O tapete mais feio do mundo

Escrito para a última edição d'A Cabra, porque é sempre bom sentir um pezinho em casa. Inspirado numa história real.

Era uma vez um tapete. Muitas histórias poderiam começar assim. Mas ele não era um tapete qualquer, porque ele era o tapete mais feio do mundo. O dono já não se lembrava de onde o tinha encontrado. Pelo menos, nunca o admitiu a ninguém. Quando Márcio e Dora, um casal de amigos, o visitaram, Márcio riu-se e disse "não acredito que deste dinheiro por isto. Este é o tapete mais feio do mundo!". Dora baixou os olhos, triste com as coisas que o namorado dizia. E o dono do tapete tentou lembrar-se porque é que ainda era amigo do Márcio.
O tapete já ouvia coisas parecidas desde que, acabadinho de sair da linha de produção, o pessoal da fábrica o olhou com preocupação. Um funcionário disse mesmo "será que pode ir para a loja assim?". O patrão chegou, viu toda a gente parada, atirou o tapete para a pilha dos vendidos e gritou "a crise já acabou ou quê? Tudo a trabalhar!".
Na loja, as empregadas puseram-no no fundo da pilha, com a esperança que ninguém o visse e saísse assustado. Mas, um dia, alguém comprou o camarada que estava por cima dele e, sem querer, levou-o também. A rapariga da caixa reparou no engano, mas não disse nada. O tapete mais feio do mundo tinha que se fazer à vida.
Quando o dono do tapete fez aniversário, diminuiu e direcionou sabiamente as luzes para que ninguém na festa conseguisse notá-lo Ao tapete, soube bem sentir tantos pés a pisarem-no. Normalmente, era evitado. Mas nessa noite não: ele podia por fim sonhar que era um tapete igual aos outros, peludo e grande, aqueles tapetes que os pais passam para os filhos e os filhos para os netos e assim por diante. Mas o Márcio estava na festa também, e o Márcio é daquele tipo de pessoas que cria uma roda de convidados em volta dele e se põe a contar coisas que as fazem rir. Entre elas, o tapete mais feio do mundo. Todos explodiram numa gargalhada, menos Dora, que ficava triste com as coisas que o namorado dizia, e o dono do tapete, que decidiu enfiá-lo num armário até decidir o que fazer com ele.
No dia seguinte, enquanto o dono arrumava a confusão que ficara da festa, o tapete estava triste. Ele não gostava do armário. O seu destino enquanto tapete era o chão, onde todos o podiam pisar e limpar os sapatos. O escuro do armário era a humilhação suprema na sua curta vida. E "curta" era realmente a palavra certa: o dono planeava deitá-lo ao lixo no fim do dia.
A campainha tocou. Era Dora. "Posso entrar?". "Claro", respondeu ele com surpresa. Dora era uma mulher cobiçável pelos homens, e o dono do tapete não era exceção. O que ela fazia ali? Ela entrou e despiu-se à frente dele. "Quero-te aqui e agora, com uma condição". Ele estaria disposto a tudo. Ela continuou: "vai ser em cima do tapete".
Nas horas seguintes, o tapete sentiu coisas inimagináveis para a maioria dos tapetes do mundo. O toque amigo da pele humana. A confusão do prazer enquanto joelhos e mãos se fincavam nele. As umidades caindo nos seus pelos, muitas vezes, repetidas vezes. E a perversão também, quando ela gritava o nome do Márcio no meio de uma onda de insultos enquanto o dono do tapete a ia preparando para o clímax. Ela, gozando, levantou os olhos. E o dono do tapete lembrou-se então porque era amigo de Márcio: para ficar com Dora por perto.
Depois de fumarem um cigarro, ela levantou-se, pegou as roupas do chão e vestiu-se. Ele riu-se: "E eu que ia deitar o tapete fora". Ela, que já estava perto da porta, disse "podes fazê-lo. Ele é feio mesmo. Mas há coisas que é má educação dizer". E saiu.
Mais tarde, o tapete estava no meio do lixo de um contentor e sentia o ar frio da noite. Era o fim, ele sabia. Mas, em tão pouco tempo, ele tinha conseguido mais do que tantos outros seus camaradas. Em si, para a morte, levava as marcas de uma tarde de amor. E, sorrindo, foi levado pelos almeidas enquanto, em casa, o seu ex-dono pensava na Dora e tentava inventar uma maneira de preencher o espaço em branco com que ficara no chão.

O que eu quero que o livro que vou escrever tenha

O livro tem que me pôr em causa. E eu vou ter que saber defendê-lo. Defendendo aquilo que me põe em causa, conseguirei, não sei como nem porquê, defender-me a mim também.

Vou escrever sobre o que conheço, o que me interessa e as coisas que me aconteceram. O livro deve ser uma defesa do que acredito ser preciso defender (fora ou dentro de mim), um ataque do que acredito ser preciso atacar (fora ou dentro de mim) e uma narração do que acredito que é preciso ser narrado.

O livro vai ter capítulos curtos. Ninguém tem paciência para nada. Nem eu. Muitos capítulos curtos. Muitos episódios.

Algumas personagens serão uma mistura de várias pessoas que conheci. Isso deve estar justificado dentro do próprio livro: a sucessão de pessoas fez-me esquecer de algumas delas.

O meu livro vai ser concreto. Mesmo que fale de sonhos e coisas imaginadas, queridas, idealizadas, ele vai ser concreto nelas e não adotar esse idealismo como parte da sua matéria constitutiva.

O meu livro não vai ter vergonha daquilo que é, tal como eu não tenho vergonha daquilo que sou.

O meu livro não vai ter medo, pois eu também não tenho medo.

O meu livro vai ser uma história com princípio, meio e fim, mas que pode ter digressões.

A linguagem e a gramática vão variar conforme o lugar que está lá. No Brasil, será brasileiro. Em Portugal, será português.

Eu vou escrever o meu livro como se filma um documentário. Escrever os capítulos que têm unidade temática como se fossem a gravação da realidade. E depois editar.

O meu livro vai ser uma coming up story em que o protagonista é um homem que se transforma num outro homem, e não um adolescente que se transforma num adulto.

O meu livro é escrito numa época de reality shows que apresentam uma versão higienizada do sexo e das relações humanas, ou seja, uma versão que não é real. O meu livro, sendo ficcional, vai ser mais real do que um reality.

Se eu tiver que chorar enquanto escrevo o meu livro, eu vou chorar.

O Kindle e a existência


Eu tenho um Kindle. E eu adoro o meu Kindle. Não tive grandes problemas em adaptar-me à leitura nele e, quanto mais o tempo passa, mais encontro novas maneiras de o utilizar. Uso-o para o trabalho, para tirar notas em textos, que posso depois ver num arquivo à parte. Posso comprar livros na Amazon que são imediatamente baixados. Com o Klip.Me, envio para lá os textos extensos que encontro em sites, para ler de modo bem mais confortável. Sublinho excertos que depois posso encontrar imediatamente, uso o dicionário inglês para palavras que não conheço, faço pesquisa no texto para encontrar só aquilo que me interessa. No fim das contas, o Kindle permite ser mais rápido e prático em ações morosas que uma leitura atenta implicava. Ele tem toda a agilidade que é necessária num tempo em que a leitura pode vir de mil lugares e em mil formatos diferentes. Lutar contra ele (ou contra os livros físicos, que ele não substitui) não faz muito sentido e, sinceramente, irritam-me muitos argumentos de detratores da leitura em ebooks, que raramente percebem que só se trata de uma escolha entre um ou outro fetichismo.

Mas há outra razão para o meu apreço pelo aparelho da Amazon. Eu sou um homem que mora fora do seu país e que, como tal, sente a vida sempre em suspenso. Isso transforma. Sentimos a tendência para reduzir o excesso. Costumo dizer que agora não quero nada na minha vida que não caiba dentro de duas malas. Claro que eu tenho eletrodomésticos em casa, mesas, cadeiras e um colchão de ar. Mas eu não levaria essas coisas para lugar nenhum. Não preciso delas.

É normal dizer-se que, quando compramos um livro físico, o sentimos mais nosso, porque a posse aí é física, material. Eu contraponho que, quando leio um livro eletrónico, a minha ligação com o texto é imediata, porque acontece uma coisa curiosa com o Kindle: enquanto objeto, ele é independente do próprio texto. Num livro impresso não é assim. O livro é o texto que nele está escrito. Mas o Kindle recebe os livros que quisermos, apagamo-los, modificamo-los, substituimo-los. Quando lemos, a nossa ligação com a escrita é uma outra, diferente da que temos com a máquina, com o objeto. Ou seja, com ele nós somos donos, não do livro, mas do texto.

Acho que o resumo disto tudo é que eu acho que não precisamos de muitas coisas, mas precisamos de ler. O Kindle é um passo num caminho em que a leitura se desliga das coisas. É por isso que gosto dele.

O dia e a noite

Pouco a pouco, vou sendo mais deste lugar do que do outro que era. Sempre foi assim, mas nunca me deixa de surpreender a rapidez. Nem uma semana passou e já conheço as padarias, os cafés, os mercados. Também já conversei com um rapaz dos que circulam errantes pela São João. Chamava-se Eduardo, devia ter vinte e poucos anos. As compras estavam a cair-me da mão, porque tinha caixas a mais, e ofereceu-me ajuda. Perguntei-lhe se me ajudava a levar as panelas até casa e ele veio. No meio da brisa lá me disse que o tentaram matar enquanto estava a dormir. Pode ser verdade. Havia uma moda de deitar fogo aos gajos da rua, deitar-lhes querosene em cima enquanto dormiam ou estavam chapados e acender uma faísca para os ver morrer. Na primeira noite que passei aqui, havia vários a dormir por baixo do Minhocão. Sossegados, sem fazer mal a ninguém, só a dormir. Devem ter vindo para aqui depois de a Polícia limpar a Cracolândia ou do incêndio da favela do Moinho. Acredito que um fato não estará desligado do outro, mas isso é o que eu acho. No Minhocão que os abriga, tenho visto passar à noite dois gajos. Parecem-me sempre os mesmos. Presumo que vendam droga, ou pelo menos a andem a procurar. Eles podem fazer isso porque o Minhocão fecha aos carros todas as noites às 22h e só reabre às 6h. No domingo, está fechado o dia todo e enche-se de famílias, corredores, ciclistas, que vêm curtir o sol do fim de semana como se estivessem no Ibirapuera, mesmo que não haja árvores. Hoje vi uns cinco ciclistas que juntaram o dia à noite e se sentaram de lado a fumar um. Quando acabaram, não podiam com as bicicletas. Lembrei-me do Eduardo. Quando chegamos à porta do meu prédio e ele me passou as panelas, dei-lhe os 4 reais que tinha no bolso e disse-lhe para ir comer alguma coisa. Ele sorriu.

O dilema

Às vezes na vida temos que fazer coisas que nunca pensamos que faríamos. Uma delas é elogiar os Backstreet Boys. Eles são o que são, fazem a música que fazem. E, se não fosse o fato de eu preferir pessoas que não se levam muito a sério, talvez me doesse muito afirmar isto. Como prefiro, é só com uma ligeira estranheza que digo que este vídeo é admirável.
httpv://www.youtube.com/watch?v=EDvRs3SceGo
Agora podem chamar-me nomes e tal. Abraços.

O marechal

O militar Manuel Deodoro da Fonseca foi o primeiro presidente da república do Brasil. Amigo do Imperador e com fortes ideias monarquistas, os republicanos só o conseguiram convencer a entrar na revolução fazendo correr o boato de que teria sido emitida uma ordem de prisão contra ele. Sofria de dispneia, que o impedia de dormir. Morreu pouco menos de um ano depois de terminar o seu conturbado mandato de dois anos. O seu desejo de ser enterrado em trajes civis não foi respeitado. Deu nome a várias praças e cidades por todo o Brasil. E, a partir de hoje, eu sou o mais recente morador da Praça com o seu nome.

