Nota para mim mesmo sobre o David Bowie

Isto é mais para mim do que para qualquer outra pessoa, sinto dizer. Mas, quem sabe, talvez achem interesse. Tenho revisto a série de documentários Seven Ages of Rock, de 2007, da BBC, e eu sabia que já tinha visto aquele conteúdo antes. Mais, eu sabia que já tinha visto aquele conteúdo com mais coisas, no antigo People & Arts, quando andava na universidade. Lembrava-me especialmente de um plano em que a câmara flutuava até encontrar o Mick Ronson a tocar sozinho a intro da Ziggy Stardust. Isto não está nas Seven Ages of Rock. Mas onde, onde eu tinha visto isso?

Depois de fuçar online, descobri o que aconteceu. A BBC2 fez uma série em 10 partes sobre rock em 1996, chamada Dancing In the Street, de onde acabou por retirar conteúdo para as Seven Ages of Rock. A série original parece meio esquecida no site do canal e só alguns pedaços dela foram parar ao Youtube, mas, felizmente, a minha paranóia acabou. Aqui está a câmara planante do Mick Ronson. E toda a parte do Bowie começa aqui.
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=-yY6t4ncfAM&w=420&h=315]

Cara Isilda Pegado,

Quando foi a primeira vez que ouvi falar de ti? No referendo para o aborto, que perdeste? No do casamento gay, que perdeste também? Não me lembro já. Desculpa, aconteceu muita coisa e muita gente na minha vida nos últimos tempos e alguns inícios perderam-se. Mudei de país, mas não como quem muda de equipa, se é que me entendes, por isso, continuo atento ao que se passa por aí.

Percebo que muitas pessoas te odeiam, mas eu não te odeio. Na verdade, tu fascinas-me. Fico sempre a pensar no que te motiva a correr atrás de tantas causas, apesar de perderes tantas. Não digo isto com desdém, a sério, não penses que escrevo com ácido nas véias. Não vemos o mundo da mesma forma e frequentemente acho que distorces os fatos a favor dos teus argumentos, mas o empenho quixotesco com que o fazes intriga-me. Pergunto-me o que te leva a fazer isso, que histórias tens que te levam a ser assim. Não te vou mentir, eu acho que a tua visão do mundo é retrógada e, às vezes, completamente irrealista. Mas porque tanto ardor, Isilda?

Eu acho que tu és sincera. Queres intervir na sociedade para a deixar de um jeito que tu consideras melhor. Quando acredito que a intimidade de cada um é assunto seu, de certa forma estou a ser egoísta. Para ti, a intimidade define uma posição social e, como tal, a sociedade deve participar da forma como ela aparece. Talvez sejas melhor pessoa do que eu. À tua maneira, tu importas-te mais com os outros.

Há uns dias li este artigo teu e voltaste-me à mente. Estás igual ao que me lembro de ti, com um raciocínio labiríntico que serve a tua visão moral.

Dizes que agora uma "mãe decide que quer ter um filho, só seu, cujo pai fique incógnito (dador anónimo) e faz inseminação artificial a partir do banco de esperma para poder gerar a criança que é “só sua”. Só se for escondida na Espanha, não é, Isilda, porque na lei portuguesa, que citas, (ainda) não pode.

Dizes com reprovação que "a co-adopção vem reconhecer e legalizar práticas que estão proibidas por lei", mas isso é muito normal quando uma lei é mudada, certo, Isilda? Foi assim com a IVG, com o casamento homossexual e também terá de ser assim se, como tu reclamas, um dia houver um revogação destas. Se novas leis não legalizassem "práticas que estão proibidas por lei", a lei nunca seria mudada e o mundo não evoluiria.

Tu sabes disso. E também sabes que a comparação que fazes entre os pais incógnitos do Estado Novo e os "filhos sem pai" que a co-adoção geraria é desonesta. A filiação tem sobretudo a ver com uma coisa - a capacidade de herdar. Os filhos legítimos dos senhores do Estado Novo ficavam protegidos de terem de partilhar o seu património aquando da morte destes; estavam salvaguardados os bolsos dos filhos e a fornicação do pai.

Mudar essa lei, acima de tudo, garantiu o direito de sucessão dos filhos ilegítimos. E a lei da co-adoção, irá ter o mesmo efeito. Vou-te dar um exemplo. Imagina que a Helena, solteira, tem um filho, o Diogo. A Helena trabalha, paga os seus impostos e cria o Diogo com amor. Entretanto, a Helena assume a sua homossexualidade e casa-se com a Márcia, que, naturalmente, vai criar uma relação parental com o Diogo. Segundo tu, a Márcia nunca poderá tratar o Diogo como filho; e, caso a Márcia morra, o Diogo nunca vai, por lei, poder herdar dela.

Ou seja, para salvaguardar os direitos do Diogo da mesma forma que os direitos dos filhos ilegítimos foram salvaguardados revogando a lei da ditadura, a co-adoção é o caminho mais lógico. Eu sei que tentaste impor a tua visão moral do que a sociedade deve ser - crianças nascidas e criadas no seio de uma família devidamente casada e heterossexual -, mas esqueceste do resto. O Diogo e a Márcia vão ser filho e mãe, mas, na tua visão, eles nunca poderão realmente sê-lo. A Márcia não poderá assinar as fichas da escola do Diogo, autorizar uma cirurgia, sei lá mais o quê que tem de ser um pai a fazer. A lei estará constantemente a lembrá-los de que não são realmente mãe e filho. E eu acho que o Estado não tem o direito de humilhar os seus cidadãos assim. Se queres mesmo defender o Diogo, tu tens que defender esta mudança legal, Isilda.

Eu sei que nunca vais aceitar isto, porque, para ti, "casal do mesmo sexo" já é uma expressão contraditória. Imagino que, para ti, o amor de uma homossexual para com o filho sempre será de segunda categoria, porque, na tua visão, ela será um ser desequilibrado e incapaz de afeto verdadeiro. Tenho muita pena. Espero continuar a ouvir-te, Isilda, e a ver-te defender com convicção aquilo em que acreditas. Espero que, como sempre, continues a remar contra a maré de pessoas bem mais razoáveis que discordam de ti. E espero que, um dia, percebas que estás errada em opor a moral ao amor. Até lá, um grande abraço.

