Memória do Zé Mário

Só vi um concerto dele. Foi em Coimbra, no TAGV. Era só ele e a viola, e foi incrível. Não sei se foi dos tempos no teatro, mas o Zé Mário não precisava de muita coisa para tocar os pontos com que se faz um espetáculo, como dizia o Tom Zé no Tropicalista Lenta Luta sobre ter aprendido a criar o espaço cénico observando os repentistas nas feiras.

A meio de uma música, o Zé Mário parou de tocar. Os trabalhadores de uma fábrica tinham sido demitidos em massa uns dias antes e ele pediu desculpas, disse que não conseguia tocar essa canção lembrando-se disso. "Não foi para isso que fizemos o 25 de Abril, pá".

Acho que foi um dos maiores portugueses que tivemos.

Multiple Maniacs (1970)


(tem spoilers, mas não sei se importa muito)
Multiple Maniacs, segundo longa de John Waters, começa com pessoas de classe média sendo atraídas para um "freak show", onde elas se horrorizam vendo emetófilos comendo o próprio vômito e homens se beijando apaixonadamente, até que Divine aparece, as prende numa rede e as rouba. Após ser estuprada por um casal de cheiradores de cola, Divine é levada até uma igreja pelo Menino Jesus de Praga. Lá, ela transa com uma mulher conhecida como A Puta Religiosa, que enfia um rosário no cu dela e a faz gozar enquanto Divine relembra as estações do Calvário de Cristo todas até à Crucificação. No final, Divine sai numa fúria assassina pelas ruas, mas antes ainda mata e estripa o seu namorado e esfaqueia até à morte a amante deste e também A Puta Religiosa, só para ser em seguida estuprada por uma lagosta gigante chamada Lobstora. Depois disso tudo, eu só consigo pensar: eu quero uma Divine no Brasil de 2019!

Parasita (2019)


Para mim, os filmes de Bong Joon-ho sempre vieram com um "mas". Gostei de O Hospedeiro (Gwomeul, 2006), mas não o achei tão renovador e surpreendente quanto a crítica cantou na época. Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013) pareceu-me interessante, mas meio disperso pelas suas cenas de ação. Okja (2017) era bonitinho, mas também muito ingênuo. Por isso, fiquei até um pouco surpreso quando vi Parasita ganhar a Palma de Ouro em Cannes e ser elogiado por vários amigos. Reconheço que, desta vez, não houve "mas".

Parasita é um portento e uma obra-prima de coerência estética que, durante duas horas, não se cansa de surpreender o espectador. Poucos filmes conseguem captar tão bem o espírito do seu tempo com uma linguagem que tem tanto de cristalina quanto de profunda. Os temas que trata colocam-no próximo de Us  ou de Coringa, mas Parasita consegue ir além nas proezas fílmicas que realiza e Bong Joon-ho consegue invocar um encantamento que só o Cinema, e mais nada, consegue e ainda nos deixa a pensar na vida e no mundo. Dificilmente um filme pode ser melhor do que isto.

Como eu, português, consegui a minha igualdade de direitos e deveres no Brasil

Decidi escrever este texto para partilhar a minha experiência com o pedido de igualdade de direitos e deveres no Brasil e, assim, ajudar os portugueses que possam ficar perdidos no meio do processo. Fiz tudo sozinho, sem recorrer a despachantes.

IMPORTANTE: esta foi a minha experiência, ou seja, a experiência de alguém que está em São Paulo, com acesso físico relativamente fácil ao Consulado ou ao Poupatempo. Outras cidades terão outros processos, e não saberei dizer quais serão. De qualquer forma, presumo que a sequência de documentos e atos burocráticos será a mesma, portanto, poderão no mínimo seguir estes passos como um guia.

Depois das eleições de 2018, decidi que queria ter o direito de votar, para poder escolher os representantes políticos que gastam os meus impostos. Portanto, decidi pedir a Igualdade de Direitos Civis e Não Privação de Direitos Políticos, uma espécie de "nacionalidade light" que portugueses podem pedir nos termos do Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta, celebrado em Porto Seguro em 22 de abril de 2000. É necessário que quem faz o pedido já tenha RNE (nome comum para o Registro Nacional de Estrangeiro, também chamado de CRNM ou CIE) e é bom que tenha também o CPF, para facilitar algumas fases do processo.

Este mecanismo não concede a nacionalidade. Os portugueses não se transformam em brasileiros (ou vice-versa, pois também conta para brasileiros emigrados em Portugal), mas são reconhecidos como iguais aos brasileiros, podendo, portanto, votar e ser eleitos ou concorrer a concursos públicos. A igualdade pareceu-me um processo mais simples do que a Naturalização e, apesar de ela implicar abdicar do direito de voto em Portugal enquanto vigorar, pareceu-me adequada às minhas pretensões.

O processo passou por burocracias em três lugares: o Consulado português; o Ministério da Justiça brasileiro (através do SEI); e o Poupatempo.