Escrever: 5 anos, 10 regras

Notei há umas semanas que ando a trabalhar exclusivamente nisto de escrever prosa há já cinco anos. Por isso, lembrei-me de escrever uma série de regras que aprendi na prática ao longo desse tempo. Não se trata de coisas só para quem trabalha com TV ou cinema, até porque não acho que "escritor" e "romancista" sejam os sinônimos que às vezes parecem querer que sejam. Simplesmente, são noções de quem trabalha profissionalmente com histórias.

1. 5% de inspiração, 95% de transpiração
Somos privilegiados por trabalharmos sentados à frente de um computador em vez de carregarmos tijolo na construção civil. As pessoas que desvalorizam as suas vidas tendem a esquecer-se de que poderiam sempre estar pior, e isto não quer dizer que o trabalho na construção civil seja menos nobre, mas só de que não tem a ver com aquilo que somos. Seja como for, isto é trabalho. Temos de fazer uma história funcionar e, para isso, temos de reunir conhecimentos e capacidade de imaginação suficiente para poder vê-la acontecer na nossa mente antes de a passarmos ao papel. Seja lá qual for a modalidade de escrita em que nos apliquemos, o nosso trabalho é pré-ver e registar em papel essa pré-visão, e de um modo absolutamente fascinante, porque as pessoas que vão ler vão ter que se sentir movidas de alguma forma. Já aqui citei Carolina Kotscho: um roteiro é um objeto de sedução. Poder-se-ia dizer o mesmo de qualquer texto, até da legenda de uma foto de meias num catálogo de roupa.

2. Uma história é um castelo de cartas
Um filme são múltiplos setups e payoffs a acontecerem. Causas e consequências. Ações e reações. Como quando se constrói um prédio, um tijolo encaixa no outro e a mudança de um único elemento pode afetar toda a estrutura. Por isso, é preciso conhecer os pilares que podem ser retirados e os que não podem, as paredes que são mestras e as que as não são, porque um dia alguém vai pedir para mudar alguma coisa e nesse momento temos que estar prontos para dizer "Sim, posso mudar isso" ou "Vai ser difícil mudar isso, mas" ou "isso vai ser outra coisa diferente daquilo que começou por fasciná-lo".

3. Manuais de escrita são a teoria específica da nossa atividade
Nós não temos uma sebenta. Existem livros sobre literatura, existem livros sobre cinema. Mas para construir uma história é preciso ler o "Story" do McKee. Para conhecer a arquitetura narrativa cristalizada na experiência dos espetadores, é preciso ler o "Script" do Syd Field. Por muito que se diga que esse tipo de livros passa uma visão limitada e estereotipada do que um filme deve ser - e eu não concordo com isso -, eles são a literatura que ensina na prática a construir uma história e temos a obrigação de os ler e de dominar o seu jargão. Mas...

4. Manuais de escrita não são verdades indiscutíveis e válidas para tudo
Até porque nenhum desses livros ou teorias quer sê-lo. Um caso claro para mim é a jornada do herói de Joseph Campbell. Para mim, ela serve para histórias com um herói claro, como O Feiticeiro de Oz, Matrix, Harry Potter, Star Wars. Pode-se sempre tentar analisar através dela um filme de um outro tipo, com enredos paralelos, multiprotagonistas, miniplot, mas no final dá-me sempre a sensação de exercício formal. A jornada do herói é um modelo que tem os seus méritos, mas é preciso saber quando ela nos pode servir, tal como qualquer outro modelo de construção narrativa. Contar histórias é, antes de tudo, uma aplicação da nossa experiência humana de ouvi-las e sonhá-las. Às vezes, vamos dar por nós a escrever algo que nos surpreende sem entendermos de onde vem tudo aquilo e sem que nisso consigamos reconhecer nenhum modelo. Esse é um momento de pureza absoluta. Por isso, concordo com Unamuno quando ele diz que escrevemos para nos conhecermos a nós mesmos.

5. Contar uma história é guiar a psicologia do público
Samuel Fuller dá-nos em "O Desprezo" de Godard a sua visão do cinema: numa palavra, "emoções". Qualquer produto de entretenimento - e até uma grande obra literária o é - é consumido por quem espera uma viagem emocional, ou seja, uma sucessão de estímulos emocionais que não sentiria se não o fruísse. Diz-se com frequência que é preciso enganchar a atenção do espetador ou do leitor, mas é preciso ir mais longe do que isso. Nós temos que dominar a arte de manipular emocionalmente as pessoas primeiro e de decidir o que fazer com essa manipulação depois. O suspense de Hitchock é um exemplo maior. Nós sabemos que a explosão de um carro vai assustar o público, mas o que é mais eficaz: uma explosão de surpresa ou darmos a saber que o carro tem uma bomba dentro e deixarmos acumular a tensão do público enquanto uma família com 3 crianças vai às compras nele, transformando minutos em horas? Não existe uma resposta certa para esta pergunta fora do contexto da história onde essa cena aparece. Tudo tem de ser decidido caso a caso.

6. Conflito antes de mais nada
A lição de McKee sobre conflito é preciosa e nunca me sai da cabeça. Quanto mais conseguirmos carregar uma cena com conflito, quanto mais conseguirmos fazer com que uma personagem, num determinado momento, esteja em oposição com outra e com ela mesma e, se possível, com o mundo inteiro, mais rica a cena vai ser. A minha experiência prática é que metade das dificuldades com enredo e com progressão dramática ficam resolvidas se pensarmos bem as cenas essenciais em termos do conflito que implicam.

7. Trabalho "estacionado" vai-te morder no cu
É normal trabalharmos em várias coisas ao mesmo tempo e, às vezes, deixamos um projeto de lado para fazer coisas mais urgentes, com prazos mais apertados, como um projeto que está mesmo a calhar para um edital de um canal de TV. Deve fazer parte da nossa rotina de trabalho uma organização sobre o material que temos incompleto, quais os elementos que faltam para o concluirmos e uma expectativa realista de dias até o terminarmos, porque, no futuro, esse projeto deixado de lado vai ser o ideal para um outro edital, um outro canal de TV. E das duas uma: ou o temos debaixo da mão ou nos deixamos levar numa onda como um surfista que não sabe nadar.

8. É preciso dar sempre o melhor
É o que é esperado. E a verdade é que nem sempre ele vai ser bom ou, pelo menos, bom o suficiente para quem o espera. Lidar com a falta de satisfação dos outros faz parte do pacote de se escrever sob contrato. Mas, se se aquilo que saiu foi mesmo o melhor, teremos uma justificação para todas as palavras. Se não a tivermos, talvez seja bom repensar se é mesmo o melhor que conseguimos. Qualquer roteiro, livro, artigo de jornal ou post de blog é a defesa de alguma coisa. Quando o enviamos para o mundo, seja através de um email para o nosso chefe ou clicando no "Publish" aqui do lado, estamos a dizer "este texto é aquilo que eu acho que um texto deve ser".

9. Nem sempre o melhor vai sair
Isto é o que se faz para ganhar a vida. Escrever não é ser um génio. Algum trabalho vai ser melhor do que outro. Todas as coisas que podem atrapalhar um trabalho normal podem atrapalhar aqui. Problemas pessoais, sobrecarga, falta de tempo geral. É preciso saber lidar com as expectativas das pessoas que te vão cobrar. Tu és uma pessoa que te vai cobrar. Lida com as tuas expectativas também. Algum dos trabalhos não vão ser os melhores da tua vida e muitas vezes vais ter que fazer coisas que não gostas de fazer e que não terão até necessariamente que ver com a atividade de escrita. Produção, assistência, redação seja lá do que for. Michael Cunningham fala em Screen Plays: How 25 Scripts Made It to a Theater Near You--for Better or Worse, "só podemos ter a experiência que já temos, só podemos fazer o melhor que podemos e nunca conseguiremos saber o que o mundo vai fazer com qualquer coisa que façamos. (...) É sempre uma aposta. Às vezes, trabalho bom vence; às vezes, trabalho bom falha. Só podemos fazer aquilo que conseguimos fazer e depois esperar para ver como o mundo reage".

10. Toda a gente se esquece de quem escreve
O roteirista é o profissional mais generoso do mundo, porque é o seu trabalho que dá o arranque para o de inúmeros outros profissionais que tendem, na esmagadora maioria dos casos, a esquecer-se dele. Porque é que em curtas-metragens universitárias os técnicos recebem dinheiro, os atores recebem atenção e o roteirista recebe nicles? Só porque toda a gente sabe escrever e nem toda a gente sabe montar uma boa iluminação, isso não quer dizer que toda a gente saiba construir uma história. Sim, devemos ser humildes e aceitar opiniões que são melhores do que as nossas. Mas é precisamente essa humildade que nos vai dar autoridade para depois dizer "eu aceito todas as boas soluções e essa não é uma delas". Todas as pessoas andam no mundo querendo só uma coisa: conseguirem dormir bem à noite. E roterista não é excepção.

Dois barbados, quatro índios e um brasileiro

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Só um aviso:
isto vicia.

A culpa não é do cachorro!


Numa noite de Novembro, quando ainda estava em Portugal, ia pegar o carro para sair e pus o pé em cima de algo volumoso. Levantei o pé e o volume fez um "cóóóó..." como se fosse um fole. Olhei para baixo. Era uma galinha, que o assassino do meu cão tinha caçado lá fora e trazido para o quintal. Ele faz isso desde pequeno e nunca pensei que isso prejudicasse o meu país. Mas depois de ler este título não tenho tanta certeza.

Comissão Europeia processa Portugal por não proteger as galinhas poedeiras

O que parece que está acontecendo no Pinheirinho...

...é a consequência de um entendimento entre poder e dinheiro para impor os interesses da especulação imobiliária sobre os da população.

O art. 6º da Constituição da República Federativa do Brasil reconhece o direito à moradia como um direito fundamental. Deixemos isso ficar na mente. Em 2006, o Movimento dos Trabalhadores sem Terra ocupou um terreno desocupado pertencente a um grupo empresarial. O curioso é que esse terreno, após o assassinato de antigos proprietários sem herdeiros em 1969, foi bem vago e, como tal, passou para as mãos do Estado. E, ainda assim, acabou misteriosamente incorporado pelo grupo de Naji Nahas, que, aparentemente, deve 15 milhões de reais em impostos à Prefeitura de São José dos Campos. E agora o Estado age para desocupar terra em nome da propriedade privada sem que se saiba bem como ela deixou de ser pública.

Agora vejam este vídeo.
httpv://www.youtube.com/watch?v=H8pPOYHmkCc
Como diz o site Maria Frô, observe com atenção o casal com o carrinho de bebê por volta de 2:40; homens pedindo para a polícia parar de atirar que na rota dos tiros tinha idosos, cadeirantes por volta de 4:40; aos 5:40 mulher e criança tentando passar no meio de tiros; as expressões de terror e indignação da família por volta dos 6:03.. Leiam também a reportagem do Blog do Tsavkko para uma perspectiva in loco do que aconteceu no Pinheirinho.

Independentemente de a ação policial estar apoiada numa decisão de tribunal - suspensa pela Justiça Federal e reafirmada sem base jurídica por um juiz estadual -, o que vemos aqui não é uma simples operação de desocupação. Entrar com helicópteros e balas de borracha e atirar indiscriminadamente em pessoas cujo único crime é morar na sua casa, sem acautelar a segurança de crianças, inválidos e idosos, é um ato injustificado e desmedido. A lógica de "no Brasil é assim" já teve o seu tempo. Nenhuma Polícia, em nenhum país do mundo, tem legitimidade para se virar contra a população que jura proteger. Qualquer ordem superior que a oriente nesse sentido é inconstitucional e, como tal, nula.