As vítimas do Meco e a praxe

Vi esta notícia ("Vítimas do Meco vistas a rastejar com pedras nos tornozelos") no Facebook.
"Isto é uma praxe. Uma experiência de vida. Não se meta." Terá sido desta forma que os alunos da Lusófona, que integravam o grupo estudantes que foram arrastados por uma onda na praia do Meco, se dirigiram aos moradores de Aiana de Cima que os abordaram na tarde de sábado, horas antes da tragédia, indignados com os contornos de humilhação a que se estavam a sujeitar.


Os comentários no Facebook seguiram-se. Condenações da praxe, elogios da praxe, de tudo um pouco.

Vamos pensar sobre isto. Uma hierarquia de poder existe porque alguém aceita submeter-se a ela. É um contrato social como outro qualquer, desde a família até ao Estado. Se ninguém se submetesse a ela, esse poder seria esvaziado e a hierarquia, consequentemente, deixaria de existir.

Então, primeira pergunta: o que leva alguém a submeter-se à hierarquia de poder "praxe"? O medo, diria. Medo de ficar excluído, de recusar um grupo possível de amigos, de passar por cima de uma experiência, etc. Mas, na verdade, a praxe, como surgiu em Coimbra e como ainda se pode ver no código, é um sistema que regulava as relações entre estudantes e dos estudantes com o resto da cidade. Não esqueçamos que aqui, pelo século XIX, havia uma segregação entre a parte futrica e a parte estudante da cidade. Era um equilíbrio social complicado, e o código da praxe surgiu como uma espécie de auto-regulamentação, que impedia que as pessoas fizessem merda e fossem parar aos calabouços da guarda universitária. Ainda hoje existem. Passem pela FDUC, vão até às escadas de Minerva e peçam a um bedel que vos mostrem. Não são bonitos.

Ou seja: essa coisa da praxe servir para integrar os caloiros na vida universitária não é a razão que está no seu âmago. A razão é a permanência de uma estrutura social do século XIX. Tradição? É o argumento mais falso que existe na coisa toda. Se o mundo que envolve a praxe mudou, o papel que ela ocupa no mundo muda também, portanto, não existe qualquer possibilidade de manter tradição. O pessoal conhecer-se e criar amizade sempre foi uma consequência, não a causa.

Segunda pergunta: essa consequência vale o esforço? Os defensores da praxe usam o seu efeito de integração para justificar todo e qualquer abuso e toda e qualquer patetice. Isso não se conseguiria convidando o pessoal novo para uma cerveja e batendo uma conversa e pronto? Para que pintar-lhes a cara e obrigá-los a fazer coisas burras?

O problema é que nós somos pessoas. Não tenho grande fé nas pessoas. Nós não fazemos atos de aproximação gratuitos; na generalidade, precisamos de uma justificação banal para eles acontecerem. Essas cerimónias patetas são essa justificação. Mas, ainda assim, há pessoas e pessoas.

Eu fui praxado em Coimbra. O que é que eu fiz? Nada que não faça hoje numa noite bem bebida, suponho. Jogar à apanhada com pessoal que não conheço. Simular um jogo de bilhar, em que uns gajos eram bola, outro era taco, etc. Enrolarem-me uma capa na cintura para fazer de saia, porque era o único gajo com cabelo comprido e tive de fazer de conta que era uma gaja numa discoteca a ser engatada. Subir para uma cadeira num café e fingir que era o João Baião no Big Show Sic. Ninguém me pintou a cara, foi uma bela manhã de 5a feira, ri-me muito, realmente comecei grandes amizades aí e não me senti nem um pouco humilhado. O pessoal que me praxava era porreiro. Depois disso, a minha "praxe" durante o ano era querer estar em casa na 6a feira à noite e ligarem-me com uma ameaçazinha pateta qualquer a dizer que tinha de sair com eles. No fundo, apenas uma forma de dizer "gostamos de ti e queremos que nos venhas encontrar". Nada que um amigo meu não me vá fazer hoje mesmo. Se, no meio desses desfiles gigantes que Coimbra tinha, algum idiota me vinha chatear e queria que eu fizesse alguma coisa burra, eu dizia-lhe que não. Os meus "padrinhos de praxe" eram, e continuam, meus amigos. Que se fodessem os idiotas.

Eu sei que sempre se pode dizer "mas tu tinhas uma boa estrutura e confiança para dizer isso. há quem não tenha, e essas pessoas tem que ser protegidas". Eu sei. Eu tive amigos que tiveram que ficar numa varanda numa noite gelada porque o gajo que os praxava era um idiota em tons nazis. Para essas idiotices, existem tribunais. Nenhum juiz se vai virar para uma mulher e dizer "a sua violação repetida e sangrenta durante toda uma noite por um grupo de 15 homens não é crime, porque você aceitou ser praxada meses antes". Nenhum pode, pelo menos.

Qual a alternativa para isto? Um artigo no Código Penal a proibir toda e qualquer praxe? É preferível a este estado de coisas aquele que legitima um polícia vir e dizer "vocês estão presos por obrigarem este homem a imitar o João Baião"? Ainda assim, parece-me preferível a possibilidade de qualquer pessoa que seja vítima de violência injustificada poder julgar por si mesma se o foi e poder recorrer à justiça. Nós ainda temos uma responsabilidade por nós mesmos.

Se entendo bem, o que está em causa aqui é que os putos foram levados pela onda porque estavam a ser praxados. Mas e se não estivessem a ser praxados? Se estivessem só a tomar umas latas de cerveja e fossem apanhados igualmente, iríamos proibir as latas de cerveja? E se a "praxe", em vez de consistir em se arrastarem pela areia com pedras nos tornozelos, fosse ensaiar uma mega coreografia tipo Glee - depois de a onda vir, iríamos proibir o Glee?

Não gosto de gente idiota nem de atos idiotas. Também não gosto nada da falta de liberdade. Se este pessoal morreu por causa da negligência ignorante de quem os mandou para lá, quem os mandou para lá tem que se submeter à justiça. Histórias tristes acontecem, porque a vida é uma merda. Pelo menos, que isto sirva para os idiotas pensarem que talvez valha mais a pena ser porreiro.

