível em 2019: criar uma comédia romântica através da perspectiva da crise de identidade e do encontro com o sagrado. As personagens e o elenco maravilhosos só ajudam.

Comecei a ver esta série de pé atrás. Nunca fui o maior fã do Luca Guadagnino e acho que ele tem a tendência para resvalar para o pretensioso. Porém, meses depois, há cenas e momentos de We Are Who We Are que ainda me vêm à memória. Por isso, dou o braço a torcer e me retrato do que escrevi sobre ela na época: Guadagnino pode não ter ido ao encontro das convenções televisivas, mas isso acabou por ser o seu maior trunfo. O ritmo, tom e organização narrativa pouco comuns fazem desta série um objeto híbrido, entre cinema e televisão, muito especial e que merece ser visto. 

É uma série discreta e breve, como um sopro. Conduz-nos, não ao longo de uma história ou de um evento, mas de um pensamento, que é desenvolvido de forma hesitante, porém honesta, como se fosse uma conversa com o espectador. Como em qualquer conversa, o que ouvimos nem sempre corresponde ao que vemos, e isso é precioso aqui: as coisas são reveladas lentamente e, no fim, depende de cada um dizer o que viu em How To With John Wilson.

3. Mank
Para explicar porque Mank é tão bom, só consigo fazer uma comparação com a música: da mesma forma que o instrumento de um maestro é a sua orquestra, o instrumento de David Fincher aqui foi toda a história do Cinema americano, e a distribuição de um objeto tão extemporâneo na Netflix também faz parte dessa equação. Um filme cheio de fantasmas (incluindo o falecido pai do realizador, que escreveu o guião) e que constantemente questiona o lugar do passado no presente e no futuro. 

Não gostar de Charlie Kaufman é um direito individual e inegável. A obra do autor americano acontece muito marcadamente dentro do seu espaço mental, e não se pode obrigar um espectador a gostar da sensação de estar dentro da cabeça de outra pessoa. A questão é que não é preciso gostar das idiossincrasias de Kaufman para apreciar a monumentalidade deste filme e a forma musical e fantástica como aborda as suas personagens e mundo. 

Small Axe é uma série de cinco filmes realizados por Steve McQueen para a BBC e a Amazon Prime sobre a comunidade afrocaribenha de Londres nos anos 60 a 80. O formato híbrido já seria suficiente para o considerar um marco de 2020, mas isso não leva em conta a absoluta vitória artística que ele representa. Cada episódio de Small Axe parece espelhar uma dimensão da obra de McQueen, desde a luta contra o Estado até à importância da consciência individual, e parece estar a pedir para ser contado há décadas. Lovers Rock, o segundo filme, tem um enredo fino e não pretende mais do que mostrar como era uma festa acalorada num "sound system". Porém, cada gotícula de suor está carregada de história, tanto com minúscula quanto com maiúscula. As personagens pairam pelo ambiente, como em Chega de Saudade de Laís Bodanzky, e as suas pequenas intrigas vão brotando ao som da música até atingirem o clímax na sequência de "Silly Games", um momento audiovisual majestoso, sagrado, indispensável. Num ano com poucas razões para festejar e em que a doença parece pairar no ar, o melhor filme só poderia ser aquele que entende como uma festa respira. 

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