Enquanto ventos tristes sopram em São José dos Campos, é bom lembrar Adoniran Barbosa. E também que o art. 6º da Constituição da República Federativa do Brasil reconhece o direito à moradia como um direito fundamental.
httpv://www.youtube.com/watch?v=0NCvDg6E3JQ

Explicação ao Brasil da lista da Vice Portugal

A Popload republicou uma lista da Vice Portugal. Para desvanecer as dúvidas sobre os artistas portugueses que lá aparecem:

B Fachada: bem mais novo do que Marcelo Camelo e bem menos fashion. Mais um Devendra Banhart, se Devendra Banhart tivesse influência de música tradicional portuguesa e pop-rock tuga dos anos 80.
httpv://www.youtube.com/watch?v=Ld2hDc5R9iQ&feature=related

Fausto Bordalo Dias: um dos gigantes da música nacional, veio na onda de cantautores de esquerda ligados à revolução democrática nos anos 70. Autor de "Por este rio acima", um dos álbuns mais importantes de sempre em PT. Pode ser considerado um Caetano, mas, como esteve muito tempo desaparecido, será mais um Tom Zé, menos alegre e menos louco.
httpv://www.youtube.com/watch?v=vPxBNVs0s6E

Norberto Lobo e Filho da Mãe: os dois novos expoentes do violão em Portugal. Com a influência clássica da guitarra portuguesa de Carlos Paredes, mas já com trejeitos de jazz e rock - ao contrário da geração anterior -, fazem música melancólica, muito, muito portuguesa e muito, muito bela.
httpv://www.youtube.com/watch?v=XL6r9E7dR1c&feature=related
httpv://www.youtube.com/watch?v=O3J0OHNHOEw

Paus: a banda rock que está acontecendo em Portugal. Têm um toque eletropunk, um tanto de pós-rock e, mais uma vez, bastante de rock português dos anos 80. Estive em Portugal em Outubro e posso dizer que todo mundo lá adora Paus.
httpv://www.youtube.com/watch?v=SMwbye9H84Q

As chouriças pretas da Rosinha do Lapa


Não lhes vou chamar morcelas, porque toda a vida lhes chamei isto: chouriças pretas. Ou de sangue, pronto. Digo com segurança que as da Rosinha do Lapa, que tem o talho na Praça da República de Monção, são as melhores do mundo. Não sei se é do fumeiro ou da carne, mas alguma coisa elas têm, porque são diferentes de quaisquer outras. Em Monção, notava logo a diferença quando a Rosinha não as tinha e a minha mãe tinha de comprar outras noutro lado qualquer. Em Coimbra, ficava-me pelas alheiras que a minha amiga Cândida trazia de Macedo. Deliciosas também, mas alheira é outra liga. Quando almoçava cozido à portuguesa nos cafés de Lisboa e provava aquele sucedâneo com sabor de plástico de embalado, chorava por elas. Aqui, no Brasil, foram das primeiras coisas que trouxe, porque o André, com quem fiquei na primeira semana, me disse logo que isto não era famoso de enchidos e que, se lhe queria mostrar gratidão, era um bom jeito. Nunca mais deixei de as trazer. Se Marcel Proust tivesse conhecido a Rosinha do Lapa, não se tinha andado a meter nas madalenas para lembrar a infância.

Não é normal cozinhar-se com sangue em São Paulo e os nativos ficam meio surpreendidos quando as vêem. No Natal, levei uma para um churrasco na minha produtora (ver foto) e as reações variaram entre a repugnância e a adesão total. Pelo meio, houve quem tivesse franzido o sobrolho no início e repetido a dose no final.

Durante a minha vida aqui, as chouriças pretas da Rosinha do Lapa acompanharam-me por alegrias e tristezas. Uma alegria foi o cozido à portuguesa que o pessoal do Inov-Art armou quando ainda cá estávamos todos e pude vê-los, todos de diferentes regiões de Portugal, a confirmar o que eu já sabia: que são as melhores da História. As tristezas deram-se normalmente como, quando ontem, assei a última chouriça. Mas talvez esqueça isso quando hoje estiver a almoçar a outra metade dela com um belo arroz de açafrão.

Ação e reação

Há um limite para escrever filmes. Um roteiro é um exercício de causalidade. Aquilo que acontece no início tem que ter uma justificação mais à frente. Um guião perfeito é aquele que se fecha em si mesmo, que apresenta um conjunto fechado de causas e consequências conduzido irremediavelmente para um final catártico. Mas a vida não é lógica ou consequencial. Por exemplo, estive a ver o primeiro filme dos X Files, que começa com uma cena em que um cavernícola encontra um amigo morto e com uma ferida aberta na pele. Ele poderia pôr o dedo na ferida e provar o seu sangue. Está dentro do universo selvagem da pré-história, a lógica não se feriria com isso. Mas não faria sentido no filme, porque não serviria para nada mais tarde. A vida é construída com acasos, acessos inexplicáveis, coisas que as pessoas fazem sem justificação. E uma história, com essa ordem ou não, tem de ter um princípio, meio e fim, porque as narrativas servem para acreditarmos que a nossa passagem livre e desorientada por este mundo segue uma continuidade e não faz parte do caos que reina sobre tudo o mais. Uma história não pode copiar a ordem natural das coisas na sua desconexão. Se o fizer, perde a sua motivação, desencontra-se do seu DNA.

Não acredito em ter vida privada

Pelo menos, enquanto escritor. Por duas razões, ou talvez três. É preciso trabalhar muito, sentado a escrever e de pé a viver. Mesmo quando se vive, trabalha-se, porque o nosso trabalho é conhecer o mundo, as pessoas, os temperamentos. Sair à noite e conhecer alguém, amar alguém, quebrar um coração ou ter o teu quebrado, tudo isso é trabalho. Como todo o trabalho, tem objetivos a serem cumpridos. O nosso é dominar o conhecimento da polpa humana. Mas o escritor também não pode ter vida privada porque a vida do escritor é pública. Tudo o que se vive vai alimentar o que se produz. Por isso não acredito em vida privada.

Alô, alô, estupro, Brasil

Os fatos são que uma moça ficou bêbeda no Big Brother, andou aos amassos com um rapaz, foi dormir e ele saltou para baixo dos lençóis. Desde essa noite, o Brasil anda a discutir se ela foi estuprada. Se uma mulher bêbeda pode ser violada, os limites do consentimento, se o rapaz estava bêbedo também, se um bêbedo pode estuprar, etc. A Globo não mostrou nada na versão editada e, se não fosse o pessoal que viu tudo no pay per view e fez barulho nas redes sociais, talvez a polícia nem tivesse sido chamada.

Talvez seja o final da reality TV nos moldes que conhecemos dos últimos 15 anos. Parece-me claro que um programa que chega ao ponto de tornar tópico de discussão se uma mulher foi estrupada ou não em frente às câmeras foi longe demais. O formato BB assenta em fazer coisas acontecer para gerar fofoca, esse é a motivação dele. Um noticiário informa, uma novela conta histórias, o BB gera fofocas. Tudo bem. Ninguém é santo, a fazer TV muito menos. Mas permitir-se colocar pessoas numa condição em que este tipo de dúvida pode surgir é chegar no puro vazio. O atrativo que o BB poderia ter foi-se. A fantasia que ele criava, o mundo além do mundo que, como a Disneylândia, ele arquitetava, desfez-se quando ele se perdeu dentro dele mesmo e bateu de frente contra o real. E essa fantasia nunca mais se recuperará, porque mais ninguém volta a acreditar no Papai Noel depois que sabe que ele é o tio com uma barba.

Marcelino Freire tem razão:
Acho que virei puritano,
melhor eu ficar na minha.

Só não posso concordar
que apenas o negro
tenha de pagar pelo abuso
coletivo.

Por debaixo dos panos,
todas as noites,
sempre foi este
o nosso programa
preferido.

Pensando

Uma vez, ouvi Carolina Kotscho dizendo que um roteiro é um objeto de sedução. A frase é em cheio e não se costuma ler em manuais de escrita. É um texto técnico, ao mesmo tempo uma obra artística que alimenta outros artistas. Ou combate, pois, como disse Truffaut, filma-se contra o roteiro e monta-se contra a filmagem. Mas, para além disso tudo, um roteiro é um instrumento de engate. Escreve-se para fascinar o teu chefe, colegas, produtores, investidores, canais de televisão, estrelas, gajos do marketing. E escreve-se para ti mesmo também, porque qualquer sedução é um discurso com que, na verdade, te conquistas a ti mesmo e a outra pessoa é só alguém que te confirma. A cada história nova que me é proposta, o meu primeiro desafio antes de escrever uma palavra é entender como me posso apaixonar pelo projeto. É uma atividade em que me questiono, me guerreio e me encontro ou desencontro. Entregar-me a um trabalho, como entregar-me a uma pessoa, exige que me apaixone por ele. Que me conquiste a mim mesmo através dele, que ele me confirme. Mas os trabalhos variam por necessidade e uns entram no lugar dos outros. Por isso, a diferença entre mim e as meninas que vendem amor no Love Story não é assim tão grande.

Cine Qua Non nos prémios LER BLOGTAILORS


A Cine Qua Non, fenomenal revista com que colaboro, concorreu a um prémio de edição para melhor design de Arte e Fotografia e foi seleccionada para a fase final do concurso. As três “finalistas” estão agora a votação. Podem votar aqui!

o livro

O livro tem que ser um grito. Do início ao final, um grito de terra e dor. Sem divisão de capítulos, porque os gritos não têm capítulos. Um monólogo que junte tudo o que tenho feito. E tudo é um grito de mim mesmo e um alívio e uma confissão e uma condenação e uma penitência. Uma continuidade de dor e escândalo que merece existir de tão negra e violadora e fundamental. O livro tem que ser a verdade no que diz e como diz. O livro tem que ser meu e um escolho um incómodo um berro bruto com que o passado insulta o futuro e todos os tempos e pessoas se encontram para odiar. O livro tem que ser ódio ódio ódio tudo o que é negro e toda a raiva quente de um confronto. O livro é negro e sangue e sangue negro. O livro é eu.

A chuva

A chuva de São Paulo lembra-me do documentário do Possidónio Cachapa sobre o Urbano Tavares Rodrigues. O documentado diz a dada altura que a mulher compreende a necessidade de solidão dele enquanto escritor. Experimentei a solidão um destes dias, quando não tinha nada para fazer, nada para dizer a ninguém, nenhum lugar aonde ir. Um rumor remexeu-se do fundo e cavou caminho até acima. E eu pude escrever como quando era adolescente e não pensava, com os olhos fechados, só os abrindo de vez em quando para ver se as linhas não se estavam a atropelar. Estava a chover também. Não havia carros, não havia pessoas a passar na rua. O meu quarto pequeno, existir num lugar e tempo sem propósito, sem nada a entender, nenhum livro para ler, nenhum filme para ver, nenhum grito urgente a que assistir: tudo resultou em linhas negras, impensadas, puras, num caderno. Existir simples, básico, sem aplicativos, e deixar o resto falar.

Conto inédito: "Carta aberta do Grupo das Sextas Feiras relativa ao falecimento do Presidente da República"


Escrevi este conto em 2010 para uma revista institucional. Compreensivelmente, ela recusou-o e, para o substituir, escrevi uma carta triste. Ele ficou guardado no meu computador, até que hoje, enquanto via o V for Vendetta, me lembrei que estive em Londres no 5 de Novembro, onde me encontrei com manifestações a serem travadas, e que hoje vi um vídeo de estudantes, que se manifestavam sentados e pacificamente, a serem sprayzados com gás pimenta, como quem passa Raid em melgas porque nos vêm perturbar o sono. Por isso tudo, acho que chegou o momento de o dar a ser lido.