Elegia a Albert Camus

albert camus

Perguntaram-lhe se era um intelectual de esquerda, e ele respondeu, “Não sei se sou um intelectual. Quanto ao resto, sou de esquerda, apesar de mim e apesar da esquerda.”
(...)
Durante a guerra de 1954 a 1962 na Argélia, Camus recusou escolher entre os árabes argelinos, cujos direitos ele defendia com frequência, e a sua própria gente, os pieds noirs europeus. (...) Depois da cerimônia do prémio Nobel na Suécia, ele foi abordado por um jovem argelino a quem respondeu, num ataque de indignação "Eu acredito na justiça, mas defendo a minha mãe antes da justiça".
The Irish Times


Por acaso, há dois dias comecei a reler coisas sobre Camus e, numa daquelas coincidências boas (para não dizer incríveis), reparei que 7 de Novembro - amanhã! - é o centenário do nascimento dele.

Albert Camus foi provavelmente o autor que me marcou mais na vida. Li "O Estrangeiro" na idade certa, aos 16 ou 17 anos, na esplanada do antigo café das Termas em Monção. Enquanto os emigrantes temporariamente retornados aproveitavam as férias de Verão nas mesas ao lado, eu enchia o livro de notas, sublinhados e dobras (e, claro, espreitava-lhes as filhas). Como disse aqui, no primeiro e mais duradouro blog que tive, batizado com o título de outra obra dele:

Nunca tão claramente (ou mesmo nunca mais) um livro me transformou (...), no sentido de que o meu pensamento, a minha ética, tornaram-se outros depois de o ter lido. (...) Eu fui para a universidade para ser um homem absurdo - ou seja, tentei reflectir na minha vida o que tinha lido (...) e por isso é que "O Estrangeiro" é o livro da minha vida. Apropriei-me dele quando tentei aplicar o seu "programa" a ela e isso nunca mais voltou a acontecer com outro livro, por falta de disposição e porque, se calhar, a própria vida só nos dá uma tentativa para que isso aconteça.


Não sei se estava a sucumbir a um resto de entusiasmo adolescente há dez anos quando escrevi isto. Por outro lado, entusiasmo nunca deixa de ser uma coisa boa. Acontece-me com Camus uma daquelas coisas mágicas e difíceis de acontecer com qualquer autor: uma identificação imediata com o que leio e com a pessoa por trás daquele texto, desconfiado de totalitarismos, defensor do justo, um pensador livre. Parece que ele me tira da cabeça pensamentos que não pensei, mas que estão lá, prontos para serem pensados. Todas as frases estão no lugar certo e escritas do jeito que devem ser escritas, sem nada a mais e sem nada a menos. E, depois, parece que ele está a escrever só para mim, como se os romances dele fossem cartas que só encontraram o destinatário quando eu as encontrei. A personagem Joseph Grand, d'A Peste, um homem cujo trabalho de vida é reescrever constantemente uma frase até ela ficar perfeita ("Por uma bela manhã do mês de Maio, uma elegante amazona percorria, numa soberba égua alazã, as áleas floridas do Bosque de Bolonha"), marcou-me tanto que passei a usar esse nome em fóruns de Internet, nicknames em sites, emails, etc. Às vezes havia quem pensasse que eu me estava a referir ao tamanho do meu membro sexual, mas, quando o mundo real acontecia, só o Camus me restava.

Nos teus 100 anos, Camus, eu agradeço-te, honro a tua memória e declaro a minha admiração. Espero um dia produzir alguma coisa que marque alguém tanto quanto o que tu escreveste me marcou a mim. Por enquanto, releio-te, agora e sempre.

A história da minha dívida à Segurança Social

O Hugo Gonçalves escreveu no Facebook:
Prezado Estado português - em 15 anos de trabalho fui apenas dois anos efectivo. Escolhi este caminho de free lancer e nunca te pedi nada além do básico (escola, transportes, polícia) nunca tive subsídios, nem 13 ou 14 mês. Nunca tive um tacho ou fui assessor do assessor. Nunca escolhi o lado seguro e conivente dos yes man. Mas sempre paguei os meus impostos e agora, quando tento regularizar um pequena dívida à segurança social, és tão lento e inábil que me penhoras apesar da minha vontade em pagar. É por isso que vou cessar actividade em Portugal e, tão cedo, não vais ver um tostão nem um minuto do meu trabalho.

Isto lembrou-me a história da minha dívida à Segurança Social. E esta não é uma história de redenção e cheia de esperança no final, mas é bom contá-la, no mínimo para que a sua memória não se desvaneça.

Era Dezembro de 2011 e eu já estava no Brasil. Enquanto esperava o réveillon numa praia de Santa Catarina, a minha mãe mandou-me uma mensagem dizendo que tinha recebido uma carta estranha do banco. Ela digitalizou a carta e mandou-ma. A Segurança Social tinha-me penhorado 1.500 euros da minha conta a prazo da Caixa. Sem avisos, notificações, nada. O número do processo, que eu não sabia que existia, estava lá na carta, enorme, misterioso, o mais kafkiano que algo pode ser.

Eu adivinhava do que se tratava. Em 2010, quando cheguei ao Brasil, suspendi a atividade nas Finanças na loja do cidadão. Passei logo pelas SS e perguntei se era preciso fazer alguma coisa. A senhora, muito simpática, disse-me que não, que depois cruzavam os dados e pronto. Tudo bem, lá vim para o Brasil descansado.

Março de 2011. Voltei a Portugal e fui às SS por um assunto que não tinha nada a ver com isto. Pelo meio, a mulher disse-me "você tem uma dívida aqui". Eu resmunguei que não tinha dívida nenhuma, que sempre pagara todas as contribuições e nunca fiquei a dever nada a ninguém. Ela disse-me os meses das contribuições que supostamente não pagara. Eram os meses posteriores a ter encerrado a atividade nas Finanças. Pelos vistos, não tinham sido cruzados dados nenhuns com as Finanças. No que às SS dizia respeito, eu continuara a trabalhar tranquilamente e, um belo dia, decidira não lhes pagar mais nada.

A mulher bloqueou a dívida, para não render juros. Ela ficaria lá na base de dados deles por uma questão meramente formal e desapareceria do sistema assim que eu apresentasse o comprovativo do encerramento de atividade. Só que eu ia viajar para o Brasil uns dias depois e não conseguiria fazer isso. "Há um prazo?", perguntei. "Não", ela respondeu. Fiquei descansado.

Outubro de 2011. As SS nunca mais me disseram nada, mas, como estava em Portugal outra vez, fui à repartição entregar o comprovativo de encerramento da atividade. Pelo que me dizia respeito, o assunto estava encerrado.

