It's just a restless feeling by my side

Fala-se de melancolia, mas perfeição é esta, a da ainda-manhã de domingo, com o lastro desarrumado da semana à minha volta e as pernas frias a sofrerem da preguiça do dono. Há dias escrevi algures a nota "começamos a entrar na idade em que as coisas se vão perdendo", mas não sei exactamente o que isso queria dizer. Isto, porém, nunca se perde: o silêncio, o prazer de um tipo se sentir solidamente consigo no meio de uma desarrumação reversível. A solidão, insuportável à noite, é apetitosa agora.

A meio, o fim

Quanto tempo demora até que tudo fique igual, ouço perguntar dentro da minha mente (o que não quer dizer, atenção, que a pergunta seja minha). De outro modo, poder-se-ia dizer que é precisamente por estes meados de Janeiro que se descobre que resoluções de ano novo valem ou caem por completo. Eu, por mim, fiz uma. Tem-se aguentado, com algum sacrifício. Se assim não fosse, o falhanço seria total. É o problema de se ser pelo fatalismo no mundo e achar que não há nada de muito sólido, ou que se desmanche no ar, ou que se chame poder transformador da mente. Quanto tempo demora até que tudo fique igual? Resposta rápida: nenhum.

O regresso

Entre viagens planeadas e viagens feitas, um tipo começa a perguntar qual é o sentido disto tudo, o que ajuda a compreender porque é que a assistência das igrejas é de faixa etária mais avançada. Aí ainda não cheguei, mas tenho de me sentar nalgum lado a esquecer-me da vida, por isso fui ao cinema comer pipocas. O Avatar do Cameron não é tão fascinante como o Avatar do Carnivale. O eyeware, ainda assim, é mais à maneira. Ainda me lembro de uma transmissão muito anunciada d'O Monstro da Lagoa Negra na televisão, aí para 1986. Até a TV Guia andara na distribuição de óculos de armações de cartolina com lentes de acetato vermelho e azul e depois não deu em nada, já não sei porquê. Ora, os do Avatar não só funcionam como são de armação de plástico de massa com lentes escurecidas. Durante aquelas horinhas, podemos fantasiar a gosto que somos o Woody Allen ou o Pinochet e optar por soprar no clarinete ou mandar entrar a caravana da morte. O problema é que o filme acaba, a Michelle Rodriguez não se dá bem e um tipo pergunta-se qual é o sentido daquilo tudo, o que implica outra viagem e, claro, um sítio diferente para se sentar.

Um clássico

Na casa natal, vi passar na televisão um Concerto de Ano Novo da Filarmónica de Viena. Chamou-me a atenção a valsa "Vinho, Mulheres e Canções", que não consigo de pensar como eufemismo de Strauss para se referir a huren und grüne wein na Viena novecentista. O meu avô é sempre o grande responsável por se deixar ficar no canal com música clássica e também descobri porquê: foi amigo do maestro Miguel de Oliveira, líder da banda musical durante vinte anos. Compôs De Cádiz a Tanger e teve um primo do meu avô na trompa. Este primo, curiosamente, chamava-se Fausto.

2010

Fui às compras para o fim-de-ano e não consegui deixar de pensar, ao ver os congelados com ar triste dentro da arca, nos lombos rubros do camarão-tigre que comi por uma ninharia no Clube Naval de Maputo há uns anos. Sou sincero, nesse momento pensei "nunca comi coisa igual". Também nunca tinha sentido na pele a coisa estranha que senti quando disse que não achava o Acordo Ortográfico maningue nice e um escritor moçambicano me respondeu que os portugueses gostam de se sentir donos da língua. Acordo Ortográfico que, por acaso, é tema de capa no Público de hoje e lá se diz que Moçambique não está a achar a cena maningue nice também, tanto que ainda não o ratificou. Quem o curte tótil é o Brasil, e o meu ano que vem vai passar muito por esse país. Por isso, bom 2010.

mensagem

Sempre que o fazes pões-te em causa. Não há como não acontecer. Se corre bem, vais conseguir fazê-lo para sempre. Serás adorado por isso, vão pedir-te que repitas uma e outra vez. Se correr mal, não vais saber repentinamente onde estás ou quem és. Vais pensar que vais sempre falhar e que não estás no caminho certo. Vais achar que precisas de reformular a vida toda, que algures pelo caminho baralhaste as prioridades e agora, quê?, agora não tens mais a fazer do que seguir em frente, aproveitar o balanço da onda e esperar que não pare de repente, que te continue a levar por terras que não conheces sem que tenhas de dar aos pés. E, de repente, um dia, pam!, caíste e vais ter de descobrir o melhor lugar para dar o primeiro passo, para te voltares a erguer, para olhares o céu, contar as estrelas e aprender tudo outra vez. É mesmo assim, alguém te vai dizer. E é mesmo.