1. CONSULADO: Registo criminal e Certificados
O meu primeiro passo foi fazer o Registo Criminal português. O registo no site do Consulado é rápido e simples e as instruções estão bem detalhadas nesta página. O link para o requerimento está no fundo (e não se esqueça de indicar que a finalidade é o "Estatuto de Igualdade de Direitos"). Preço: R$ 70,03. Como a própria página explica, você vai então fazer um agendamento para ser atendido pessoalmente no Consulado, e já sairá de lá com o registo.

Parte-se então para o pedido dos documentos mais importantes de todo este processo: o Certificado de Nacionalidade Portuguesa e o Certificado de Não Privação de Direitos Políticos. O segundo é necessário se quiser a igualdade de direitos políticos também, ou seja, se quiser votar, candidatar-se a concursos públicos, bolsas, etc.

Para conseguir esses certificados, o Registo Criminal e os outros documentos mencionados nesta outra página devem ser enviados por Correio para o Consulado, incluindo o comprovante do pagamento de um boleto de R$ 237,85. Automaticamente, o Consulado emite também um Certificado de Inscrição Consular.

Após a recepção dos documentos, o Consulado emite os certificados e envia-os para a morada que indicarem. Tive um problema nesta fase do processo, pois aparentemente houve um problema no envio e a carta do Consulado extraviou-se. Sem saber se era suposto demorar muito ou pouco, só uns 5 meses depois é que procurei o Consulado para inquirir se a demora era normal. Foi então que descobri o extravio e que, na verdade, os documentos teriam ficado prontos em poucos dias. De qualquer forma, voltei ao Consulado e resolvi a questão pessoalmente.

Com os certificados em mãos, parti então para a parte brasileira do processo.

2. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA (SEI): reconhecimento da igualdade por portaria no DOU
O passo mais lógico aqui seria ir diretamente à Polícia Federal, mas não o fiz. Explico.

A PF tem no seu site a lista completa de documentos necessários para fazer o pedido de igualdade, e devem usar essa lista como referência, pois ela está completa. Porém, no link de "Agendamento", é pedido um "Código de Solicitação", que eu não tinha e não fazia ideia de onde conseguir.

Enquanto tentava entender o que me estava faltando, descobri a página do SEI (Sistema Eletrônico de Informações) do Ministério da Justiça e percebi que lá podia fazer todo o processo eletronicamente. É só fazer o cadastro e, depois, um "Peticionamento". O site do SEI é bem intuitivo e, sempre que o processo tem algum avanço, ele aparece na Lista de Andamentos, o que é ótimo.

Para esta fase, recomendo que tenham acesso a scanner e impressora (é necessário incluir no processo os documentos escaneados) e também que entrem com frequência só para ver se está tudo bem. Não esqueçam de incluir o formulário do pedido que estava no site da PF mesmo que ele não esteja listado como necessário: ele é necessário, tanto que me foi pedido no meio do processo.

Abri o peticionamento em Julho e ele foi concluído em Setembro, assim que foi publicada no Diário Oficial da União a portaria que reconheceu a minha Igualdade de Direitos. Todo o processo é gratuito; assim que a publicação da portaria no DOU aparecer no SEI, podem baixar um PDF na página oficial do DOU.

3. POUPATEMPO: RG e título de eleitor
Para fazer o RG e o título de eleitor, fui ao Poupatempo, o equivalente de São Paulo à portuguesa Loja do Cidadão. No seu Guia de Informações, é possível pesquisar os serviços específicos, descobrir os Poupatempos que os disponibilizam (às vezes, alguns indicam atraso, então vale a pena escolher outro), pegar a lista de documentos necessários (não 100% confiável, como lerão abaixo) e agendar o atendimento. Em cidades sem acesso a serviços como o Poupatempo, imagino que seja necessário recorrer separadamente aos serviços de Identificação Civil, para o RG, e do TRE para o título de eleitor.

Para cada um dos pedidos, recomendo fazer duas cópias de cada documento que se conseguiu até agora, mais dos que já se tinha (os Certificados emitidos pelo Consulado, a portaria do DOU, o RNE, etc), além de levar os originais. Assim, já vão prevenidos caso seja pedida alguma cópia inesperada.

O pedido do RG foi simples e é igual a fazer o Cartão do Cidadão em Portugal: entregam-se os documentos, faz-se um cadastro com uma funcionária e tira-se uma foto e as digitais. Dez dias depois, já estava pronto para retirar.

O título de eleitor não foi assim tão simples. O Guia do Poupatempo dava a entender que não seria necessário o RG definitivo, mas, no balcão de atendimento, indicaram-me que só poderiam fazer o título se eu o tivesse (a funcionária até telefonou para o TRE central, para confirmar a informação).

No dia em que fui retirar o RG, não consegui atendimento eleitoral, então, dois dias depois, fui em outro Poupatempo, mais próximo de casa. Quando me fizeram a triagem, o funcionário perguntou-me se tinha o documento do Alistamento Militar. Eu disse que não tinha, e ele disse-me que era necessário.