Até que, em Dezembro, quando eu já estou no Brasil outra vez, a minha mãe me diz que as SS me penhoraram 1.500 euros da minha conta a prazo por conta de um processo que eu nunca vira, do qual nunca fora notificado e, consequentemente, nunca me fora dada oportunidade de fazer contraditório.

Seguiu-se uma série de e-mails e telefonemas para tentar descobrir que processo era este e o que se deveria fazer para o resolver. Por sorte, a minha mãe professora tem uns 20 anos de sindicalismo nas costas e conhece todas as subtilezas do diálogo com órgãos públicos. Depois de muito blablablá com as SS, lá acabou por ir à repartição entregar não só o comprovativo do encerramento da atividade nas Finanças como também o comprovativo de que já tinha entregue nas SS o comprovativo do encerramento da atividade nas Finanças. Em Janeiro, o dinheiro que me fora penhorado voltou à minha conta.

A minha veia conspirativa sussurra-me ainda hoje que, num ano em que todo o discurso político já se fazia à volta da crise, houve uma corrida para injetar todo o dinheiro possível na máquina do Estado. Por isso me tiraram o dinheiro em Dezembro, por isso mo devolveram em Janeiro. Os números oficiais mostrariam que as cobranças por dívídas às SS aumentariam em 2011 - mas não se veriam os números dizendo quantas dessas cobranças foram devolvidas em 2012.

Como disse, isso é o que a minha veia conspirativa me sussura, e ela pode estar errada. A culpa não foi dos funcionários públicos que me atenderam, que, ao longo desta história toda, foram sempre prestativos e educados. A culpa também não foi minha, porque fiz tudo o que precisava ter feito. A culpa nem foi da minha mãe (lamento, Freud). A culpa foi toda de um sistema burocrático que deveria existir para servir as pessoas, mas do qual é mais fácil sair do que suportar. E é uma pena que isso seja assim.

As lágrimas do chuveiro elétrico

O meu chuveiro elétrico
É que sofre no entretanto.
"É inverno ou verão?!",
Pergunta ele chorando.

Mas, meu querido chuveiro,
Não adianta chorar
Porque moras em São Paulo
Tens mais é que trabalhar.

O piropo e o sexo

Li a resenha da sessão sobre o piropo no Fórum Socialismo 2013 que está a agitar o meu Facebook há uns dias. Comentários:

"[O piropo é] mais uma demonstração da relação de poder que a sociedade patriarcal estabelece."
Se aceitarmos que a sociedade é patriarcal, sim. Não me parece que a sociedade seja tão patriarcal como já foi, mas, se o piropo existe e alguém se incomoda, isso deve ser falado. Afinal, estes fóruns não são para isso mesmo?

"A rua pertence de maneira diferente aos homens do que às mulheres, às quais lhe é reservado o espaço privado, o da casa, os filhos , as comidas."
Quem sinceramente dá crédito a algum homem ou mulher que pense assim? A sério, quem, desta ou de outra geração? Uma vez, no elétrico 28, um velho taradote fez um comentário menos próprio sobre a parte posterior de uma jovem moça que estava à frente dele. Sem desculpar o mau gosto, as velhas que lá estavam trucidaram-no ao ponto que cheguei a temer pela segurança física do homem.

"O homem é ensinado desde pequeno a ser sujeito sexual (...). Pelo contrário à mulher lhe é reservada apenas a possibilidade de ser objeto sexual."
Claramente, alguém se esqueceu de dizer isso a várias mulheres que conheci. E ainda bem.

"O corpo da mulher está presente nas fantasias masculinas heterossexuais e na sua realidade, como algo que ele utiliza ao seu gosto e conveniência."
Er... não podemos dizer também que o corpo do homem está presente nas fantasias femininas heterossexuais e na sua realidade, como algo que ela utiliza ao seu gosto e conveniência? Não é isso a base da fantasia?

Eu acho muito bem que estas palestrantes exponham os seus pontos de vista e a sua indignação, que só quer transformar o mundo num lugar melhor. Mas eu espero que, quando o fizerem, queiram transformar este mundo - e não aquele sobre que as feministas do século XX escreviam. Não esqueçamos que, se "a banalização [do piropo] reflete a normalização da ideia da mulher enquanto ser que está aí para cumprir o seu papel, ser vista e avaliada, tocada", o direito da mulher se virar para o homem e dizer "vai apanhar no cu, cabrão filho da puta" também já foi conquistado há algum tempo.

Justice: uma grande aula

http://www.youtube.com/watch?v=8I8e8oJpoII&list=SP5FAA509E4E51B654

O que me chamou mais a atenção há uns meses na primeira vez que vi Justice foi que, logo no primeiro episódio, Michael Sandel confronta os seus alunos com um caso que me lembrava de ter lido no manual de Direito Penal do Eduardo Correia, onde ele defendia haver uma coisa chamada "espaço livre de Direito". Isso tem-me servido em conversas desde então para mascarar o fato de recordar muito pouco do que estudei durante 5 anos.

Assistir Justice é um reencontro com um tempo em que ouvia um grande professor, Gomes Canotilho, falar de temas complexos a mentes ansiosas com a consciência de que a reflexão sobre a resposta é mais importante do que a própria resposta. É um reconhecimento nas caras dos alunos, desde os mais tímidos até aos mais interventivos, da minha e das dos meus colegas, fervilhando enquanto tentávamos fazer sentido do que estavamos a ouvir. E, claro, não deixa de haver uma certa vaidade intelectual de estarmos a assistir uma aula de Harvard...

Felizmente, a UNIVESP TV disponibiliza todos os episódios legendados de forma gratuita no seu canal do YouTube. Se quiserem vê-los de seguida, é só dar um play no vídeo aqui em cima.

O que é ver Deolinda em São Paulo

É ir ao SESC Santana, ver uma sala cheia e ficar surpreendido por a esmagadora maioria ser brasileira, e não portuguesa.

É lembrar tê-los ouvido na internet por acaso, ir ao lançamento do primeiro disco deles na FNAC do Chiado, onde estavam umas 20 pessoas, e ganhar o bilhete para ir ao São Jorge uma semana depois, que estava cheio, e pensar que esta não era uma banda qualquer.

É ouvir as guitarras tocar e lembrar Lisboa, o sol, as praças, as casinhas da Graça, o elétrico 28 que me levava até ao trabalho na Estrela, os velhos castiços, as ginjinhas no Rossio.