Caro leitor, se nada mais fixar deste texto, eu desejo, em representação do Grupo das Sextas-Feiras, que pelo menos fixe a seguinte mensagem: não fomos nós a matar o Presidente da República. Nós apenas operámos a consequência da causa que foi a acção do Governo e de uma classe política corrupta, do mesmo modo que um buraco numa parede é causado, não pela bala que a fura, mas pelo homem que a dispara. Os motivos para o rapto e condições para a libertação do sequestrado foram assumidos desde o início e tinham como principais pontos os seguintes:

- Fiscalização de todos os actos governamentais por uma entidade civil, apartidária e independente;
- Suspensão das quotas de produção impostas pela União Europeia;
- Reforma agrária, com limitação dos hectares apropriáveis pela mesma pessoa singular ou colectiva;
- Obrigatoriedade das multinacionais se submeterem a uma fiscalização prévia de merecimento ético e ecológico antes de poderem actuar no país;
- Possibilidade de expulsão das mesmas, caso esse merecimento se perca;
- Declaração de nulidade de todas as regras de propriedade intelectual;
- Nacionalização de toda e qualquer forma de propriedade em zonas seleccionadas, com especial rigor na ilha da Madeira;
- Definição de intervalos rigorosos que progressivamente anulem as diferenças salariais entre os trabalhadores dentro da mesma empresa, em todas as empresas portuguesas;
- Fim do ensino universitário tendencialmente exclusivo, privatizado e com finalidade lucrativa, com um pedido oficial de desculpas à nossa geração e ao país.


Estes pontos foram ditados ao PR assim que ele acordou do transe que lhe induzimos e repetidos a todos os nossos interlocutores durante o processo de negociação que se arrastou durante uma semana. Recordo que, após essa primeira leitura, o comentário feito pelo PR foi particularmente insultuoso relativamente às nossas boas intenções e, como tal, tivemos de pô-lo a dormir outra vez. Mas isso agora não interessa.

Durante a negociação, ficámos surpreendidos com o modo como o Governo e também a Casa Civil pareceram particularmente indiferentes aos nossos apelos. Os nossos telefonemas não eram atendidos e, quando o eram, não ouvíamos os famosos ruídos que indiciavam escutas. Ao contrário de tantos cidadãos, ninguém se interessava pelo que dizíamos, mesmo que tivéssemos raptado o Presidente. Riram-se das nossas condições, não acreditavam em nós, ainda que (e talvez precisamente porque) não exigíssemos qualquer quantia monetária para a libertação e apenas o cumprimento daqueles nove pontos, que considerávamos, ainda e sempre, necessários para que este país se tornasse, se não recomendável, pelo menos tolerável. Já num período de míngua de soluções que não se resolveu nem quando propusemos que o PR falasse directamente ao telefone com o PM e o presidente da AR – as agendas carregadas deles não o permitiam - vimo-nos obrigados, em desespero, a recorrer à solução que não desejávamos, mas que na altura se apresentou como a única possível.

A primeira orelha do PR foi enviada no dia 18 de Março para a sede oficial do maior partido da oposição e não, como correu nalguns fóruns anarquistas na Internet, directamente para a Primeira-Dama. Reacção: silêncio, apesar de lá estarem bem claros todos os nossos devidos contactos e motivações. Tememos por um extravio postal e, a 20 de Março, cortámos a segunda orelha, que remetemos para a sede do partido do Governo em envelope verde registado, o que, para uma pequena organização clandestina, representou um grande custo… mas não suscitou impacto maior do que os CV que enviámos logo após acabarmos a licenciatura.

Quero salientar o seguinte ponto: todas as intervenções cirúrgicas foram executadas pelos nossos membros estagiários de Medicina, com recurso ao material que conseguiram surripiar dos respectivos locais de trabalho. Somos raptores, mas não somos bárbaros. O sofrimento do PR foi reduzido ao mínimo possível e foi com satisfação que verificámos que, nos seus breves intervalos de semi-consciência, nada de reprovador exprimiu sobre a nossa acção. Enquanto órgão unipessoal, o PR compreendia que o extirpássemos dos órgãos de modo lento e calculado. Isso animava-nos e levava-nos a entender que estávamos no caminho certo.

Considero que, após esta contextualização, o leitor conseguirá entender e, quem sabe, ser compassivo com o nosso acto seguinte, discutido até à exaustão em várias reuniões extraordinárias e levado a cabo com grande esforço e mobilização de meios. O aterrador silêncio que era contraposto às nossas acções só podia ser quebrado, sabíamo-lo, com uma atitude drástica. Como tal, no dia 22 de Março anestesiámos e desmembrámos o PR. Distribuímos os seus membros pelos seguintes locais: as pernas para o centro do campo dos dois estádios da Segunda Circular; o braço esquerdo para o nariz do Cristo-Rei; e o braço direito masturbando um dos leões nas escadas da Assembleia da República.

Concordando ou não com o método escolhido, o leitor diria que isto terá chegado, que esta acção foi suficiente para que pelo menos alguém se interrogasse sobre o se passava. Mas isso não aconteceu. Da noite para o dia, os monumentos foram limpos dos elementos perturbadores, a normalidade foi reposta. Então compreendemos: alguém tinha interesse em que não se soubesse que o PR fora sequestrado, como se pudesse beneficiar de um Palácio de Belém silencioso. Ou então alguém preferiu assistir à lenta decomposição de um homem a fazer cumprir nove simples pontos - presumindo, claro, que saberia fazê-los cumprir.

Quando o estado de fraqueza extrema do PR causou o seu falecimento (ao que parece, ele padecia de anemia crónica, o que nunca nos foi comunicado), o Grupo das Sextas-Feiras foi desactivado e todas as suas actividades suspensas. Colocámos o semi-presidente no chafariz do Freeport de Alcochete, onde considerámos que seria fácil encontrá-lo. Porém, até hoje não ouvimos qualquer notícia que relatasse a descoberta do corpo ou mencionasse os factos enumerados na nota que deixámos com ele. O tempo foi passando e a única conclusão possível é que não nos faremos entender por quem de direito. Ninguém nos vai ouvir, ninguém nos vai ligar. Nem você, caro leitor, que provavelmente estará a ler este texto como se de ficção se tratasse. Passados todos estes dias, percebemos enfim que nem a morte do Presidente da República chega para alguma coisa neste mundo estúpido. Jogando limpo ou fazendo batota, nunca venceremos nada e essa é a única certeza possível.

Cumprimentos.

O poema novo que disse no Slam Lx na semana passada

Eu sou um homem de metáforas
Perdido nas diásporas
Tudo o que digo
Pode ser mal entendido
Tudo o que faço
Pode ser um embaraço

Um dia, disse a uma amiga
“Dás-me frio na barriga”
E ela, agradecida,
Ofereceu-me a perseguida
Mas não era frio de paixão
Era só indigestão

Há pouco, a moça do bar
Fixou em mim o olhar.
E perguntou “queres gelo?”. Não era feia
E falei de mamilos e nove semanas e meia
Porque a mente não me pára
E ela atirou-me o gelo à cara

Eu sou homem de metáforas
Hipérboles e anáforas
Aquilo que falo
Será burro ou cavalo.
E acostumei-me, de murro em murro,
A passar de cavalo pra burro.

Quando ligo a televisão
E vejo o estado da nação
No Parlamento
Não sinto qualquer sofrimento.
Enquanto tomam conta de nós
Não precisamos levantar a voz

Tudo está bem
Não olhes para além
Deixa-te ficar onde estás
As coisas não são más.
Tens a vida assegurada
Não te incomodes com nada.

Sou um homem de ironias
Sarcasmos e alegrias.
Entende-me quem quiser,
O resto só se puder.
Não confundam a minha voz,
Ela é minha, ela é nós.

Eu sou um homem de metáforas,
Digo palavras tão ásperas.
Vagueiam entre o bem e o mal
Como o pecado original
E vêm plenas de prazer
Doam a quem doer.

Eu não sou quem aqui está
Neste palco, pessoa má
Ou boa, depende da perspectiva.
Eu não sou da gente ativa
Que faz o mundo funcionar
Com o Excel a dar e a dar.

Eu sou dali atrás,
Só no escuro estou em paz
E sozinho é que me encontro
Me defino ponto a ponto.
Eu não sou eu.
Eu não sou eu.

Enquanto lucubro, penso:

Há tempos, uma amiga disse-me que esperava que eu não me tornasse cínico. Está muito difícil controlá-lo. Tenho ao mesmo tempo uma confiança muito grande nas pessoas e uma certeza inabalável que elas são incapazes de não errar. Ao longo do tempo, fui trabalhando esse desejo, como vi o David Lynch dizer uma vez que sabe que uma escultura está pronta porque sente-o nas pontas dos dedos. Eu fui trabalhando esse desejo e expetativa até uma condição em que esse erro me aparece carinhoso, do tipo "que carinhosa, esta pessoa, não conseguiu manter a pila dentro das calças e fodeu a cena boa que tinha" ou "que querida, esta pessoa, encheu-se de dívidas e agora vai redescobrir que a natureza humana não é muito melhor do que a da lama" ou "que carinhosa, esta pessoa, fez um casamento e um bebé porque achava que queria ser igual à amiga e agora já olha para o marido e para o filho com ar de quem quer estar longe, longe, longe". Ou seja, não tenho fé nenhuma em ninguém. Ao mesmo tempo, adoro toda a gente. É divertido.

It's funny how things go

Tenho três coisas para fazer, mas não vou citar Pessoa, não vou citar Pessoa, não vou citar Pessoa, não vou citar Pessoa, não v...
Ai que prazer não cumprir um dever.

Foda-se.

Era desnecessário, isto. Até porque não tenho prazer nenhum em não cumprir os deveres. Não os cumprir agora significa ter que os cumprir depois e com menos tempo. Estou velho, está visto.

A razão para adiar é não conseguir tirar da cabeça que não me lembro de nenhum equivalente em inglês para as palavras "escarrar" e "escarro". "Spit" é insuficiente, "sputum" é insatisfatório. Mas "escarro" lembra muito "escara", ou "scar", o que faz sentido, de algum modo, porque "Scar" é o álbum que contém uma canção que tenho ouvido muito.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vii5ydVSNec

Isso faz ainda mais sentido, até porque este texto começou com música. Vocês não sabem, não podem saber da minha vida, mas tudo tem a ver com ter visto um filme quando era muito novo. Aos 1m55 deste vídeo, fica explicado.

httpv://www.youtube.com/watch?v=ZS_GagmpfvU

Fico feliz por ter esclarecido tudo.

Poema de ler baixo

entre o que vês e dizes
não existe nada
és simples e sem malícia
não sabes nada
de computadores
não temes pedir
ajuda a estranhos

entre o que vês e dizes
não há teias ou
imundície há só
o que és e aquela
transparência
do que é real
e luz

entre o que vês e dizes
sorris porque
achaste enfim quem
te matasse a fome

fizeste um sanduíche
com minhas palavras

e comeste-me
a vergonha.

Quero subsídios estatais para programas de reality!

Cheguei hoje à conclusão que os programas de reality TV promovem a imagem de um país no estrangeiro e é essencial que eles sejam apoiados pelos Ministérios de Turismo. Sinceramente, que país preferiam visitar?

Portugal...
httpv://www.youtube.com/watch?v=10jnI1DtaOY

...o Brasil...
httpv://www.youtube.com/watch?v=CP64KdHAqBs

...ou a Suécia?
httpv://www.youtube.com/watch?v=ZPKacexvc6s

"Brasileiro não é de confiança": negando ideias, 2

Série de posts sobre coisas que se poderão pensar sobre o Brasil e os Brasileiros e que não são assim bem verdade.

Em Portugal, é normal pensar-se que a palavra dos brasileiros não é confiável, que não se pode contar com aquilo que eles prometem, que não se deve esperar muito dos seus acordos. Como em muitos outros mal entendidos entre as nossas duas nações, isto surge de um desencontro que é mais semântico do que psicológico. É o mesmo tipo de engano que leva os brasileiros a pensar que português precisa de ter tudo muito bem explicadinho porque é menos provido de capacidade cerebral. Não é por isso (a menos que seja um português pertencente à classe política), mas sim porque não falamos a mesma língua. A palavra "camisola" em Portugal é como falar "blusa". Tipo, não é uma coisa para as senhoras usarem enquanto dormem, significado de "camisola" no BR, mas à qual a gente chamaria "camisa de dormir". Um português que chega aqui e percebe aquilo que tem para jogar tem duas alternativas: ou é chatinho com explicações ou morre soterrado numa avalanche de confusão.

