Até um dia, Norm MacDonald


Norm MacDonald já estava acostumado a ser conhecido como "comediante para comediantes". É injusto, porque tudo o que ele fazia tinha o grande público como destino final, mas a era do politicamente correto não lhe fez bem. O seu humor assentava na possibilidade do absurdo, na "punchline" que provocava além do que devia e nos fazia entrar no território perigoso em que se pensa "se calhar, não me devia estar a rir disto". O segredo é que ele logo nos trazia de volta, só para nos levar para o lado de lá dali a pouco, e assim por diante. Era uma viagem de pensamento, a procura por um lugar moral num mundo que talvez esteja melhor sem nós. Era comédia de temas duros, como a literatura russa que o inspirou a escrever o livro "Based on a True Story: A Memoir", mas entregue com o tom de um adolescente atrevido que parecia rir dos próprios raciocínios e um domínio absoluto do tempo. 

Um dos aspectos mais admiráveis da comédia de MacDonald era o modo como ela assentava tanto no texto quanto no contexto, satirizando os próprios formatos em que ela se fazia. Por isso é que ele foi um dos melhores convidados de talk show de sempre. Sempre que o vimos nos programas do Conan, não vimos simples entrevistas, mas performances em que MacDonald invoca a História da comédia americana. Ao contar piadas infames ou "one-liners" antigas do Rodney Dangerfield, desmontava também as regras performáticas de como uma entrevista de talk show deve ser. 

Nunca isso ficou tão claro quanto em 2008, quando ele foi convidado a participar do "roast" do seu amigo Bob Saget. MacDonald não queria enxovalhar o amigo. Então, ele teve uma ideia: pegou num livro de piadas velhas e infames e começou a contá-las, adaptando-as à situação. O público ficou confuso e, de início, não riu. Mas os comediantes em palco perceberam o que ele estava a fazer: um "roast" do próprio formato de "roast". Ao colocar-se na posição do ridículo, MacDonald usou as regras do jogo para mudar o jogo e fez aquela gente - incluindo o público, que acabou por entender a jogada - rir de si própria e do absurdo de um espetáculo fabricado para pôr as pessoas a insultarem-se umas às outras. É um dos pontos altos da Comédia do século XXI, um dos momentos em que a forma de arte se alimentou de si própria e se desmontou sem por isso se anular.  

Há anos que, quase todas as noites, eu vejo vídeos de humor no Youtube e, quase todas as noites, eu rio com vídeos do Norm MacDonald que já vi centenas de vezes. Era um mestre absoluto do que fazia e a sua falta será sentida. Até um dia, Norm!

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