É ouvir "Parva que sou" e me passarem pela cabeça as manifestações a que não pude ir e as caras das minhas pessoas a descer a Avenida da Liberdade.

É chorar um pouco também.

"A adoção de crianças por casais homossexuais põe em risco a família"


Assim diz uma vereadora do Recife, Michele Collins. É uma das minhas lógicas preferidas nos tempos que correm. Apliquemos o argumento a outras dimensões da realidade.

A adoção de iPhone por quem tem PC põe em risco a tecnologia.
Claro.

A adoção de um carro por quem dirige bicicleta põe em risco o transporte.
É muito certo.

A adoção de cachorro por quem tem gato põe em risco a vida animal.
Porque não se fala isso mais vezes?

A adoção de vegetais por quem come carne põe em risco a comida.
Com certeza.

A adoção de panelas por chapeiros põe em risco a culinária.
Surpreende-me que ninguém tenha pensado nisso antes.

A adoção de regras por quem é desregrado põe em risco a ética.
Faz todo o sentido.

E por aí poderíamos ir. Agora, só fico muito curioso por saber o que Michele Collins diria sobre esta piada sobre a cidade que ela administra. Aposto que seria um comentário muito inteligente.

A Lei Maria da Penha deveria ter sido aplicada no caso da agressão a Luana Piovani?

Primeiro, achava que não.

A decisão de não aplicar a lei Maria da Penha foi baseada pelo relator do TJRJ no fato de que "a indicada vítima (...) não pode ser considerada uma mulher hipossuficiente ou em situação de vulnerabilidade".

Portanto, eu, estrangeiro, desconhecedor, pensei que a Lei Maria da Penha precisava das condições "relação afetiva estável", "hipossuficiência" ou "vulnerabilidade" para ser aplicada.

Cabe dizer que não aplicar a lei Maria da Penha não significa que a agressão não seja punida. Simplesmente, sê-lo-á pelas leis gerais sobre agressão, sem os agravamentos previstos por aquela.

Portanto, se a lei Maria da Penha é especial, é preciso ver em que situações especiais ela deve ser aplicada.

Fui lê-la.

Pesquisei "estável": nada.

Pesquisei "hipossuficiência": nada.

Pesquisei "vulnerabilidade": nada.

"Raio", pensei, "vou ter mesmo de ler isto". Fico sempre relutante por voltar aos meus tempos de jurista, mas lá foi.

E então reparei no artigo 5º.
Art. 5o Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial:
(...)
III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação.

Ou seja, "estabilidade", "hipossuficiência" e "vulnerabilidade" não são critérios necessários para a sua aplicação.

Não é necessário filhos, não é necessário um casamento, não é necessário coabitar, não é necessário dependência económica.

O que é necessário é convívio e uma relação íntima de afeto.

O art. 5º/III é claro, e esquecê-lo só pode revelar uma incompetência grave e uma argumentação desnecessária e circular. O TJRJ, como mostra o acórdão, incorreu nesses dois defeitos ao ir buscar a justificação numa ratio legis meio inventada ("violência intra-familiar, levando em conta a relação de gênero, diante da desigualdade socialmente constituída") quando a lei contem uma norma concreta claríssima.

Porque o tribunal fez isso, eu não sei. Mas, no caso de Luana Piovani, a sua decisão foi errada.

Memória

Um gajo trabalha tanto que é fácil esquecer-se de ter saudades. Porque não é só saudade que é lembrança: é preciso lembrarmo-nos de ter saudade. Mas um dia por acaso ouvimos coisas assim, que nos arrancam do presente e nos atiram com força, nos esmagam a cara, contra o que somos. Fora de Portugal, ouvindo coisas assim, pareço-me mais português do que nunca.

Um poema de Marcial (séc. I)

Pergunto-te: quem pode suportar esse afã?
Lês para mim quando estou de pé,
Lês para mim quando estou sentado,
Lês para mim quando estou correndo,
Lês para mim quando estou cagando.

As duas máquinas

São Paulo teve manifestações brutais esta semana que estão a ser alvo de muita atenção pelo mundo fora. A causa delas foi o aumento da tarifa dos ônibus e metro de R$3 para R$3,20, ou seja, um aumento de 15%. Mas elas representam um pouco mais do que isso.

Para que quem não é daqui entenda, o sistema de transporte público de São Paulo funciona de uma forma um pouco esquizofrénica. Nunca vi um metro que tivesse uma rotação de trens tão rápida, mas, por outro lado, o tamanho da rede é minúsculo em relação ao tamanho da cidade. SP é uma das cidades mais congestionadas do mundo e os ônibus sofrem nos engarrafamentos, se bem que desconfio que uma cidade como Lisboa arranja às vezes complicações maiores com um volume de trânsito muito menor. O metro e os ônibus, apesar de muito cheios nas horas de rush, são relativamente confortáveis, mas não existe integração entre viagens - ou seja, uma viagem que implique metro e ônibus implica o pagamento de duas tarifas (ainda que uma acabe diminuída, mas implica).

Ou seja, num estado em que o salário mínimo é de 755 reais e num país que discute a distribuição dos lucros do pré-sal e os biliões gastos nos estádios da Copa do Mundo, custa a engolir que seja a classe menos endinheirada a suportar o aumento da inflação no transporte público.

Claro, o Governador diz que a subida foi menor do que a inflação e o prefeito Haddad sempre admitiu que as tarifas iriam aumentar (e iriam aumentar mais do que o costume porque o anterior prefeito, Kassab, não quis ajustá-las em ano de eleição). Por outro lado, Haddad criou a primeira encarnação de passe mensal e ilimitado. Mas esta subida acabou por servir como a gota de água que fez transbordar o copo. O poder brasileiro tem frequentemente desvios de autoritarismo e, pior, é um autoritarismo que acontece sem muitas vezes ter uma razão aparente. A polícia acaba servindo como um braço visível desse impulso repressivo.

Entre muitas coisas, uma manifestação é um símbolo, em que duas máquinas se confrontam: uma máquina de manifestar e uma máquina de controlar. Essas máquinas são bem complexas e bem maiores do que as pessoas que as representam no momento e espaço concreto. Trata-se de manifestantes e policiais, sim, mas também de opinion makers das duas facções, anarquistas e comerciantes preocupados com as suas lojas, cidadãos comuns e políticos.