Ora, eu sabia que o Certificado Militar é necessário para brasileiros maiores de 18 anos que fazem a 1ª via do RG e eu também já lera sobre portugueses com igualdade que fizeram esse Certificado, mas sempre me perguntei porquê. Segundo o artigo 19º do Decreto que estabelece a igualdade entre portugueses e brasileiros, quem faz o pedido não pode prestar serviço militar no país onde reside. Além disso, esse documento também não é listado no Guia do Poupatempo para portugueses em situação de igualdade.

De qualquer forma, fui à Junta Militar mais próxima nessa mesma hora. Os senhores mais velhos que lá estavam não sabiam muito bem que tipo de documento me deveriam dar (o processo de igualdade não é muito conhecido) e deixaram-me claro que não havia nada que eu pudesse fazer ali ou eles por mim. Mostrei-lhes o tal art. 19º do Decreto e pedi para, pelo menos, me passarem uma declaração baseada nele dizendo que eu estou isento de apresentar o tal Certificado. Simpáticos, eles assim fizeram.

Voltei com essa declaração ao Poupatempo. Porém, quando o mostrei na triagem, disseram "ah, você é o português". Pediram-me então desculpas, pois tinham errado: realmente, parece que português com igualdade não precisa de apresentar Certificado Militar. Esperei alguns minutos e fiz o meu título, já com biometria e tudo!

* * * 
É um processo não muito longo e sem complicações de maior, que qualquer um pode fazer. De qualquer forma, espero que este texto sirva para ajudar alguém que esteja na mesma situação de semi-confusão em que eu já estive.

A Nova Política no Brasil e em Portugal

Hoje olhei a TV Alesp. No Dia do Professor, os deputados estaduais ocupavam-se a homenagear a classe. Douglas Garcia, o famoso gay transfóbico do PSL, tomou o palanque e começou calmo, dizendo que ontem tinha estado num debate na USP que decorrera tranquilamente exceto por uma briga no final, em que algumas pessoas supostamente terão atacado um sujeito que se declarava favorável à Escola sem Partido. O deputado então mostrou uma foto do atacado, despido e ferido, e exclamou "é isto que é preciso sofrer só por ser conservador?!". É curioso como a mesma pessoa que há alguns meses queria expulsar transsexuais à porrada de banheiros femininos ("vou tirar primeiro no tapa e depois chamar a polícia") subitamente se vitimiza tanto quando a sua retórica de violência se vira contra o seu lado ideológico. Porém, à medida que os dias passam, fica cada vez mais claro que essa é a característica principal desta Nova Política: implementar uma agenda odiosa não lhe parece tão importante quanto ganhar apoios e visibilidade investindo num registo de tabloide, mesa de botequim ou grupo revoltado de rede social. Tudo começa no presidente, claro está, ultimamente mais interessado em sequestrar os fundos partidários e eleitorais do seu partido e em colocar os parentes em cargos públicos do que em resolver o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste ou apresentar um projeto de reforma tributária ao Congresso. Na verdade, deixar a governação para o Congresso não deixa de ser uma conquista para o presidente e a sua facção. Governar não parece interessar-lhes tanto quanto quanto chegar à governação e aparelhar o sistema governativo, o que talvez seja bom, pois não parece que a sua capacidade de pensamento consiga ir além da satisfação da sua base. A grande corrupção dos desvios de fundos para os partidos deu lugar à pequena corrupção do nepotismo e proselitismo encoberta pela névoa de afirmações e decisões bombásticas e incompetentes. Portugal já está a experimentar isto, pois não parece pura coincidência que, após dar lugar a um deputado de extrema direita no Parlamento, tenha surgido uma petição pública online pelo impedimento da tomada de posse de uma deputada negra eleita com grande repercussão. Não duvido: como acontece no Brasil, este tipo de manobras sensacionalistas vai infetar o diálogo público nos próximos 4 anos no meu país natal e empobrecer a política e todos nós. Daqui a algumas décadas, olharemos para trás e chamaremos a estes anos os da Grande Estupidificação Geral.

Quatro notas sobre Coringa (Joker, 2019)


(contém spoilers)

É bem possível que Joaquin Phoenix seja a terceira pessoa a ganhar um Oscar por interpretar o Coringa e o primeiro a ganhá-lo enquanto Ator Principal. Ele conseguiu evitar a tentação para o cabotinismo que o papel implica e, ao mostrar a transformação de Arthur Fleck no criminoso psicopata, revelou nele uma espécie de beleza sórdida que fascina. Confesso que esperava que o filme fosse apenas um suporte para Phoenix, mas é muito mais. Sinceramente, achei-o um filmaço. Aqui estão as quatro notas que achei mais interessantes.

A reconstituição histórica
Joker começa com um antigo logo da Warner — o desenhado por Saul Bass, que foi usado pelo estúdio de 1972 a 1984.