Simiolitude

Precisamente no dia em que A Origem das Espécies fez 150 anos, no eléctrico vi ser lido um paper de título Genes e Ambiente: Um Modelo Evolutivo da Linguagem. E o mais extraordinário é que quem lia era um macaco.

Diz-me onde entroncas

Mais do que pelos legumes gigantes e avistamentos de ovnis, o Entroncamento fascina pelo nome. Não tem qualidade orográfica como Monsanto, religiosa como São Bento da Porta Aberta, política como Vila Real. Não tem nada a ver coma História dos Comportamentos, como Odivelas (onde o rei ia às putas - "ir de vê-las") ou Freixo de Espada à Cinta (terra do famoso esgrimista José Freixo). O Entroncamento tem nome por cruzar ferrovias. Podia chamar-se Ramal, Carril ou Pouso de Pica-Bilhetes. Só me lembro de um caso semelhante, um lugar pouco antes da estação de Ermesinde que se chama Travagem - e juro que não estou a inventar. Era giro que houvesse mais destas coisas por aí. Sítios com grande circulação automóvel podiam chamar-se Engarrafamento. Por esse país fora, espalhar-se-iam as vilas chamadas Rotunda. Poderíamos ter uma Lomba mesmo antes de um Semáforo. E porque não passarmos dos transportes para os afectos? Se em Alfama há um Largo das Pichas Murchas, o que impede que haja uma Praça do Desgosto? Uma Avenida do Matrimónio? Um Beco da Má Queca? Talvez isso ajudasse as gentes do Entroncamento a sacudir a sensação de que a terra deles é só o que nasceu à volta da linha de comboio. Afinal, à volta de qualquer coisa se fez tudo. Este texto também é só o que apareceu à volta duma conhecida crónica de um conhecido escritor. Daí o seu nome.

Uma mulher que vende o exclusivo do seu implante mamário a uma revista NÃO ESTÁ "a envelhecer bem"

Há pouco, no Chiado, vinha do jantar de aniversário da Susana e cruzei-me com um actor nocturno enquanto ia para o metro. O monólogo dele consistia em "A minha mãe dizia para eu mijar no penico. Eu perguntava 'qual penico?' e ela dizia 'o que tens debaixo da cama'." Quero acreditar que esta história tem algum significado profundo, como "debaixo de cada cama há o penico que a mãe deixou", mas, antes de aí chegar, quero lembrar aquele homem que, há dez anos, ainda eu andava de expresso no sobe-e-desce de Coimbra-Monção, vi na estação do Porto a mijar para um canto (com a casa de banho a 3 metros), a andar desorientado, a entrar no primeiro autocarro que viu e a cair no primeiro lugar que encontrou. Adormeceu profundamente, a respiração a fazer-lhe subir e descer a generosa farripa de cabelo que lhe caía sobre a testa. Então o autocarro arrancou e eu pensei, algo aflito, "aquele homem não vai ter bilhete! Vão acordá-lo, ele ainda vai estar bêbedo, não vai ter bilhete, vão expulsá-lo e ele vai morrer enregelado e bêbedo!". Não soube de mais nada, mas o que lhe aconteceu nunca vai ser tão interessante como o que lhe podia ter acontecido. E isto é tudo o que se pode dizer sobre a Maya.

A rima

Foi há umas semanas. Eu, a Ana, a Francisca e o António voltávamos para os carros depois do pequeno-almoço de Domingo em Campo de Ourique. Eles iam voltar para Coimbra, nós íamos voltar para a Estefânea. A Marilyne e a Diana ficaram-se pela Estrela, mas não é disso que quero falar. Eu quero falar de: ao voltarmos para os carros, vimos um homem estático à frente do Pingo Doce, olhando para um cão que estava amarrado a um poste pela trela. Este, gozado e sem lhe conseguir chegar com o focinho para arrancar uma boa dentada, rosnava-lhe naquele tom irritantemente almodovariano (i.e., desesperadamente à beira de um ataque de nervos) que só alguns cães conseguem fazer. O homem estava todo vestido de preto e depois disseram-nos que era "sacerdote". Pois bem, há dias, quando subia dos Anjos para a Estefânea, vi um homem ladrar. Não estou a mentir: um ser humano, na rua, ladrava a plenos pulmões como se fosse a sua primeira língua. Não tinha o rigor de vestuário do outro e não sei se havia um cão estático à frente dele. É possível que o homem estivesse amarrado a um poste por uma trela, até que essa fosse a sua forma particular de rezar. É possível. Neste mundo não se sabe nada e a noite, as vezes, é escura demais.