A polícia justifica-se com a radicalidade de alguns manifestantes, agressões contra PM's e atos de vandalismo para justificar a carga. Argumentos que perdem um pouco a razão quando a polícia é encontrada a partir as janelas dos seus próprios carros para culpar terceiros.

httpv://www.youtube.com/watch?v=kxPNQDFcR0U

Além de achar que balas de borracha e bombas de lacrimogéneo disparadas a rodo contra protestantes pacíficos não são uma solução proporcional para lidar com pedradas ou sprays para pichar paredes, tenho uma pergunta a martelar-me a cabeça: quem transformou ao longo do tempo uma manifestação num evento violento? Foram os manifestantes? A carga policial de ontem está a justificar maiores mecanismos de defesa - e de agressão - para a próxima manifestação na segunda feira. Portanto, a violência da máquina de controlar justifica a violência da máquina de manifestar e vice-versa. A polícia impediu os manifestantes de entrarem na Paulista, limitando sem razão o seu direito de se manifestar. A polícia prendeu pessoas por terem, não gasolina ou granadas, mas simples vinagre (usado para suportar o gás lacrimogéneo). A polícia fez ontem os atos que os meus amigos Cícero Oliveira e Ana Reber, bem descreveram.
"A tropa de choque avançou pelas laterais do cortejo, que subia pacificamente em direção à Avenida Paulista. Na altura do Mackenzie, ela fez um bloqueio e, entre gritos de "Sem violência!" e "Não reajam", começou a atirar bombas de gás lacrimogêneo. A multidão recuou, concentrando-se, então, na Praça Roosevelt. A tropa de choque (que havia se dividido e encurralado dos dois lados – Avenida Ipiranga e Consolação – os manifestantes) jogava bombas, balas de borracha, a cavalaria. De repente só havia gente correndo desesperada, gente, aliás, que nunca tinha participado de nenhuma manifestação (a média de idade ali era claramente de 20, 25 anos), que não sabia que gás lacrimogêneo fazia arder a garganta e chorar."

"Os manifestantes gritavam e pediam paz. Estudantes com olhos cheios de lágrimas, gente machucada...foi muito triste e me lembrou aquele discurso, de que as pessoas que lutavam contra a ditadura eram terroristas. Por que protestos em qualquer outro lugar do mundo são legítimos e aqui são taxados de baderna?"

A violência ontem levou a mídia a mudar o discurso: depois de focar no vandalismo de terríveis pichadores, centrou-se hoje na malvadeza da terrível polícia. Ontem, a Folha de São Paulo pedia fotografias de vandalismo; hoje pediu relatos de violência policial. Haddad, sentindo o seu eleitorado desertar, já veio condenar a violência. Vejamos o que as máquinas vão dizer na segunda feira. Por agora, até uma dança mereceu rojão.

httpv://www.youtube.com/watch?v=LmcLqlFk6Ac

A primeira vez

São quase 3h da manhã e eu devia estar a dormir, mas acabei de fazer uma coisa pela primeira vez e quero registá-la aqui. Não, relaxem, não foi encher sacos plásticos com os pedacinhos milimétricos de uma mulher que passeava na rua à noite (até porque só faço isso com gatinhos de até 2 semanas de idade).

Eu já vi dois (ou mais) filmes, uns atrás dos outros, várias vezes. Eu já vi dois (ou mais) episódios de série, uns atrás dos outros, várias vezes. Mas eu nunca vira um episódio de série e, no final, voltado a vê-lo todo de novo por puro e absoluto deleite. E foi isso que me aconteceu com o 8º episódio da 6ª temporada de Mad Men.

Eu sei que vou merecer escárnio eterno pelo que vou dizer, mas houve um momento que fez os meus olhos marejarem-se de lágrimas, não pelos fatos que aconteciam, mas pelo modo como estavam a ser contados. Uma estrutura perfeita, dolorosa de tão boa, um exemplo de como inteligência na planificação da história previne o overacting do ator. Para entender o que estou a dizer, vejam como aquelas elipses são feitas e como Jon Hamm não precisa de cambalear para mostrar que... enfim, vejam e irão entender.

Aproveitando, antes que alguém ache que estou hipersensível e me pergunte se está tudo bem, já deixo aqui a resposta.

ifeelgreatimonadeadline

Entre os dois exércitos

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=M6ftVCjmn6c&w=420&h=315]
Então, parece que o fait-divers do dia em Portugal é este vídeo com este rapaz a responder à Raquel Varela (a partir dos 4 minutos). Entretanto, ela já respondeu à viralização do vídeo, deixando seu ponto de vista claro. E, como não podia deixar de ser, a coisa está a entrar no domínio da abstração argumentativa. Os mais liberais estão a usar o vídeo para rir-se da falta de sentido de realidade de quem defende os direitos laborais e a insuficiência do salário mínimo e estes estão a usá-lo para mostrar que os primeiros só pensam no lucro e não se preocupam com os direitos laborais e a insuficiência do salário mínimo.

Por um lado, Raquel Varela é apelidada de não ter noção do ridículo. Por outro, Martim, que tem 16 anos e criou uma marca de roupa, é acusado de ser socialmente insensível por ter dito que é melhor que os trabalhadores das fábricas que lhe vendem a roupa ganhem o salário mínimo do que estarem desempregados.

Esta discussão está, ao mesmo tempo, dentro do mundo e fora do mundo. Está dentro do mundo, porque tenta definir um caminho para aquilo que ele deve ser. E está fora, porque não entende como ele funciona. Sim, os trabalhadores merecem mais, e nunca menos. E, sim, isso pode acontecer no âmbito de um mercado. A criação de uma marca de sucesso significa exigência por parte dos seus compradores e distribuidores: veja-se a Apple, que não se pode arriscar a ser vista como exploradora e, por isso, é cobrada de cuidado com os seus fornecedores. Veja-se a Foxconn, que trabalha para a Apple, a Microsoft e a Sony, e que, "ocidentalizando" a sua cadeia de produção, "ocidentalizou" as exigências dos seus trabalhadores. É isto que leva a que uma classe média apareça na China e, com ela, as suas exigências naturais em termos de qualidade de vida ("the availability of safe food, fair access to good education and health care, and, more and more, safe air").