Já então entramos num esforço de reconstituição histórica tão ou mais incrível pelo fato de estarmos num universo que só é real na medida em que é construído como referência do real. Ou seja, Gotham não existe de verdade — mas existe um pouco, porque Gotham é Nova Iorque. Um lugar imaginário foi construído a partir do imaginário que retivemos de uma época. Inteligentíssimo.

A Nova Hollywood
Joker está carregado de referências cinematográficas. Até conseguimos situar o filme em 1981 graças ao cartaz de um cinema, que exibe o filme Zorro, The Gay Blade (o último filme que a família Wayne viu antes do assassinato dos pais). Nos quadrinhos, a associação da história de origem do Batman com o outro vingador mascarado e vestido de preto já vem de Frank Miller, portanto, não é surpreendente que ele apareça.

O diretor Todd Phillips poderia ter deixado a coisa por aí, mas acrescenta um outro filme à sessão dupla: Blow Out, a versão americana de Blow-Up dirigida por Brian De Palma. Este é um pormenor que revela uma espécie de homenagem aos cineastas dos anos 70 e, principalmente, aos filmes da Nova Hollywood. A vontade de Arthur de fazer carreira como comediante de stand-up e de aparecer na versão Gotham do Tonight Show da NBC — e a forma como o programa descarrila tendo-o como convidado — remete-nos imediatamente para a explosão de Howard Beale em Network, de Sidney Lumet, e, claro, para o Rupert Pupkin de O Rei da Comédia, de Scorsese.


Pupkin leva-nos àquele que considero ser o centro nevrálgico do filme: Robert De Niro. Em O Rei da Comédia, ele era o comediante que aprisionava o apresentador. Em Joker, ele é o apresentador que é morto pelo comediante. Em Taxi Driver — Scorsese, de novo — ele era o  excluído sem poder que atacava os poderosos. Em Joker, ele próprio é o poderoso atacado pelo destituído que oprimiu.

Olhando do ponto de vista do filme, De Niro é o elo e homenagem às obras que lhe servem de fonte. Olhando do ponto de vista de De Niro, Joker fecha o seu círculo. O Coringa é um Travis Bickle sem redenção.


A mídia
Joker é muito astuto ao incluir uma crítica ao poder predatório dos jornais e da televisão e, por extensão, à comunicação do choque e do "clickbait". É através da mídia de massas que o Coringa se torna uma entidade respeitável; ela é que o constrói e revela enquanto o libertador pelo Caos, o Anticristo que liderará os apagados no caminho para a luz negra do crime e da loucura.

O plano da tela de um switcher após a morte de De Niro ao vivo diz-nos que, imediatamente após acontecer, também ele se tornou mídia e mais um pedaço de lenha na fogueira perpétua do ciclo noticioso. O assassinato é condenável? Que importa, se, sendo contado, ele pode ser repetido para sempre?

O Coringa
Tal como Gotham, o Coringa não existe. Ele não teve existência real como, por exemplo, um Marighella, cuja biografia dirigida por Wagner Moura continua tristemente por estrear no Brasil. Então, porque ele perturba tantos espectadores de tantos cantões de pensamento?


Eu diria que tem algo a ver com o reconhecimento de ele representar a puríssima destilação de uma psicopatia esquizofrênica que está presente em todos nós. Ser o Coringa implica perder a noção da divisão entre real e ilusão e entre Bem e Mal. Se tudo pode ser igualmente verdadeiro ou ilusório e se os valores morais não nos apoquentam, porque não poderíamos ser extremamente gentis logo após esmagarmos a cabeça de alguém contra uma parede?

É isso que nos assusta e inquieta: após vermos o que foi necessário para Arthur virar Coringa, pensamos no que será necessário para nos perdermos de nós mesmos num mundo que não parece gostar muito da gente.

Noite de Lobos / Para a Escuridão (Hold The Dark, 2018)



(contém spoilers)

Alguns cineastas agregam interesse aos seus filmes pelo mero fato de os fazerem. Almodóvar, por exemplo, tem esse dom: quem gosta dele consome os seus filmes como se fossem uma dose de remédio, como se dissesse "não gostei assim tanto de A Pele que Habito, mas matou a minha vontade".

Tenho a mesma sensação com os filmes de Jeremy Saulnier e, por extensão, com os do seu colaborador frequente Macon Blair (que, em 2017, dirigiu Já não me sinto em casa nesse mundo para o Netflix).

Saulnier já foi chamado de "o novo Tarantino", mas acho que, não só há muitas diferenças entre os dois, como Saulnier já tem obra suficiente para sair da sombra seja de quem for. Festa Assassina (Murder Party, 2007) é divertidíssimo; Ruína Azul (Blue Ruin, 2013) é uma absoluta obra-prima e talvez um dos melhores filmes dos anos 2010. Não achei tanta graça a Green Room (2016), que me pareceu simplificar demais aquilo que ele fizera com tanto primor em Blue Ruin: filmar a violência com desalento, como se ela fosse uma doença auto-imune, simultaneamente endêmica e corrosiva das relações humanas.

