4 coisas sobre José Cardoso Pires, que hoje faria 87 anos


Verão de 2003. Estava a acabar o meu Interrail e lia O Delfim no comboio que me levaria a Coimbra. Era a edição de bolso, Alexandra Lencastre e Rogério Samora na capa e tudo. À minha volta, só gente a dormir. Estava absorto a ler aquilo, a admirar como três linhas temporais podem ser tão perfeitamente sobrepostas num monólogo interior. Uma miúda entrou no comboio com o namorado e procuraram os lugares deles. Entre um passo e outro, ela reparou na capa do livro. Sorriu. Também devia andar a correr a Europa há uns tempos. O livro lembrou-a de que a sua casa estava próxima.

Há 6 anos, pouco depois de me ter mudado para Lisboa. Passeando no Rossio à noite, alguém me diz que a estátua de D. Pedro IV não é dele, mas de um imperador mexicano. "Foi o Cardoso Pires que falou, no Lisboa Livro de Bordo".

Abril de 2011, British Bar do Cais do Sodré, durante umas semanas fora de São Paulo. Eu sabia que o Cardoso Pires ia lá (até porque têm um retrato dele na parede). Só não sabia que a minha mesa preferida - a que fica entre as duas portas - era a mesa preferida dele. Enquanto o empregado explicava isso a um freguês curioso e apontava para mim, eu estava a escrever no meu caderno. O retrato do escritor na minha frente, como que me olhando.

Na minha adolescência, lendo a Balada da Praia dos Cães, achando o livro chato, escuro, muito português-como-de-costume. Mas houve um momento que nunca mais me saiu da cabeça: a cena de masturbação do inspetor Elias. A minha mente era jovem e qualquer coisa sexual era sinónimo de alegria e expansão. Prazer e angústia não poderiam ser simultâneos. Desde então, podem.

Guns N' Roses


Luís Vaz de Camões
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está morta a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor, coa doce vida.

Fernando Pessoa
Rosa verde, rosa verde...
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.

Gertrude Stein
Rose is a rose is a rose is a rose.

e.e. cummings
the rose
is dying the
lips of an old man murder

the petals

William Carlos Williams
The rose carried weight of love
but love is at an end--of roses

Carlos Drummond de Andrade
Aproveitem. A última
rosa desfolha-se.

Los Hermanos
toda rosa é rosa porque assim ela é chamada

Nelson Ned
httpv://www.youtube.com/watch?v=S8xod_Gw1to

Quem é o Leãozinho?




A discussão foi algo como: "O Leãozinho do Caetano Veloso era o filho dele". Eu: "Acho que era um músico". "Não, era o filho", "Tenho certeza que era um músico", "Bem, o filho dele é músico", "Não era o filho!", "Era sim!", e por aí fora. Isto já foi há uns dias, eu sou mais chato do que eu próprio posso aguentar, por isso...

Do livro do próprio Caetano, "Verdade Tropical":
"O leãozinho" é uma canção de ternura por um rapaz bonito do signo de Leão que toca contrabaixo em bandas de rock'n'roll desde menino - e que era menino quando os Beatles estavam no auge.

E do livro "Sobre as letras":
Para quem achava que a canção foi feita para uma mulher, Caetano conta que foi para o contrabaixista Dadi, amigo que ele adora. "Ele é lindo e, nessa época ele era novinho, era lindíssimo. Ele é de Leão, assim como eu".

Portanto: o Leãozinho é um músico!

Um gajo, emigrante e tudo, a pensar a crise


1. Lembro-me de o Sócrates dizer algo como não querer o FMI em Portugal e preferir fazer as coisas em estilo insider job, e o Passos Coelho insistir na campanha eleitoral "não, senhor, o que é isso, o FMI tem que entrar, sim, senhor, está tudo doido ou quê?". Passos Coelho ganhou as eleições, Portugal foi, mais uma vez, o bom aluno e fez o que lhe mandaram. Mas agora, depois de o próprio FMI meter o rabinho entre as pernas e vir dizer que afinal talvez se tenha enganado no que pediu, Passos Coelho proclama que o que está a dar em soluções de crise é retirar carga fiscal às empresas e passá-la para a já sobrecarregada classe média. O Sócrates não teria feito melhor, mas também é verdade que o gajo gastou uma porrada de dinheiro para salvar o banco cavaquista. Então, a culpa é do Sócrates ou dos cavaquistas? Talvez seja dos pais do Cavaco, sem cuja conceção não haveria cavaquismo e, como tal, BPN. Ou talvez seja dos pais dos senhores da troika, mas cheira-me que será melhor não os incomodar, porque eles devem andar mais preocupados com os filhos a serem roubados nos elétricos de Lisboa. E agora, o que fazemos?