Acreditar que o mercado deve ser regulado e corrigido pelo Estado não significa que não se possa acreditar que o mercado também tem um balanço intrínseco. Quem produz merece o seu pagamento, mas ele não virá sem que o seu produto seja vendido. Goste-se ou não, todos dependemos uns dos outros.

Benficas

jorgejesusajoelhado
1.
Tudo está bem. Daqui a minutos a tua vida vai avançar mais um pouco e tu poderás descansar. Quaisquer erros que cometeste serão ultrapassados, porque nunca mais ninguém se lembrará deles, e onde podem eles viver a não ser na memória dos outros? Tu sabes que mereces o que há-de vir de bom, como uma criança que se portou bem o ano todo e espera ser reconhecido no Natal. Tudo está quase a acabar, e a acabar bem, e a acabar bem...

2.
...mas o que não podia acontecer acontece e a tua mente para esse instante, porque nem tu consegues acreditar. Já não concebias essa hipótese, ela estava fora do campo das coisas possíveis e, de repente, tens que repensar tudo de novo. O momento dura um segundo, mas tu sente-lo como um dia. Antes querias descansar a cabeça, agora mil soluções te passam por ela. E pode ser que uma delas seja a certa, a milagrosa, a que resolve todos os teus problemas...

3.
...mas tu não tens tempo para nada. Foste apanhado de surpresa: não há nada a fazer. As pernas ficam-te sem força, tu cais. Baixas o rosto. Estejas lá onde estiveres, essa dor é só tua. Já muita coisa te atingiu, já sentiste muita dor, e o resultado é sempre o mesmo. Tu lembras-te do que teimas em esquecer: a vida não foi feita de encomenda para tu venceres. A vida é só esta merda em que te ocupas a cair e a levantares-te de novo, vezes e vezes sem conta, até um dia acabar quando nunca mais te conseguires levantar...

4.
...mas este não é esse dia, porque tu sabes que o que importa não é o instante em que tudo se perdeu, mas o que fizeste até lá chegar. É o caminho que te move. Tu vives para te levantares de novo, e essa é a aventura, afinal. Tu não podes desistir, porque isso é coisa de cobarde. Ergues o rosto, olhas em volta. Engoliste a dor e agora és mais forte do que eras antes disto tudo acontecer. Todos ou nenhuns olhos estão postos em ti. Talvez não saibas ainda o que vais fazer, talvez. Mas isso não importa agora. Levantas-te de novo e começas a andar. Em frente.

Perseguindo o Anão Chinês - escrever o Desafio da Beleza

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Escrevi este texto sobre a primeira temporada do Desafio da Beleza para uma revista portuguesa. Como hoje estreia a segunda temporada, no canal GNT, faz todo o sentido publicá-lo aqui. Será que foi desta que o anão chinês entrou?

Em 2012, a produtora Moonshot, onde trabalho, teve dois projetos a serem escritos, gravados e editados simultaneamente. Um é a série de ficção "Sessão de Terapia", versão brasileira de "In Treatment", ou, mais precisamente, da israelita "Be'tipul". Outro é o reality show sobre maquiagem "Desafio da Beleza". A ficção tinha 45 episódios. O reality tinha 13. 13. Como as séries da HBO ou da AMC.

O "Desafio" adapta um formato que um produtor francês fizera para a China. Tivemos total liberdade na nossa versão, mas, depois de uma primeira entrega de espelhos, ou "outlines", a reação foi pronta: eu e os meus colegas Edson Fukuda e Fabio Farias fôramos demasiado bem educados. Não com os concorrentes, com quem fizemos questão de ser mauzinhos, inventando provas, vantagens e castigos bem ruins, mas com o formato. Este programa, disse então o meu chefe, tem que ter algo inovador em todos os episódios.

Isto não foi surpreendente. Na verdade, foi uma benção. Hoje em dia o termo "reality" define mais um modelo de produção do que propriamente um compromisso absoluto com a realidade. A experiência Big Brother provou que as novelas da vida real têm um grande problema: são da vida real, e a vida real é chata. A longevidade do BBB aqui, afinal, explica-se pela forma como tem integrado com sucesso soluções de programas de variedades (concertos, visitas de celebridades, etc). Para satisfazer o pedido do meu chefe, tínhamos que recorrer a técnicas de ficção.

Séries como ER, House ou Mad Men acompanham dois universos temáticos diferentes, mas naturalmente próximos: a profissão das personagens e a sua vida pessoal, e a forma como as duas se relacionam. Da mesma forma, um reality de competição integra a participação de concorrentes num concurso, a sua vida pessoal enquanto ele progride e, claro, a forma como as duas se relacionam. Se pensarmos na vida real como material narrativo, isto é drama na pureza máxima da definição de David Mamet: "a missão do herói para ultrapassar aquelas coisas que o impedem de alcançar um objetivo específico e premente".

A tarefa, ao início, era assustadora. Como ser original com um formato que é tão conhecido? Mas a solução estava no próprio problema: toda a gente sabe como um reality de competição é e o que nele acontece e segundo quais regras. Então, estas podem ser esticadas e moldadas e, ainda assim, permanecer compreensíveis para o público.

Partimos então para os roteiros de pré, que são a bomba que se atira à água para pegar o que vem à tona e criar a história final. O 1º episódio era original por si mesmo, porque era um casting enorme do qual sairiam os 12 selecionados. Deixamos o 2º redondo, só para mostrar que sabemos fazer isto e não somos doidos nenhuns.

No resto, pirámos. No episódio que decorre num teatro, pusemos as luzes a apagarem-se sobre o eliminado como se fosse um ator cujo espetáculo desiste dele. Incluímos mensagens vídeo secretas dos apresentadores. Acordamos os concorrentes de surpresa, a meio da noite, para maquiarem num fashion shoot ao nascer do sol no Rio de Janeiro. Incluímos uma sequência de sonho. Arquitetamos uma prova dentro de um táxi em split screen. Fizemos um episódio sobre noivas em formato de fábula Altmaniana sobre estas que, POR ACASO, são maquiadas por nossos concorrentes. E assim por diante. Mas nada me deixou tão contente como o 4º episódio.

O brainstorming nesse dia estava já longo e o ar nas nossas cabeças saturara. Chegáramos àquele ponto do cansaço em que não apetece pensar mais. Mas era preciso dar a volta ao episódio. Nele, os maquiadores tinham de rejuvenescer mulheres com idade mais avançada.