Ontem, enquanto estava lendo mais um texto sobre Bacurau — pois toda a gente, incluindo eu, teve algo a dizer sobre Bacurau —, lembrei-me de ter pressentido algumas conexões entre o filme brasileiro e Saulnier. Então, fui pesquisar o que ele tinha feito depois de Green Room, e descobri este Noite de Lobos no Netflix, dirigido por ele e escrito por Blair.

Noite de Lobos não tem as melhores críticas no IMDB, mas, como disse no início, parece-me que o mero fato de Saulnier o ter feito lhe dá um ponto de interesse a mais, porque ele adiciona mais uma faceta ao discurso do diretor sobre a inexorável presença da violência na experiência humana.

Saulnier dirigiu dois episódios da última temporada de True Detective e é possível fazer ao filme a mesma crítica que eu adoro fazer a esta série: tentar impingir um tom de mistério quase sobrenatural, mas puramente visual, a uma história onde ele não consegue plantar raízes. Como qualquer truque, isto dissipa-se e, afinal, o que sobra é a história policial que, descobrimos então, sempre estivemos a ver — ela, e nada mais.

Porém, há algo em Noite de Lobos que faz com que essa crítica se dissipe. A forma como a dimensão espiritual e xamânica é esmagada pela violência dos homens e da natureza — e podemos considerar que a morte da bruxa da aldeia é a perfeita representação disso — combina perfeitamente com o deserto moral que nos é apresentado. Não é por acaso que a personagem de Alexander Skarsgård transita entre dois desertos reais, um de areia e outro de neve, no seu caminho de vingança (outro tema predileto de Saulnier).

Quando descobrimos a verdade sobre o que aconteceu com a criança morta, os lobos deixam de ser o inimigo e descobrimos que não precisamos de convites para cairmos na destruição mútua, principalmente se a concebermos como a única saída para a sobrevivência. Em certo momento, uma personagem diz-nos que a morte de uma criança é a morte do futuro; noutro, a bruxa pede ao forasteiro Jeffrey Wright que os deixe com os demónios deles. É como se Noite de Lobos acontecesse num mundo em que Deus morreu — ou nunca viveu — e em que todos estamos sozinhos no esforço de pura afirmação de vontade que é persistirmos em existir. Por isso, é um filme muito herzogiano, onde esta frase de O Homem Urso (Grizzly Man, 2005) faz muito sentido.

Ou seja: não é o melhor Saulnier que já vi, mas está muito longe de ser ruim.

O Assassino Mora no 21 (1942)

Quando se vê o documentário O Inferno de Henri-Georges Clouzot (2009), fica-se com a ideia de um cineasta que, nos anos 60, estava com vontade de abrir o seu cinema ao excesso, ao arrojo e à embriaguez da imagem.

Claramente, esse ainda não era o caso quando Clouzot fez este sucesso francês de 1942, produzido no ápice da ocupação nazista — pormenor importante, se considerarmos que ele seria condenado como colaboracionista depois da guerra e proibido de filmar durante dois anos.

Trata-se de um "whodunnit" relativamente convencional, gravado em estúdio, com toques de comédia e de "film noir" e em que a montagem pouco expressiva serve para pouco mais do que ligar cenas que parecem radicadas em uma certa tradição de teatro popular.

No mesmo ano do Era Uma Vez Um Pai de Ozu ou de Soberba / O Quarto Mandamento de Welles, e um ano antes de Visconti inaugurar o neorrealismo com Obsessão, isso já era muito pouco.

Barcelona e Daniel Johnston

Em 2003, fiquei quase um mês a viajar de comboio pela Europa. A última cidade que visitei foi Barcelona, onde me interessei por conhecer o Centro de Cultura Contemporânea e uma exposição muito particular chamada "Cultura Porqueria".

Como o nome indica, a exposição versava a cultura "trash" em todas as suas dimensões e uma das salas continha várias cabines alinhadas onde podíamos ouvir música. Lembro-me que a primeira cabine tinha algumas árias cantadas por Florence Foster Jenkins e, lá mais para o final, havia uma dedicada a um artista de que nunca tinha ouvido falar chamado Daniel Johnston.

Pus os fones na cabeça, dei o play e, pouco depois, aquela sala continha um português saltitante que dançava ao som de Speeding Motorcycle no dueto semi-improvisado entre Johnston e os Yo La Tengo. Nos anos que se seguiram, ouvi muito Yo La Tengo e ouvi muito Daniel Johnston, cujos álbuns povoaram todos os meus primeiros aparelhos de MP3. Então, até um dia, senhor Johnston.