Ontem, hoje e amanhã

As horas estão a acabar a ouvir Gotta Serve Somebody do Dylan e a descobrir que o Lennon escreveu Serve Yourself em resposta. Sobre a mesa, tenho três livros de teatro, um copo e uma tigela, cada uma com a sua colher, muito papel e o dvd do filme do Paulo Vicente, que ele fez o favor de mo enviar. Ao meu lado, pendurado por dois pionaises no fundo do quadro de cortiça, está o poster do Taking Woodstock. Não sei muito bem porque o tenho, para além de ter sido grátis. Na outra parede, já fora do escritório, está a fotografia autografada do Bogosian. Disseram-me há semanas que eu lembrava ele, é mentira, eu gostei. Depois do McKee, achei que a minha vida precisava de um hambúrguer. Fui ao McDonald's de Roma, que por acaso fica ao lado do Londres, apanhei molha, mas comi o hambúrguer. O mobiliário está mudado, ninguém ao meu lado pediu o McRoyal Deluxe e ainda tenho de cortar as unhas contra o tempo. Amanhã vai chegar e quero unhas cortadas para não o magoar sem querer. Gotta serve somebody: serve yourself.

Conversa de Anas

Estou tão cansado que pondero cometer o acto vergonhoso de me deitar à meia-noite, mas antes quero partilhar o diálogo que clandestinamente cresceu na minha folha de papel durante a oficina de escrita de canções do mestre Gimba:
Aná-Fora e Ana Diplose encontram-se.

ANÁ-FORA
Ana quem?
Ana sou eu!

ANA DIPLOSE
Eu é que sou a Ana,
Ana, e mais ninguém.
Eu disse que estava cansado. Saudações.

O hipopótamo e a avestruz

Foi há dias, na hora do almoço, que a Popota apareceu a cantar Buraka. Na conversa que se seguiu, defendendo o grupo contra algo que já não interessa, disse que o kuduro, o funk carioca e o dancehall jamaicano não são assim tão diferentes, o que faz pensar que, muito provavelmente, quando se está "em vias de desenvolvimento" o desenvolvimento se faz pelo cu do povo, que, portanto, o tem de abanar sob risco de atrofia. Seja como for, a verdade é que, se este ano a Popota descobriu as ancas, a Leopoldina descobriu as mamas, o que não deixa de ser deprimente: a hipopótama pôs-se a dançar, mas a avestruz pôs silicone. Triste, muito triste.

No reino

Hoje subi e desci a Avenida (mentira, só subi). Tive de tratar de um assunto de trabalho e revelou-se a melhor opção para apanhar depois o autocarro. Por acaso, trabalho na área de entretenimento e, também por um natural e perspicaz acaso, o assunto tratou-se perto da Faculdade de Ciências Médicas, onde, a certas horas do dia, não se disfarça o cheiro acre que me entrou pela primeira vez nas narinas quando vi a autópsia de um homem que morrera atropelado e que fora desmontado e voltado a montar tantas vezes que, para o abrir, bastou puxar o fio que lhe unia o peito cortado ao meio. A vida, já se sabe, é uma merda: há por aí animais perdidos a chamar pelos filhotes mortos, há mães e pais sem censura a quem o acaso rouba as crianças para sempre. Por mais que subisse e descesse a avenida, o cheiro ficou-me entranhado outra vez. Se o quiserem reconhecer, pensem em algo proibido, cujo simples pressentimento vos faça mais próximos da perversão. No Reino de von Trier um anatomista compara o medo à intimidade com o medo aos mortos, talvez por isso mesmo: aquele cheiro diz para não estar perto dele a menos que queiramos que a morte nos invada. É um dos casos em que as narinas, e não os olhos, são a entrada para a alma.