Quando eu cheguei ao Brasil, o amigo com quem morei uma semana antes de ter arranjado casa (ou seja, antes de ele me ter expulsado), disse-me que, se acontecer alguma coisa, se vir que algo está a demorar muito, que não me estão a dar o que preciso, descontrai. Não te enerves, diz ele, e conversa de boa. Conversar é, realmente, o melhor a fazer. O brasileiro é emocional, comunicativo e dá importância às impressões que vão sendo transmitidas. A partir do momento em que entendemos isso, não há razão para que algo dê errado. É só contar com uma diferente forma de agir. Brasileiro não falta aos compromissos, mas é descontraído com eles, e comprometer-se implica uma diferente forma de agir e de falar daquelas que há em PT. Dizer que "temos de jantar", que "marcamos para sair", que "vamos combinar" não significa que se jante, que se saia ou que se combine. Mas ele está sendo sincero. Se alguém fala isso, é porque quer mesmo que isso aconteça. Porém, a vida no Brasil é um eterno devir e dá muitas voltas. Brasileiro sente que é preciso deixar que a vida aconteça e as vontades se encontrem a certo momento. Por isso, calma.

"O Brasil é um caos para viajar": negando ideias, 1

Série de posts sobre coisas que se poderão pensar sobre o Brasil e os Brasileiros e que não são assim bem verdade.

O Brasil é um país que assenta na necessidade de se movimentar e quem oferece esse tipo de serviços sabe-o muito bem. Os transportes no Brasil são ótimos. Nas grandes cidades, então, nem se fala. O Metro de São Paulo é dos mais eficientes que já vi, com um tempo de espera muito reduzido. Tem muita gente, é verdade, e a hora de ponta é à japonesa, com toda a gente espremida dentro das carruagens, mas funciona relativamente bem mesmo nessas horas. Noutras cidades onde estive, como o Rio, Recife ou Belém, os transportes também são bons, a informação sobre eles é de fácil acesso e fiável e os destinos são inúmeros, para além de lugares de mais difícil acesso terem gerado o um setor que não existe na Europa, o moto-táxi.

Isso é reflexo de um país onde durante muito tempo foi impossível para uma grande parte da população - e não só os mais pobres - comprar um carro. A industrialização dos anos 50 foi feita com um grande companheirismo entre classe política e fabricantes de automóveis e a primeira deixou cair as ferrovias. Com muita gente sem carro a morar nas periferias e a precisar de ir para as cidades vizinhas ou para os centros para poder trabalhar, as empresas de ônibus farejaram a oportunidade.

Sem discutir se o que veio primeiro foi o ovo ou o cu da galinha, há também uma propensão, digamos, psico-social. O brasileiro liga e desliga das relações com facilidade. Pode ter uma conversa super animada e esvaziar a alma com alguém que acabou de conhecer enquanto esperava o ônibus, mas, se o ônibus chega e não dá para conversar mais, se a conversa fraqueja, se algo não bate certo, desliga e, sem problemas, parte para outra. Não há tanto apego às pessoas como há àquilo que o próprio sente. O outro importa na medida do que eu sinto por ele - o "eu" está sempre lá. Movimento, movimento, eterno devir. Também era relativamente normal um homem ter a família oficial num estado e outra noutro. Os soldados portugueses em África nos anos 70 escolhiam se ficavam com a família de guerra ou se voltavam à portuguesa. Aqui não: o homem viajava de estado para estado ou de cidade para cidade para poder estar à vez com toda a gente.

O maior viajante que já conheci na vida é o Claudio Vitor Vaz, que conheci ainda em Coimbra e que já viajou por meio mundo. Ele não precisa de razões: ele vai. E os brasileiros são assim: eles vão correr o mundo, conhecer outros lugares, e voltam. Ou não. Mas a vida é assim mesmo.

Rafinha Bastos faz o que um comediante faz

Rafinha Bastos respondeu à polêmica de que falei no meu texto anterior. E respondeu como só um comediante pode responder. Lamentando-se? Não. Inventando desculpas? Nem por sombras. Zangado? Talvez, mas não importa. Rafinha fez o que é suposto que um comediante faça: comédia. Afinal, é simples assim.
httpv://www.youtube.com/watch?v=zCQHDXe3ENk

Gisele, Rafinha, o humor e o medo

O meu trabalho assenta na liberdade de expressão. Eu ganho a vida a escrever. Se eu não puder escrever o que quero, não posso ganhar a vida. É assim simples. Uma expressão limitada limita-me no meu direito a trabalhar. Por isso, é sempre com alguma aflição e violência que reajo a opiniões que me dizem que não posso escrever ou dizer algo, porque não é "politicamente correto" ou algo parecido. E isso também me acontece sempre que vejo notícias semelhantes sobre pessoas que ganham a vida da mesma forma.

Na semana passada, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SEPM) pediu a suspensão de uma campanha com Gisele Bündchen, considerando que ela continha conteúdo discriminatório. Vejamos um dos anúncios dessa campanha.
httpv://www.youtube.com/watch?v=nk5H_BdxMz8
Vejamos agora um anúncio anterior da mesma marca, também com Gisele Bündchen.
httpv://www.youtube.com/watch?v=W_i6Kf-8C2c
O copy do anúncio antigo é "ela é brasileira. Sexy. Leve. Natural. Ela é Hope". Parece-me que dizer que a mulher brasileira é necessariamente "sexy, leve, natural" é mais tipificador do que dizer "você é brasileira, use seu charme". Também me parece que o corpo de Bündchen no anúncio mais antigo é mais objeto do que no mais recente, que ao menos lhe dá uma personalidade e voz. Porém, foi esse anúncio o que ofendeu a SEPM. A Secretaria divulgou mesmo um artigo que diz que “as agências publicitárias precisam crescer e aprender com os exemplos de maturidade e de cidadania que as mulheres brasileiras vêm oferecendo ao país. E tudo isso sem precisar tirar a roupa".

Podemos sempre discutir como é que uma marca de lingerie feminina faz um anúncio em que uma mulher não tire a roupa. Pode ser genial, quem sabe. Mas não consigo deixar de pensar no que poderá ter levado a SEPM - e grande parte da opinião pública - a ter reações tão diferentes em relação a dois anúncios com um conteúdo tão parecido. Só consigo chegar a uma conclusão: o tom. O anúncio antigo é sensual, fashion, choque q.b. O recente é cômico. Então, na verdade, não é o que o anúncio afirma sobre a Mulher que causou essa reação, mas o tom com que essa afirmação foi feita. O humor é um meio familiar ao público, que comunica instantaneamente. Pode ser corrosivo, provocador e tudo o mais, mas, acima de tudo, é eficaz, porque vai atrás do espetador. No anúncio antigo, olhamos para Gisele, mas, no mais recente, é ela que nos olha e nos aborda, de uma forma anormal e desconcertante em comerciais de lingerie. Assim, na base, a reação não foi contra a mensagem do anúncio; foi contra o seu tom humorístico, única diferença relativamente ao anúncio anterior com a mesmo conteúdo. E isso leva-nos a Rafinha Bastos.
A primeira parte do caso Rafinha Bastos começou há uns meses com a abertura de um inquérito que lhe foi movido por suspeita de apologia ao crime por ter dito num dos seus shows de stand-up que "toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus" e “o homem que cometeu o ato merecia um abraço, e não cadeia". Isto foi considerado uma possível incitação ao estupro.

Não assisti a esse número de stand-up, mas o Rafinha é um cultor do humor negro. A sua comédia é toda agressiva, confrontacional e controversa. Ora, ninguém é obrigado a gostar de Rafinha Bastos e qualquer um o pode criticar. Pela natureza do seu espetáculo, ele sujeita-se a isso. Mas a pergunta é: goste-se ou não dele, faz sentido o Estado intrometer-se desta forma naquilo que claramente faz parte de um número de comédia, especialmente um que inclui frases tão inconcebíveis como "desde que sou pai, concordo com o aborto"? Por outras palavras, Rafinha Bastos é um comediante que lida CLARAMENTE no terreno do absurdo da violência e da ironia. Quem o vê sabe CLARAMENTE que está a ver um show de comédia, não uma missa ou um discurso político (apesar de haver muitos discursos e missas que parecem piada). Um mecanismo de suspensão dramática funciona nesse caso, da mesma forma que um espetador do filme A Queda sabe que as palavras que Hitler fala nele não são do ator ou do roteirista, mas da personagem Hitler. Um humorista apresenta-se sozinho com o seu nome e, portanto, arrisca-se mais. Mas É um discurso artístico, É uma expressão que deve ser protegida pelo direito ao abrigo da qual é dita. E se um Estado utiliza um instrumento legal, a abertura de um inquérito judicial, como meio de intimidação a um espetáculo que CLARAMENTE não é uma incitação ao estupro, mas um exagero do que se pode falar sobre ele, o que garante que não a usará para intimidar peças de teatro que considera controversas, filmes que considera desconfortáveis, livros que considera imorais? Quem define o limite e garante que não teremos uma censura encapotada que, sem instrumentos diretos para maneirar alguém, age pela amolação, pelo desconforto, pela pressão?

A revista Veja chamou a Rafinha Bastos "o novo rei da baixaria", mas isso é errado. Baixaria não ofende. Baixaria reduz-se ao que é, todo mundo a reconhece como tal e, por isso, não liga. No Brasil, funk é baixaria. Em Portugal, os Malucos do Riso eram baixaria. Mas Rafinha Bastos é mais do que baixaria: é incômodo. Faz humor perturbante e, goste-se ou não do que ele faz, a comédia deve ser uma forma de expressão livre num estado democrático.

Compreendam-me: não se trata de negar o direito do Estado de atuar contra uma apologia ao crime ou de toda e qualquer expressão ser ilimitada. Eu aceito que o Estado atue contra ações ou palavras que perturbam a ordem democrática - mas não contra ações ou palavras que são meramente malcriadas. O exagero é parte necessária da comédia, a suspensão dramática também. Um comediante tem direito a ser malcriado e ofensivo e a submeter-se ao arbítrio do público, que pode ou não gostar dele. Mas agir legalmente contra más educações é coisa de ditadura religiosa.

É preciso dizer-se que há uma tendência para a educação no Brasil. Há uma espécie de consenso silencioso que diz até onde se pode ir nos comportamentos, na exposição do corpo, no sexo, e um temor, silencioso também, de ultrapassar esse limite. Na praia, não há qualquer problema em usar um bikini de fio dental que expõe completamente a bunda, mas é muito incorreto uma mulher fazer topless. O jogo de casino é ilegal, mas o jogo do bicho (uma espécie de loteria clandestina com figuras de animais) é geral e feito às abertas, apesar de continuar ilegal, ao que se diz porque essa ilegalidade beneficia muita gente, incluindo membros da classe política. Cada país tem as suas hipocrisias, nenhum é melhor do que o outro. No entanto, estejamos onde estivermos, não podemos deixar de chamar as hipocrisias pelo nome.