11 de Setembro

Há 18 anos, foi mais ou menos assim. Estava na faculdade de Direito com o Pedro, a estudar para o exame de Direito e Processo Civil. Recebi um SMS da minha mãe a dizer "um avião bateu no World Trade Center", mas pensei que tinha sido um pequeno acidente com alguma avioneta particular e não liguei muito. Ainda não havia smartphones e não usávamos computadores portáteis na sala de estudo, mas, alguns minutos depois, toda a gente à minha volta estava agarrada aos Nokia 3310 e a dizer coisas que ninguém sabia se eram fatos, boatos ou suposições. Eu e o Pedro lembramo-nos da televisão do café Couraça, a mais próxima na alta de Coimbra; decidimos não estudar mais e fomos para lá. Vimos pessoas no Médio Oriente a celebrar os atentados; semanas ou meses depois, soubemos que eram imagens antigas, descontextualizadas. Vimos uma imagem furtiva do Pentágono meio derrubado e ainda se dizia que poderia haver um outro avião no ar em direção ao Capitólio. Durante essas poucas horas que definiriam os anos seguintes, a era do blog e do "jornalismo cidadão", sentíamos que o mundo que conhecíamos poderia mudar para sempre. Não nos enganamos.

Between Two Ferns: The Movie: uma história da Internet

Qualquer pessoa que já tenha feito um curso de Audiovisual sabe que há algumas convenções em que qualquer noviço cai (e talvez tenha de cair) com recorrência. Por exemplo, quando descobre a edição, ele tenta fazer um filme em que a personagem passa pela estranheza de se encontrar a si mesma. Quando não consegue encontrar uma solução para a sua história, não resiste ao "deus ex machina" e tasca uma qualquer variação do "foi tudo um sonho". E, quando lhe é atribuída a tarefa de criar um formato de televisão, em algum momento ele não resiste e acaba por montar o projeto de um "reality" ou de um "talk show" ficcionado. Não esqueçam isto, já voltarei ao tópico.


Eu já não me lembro quando conheci Zach Galifianakis, mas sei que foi vários anos antes dos filmes do The Hangover. Fiquei fascinado quando vi o seu especial de stand-up Live at the Purple Onion, de 2006, numa versão completa que havia no Google Videos (para quem não lembra, este era o portal de vídeos do Google antes de a empresa ter comprado o YouTube; foi descontinuado em 2012).

Tocando acordes melancólicos num piano, encarnando uma profunda depressão e soltando tiradas entre o infame, o agressivo e o absurdo, Galifianakis levava o público ao delírio e, pelo meio, ainda interpretava a personagem do seu desavindo irmão gêmeo em esquetes de "mockumentary", mostrando uma capacidade incrível para fazer comédia a partir de lugares impensáveis. Nunca tinha visto comédia como esta, poucas vezes a vi depois.

Live at the Purple Onion é o primeiro DVD que Galifianakis lançou. Foi produzido pela Red Envelope Entertainment — nada mais, nada menos, do que a primeira produtora de conteúdo original em nome próprio da Netflix, ainda na época em que a principal base de negócio da empresa era a subscrição de DVDs, que o assinante recebia em envelopes vermelhos (daí o nome) e depois devolvia.

Em 2008, Galifianakis lançava o "talk show" Between Two Ferns no Funny or Die, o site de vídeos de comédia fundado por Adam McKay e Will Ferrell. Between Two Ferns é o "talk show" dos sonhos dos estudantes de audiovisual de que falei no início. Nele, Galifianakis continua a construir a sua "persona" de homem à beira de um ataque de nervos, mas, desta vez, alguém terá cometido a loucura de lhe dar um programa onde ele pode entrevistar celebridades. Não poderia durar mais do que alguns minutos — ninguém aguentaria este tipo de humilhação durante mais tempo. 


Ao longo dos anos, Between Two Ferns continuou com frequência maior ou menor e a popularidade de Galafinakis só cresceu. Entrou em inúmeros filmes, tanto "blockbusters" de verão quanto pequenos filmes independentes, e fez papéis surpreendentes em séries maravilhosas como Bored to Death ou Baskets. E não pude evitar um sorriso quando vi que o seu próximo trabalho a estrear é, precisamente, o filme de Between Two Ferns.


Perdoem-me se pareço meio ingênuo, mas ver um formato passar de algo tão pequeno e peculiar para um longa-metragem deixa-me estupidamente contente. Estreia dia 20 de Setembro na Netflix (e foi produzido pelo Funny or Die).

Žert, 1969

Depois de Valerie e a Semana das Maravilhas, deu-me vontade de ver mais coisas de Jaromil Jireš. Žert poder-se-ia traduzir como A Piada (o livro de Milan Kundera que ele adapta foi traduzido para A Brincadeira) e conta a história de um homem que é punido e ostracizado após ter escrito, num bilhete a uma amada, a frase «Vida Longa a Trostky». A cena em que os seus colegas da Universidade — «os seus melhores amigos», diz ele — levantam as mãos para o condenarem por algo que facilmente é reconhecível como um gracejo mostra-nos que, em tempos de totalitarismo, a ironia é a primeira a morrer. Porém, a semelhança do seu castigo com os consensos ocasionais que, nesta nossa era, levam a linchamentos virtuais e reais deixou-me bastante pensativo.