2. Abro o site do Público e leio: "Seguro abre a porta ao chumbo do próximo Orçamento do Estado". Noticiazinha relacionada: "PSD responde a Seguro: 'Qual é a alternativa?'". Noticiazona seguinte: "Hollande garante imposto extra para ricos: Presidente francês garantiu que os vencimentos acima de um milhão de euros serão taxados a 75% sem excepções". Parece que há aqui algo óbvio que alguém não quer ler. E agora, o que fazemos?

3. Entretanto, a Islândia saiu sozinha da crise. E eu sei que é uma economia muito menor, e que as causas da queda lá não foram semelhantes às da portuguesa, e blablablá, mas, foda-se, um país inteiro foi à bancarrota de um dia para o outro, pôs os responsáveis no banco dos réus, reescreveu a Constituição com participação de representantes comunitários e - pasme-se - discussão pública (no Facebook) dos artigos em revisão e pôs-se de pé outra vez, sem pedir ajuda a ninguém, em menos de 4 anos. E agora, o que fazemos?

4. Portugal não tem uma moeda própria que possa desvalorizar para estimular as exportações. O que tivermos que fazer, será dentro da União Europeia. E eu curto a Europa e tudo, mas já estou um pouco farto deste machado permanente sobre as cabeças das pessoas: "ai, meu deus, e se a Grécia sair da moeda única, ai, meu deus, e se nós sairmos da moeda única?". Se sairmos da moeda única, saímos, foda-se. Nós entramos na CEE há 26 anos, e 26 anos são só uma porra de uma migalha de tempo. Eu vivi 6 anos antes dessa Europa toda e não me lembro de as pessoas andarem pelos cantos a morrer de fome. Mas, se é para tentarmos todas as soluções, porque é que não somos mais proativos e, em vez de andarmos a choramingar e a estender a mão, propomos um regime temporário de incentivos fiscais a empresas europeias que façam negócio com as da Grécia, Portugal e Espanha - incentivos ainda maiores se forem feitos entre empresas desses mesmos 3 países? E vocês perguntam: o que sabes tu de economia para dizer estas coisas? Eu respondo: nada, mas parece que os senhores que diz que sabem também não lhe mandam muito jeito para a coisa. E agora, o que fazemos?

O melhor vídeo de gatos que alguma vez verão

Se o Boing Boing diz que algo é a melhor coisa da Internet, é preciso atenção, porque o Boing Boing sabe tudo sobre a Internet. Eu não sei se Henri 2, Paw de Deux é uma sátira dos vídeos de gatos ou dos filmes da Nova Vaga. Talvez seja dos dois. Seja lá o que for, pensando que "Internet" e "gatos" parecem andar de mãos (ou patas) dadas, é das coisas mais brilhantes que nela já apareceram.
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Q34z5dCmC4M?feature=player_embedded&w=420&h=315]

Pocotó pocotó pocotó


Então, um rapaz que cavalga chamado Marcelo Mendes investiu sobre manifestantes anti-tourada numa terrazita honrada e sem tradição de toureio.
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Zivm1tk-LFU?feature=player_embedded&w=420&h=315]

Digamos que o rapaz foi uma besta e a polícia, que não fez nada, foi besta ainda maior, bem maior do que o cavalo, que, no meio disto tudo, é o que me mete mais pena. Até lhe ouço os pensamentos: "porque estas pessoas me metem nestas confusões? Eu só queria estar sossegado a pastar e a dar beijos nas cavalas".

Mas digamos também que isto tudo é bem divertido (uma manifestante até veio da Holanda! da Holanda! só para ver a vergonha que está este país!). Muuuuuuito divertido. Agora anseio por alguém da comunidade lusófona que junte esta trilha sonora ao vídeo da notícia.


Adenda: estas alegações de Marcelo Mendes até podem ser todas verdadeiras, mas digamos que, se um cavalo me tivesse quase acabado de passar a ferro, eu também não seria muito simpático para o cavaleiro, né?

Todos os Cus

1972. Tom Zé faz o disco Todos os Olhos. A capa, numa afronta direta contra a censura da ditadura, destaca uma fotografia do que seria um cu com um berlinde enfiado lá dentro, simulando um olho, uma ideia que fora dada a Tom Zé pelo concretista Décio Pignatari.