A segunda parte do caso Rafinha Bastos aconteceu há uns dias, quando ele foi afastado do programa que co-apresentava, o CQC, por ter respondido "comeria ela - e o bebê!" à notícia de que a cantora Wanessa Camargo está grávida..
httpv://www.youtube.com/watch?v=_iRScEQU9p0
Agora vejamos o refrão do último êxito da cantora, que trilha uma carreira internacional:
"You gotta zoom zoom zoom, get in my room room room, you gotta boom boom boom, rock me like vrum vrum vrum".
Sejamos sinceros: a carreira de Wanessa assenta largamente na sua representação sexual. Quando Rafinha Bastos exclama que "comeria ela - e o bebê!", ele está a evidenciar esse fato claro. Por muito que se queira, ainda não se pode ser sexual sem sexo. Uma atriz não pode fazer capas de revista evidenciando o decote e esperar que não se fale sobre isso. Um ator de filmes pornos não pode esperar que o considerem pelo seu conhecimento de Shakespeare. Se Rafinha Bastos se coloca a jeito para que não gostem dele e do seu humor, Wanessa Camargo coloca-se a jeito para ouvir piadas sobre a persona sexual que representa na sua imagem pública. Rafinha Bastos foi malcriado, mas não foi gratuito. Foi duro e agressivo como sempre é, como já se espera que seja, e a piada funcionou - a plateia riu, tal como riu Marco Luque, o colega de apresentação, cuja retratação mostra fraqueza de espírito e um desejo de consenso que é contrário ao que deve ser o instinto disruptivo de um humorista.

Uma amiga fez-me um reparo: Rafinha Bastos não estava a falar num teatro cheio do seu público, que pagou R$100 para o ver, mas na televisão aberta. Ela tem razão. Podemos acusá-lo de falta de bom senso. Mas isto leva-nos a outra pergunta: porque o discurso de uma TV aberta tem que ser normalizador e não expor esses choques sociais? Porque a comunicação que toda a gente pode ver tem que fingir que o mundo é um lugar sem conflitos, sem opiniões, onde nada tem implicações em coisa nenhuma? De certa forma, a televisão esvazia o sentido do que diz para poder sobreviver enquanto entidade comunicativa no mundo. Parece que o ideal televisivo implica que as pessoas se respeitem umas às outras fazendo com que o que dizem seja inconsequente, como naqueles concursos de 3 horas na late night tv em que o espetador telefona para ganhar dinheiro: um discurso que não afirma, se oferece ao consenso, evita todo e qualquer tipo de conflito e em que perder e ganhar não importa, porque tudo é nivelado pela planura da transmissão.

Repito: o Brasil não é diferente de qualquer outro país. Portugal não está isento disto (o caso Rui Sinel de Cordes ainda é recente), nenhuma sociedade moderna o está. Mas as democracias constroem-se com os conflitos acontecendo no aberto e discutidos no espaço público. Estas reações, ao contrário, são reflexo de uma sociedade regida pelo medo. Eu não gosto de medo. Metade do meu esforço de sobrevivência consiste em enfrentá-lo, e não consigo aceitar quem se rende a ele. Deita-me abaixo. Só gostaria que mais pessoas pensassem assim.

Coisas do Brasil: a lei do psiu

No cardápio do Papo, Pinga e Petisco, na Praça Roosevelt, vem uma "curiosidade" entre as cervejas e as caipirinhas:
Aqui, neste local, foi realizado o primeiro show de Elis Regina em São Paulo, no ano de 1964.

Era meia noite e o White Album dos Beatles tocava a altos berros. Na verdade, parecia uma versão condensada do White Album, porque as canções soavam mais rápidas do que o costume. E, talvez, não seja o White Album, porque, no preciso momento em que escrevo isto, está a tocar a Let It Be, que é do álbum homónimo. Enfim. O fato ainda mais curioso do que a "curiosidade" é que, logo por baixo da info sobre a mãe da Maria Rita, vem o aviso a bold:
Nosso Bar respeita a "Lei do Psiu", pedimos que não excedam no barulho.

O que me leva a duas perguntas. A primeira: será que a Elis poderia ter tocado aqui em 1964 se já houvesse lei do "psiu"? A segunda: quem batizou ela de lei do "psiu"? É que "psiu" pode ser "silêncio", mas também pode ser "psiu, ó para mim aqui te chamando...". Porque não lei do "chut"? Ou lei do "calou!"? Ou lei do "eu quero dormir, poha!"? Ou lei da "coña marinera"? Definitivamente, houve falta de imaginação.

Sleep Now In The Fire

Os tempos em que pensava que excessos policiais estão sempre errados já passaram e, felizmente, nunca pensei que eles estivessem sempre certos. Mas olhem o que a polícia fez durante a manifestação Occupy Wall Street.
httpv://www.youtube.com/watch?v=Zgr3DiqWYCI
Lawrence O'Donnell é um homem sem medo, e o fato de se assumir "socialista" nos EUA comprova-o. O principal aqui é: a polícia controlou uma manifestação pacífica com particulares e desnecessários requintes de crueldade, abusando da sua força com gritante mal senso e contra os próprios cidadãos que a legitimam. Ou seja, em vez de defender a paz e ordem democráticas contra os seus inimigos, ela perturbou o povo no exercício de um direito democrático elementar. Pode-se dizer que O'Donnell tem um estilo que puxa para o sensacional, mas as suas palavras são verdades cruas e duras. Parece que, em Wall Street, não fazer absolutamente nada pode justificar uma prisão ou uma descarga direta de gás pimenta no rosto. Só para que, como dizem os RATM no vídeo de Sleep Now In The Fire - gravado em Wall Street e que levou à suspensão da atividade da Bolsa por uns minutos -, nenhum dinheiro seja ferido.

Mr. Guache vende!


Anderson Almeida, aka Mr. Guache, foi das primeiras pessoas que conheci no Brasil. Acho-o muito má pessoa e fraco no que faz [super modo de ironia ligado]. Ele pôs à venda no site Artflakes este FABULOSO portfolio inspirado em cartas de tarot, do qual a imagem em cima é só um exemplo. Vamos todos comprar como se não houvesse amanhã, minha gente?

O poeta é um chocolate


É sabido que o Brasil tem um caso de amor com um funcionário administrativo bigodudo, cegueta e alcoólico chamado Fernando Pessoa. Independentemente da qualidade do tiozinho, tanto amor parecia suspeito: alguma coisa mais profunda tinha que explicar identificação tão próxima. Relendo a Tabacaria, percebi tudo.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Se ele tivesse escrito sobre catupiry, então, tinha a vida feita.

Quero uma canção brasileira de 1983 elevada a novo hino de Portugal!

httpv://www.youtube.com/watch?v=9aHoWTs6xE0
A gente não sabemos escolher presidente.
A gente não sabemos tomar conta da gente.
A gente não sabemos nem escovar os dente.
Tem gringo pensando que nóis é indigente...
A gente faz carro e não sabe guiar.
A gente faz trilho e não tem trem prá botar.
A gente faz filho e não consegue criar.
A gente pede grana e não consegue pagar...
A gente faz música e não consegue cantar.
A gente escreve livro e não consegue publicar.
A gente escreve peça e não consegue encenar.
A gente joga bola e não consegue ganhar...

Uma das coisas de que me orgulho mais de ter feito no Brasil

Uma das perguntas que me fazem mais aqui começa por "lá fala...?" ou "sabe o que é...?". Normalmente, não me importo e até gosto. Conheci muitas expressões tupiniquins assim e, se às vezes me perguntam uma coisa que obviamente existe em Portugal, é, presumo, porque não será tão óbvio para estrangeiros. Foi uma das formas por que fui conhecendo esta língua que, como diz o meu amigo Raphael, é a mesma que se fala em PT, mas não é a mesma que se fala em PT. E serviu-me também para concluir da total inutilidade de discutir o acordo ortográfico. Se alguém acha que é isso que vai fazer com que todos se entendam, chama um príncipe que te acorde, Branca de Neve.

Mas às vezes irrito-me porque, já se sabe, gente burra há em todo o lado. E o mundo sofre. Perdoa-me, mundo. Não consigo deixar de ser um Átila social de vez em quando. Mas nunca contra inocentes, que isso fique claro.

Então, deu-se o caso de uma noite ir ao aniversário do amigo de um amigo na Vila Madalena e estarem lá três moças, não mais de 20 anos, muito contentes por estarem lá. Talvez porque a maconha que fumavam estava enrolada em sedas transparentes, o que só por si já é bastante irritante. E a cara de felicidade nas miúdas quando perceberam que havia um mexicano, um francês e um português com quem podiam conversar! Gente, que da hora, né?

Bom, deu-se o caso de a conversa revelar que, se elas ainda tinham um neurônio na cabeça no início, fora competentemente assassinado pelo THC. O meu diabinho começou a espetar a espada quando elas sacaram um celular e se puseram a gravar a conversa como se estivéssemos a ser entrevistados para a rádio. "É que a gente faz sempre isso quando sai, sabe". Sei, filha, e também sei que devias ter levado mais açoites quando eras nova. Mas quando elas pediram "digam uma gíria do país de vocês que não tenha no Brasil" e, virando para mim, perguntaram "sabe o que é gíria?", o sangue ferveu-me a temperaturas nível Fukushima. O francês lá disse alguma gracinha, o mexicano também. E então o celular feito microfone de rádio virou-se para mim.

"Cunh..a...ni". Os olhos delas arregalaram-se de espanto.
"Chunhani? O que é cunhani?"
"Cunhani... é... é quando estás a cozinhar, derramas algo e dizes 'já fiz cunhani!'".
E elas viraram-se umas para as outras dizendo "nossa, lembra aquela vez que fiz cunhani no jantar do meu irmão? Cunhani! Que legal, gente!".

Só então me apercebi de todo o potencial do momento. E não consegui resistir. Posso ter comprado um lugar permanente e com vista panorâmica para o Inferno, mas tudo isso vale a beleza pungente do que se seguiu.

"Tem ainda uma palavra parecida com cunhani que também se fala em Portugal..."
"Qual?!"
"Cona. Sabe o que é?"
"Cona?! Não! O que é?"
"Então, cona é muito usado entre mulheres. Se você acha que tua amiga ou tua mãe está muito bonita, você fala 'você está muito cona'".
E eu juro que lágrimas correram pelo meu rosto quando nesse momento elas se viraram umas para as outras e disseram "nossa, amiga, como você está cona hoje!". "Ah, não, querida, você está muito mais cona do que eu". "Não, não, amor, você não está cona, você é cona!"

Pude então desligar-me da conversa. A minha função estava completa. Eu sabia que o acaso cósmico me tinha levado até aquele trio por alguma razão. A razão era aquela. E eu desejo ardentemente que uma pessoa que saiba mesmo o que é "cona" um dia ouça aquela gravação e se mije a rir tanto como eu me mijei. Se isso acontecer e eu souber, vou dar mil e uma graças a Deus. Ou ao Diabo.

A vida imita Scolari

Digamos que você, minha senhora, tem um carro e o vende. O carro vale, você sabe, 1000.

Ora, o seu irmão tinha deixado quadros na mala dele. Esses quadros, só eles, valem 2000. Você sabe tudo isso.

Mas você tem um problema de dinheiro. Assim, vende o carro ao seu vizinho. Vende-o por 500. Não sabe explicar porquê, uma vez que o carro valia 1000, mas vende. E não diz nada ao seu marido sobre os quadros.

Porém, o seu marido tinha-a ajudado a comprar o carro e tem a receber 50. Ainda assim, ele só pede 40. E ele também não sabe explicar porquê.

No final, o casal perde 2510 e nenhum sabe explicar porquê.

E quando o vizinho se atrasa a pagar os 500, eles dizem às pessoas a quem devem dinheiro que não conseguem prever muito bem quando vão receber, como quem não se importa muito.

Mais ou menos isto aconteceu entre o Governo Português, o BPN o BIC e Juan Miró. O BPN é o carro, o BIC é o vizinho, Miró é o irmão, o Estado é o casal.

E, como dizia Scolari, os burros somos nós.

Algumas opiniões sobre música house, reunidas em conversa com meu amigo Pablito

House faz-me querer levar um murro nos queixos só para sentir dor e saber que a dor é real.

House faz-me querer partir um copo e enfiar um caco no olho. E depois enfiá-lo no olho do Pablito. O sangue quente caindo pela cara far-nos-á sentir em comunhão com o caos organizado e pulsante da vida.

House faz-me querer dar um pontapé na cara de uma criança e, enquanto a vejo cair, chorar.