Bacurau: o místico, o mítico e aquela tal arma

(Contém spoilers)


Há uns dias, dei por mim a pensar sobre como o Brasil me ensinou algo novo sobre a multidão. Claro que na Europa eu já tinha estado no meio de muitas pessoas juntas. Porém, as multidões do Brasil parecem-me outra coisa, como se a junção de muitos indivíduos, de alguma forma, os transformasse num novo corpo, com comportamento, movimento e fluidez próprios.

Bacurau lembrou-me disto. Os seus moradores transformam-se numa nova personagem quando se movimentam e agem em grupo. A prodigiosa sequência do funeral no início mostra-nos isto mesmo: todas juntas, aquelas pessoas tornam-se uma outra coisa, e é essa coisa que se chama Bacurau, pássaro que sai pela noite.

Tem-se falado muito sobre a relação de Bacurau com o "western". Os próprios diretores, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, admitem as influências do gênero, tanto temáticas quanto técnicas. Num enredo sobre uma cidade atacada que se defende a si própria, reconhecem-se logo os ecos de The Magnificent Seven. Posso estar sendo meio louco, mas até acho Silvero Pereira, o "Lunga", bastante parecido com Yul Brynner.


É extraordinário o modo como Bacurau trabalha essas convenções para se afastar do realismo social e se desviar para olhares que revelam fortes espaços psicológicos, como já víramos antes nos filmes de Mendonça Filho (a cachoeira de sangue em O Som ao Redor, a aula de ioga do riso em Aquarius). Podemos também falar dos ambientes e sensações que aludem ao realismo mágico, que aqui aparecem por conta de um certo "psicotrópico" ou quando a personagem de Udo Kier tem a visão da falecida Carmelita. Porém, parece-me que mais importante ainda é a forma como Bacurau se vale de todos esses recursos para criar um universo de grande peso místico e mítico.

Místico, porque a cidade de Bacurau fica isolada, desviada dos caminhos, no sopé de uma montanha, abraçada pela força dos elementos do Sertão, com os seus dias agudos e as suas noites profundas. Ela parece subsistir num plano diferente de existência que é simultaneamente espacial e temporal — como o Cinema, ao fim e ao cabo. A presença de Kier, que carrega em si 50 anos de Cinema, só agudiza essa noção, e os travellings repentinos em cenas aparentemente estáticas ou lentas para desviar o nosso olhar e salientar algum pormenor parecem repetir "há algo aqui além daquilo que vocês veem".

Assim, as personagens de Bacurau são ao mesmo tempo deste mundo e daquele meio caminho de distância até ao Olimpo montanhoso, como semideuses que estão bem e não querem sair de onde estão. E essa é a grande, a enorme sacada do filme: qualquer elemento de comentário social que dele se possa retirar não vem de uma ficcionalização sobre uma crua realidade, mas da construção de cada uma das suas personagens enquanto mito. Parafraseando Malraux, os mitos são os denominadores comuns que nos unem para além das nossas diferenças, porque fazem parte da reconstrução imaginária autônoma que todos fazemos sobre uma base colectiva. Eles tocam as multidões menos porque dão uma significação ao que elas vivem e mais porque as deixam sonhar para além do que vivem.¹ Citando Will Wright, que muito escreveu sobre a função do mito no "western":

Um mito fornece um modelo conceptual de ação social e, portanto, a ação narrativa do mito relaciona-se com as ações sociais cotidianas de indivíduos. (...) Num mito, a sequência narrativa explica uma mudança nas relações sociais - a ação de uma personagem no contexto de uma situação social traz uma nova situação, uma nova relação de personagens, mas (...) as personagens representam tipos sociais; portanto, a sequência narrativa explica a interação e relações de tipos sociais.
Will Wright, Sixguns and Society - A Structural Study of the Western

Bacurau é um "western" porque cria figuras mitológicas para falar dos problemas que nos afligem enquanto sociedade. Se esse gênero se diferencia «pela forma como as suas personagens agem no meio de um conflito de interesses entre uma sociedade rural abalada por um injusto processo de estabelecimento de uma civilização moderna»², o filme diz-nos também que há valores dos quais nunca devemos abdicar nesse confronto. A comunidade em que vivemos é um deles; a nossa humanidade também.

Por isso é que é tão importante que a primeira arma a matar um dos invasores seja um bacamarte, objeto que se confunde radicalmente com a história do Brasil: adaptado das granadeiras trazidas pelos combatentes da Guerra do Paraguai, faz parte do folclore do cangaço nordestino desde então. Ou seja, não foi Damiano quem matou os matadores, mas o próprio Nordeste acuado por eles.