Hoje. O bafafá é que Chico Andrade, então sócio do Décio Pignatari, postou no seu blog a seguinte foto como prova de que a capa era mesmo de um cu, e não de uma boca aludindo a um cu.


Mas agora olhem bem as duas imagens. Não há uma diferença óbvia entre as anatomias fotografadas? Afinal, qualquer pessoa com o mínimo de experiência do mundo sabe que boca e cu são bem diferentes. E isso não significa que a foto que Chico Andrade postou não seja original. Na verdade, só é um elemento a mais suportando a história já contada no site Substantivo Plural pela jornalista Phydia de Athayde:
No quartinho mal-arrumado do motel, Vera, empolgada, deita-se de costas na lateral da cama. No chão, as bolinhas de gude. Reinaldo posiciona os abajures na diagonal, de modo que a luz incida diretamente sobre o alvo. A lente é uma de 50 mm colocada no avesso para fazer a função de macro, e fica a apenas 20 centímetros do corpo da garota, já quase de cabeça para baixo.
Começam os problemas técnicos. A bolinha não pára. Cai, rola costas abaixo. Tentam-se novas posições. E mais outras. Nada da bolinha estacionar. (...)
A bizarra cena transformou-se em mal-estar. Quando beirava o insuportável, uma das bolinhas parou quieta. Reinaldo descarregou cliques. Consumiu todos os filmes. Testou velocidades, posições da luz, enfim. Fez-se de tudo, menos sexo. Deixaram para trás um quarto cheio de bolinhas pelo chão, sem coragem de se olhar nos olhos.
No dia seguinte, Reinaldo leva o resultado para a apreciação na agência:
- Foi uma atitude poética. Como foto, algumas ficaram ótimas. Mas, mesmo nas melhores, era evidente do que se tratava.
Décio e Marcão, o diretor de arte da agência, ficam desolados. Décio, então, pede nova tentativa ao assistente. E lá vai Reinaldo falar de novo com Vera sobre Tropicalismo… Desta vez, nada de motel. Vão à casa de uma amiga. E, antes que repetissem a luta contra a obviedade fisiológica, uma nova idéia.
Vera tem a boca grossa. Lábios cheios de carne bem rósea. Vale tentar. Ela topa. Prefere. Senta-se no chão com a cabeça jogada na cama e faz biquinho. Uma bolinha é colocada e dali não sai. Os lábios contraídos formam frisos que em muito se parecem com o que devem parecer. Uma única série de cliques basta para, finalmente, realizar a idéia de Pignatari.

Undone

[vimeo 9843182 w=500 h=281]
Já não sei se foi do Story ou das conferências, mas lembro-me de Robert McKee dizer algo como "não liguem se as pessoas dizem que não querem ver um filme triste porque, segundo elas, já têm problemas suficientes na vida real. Quem diz isso normalmente não tem problemas nenhuns e só lhe falta experiência de vida para saber lidar com esses sentimentos". É possível que tenha posto mais de mim do que do McKee na citação. Seja como for, aplica-se totalmente aqui. Undone é um filme pungente, inspirado no avô da diretora e a ser visto por qualquer pessoa que conheça a doença de Alzheimer de perto.
(via Brainpickings))

"Desafio da Beleza" - hoje, 20h, no GNT


Estreia hoje, daqui a uma hora, o meu primeiro crédito na televisão brasileira. É o reality show de maquiagem Desafio da Beleza. Não vou responder aqui ao que me tem perguntado várias vezes: "o que é que roteirista de reality faz?!". Pretendo escrever um artigo para a próxima revista da APAD falando sobre isso mesmo. Também não vou explicar aqui como é que se esfuma um côncavo (e, não, não vou escrever sobre isso para a revista da APAD - terão de ver o programa para descobrir). O que posso dizer é que, juntamente com os meus colegas Edson Fukuda e Fabio Farias, e com toda a equipa de produção da Moonshot, criamos um formato que, como a Folha de São Paulo diz num artigo de hoje, "brinca com o próprio estigma de reality shows". E isso resume bem o que se verá a partir de hoje. Cada episódio foi pensado com uma pequena surpresa, seja do formato narrativo ou do conteúdo, e o mais entusiasmante foi como todas as pessoas da equipa de produção "piraram" um pouquinho, sempre o necessário para fazer, mais do que um reality, um belíssimo programa de televisão. Estou muito contente com o resultado e espero que vocês também gostem.