House faz-me querer estrangular o amor e enterrar as sobras num pântano de trufa, para que possa ser encontrado milhares de anos mais tarde em perfeito estado de conservação.

House faz-me querer comprar um kilt, para poder rasgá-lo e cavalgar um cavalo à chuva.

House dá-me vontade de comprar todas as revistas da Turma da Mônica numa banca e dá-las a crianças pobres com a condição de lhes poder tatuar "666" na testa.

House dá-me vontade de ver House na televisão. E depois dar um tiro de revólver nela e ficar triste por a série se chamar House e eu estar sem televisão.

House faz-me querer ir numa festa de formatura de uma escola espírita e espetar uma faca na coxa enquanto todo mundo dança à minha volta.

House faz-me querer pegar cachorros abandonados na rua e matar-lhes a sede com elixir bocal.

House faz-me querer organizar uma missa do sétimo dia em que no final toda a gente tenta partir uma piñata.

House faz-me querer mudar meu nome de Jorge para Pablito e dar o cu, só para poder dizer que o Pablito dá o cu.

House faz-me querer que o botão f12 sirva para detonar uma bomba atômica no atol de Mururoa.

House faz-me querer pensar na crueldade do mundo enquanto nado num mar de Pantene, caviar e cocó.

Coisas do Brasil: miojo


Há na arte culinária todo um capítulo à parte intitulado "cozinha para universitários". Fica no mesmo volume da "cozinha para homens solteiros", da "cozinha para pessoas que não se aprecia muito" e da "cozinha para pessoas que se aprecia, mas que por qualquer razão queremos pôr à prova para saber se gostam mesmo de nós".

Mas foquemos os estudantes por um instante. Quando eu estava na universidade, o prato por excelência era a massa com atum. Água a ferver, massa lá para dentro, atum desfeito depois. Ainda que não houvesse sal em casa, não importava, porque o atum tem um sabor Microsoft - que monopoliza tudo o resto. A massa enchia, o atum dava sabor. Matava a fome, era rápido e depois podia-se estudar, ou algo que universitários façam mesmo. Ora, eu tenho morado com muitos universitários aqui no Brasil e posso sinceramente dizer que, nas casas onde morei, não deve ter havido um único dia em que não se tenha cozido um miojo.

O miojo não existe só no Brasil. Eu já o tinha comido em Portugal, onde lhe chamamos massa instantânea. Cup Noodles é uma variante semelhante. Ou seja, miojo é uma massa rápida vendida em porções individuais e acompanhada de um pacotinho de caldo em pó que se deita na massa depois que ela está pronta. O caldo, confesso, é aquilo que me custa mais engolir (literalmente). A massa, inventada pelo senhor Momofuku - que só consigo imaginar que seja o equivalente japonês para "motherfucker" - começou a ser vendida no Brasil com essa marca. É barato. Os supermercados Ronda vendem-no a 60 centavos o pacote, por exemplo. Por isso, e por não exigir grandes cuidados de preparação, o miojo conquistou o país. A marca acabou, o nome ficou e ninguém se parece importar que seja quase igual à palavra "mijo". Que, aliás, é exatamente ao que a massa pode saber se se puser lá o pacote inteiro de caldo em pó.

Apesar de ser uma das iguarias mais simples do mundo, o miojo permite-se toda uma série de variações. Há quem tire a água e deite o pó na massa já no prato. Há quem ponha água a mais do que a receita impõe, para ficar com mais molho. Há quem ponha logo o pacote de caldo todo e quem não aguente nem um pouquinho dele. Há quem junte acompanhamentos na panela e quem os prefira fazer só no prato. Há quem coma miojo cru. E, claro, há quem junte atum.

O miojo, ao fim e ao cabo, é como a tela de um pintor. Importante, mas não é ela que define o que o quadro vai ser. O miojo é democrático: aceita tudo e a tudo se presta. Miojo é amor.

Mas massa instantânea não deixa de ser massa - e, bem vistas as coisas, um macarrão normal não demora assim tanto mais a cozer. A caraterística principal do miojo, bem como de toda a cozinha universitária, é ser prático. Então, aliemos isso aos nossos paladares gourmets. A minha versão pessoal do miojo nasceu do entendimento que não custa fazer um molho à parte com azeite, alho e tomate, escorrer a água em excesso da massa, deitar o molho por cima, ralar parmesão e salpicar com orégãos. Fica ótimo e só demora uns 15 minutos a preparar. Quem sabe, com cuidado até se pode usar o caldo em pó.

As pessoas que te falam onde duas estradas se juntam

Eles dizem que tu deves estar feliz, mas nunca te dizem o que é a felicidade. "Isso varia de pessoa para pessoa", dizem. Mas isso é que seria importante saber, não achas? Podes estar só contente. Podes viver a tua vida contente e isso ser uma máscara, ou petróleo lançado sobre o mar, turvando a superfície, impedindo-te de analisar a profundeza do lugar onde entras, não deixando que vás mais longe. Não é possível teres certezas. Eles não te dizem.

Eles também não te dizem o futuro, mas dizem-te que tens que te preparar para ele. Aquele acaso indefinido e pouco específico, que te ataca como uma avalanche lenta e de repente te faz dizer "estou no futuro". Mas tu sabes que o futuro é presente. Se o pensas, se o planeias, se o inventas. Porque podes inventar o futuro. Tu sabes. Estás a fazê-lo agora mesmo. Mas não vai dar certo. Tu sabes, não sabes? Não vai dar certo e, se der, muitas coisas podem acontecer. Pode não resultar mesmo como tu queres que resulte. Ou podes nem gostar dele. O futuro pode ser um resort de férias aonde chegas depois de poupares um ano inteiro e descobres que é chato. E eles não te avisam.

Eles dizem-te que a culpa nunca é deles e, se algo acontecer, eles não são responsáveis. Mas, se as coisas correrem bem, o mérito é todo deles. Eles não são de confiança. Vão-te dizer o que for preciso e ficar de longe a ver como te comportas com o peso que te puseram nas costas, como um miúdo que ata uma lata ao rabo de um cão e fica a ver o que ele faz para se livrar dela. Tu nunca te vais livrar do peso. Ele vai ficar contigo e lembrar-te de quem realmente és e, o mais triste, que um dia lhes deste ouvidos. E tu arrepender-te-ás desse dia para sempre.

JVN hoje no Zé Presidente


Para quem ainda não sabe: hoje à noite vou ao Zé Presidente dizer poemas meus no V.A.I.A / C.A.I-MAL. Para além de palavras, vai ter performance, cinema e música, muita música. Vemo-nos por lá?

Don Draper e eu

Mad Men ganhou há dias o Emmy de melhor série dramática pelo quarto ano consecutivo. O feito seria de respeito por si mesmo, mas é ainda mais impressionante se pensarmos que ela tem quatro temporadas. Ou seja, desde que começou, Mad Men nunca deixou de ser considerado o melhor seriado americano. E, mais impressionante ainda, é-o com merecimento.

Eu adoro Mad Men. A reconstituição histórica é avassaladora, não só pelos figurinos ou a direção de arte, mas porque reproduz com fidelidade um modo de pensar, principalmente o que foram as relações entre homens e mulheres num tempo em que não se pensava que eles poderiam ter papéis e comportamentos semelhantes. Os argumentistas são inteligentes e fazem coisas espantosas, como uma cena da terceira temporada que nunca mais me saiu da cabeça em que Don Draper, sentado ao lado da mulher vendo os filhos à volta de um Maypole, se apaixona pela professora deles quando a vê, livre, linda, dançando de pés descalços na relva. E como é que eles mostram que ele se apaixona sem uma única linha de diálogo? Fazendo-o pousar a bebida e tocar a relva. É uma escrita poética, subtil, inteligente. Mas há também uma razão pessoal que me faz não deixar de ver a série. Tem a ver com a personagem principal, o próprio Don Draper.

Sem entrar no terreno do spoiler, digamos só que Draper é um diretor criativo com segredos que tem de estar sempre - e mais do que qualquer outro - a vender a imagem do que ele é. Numa série sobre publicitários, nenhuma outra pessoa poderia ser a personagem principal: ele experimenta no conflito da sua vida o conflito essencial da atividade publicitária, por isso é que a domina tão bem. Brilhantemente escrito, brilhantemente interpretado por Jon Hamm, Draper tem ainda uma caraterística de que eu não me consigo desligar: ele é muito parecido com o meu avô que já morreu.

O meu avô chamava-se Eleutério. Nome antigo. Morreu há uns 11 anos. Como Don Draper, ele era um homem alto e bonito. Como Don Draper, ele fumava. Como Don Draper, ele era sério, mas emocional. Como Don Draper, ele tinha o cabelo curto com risco ao lado. Na casa dos meus avós, havia uma foto deles jovens pendurada na parede. Não era um retrato em que eles estivessem conscientes da câmara, mas um momento de descontração, longe da fronteira que ele guardava enquanto Guarda Fiscal e das atribulações do negócio de peixe que a minha avó montou sozinha. Estavam de pé, olhando um para o outro e sorrindo. O meu avô, gravata, cigarro na mão. Don-Draper-like-íssimo.

O meu avô era uma pessoa simples, de hábitos regulares, que não abusava de comida ou bebida e que foi deitado abaixo por causa de uma estadia longa demais no hospital por um problema que talvez não fosse tão grave. Foi o início de uma fase de uns dois anos em que o corpo dele foi de choque em choque até chegar no ponto em que já não se conseguia levantar da cama. Esteve muito tempo acamado, a mente atrofiou-se-lhe e morreu confuso, mas não senil. Ele assistiu com consciência à deterioração do próprio corpo.

Como eu já estava a estudar na Universidade, morava longe e nem sempre o via, mas lembro-me perfeitamente da última vez que estivemos juntos. As noras tomavam conta dele e eu fui lá com a minha mãe. Ele dormia e ela disse-me para eu o acordar. Fui lá, chamei-o, mas ele não me reconheceu. Estava acostumado a que a minha mãe o acordasse de certo jeito, por certo ângulo, com certa ênfase, e eu não os conhecia. Apesar de estar ali mesmo ao lado, as rotinas dos movimentos já tinham tomado conta dele. Deixei-o voltar a dormir até que a minha mãe chegou e lhe disse que eu estava lá. Ele virou a cabeça, viu-me e abriu-se num sorriso tão grande que eu pergunto-me se alguma vez verei alguém fazê-lo de novo só por me ver. Conversámos um pouquinho, disse-lhe que as coisas estavam a correr bem, que ia entrar em exames e não ia poder voltar durante um mês ou dois, mas que ele tinha que se pôr forte para quando eu voltasse. Ele sorriu de novo, orgulhoso por ver o neto mais novo bem, Direito em Coimbra, um orgulho. A minha primeira lição desse dia foi que às vezes basta viveres a tua vida para fazeres alguém feliz. A segunda começou no momento em que lhe dissemos que nos íamos embora.

O meu avô dava sempre uma nota aos netos quando o iam visitar. Às vezes, os meus pais reclamavam, "ele não precisa, não se esteja a incomodar", mas ele fazia questão. E, nesse dia, quando a minha mãe lhe disse que nos íamos embora, ele virou-se para ela e murmurou algo como "naquela gaveta, há notas, tira uma e dá-lhe". Aí fui eu quem reclamou. "Dás-me para a próxima, avô, daqui a umas semanas eu dou aqui um salto". Eu não quis aceitar, e ele não se podia levantar e dar-me a nota, senão tê-lo-ia feito. Acho que queria mostrar-lhe que estava independente, ou dar-lhe força para aguentar até à próxima vez que nos víssemos. Quando lhe fui dar um beijo e abraçá-lo, ele olhava-me com um sorriso de conformação. Ele sabia que provavelmente não me veria de novo. Umas semanas depois, antes que eu voltasse a Monção, morreu. Nunca mais o vi vivo.