O espectador duplo

Hoje, o actor disse na rádio que compreendera a raiz do seu novo espectáculo quando, encostado a uma parede observando, se compreendeu espectador de algo que não precisava dele para existir. A parede em causa era a de uma cozinha, onde "chefs" se ocupavam a ser "chefs". E eu pensei: quantos momentos parecidos temos na vida, daqueles em que os outros se nos colocam à frente como páginas de um livro? Bocejos numa paragem de metro. Um diário a ser escrito numa mesa de café. Gemidos numa sala de espera das urgências. Lágrimas num funeral. Pensei naquela vez em que subi uma montanha num dia claro. Tudo tão longe, tão inacessível, as dolorosas consequências do mundo não me alcançavam. Assim os Gregos pensavam a Comédia, como dizia Julian Gough: a perspectiva dos deuses, não a de quem também pode adoecer e morrer. Grande dilema: ver de longe, como um deus, ou de perto, como um homem. E, pensando bem, sempre encostado à parede.

Das Creative Commons ao Acesso Aberto

Se reparou na data deste post, não se preocupe: não sou um viajante no tempo, apenas editei a data para coincidir com o primeiro texto que escrevi sobre as licenças Creative Commons, criadas em 2002 por Lawrence Lessig, professor de Direito em Harvard.



Na época, escrevi a seguinte afirmação, que mantenho:
O sistema Creative Commons [é] interessante, porque ele dá um passo à frente naquilo que é a concepção do direito de autor: aqui, o direito serve menos para o autor se proteger do que para permitir que novo conhecimento possa ser livremente criado a partir das suas obras.
A enorme expansão de blogs que se vivia na época, e a consequente partilha de conteúdo por autores de todo o mundo, criou o “timing” perfeito para a popularização das licenças de Lessig. Com elas, os criadores podiam deixar explícitas as suas intenções para o material que partilhavam online e dar a entender ao público quais os usos que poderia dar a esse material.

Assim, Lessig não pretendia acabar com o direito de autor, mas apontar uma incongruência cruel: o direito de autor fora criado para proteger e beneficiar a comunidade criativa mas, a partir do momento em que as obras podem ser comodificadas, as empresas que adquirem os direitos da sua utilização atuam no sentido de protegerem o seu património, limitando a sua utilização e transformação e, portanto, a criação em geral.

O debate sobre o acesso aberto ao conhecimento passa por premissas bem semelhantes. A favor, temos vários argumentos:

  • Existe hoje uma apropriação corporativa e abusiva do conhecimento;
  • A população tem o direito de aceder à produção científica que é financiada, em grande parte, com dinheiro dos seus impostos;
  • O acesso aberto, rápido e generalizado ao conhecimento maximiza o seu impacto: quanto mais pessoas tiverem acesso a um trabalho académico, maior o seu potencial de repercussão, citação e influência;
  • Membros da academia – alunos, professores, pesquisadores em geral – poderão fazer trabalhos mais informados e relevantes;
  • Pessoas fora dos meios académicos com acesso ao mesmo conhecimento terão a possibilidade de aproveitar-se dele para ajudar as suas comunidades;
  • Novos tratamentos médicos podem expandir-se rapidamente, o número de descobertas simultâneas poderá aumentar e novas máquinas e tecnologias poderão ser implementadas.

Opor-se ao acesso aberto pode ter motivos bem razoáveis: o temor (financeiro e científico) de ser plagiado ou de submeter o seu trabalho a um escrutínio muito grande e eventualmente despreparado para dar críticas construtivas, além de uma certa (e não tão razoável) vaidade académica. Também é verdade que, quanto mais informação é disponibilizada, maior é a confusão: como nos guiarmos por essa Babel serpenteante e reconhecermos a informação mais relevante?

Porém, é precisamente neste espaço que a comunidade académica deve encontrar o seu lugar, servindo como filtro de validação através de mecanismos como o "peer review" ou recensões críticas, além de, claro, como a principal produtora de conhecimento. Como exemplo, diga-se apenas que foi graças à prevalência da ideia de acesso aberto que existe o software do telemóvel Android com que foram gravados os vídeos deste trabalho, o OpenOffice em que foi redigido este texto e a World Wide Web em que se publicou esse conteúdo. Afinal, como o próprio Tim Berners-Lee escreveu no primeiro website, o objetivo da World Wide Web é «to give universal access to a large universe of documents».

Se quiser ouvir um pouco mais sobre isso, é só clicar na imagem.