Fiquei a matutar nisso. Tempo. Voltar atrás. Tempo. Voltar atrás. E o McKee saltou-me da lembrança. Essa seria a "controlling idea" do episódio: tempo voltando atrás.

Gostaria que tivessem estado lá para verem a cara dos meus colegas quando eu disse "vamos contar esse episódio de trás para a frente".

Claro que não fizemos um simples rewind, mas montámos uma série de flashbacks e flashforwards, começando com o tom geral da avaliação final dos jurados, sem revelar a decisão, para depois partir para o início do dia dos concorrentes, e assim por diante. Sabíamos que o público entenderia: como disse antes, as regras do formato são conhecidas. Mas tivemos sempre um roteiro linear de reserva, e duas versões do episódio chegaram a ser editadas. Um dos editores jurou que, se a versão que idealizáramos passasse, ele correria nu em volta do estádio do Pacaembu. Ele não cumpriu a promessa, mas o episódio passou. No final, até alguns concorrentes chegaram a mandar-nos mensagens de felicitações no Facebook.

Ainda assim, houve uma coisa que faltou no "Desafio". Enquanto estávamos ainda na fase de soltar m**das para o ar, pensámos num anão chinês que em todos os episódios faria uma aparição. Foi a única ideia louca que não conseguimos encaixar, em grande parte porque não sabíamos onde arranjar um anão chinês em São Paulo. Mas vai haver sempre um outro reality no futuro, não?

Aparando Relvas


Pode ser porque estou no Brasil e não estou a ver bem as coisas, mas comicham-me umas perguntas quando vejo as reações ao fato de os ministros portugueses, principalmente Miguel Relvas, estarem a ter os seus discursos calados por pessoas cantando o "Grândola Vila Morena".

Uma dessas ocasiões foi numa conferência no ISCTE, instituição que depois afirmou cultivar "as liberdades individuais e a participação democrática” e lamentar "que a liberdade de expressão não tenha podido ser exercida” por Miguel Relvas. O líder parlamentar do partido do Governo disse até que “a democracia foi abalroada”.

Primeira pergunta: porque é que cidadãos se manifestarem de uma forma que perturba um governante é antidemocrático?

Se reprovarmos a perturbação, estaremos a assumir que uma manifestação não deve perturbar um governante. Que ela só deve ser feita segundo moldes e padrões de comportamento pré-combinados e bem educadamente, reduzindo a desobediência cívil, ainda que pacífica, ao mínimo. Ora, não sei se sou só eu, mas isso não parece lá muito democrático. Estou enganado?

Segunda pergunta: claramente tem havido um choque entre o direito de expressão do ministro e o direito de manifestação dos cidadãos. Mas, se assumirmos que o primeiro vale mais que o segundo e os cidadãos se tem que calar quando um ministro fala, não estamos a assumir algo, digamos, antidemocrático? Eu acho que ser cidadão ainda é, ou deve ser, mais do que só ir de 4 em 4 anos à urna. É um erro assumir isto? Se for, digam-me, hã.

Terceira pergunta: um ministro exerce um poder soberano que lhe é entregue pelos eleitores. Se o desencontro de opiniões entre eles chega ao ponto de ninguém o querer ouvir, não será hora de o ministro concluir que o seu poder está esvaziado e se demitir - ou, no mínimo, ficar calado?

Ao longo destes dias, vi comentários no Facebook e no Twitter que discordavam das minhas suposições e não viam nenhum problema em fazerem-no. Um post expressivo dizia até que "o Zeca não merecia que transformassem o "Grândola, Vila Morena" num fenómeno viral".

Quarta pergunta: os atenienses que inventaram a democracia mereciam Miguel Relvas?

Quinta pergunta: porque o Zeca não merecia?

Qual o problema de um país - afogado em impostos, dívidas, desemprego e as consequências de uma crise que o deixou a sentir-se perante o FMI e a UE como se sentiu perante a Inglaterra no Ultimato de 1890 - cantar a canção fundadora do seu atual regime político como quem diz "apesar de tudo, a democracia portuguesa ainda existe, e está nas mãos de todos que cantam estas palavras"? E qual o problema de propagar essa mensagem?

Aparentemente, nenhum, pois nem a polícia sabe com que crime justificar a identificação que fez de alguns dos manifestantes.

Mas confesso que, de tudo o que li, nada me intrigou tanto como o comunicado da JSD, principalmente porque me pareceu tão idiota, mas tão idiota, que a dada altura confirmei se o site em que o estava a ler não era o do Inimigo Público. Aqui seguem algumas passagens ilustrativas (mas muito pouco ilustres).

"Nos últimos dias, pessoas têm recorrido à perseguição e impedido o direito constitucional de um ministro expressar a sua opinião."
Ir a locais de acesso aberto onde o ministro discursa é perseguição? E, como já perguntei antes, o direito à manifestação dos detentores do poder soberano não é mais importante do que o direito de expressão do seu executor?

"A democracia vive do contraditório e nele se baseia, de forma a respeitar todo o tipo de pensamentos. Não há contraditório quando só uma parte fala (ou grita), e quando não há contraditório a democracia não funciona!"
Não é um pouco exagerado falar em "contraditório" quando falamos da relação entre o ministro e o seu povo - ainda para mais quando a mensagem daquele não parece ter sofrido grandes variações ao longo do tempo? Se não for, pensando que as manifestações respondem às políticas do Governo, não são elas um exercício de "contraditório" pelos cidadãos?
Já agora, há um tom de voz correto para protestar contra o Governo? A JSD conhece-o? Pode divulgá-lo, por favor?

"As pessoas que se manifestaram têm organização, mas carecem de mobilização".
Só para confirmar, estamos a falar das pessoas que fizeram algumas das maiores manifestações do Portugal democrático? Estamos, né?

"A atitude dos manifestantes configura "censura"."
Aqui, por acaso, não tenho perguntas. Só observo que cantar à frente de um ministro parece ter tudo a ver com julgar, arrancar unhas e mandar para o exílio quem diz coisas desconfortáveis para o regime.

Democracia não é um Governo, e um Governo não é democracia. Por isso, o que está em risco quando o povo protesta contra o Governo não é a democracia - é o Governo. Quando a JSD confunde as duas coisas, revela-se ingénua, impreparada e simplória. Mas, acima de tudo, revela medo. Não um temor, um receio, mas o medo infantil de perder alguma coisa. E isso é muito, muito idiota.