Dito isso, é muito estranho ler as críticas que acusam Bacurau de propor uma solução de violência para os problemas do Brasil. Apetece dizer, com simplicidade necessária, que violento é o mundo, e o filme apenas o reflete. Mas a outra objeção possível a quem não consegue entender que estamos aqui num universo distópico em que execuções públicas são transmitidas pela televisão é que Bacurau é uma espécie de aviso. Nele, a violência é uma constante definidora de relações: faz de Pacote uma celebridade online, é entretenimento turístico para estrangeiros, niveladora de estratos sociais para os motoqueiros do Sudeste, fonte de excitação sexual para os matadores. Isso aproxima o filme desse Novo Cinema Gótico do Sul dos EUA, das obras de Jeremy Saulnier e Macon Blair, e parece deixar-nos um aviso claro: se não maneirarmos nos relativismos morais, depressa chegaremos em algo parecido com o que nos mostra.

¹ Jeanne-Marie Clerc, A Literatura Comparada Face às Imagens Modernas: Cinema, Fotografia, Televisão.
² Daniel Oliveira Mosca, O Bem, o Mal e a Polícia: Convergências entre as estruturas dramáticas dos Nordesterns brasileiros e dos Westerns estadunidenses

God fuck the queen! Um resumo da confusão em terras de Sua Majestade


Ao pedir ontem a suspensão dos trabalhos legislativos entre 9-12 de Setembro e 12 de Outubro, Boris Johnson fez  um "all-in" que encurrala o Parlamento entre aprovar ou não aprovar o acordo de Brexit que ele apresentar depois da prorrogação, pois não deixa tempo útil para discutir acordos alternativos.

Se o Parlamento aprovar o acordo, os opositores do Brexit saem encolhidos, mas poderão atribuir a Johnson a responsabilidade por qualquer confusão que disso resulte e, nos próximos anos do governo, não deixarão incólume o desacato.

Se o Parlamento não aprovar o acordo, o Reino Unido vai para o "no deal", e Johnson guarda o trunfo de poder culpabilizar os opositores pelo caos que se instalará.

O Parlamento terá uma semana de trabalho em Setembro (de 3 a 10) antes de fechar para a prorrogação e voltar no dia 13 de outubro.

Essa primeira semana de Setembro será crucial.

Nela, o Parlamento poderá aprovar uma lei que proíba o Governo de sair da UE sem acordo. É um prazo muito apertado (a lei teria que ser aprovada pelas duas casas do Parlamento), mas, a acontecer, obrigaria Johnson a pedir à UE mais um adiamento do Brexit e tentar negociar um novo acordo.

O Parlamento ainda pode aprovar uma moção de censura (ou "voto de desconfiança") ao governo. Haveria pouquíssimo tempo para formar um governo de unidade nacional, que então pediria à UE um adiamento da data do Brexit. Quer funcionasse quer não, esta solução instalaria o caos político, e Johnson, que pode ou não ficar no poder (ou voltar a ele, caso vença a eleição subsequente), sempre poderia dizer que ele é da conta dos seus opositores.

O Parlamento apenas conseguirá sair da ratoeira armada pelo primeiro-ministro se se unir contra ele, o que não é impossível, se considerarmos como parlamentares de ambos os partidos se sentiram ultrajados com o movimento de Johnson.

Porém, acredito que Johnson aposta na incapacidade deles para se unirem, porque é preciso entender que os acordos de Brexit têm sido reprovados — simplificando bastante — por duas razões distintas:

  • De um lado, os parlamentares totalmente contrários ao Brexit tentam ganhar tempo, rejeitando os acordos para forçar uma outra solução (por exemplo, a substituição do atual governo por outro que, pelo menos, convoque um novo plebiscito);
  • Do outro lado, temos parlamentares que são favoráveis ao Brexit, mas não concordam com um acordo que inclua uma condição de que a UE não abdica: um "backstop" na Irlanda do Norte. O "backstop" consiste num regime transitório que manteria a vigência de algumas regras do Mercado Comum nesse país, evitando a necessidade de uma aduana entre as duas Irlandas e o ressurgimento das tensões separatistas dos tempos do IRA. Porém, isso implicaria que a Grã-Bretanha, para mover os seus produtos para a Irlanda do Norte, teria que garantir que eles se adequariam às normas europeias. Ou seja, durante esse período de "backstop", o Reino Unido teria que se conformar às regras da UE, mas já sem ter nela representantes que discutissem e aprovassem essas mesmas regras. Imagino que Johnson considera que, perante a impossibilidade de um novo acordo, pelo menos alguns destes deputados poderia ser persuadidos a aprovar um acordo com "backstop". 

O Brexit é uma ideia horrorosa que contraria os valores europeus em que a minha geração foi criada.

A jogada de Johnson diminui o poder parlamentar e ninguém com juízo poderá considerá-la tranquilamente democrática.

Porém, do ponto de vista da pura realpolitik e comparado com os métodos de desinformação truculenta de Trump e Bolsonaro, é um golpe de mestre que por enquanto o tornou dono da agenda política.

Ainda assim, será bom não esquecermos aqui todas as implicações da palavra "golpe".

Se Boris sobreviver a esta batalha, tem garantida uma guerra muito longa pela frente.