A minha segunda lição desse dia foi perceber que aceitar o que te dão às vezes faz mais bem a quem te dá do que a ti. Ou seja, aceitar o que a vida te oferece é um segredo tão grande como dar-lhe o que ela te pede. São duas das coisas que estamos sempre a aprender, sempre, constantemente a aprender.

O cadáver do meu avô foi vestido de fato e gravata para o funeral. Elegante, como o Don Draper, por baixo da mortalha translúcida que o tapava. Toquei-lhe na mão. Estava fria e dura, como pedra. E essa foi a terceira lição. Aquilo já não era o meu avô, era outra coisa. Somos o que somos enquanto estamos na vida, esse é o nosso presente. Depois, o nosso corpo é só uma prova do passado. Como uma série de televisão. Ou, ainda melhor, como uma fotografia na parede.

Red Hot Chili Peppers em São Paulo, ou o turista rock

Sabem aquela coisa de turista e viajante serem diferentes? O turista frequenta, o viajante está. O turista quer conforto, o viajante quer experiências. O turista passa férias, o viajante passa riscos. Etc, etc, já entenderam. Basicamente, ponham um japonês de máquina fotográfica ao lado do Bill Bryson e está feita a distinção.

Ia mostrar agora a batalha de lama durante o show dos Greenday no Woodstock de 94, mas não simpatizo especialmente com Greenday, porque acho que eles castraram o rock e foram o peido que espoletou essa série de bandas de pop proto punk que andam por aí aos caídos, como os Blink 182. Por isso, vai o vídeo de Primus do mesmo festival.

httpv://www.youtube.com/watch?v=IaCXxqRNNcc

A espiral confusa e autofágica que o público faz e o fato de estarem pouco a cagar-se se a lama os suja desde que estejam no meio desse círculo moshante quase xamânico era normal. Grunge, início da era Clinton, anos de escuridão republicânica, extravasar a depressão criada pela felicidade synth pop dos anos 80.

Agora, vejamos este vídeo do show de ontem dos Red Hot Chili Peppers em São Paulo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=V2J3Iz6aMJo

Este vídeo foi tirado da área VIP. Só por si, já é uma descoberta do caralho. A ideia que um dia um promotor de concerto pensou, "se nós criarmos uma área cercada à frente, conseguimos meter lá toda a gente que está disposta a pagar mais do dobro do bilhete normal só para ter esse conforto, para tirar fotos e ouvir melhor o som", foi tão boa como se Van Gogh tivesse cortado a orelha para ficar mais bonito. Rock é liberdade e energia - não é a porra de uma grade que te impede de ir para onde queres e te dá mau som se estiveres mais atrás. A ideia de um show como experiência terminou. Parece que vendemos uma simulação do que o rock foi em pílulas leves que qualquer um pode tomar, em vez do real deal.

Mais: contem o número de pessoas que estão a gravar o show com o celular/câmera. Dezenas. E isto só na área VIP. Eu, que estava na pista comum com o povo que só pagou 200 reais, queria moshar. Moshei pela primeira vez aos 15 anos em Vilar de Mouros. Cheguei a casa com a cara coberta de pó, funguei uma mistela negra durante 3 dias, mas, porra, senti-me vivo. E ontem mesmo os putos fixes com metade da minha idade que estavam ao meu lado só mosharam um bocadinho, durante a By The Way. Nem na Give It Away arrancou grande coisa. Ao menos não gravaram nada com o celular.

Ou seja: de 94 a 2011, alguma coisa aconteceu que transformou os ouvintes de rock em turistas de rock e tornou os Red Hot Chili Peppers, que no Woodstock de 99 foram acusados de incitarem ao estupro de mulheres e invasões e destruição de propriedade só por terem tocado a "Fire" do Jimi Hendrix, num espectáculo em que não se participa, antes se fotografa a partir da pista VIP. Um espectáculo equilibrado, em que se sabe o que vai ter, e que não é mau, mas não surpreende. Porque não tem descontrolo. E o descontrolo importa muito nestas coisas.

O café Santa Cruz em Coimbra

Tenho-me lembrado dele. Um café antigo, em que os empregados andam de uniforme, construído na antiga sacristia da igreja com o mesmo nome. Parece um daqueles lugares que se vê nos guias turísticos de Praga: reposteiros, paredes de pedra, antecâmaras altas, espelhos debruados. O corpo de Dom Afonso Henriques está sepultado lá ao lado enquanto turistas, estudantes e os advogados das redondezas tomam cafés, águas e a dose diária de álcool. Há quem escreva coisas em caderninhos. Eu fi-lo. Tê-lo-ia feito mais, se ainda assim ele não fosse caro para bolso de alumni.

Um dia, entrou lá o Hélder Wasterlain e sentou-se na minha mesa. Trocámos as novidades e então ele disse-me "Olha para cima". Nunca o tinha feito, nunca me tinha lembrado. O teto é escurecido, negro, como se tivesse sido queimado com um maçarico gigante. "Fumo", disse ele, "primeiro dos incensórios, depois dos cigarros". Décadas e décadas de cigarros fumados por baixo daquele teto maciço criaram uma capa negra (muito a la Coimbra) impressionante. E essa colaboração inconsciente dos clientes do Santa Cruz teve o efeito precioso de impedir que a pedra erodisse e caísse em pedaços sobre as mesas.

Às vezes, comportamentos aparentemente viciosos podem aguentar algo durante anos e anos. Isso é assim para o teto da sacristia de Santa Cruz. E também o é para pessoas.

Angry Birds e o mundo


A natureza humana é adorável, porque é sempre contraditória. A única certeza que todos temos é que os nossos dias neste mundo estão contados, ninguém conhece a conta certa e temos de aproveitar todos os momentos, porque podem bem ser os últimos. E, ainda assim, ninguém hesita em "matar tempo" de vez em quando. Matar tempo, como se nos vingássemos daquilo que, no fim das contas, nos matará a todos. Mas isto não é desconsideração. Impérios são construídos à volta da matança de tempo. O Facebook é um exemplo. Qualquer atividade artística, na criação ou fruição, também.

Um dos casos mais marcantes de matar tempo da modernidade é o Angry Birds. Neste jogo, atiramos pássaros contra edifícios rudimentares construídos de gelo, madeira e pedra, para fazer explodir uns seres em forma de balão gelatinoso. Os pássaros variam de peso e poder. Alguns multiplicam-se em três, que nem zagalotes de caçadeira. Outros podem explodir como bombas e outros têm a capacidade de ganhar um efeito turbo especialmente destruidor a meio do salto. O jogo é simples e ingénuo, mas eu acredito que muitas coisas se escondem nas suas entrelinhas. Sim, isso mesmo. Angry Birds é metáfora.

A primeira coisa que eles nos ensina é que pássaros não têm que ser os bichos pequenos e delicados a que estamos acostumados. Sim, pássaros podem ser maus. Sim, pássaros podem ser fortes. Sim, pássaros podem estar zangados. Hitchock já nos tinha dito tudo isto, mas há uma diferença: em "The Birds", os pássaros são a mão do mal. E em Angry Birds nós próprios os manipulamos para os ajudar a chegar ao seu objetivo. Ou seja, o Angry Birds diz-nos que as armas mais fortes estão onde menos se espera. Angry Birds é auto-ajuda.

Ao mesmo tempo, o Angry Birds mostra-nos que o trabalho em equipa pode destruir o edifício mais forte. Uma espécie de "fuck you, I won't do what you tell me" subliminar, o que é de louvar, pois muita criançada joga isto. Angry Birds é um instrumento fundamental na aprendizagem da próxima vaga de anarquistas. Por isso, Angry Birds é política.

O Angry Birds também nos diz que a destruição é uma força tão grande no mundo como a criação. Afinal, eles só estão zangados porque uns seres gordos, verdes e repugnantes lhes roubaram os ovos. Demolir os edifícios e matar os vilões significa recuperar a ninhada e a nova geração de birds, que, espera-se, serão tão angry como os pais. Ou seja, a destruição abre o caminho para uma nova criação - exatamente o papel que o deus Shiva tem no Hinduísmo. Assim chego à minha última conclusão: Angry Birds é cultura. Viva o Angry Birds.

Coisas do Brasil: catupiry e chocolate


Aprende-se na catequese e na igreja e nos vídeos do padre Marcelo Rossi que Deus é diferente, porque é omnipotente, omnisciente e omnipresente. Das primeiras caraterísticas, não tenho muito a dizer. Mas na terceira, no Brasil, ele não tem o primeiro lugar indisputado. Duas coisas estão, se não mais, pelo menos tão presentes na vida neste país: o catupiry e o chocolate.

Há dois momentos na vida de um homem: antes de ele saber o que é catupiry e depois. A coisa parece respeitável de início. Uma espécie de creme de queijo, um pouco à la Philadelfia, mas sem sabor sintetizado, inventado por um italiano em Minas Gerais há 100 anos. Um amigo mais velho disse-me que o catupiry não é assim tão antigo na sua ubiquidade. Foi só nos últimos 20 anos que a hotelaria descobriu todo o seu potencial e o começou a utilizar em tudo o que é possível. Hambúrgueres, sanduíches, tortas, pizzas, coxinhas e todo o tipo de salgados, acompanhamento em dezenas de pratos, doces e sobremesas várias. A sofisticação das casas vê-se no fato de utilizarem "o verdadeiro Catupiry" ou só um sucedâneo e "com ou sem" catupiry é uma pergunta da praxe em qualquer lugar que venda comida. Ou seja, no Brasil há toda a comida, por um lado, e, pelo outro, há catupiry. Ele é um continente à parte. Se fosse um país, era a Austrália.

Foi numa novela brasileira que ouvi pela primeira vez a expressão "chocólatra". Era uma dona de casa loira que, se me lembro bem, enganava o marido. E, se é verdade que nunca deixará de haver maridos cornos, também o chocolate não vai abandonar o Brasil tão cedo. O brigadeiro é o doce nacional por excelência; comer brigadeiro de colher (que todo mundo come da mesma panela, juntando o prazer do chocolate e do açúcar ao da saliva dos amigos e colegas de trabalho) é um ato comunitário só comparável à matança do porco. Bombons aparecem do nada, como os ratinhos que dantes se pensava nascerem em caixas fechadas com palha dentro. Brownies são devorados diariamente pelas ruas. Há quem não tome café, mas não abdique do cupcake depois da refeição. E os cardápios de sorvetes afixados em padarias têm uma monotonia cromática tão forte de cacau que os designers gráficos devem odiar fazê-los. Não é o etanol que faz o Brasil mexer-se. Não é o samba ou o futebol. É o chocolate.

A minha pergunta é: porque é que o catupiry e o chocolate nunca se encontraram. Talvez numa pizza, algum dia, alguém o tenha feito. Talvez um dia um molho de chocolate tenha caído sobre uma torta com catupiry, alguém provou e disse "hmmm, que bom, descobri algo novo". Se isso aconteceu, eu quero saber. Contem-me. Pode ser que façamos negócio.

Sério, você estuda na Usp?

Um poema novo que li ontem no ZAP!.

Sério, você estuda na Usp?
Eu estive na Usp já
olhando as árvores tapar a estrada
cheia de carros parados por onde
os líderes médicos doutores futuros desse país e além fronteiras
derramavam seus excessos
porque os banheiros estavam fechados
e eu pensando
"estou vendo os futuros líderes desse país e além fronteiras
mijando e cagando e vomitando
indefesos como eu fui
nus como eu já estive
quando há muito tempo eu pensava ainda
que o futuro é previsível e eu
sou mais que um joguete
bola de gude invisível
atirada das mãos do acaso".

Que legal, você estuda na Usp.
Como você sabe, né
Como você olha com olhos que sabem
toca com mãos que sabem
fala com boca que sabe enquanto
teu corpo se esparrama pela terra
e faz malabares com fitas noturnas
alguém te pôe na boca o remédio da alice
és a melhor pessoa do mundo
teus olhos brilham
tu sorris
podemos ser diferentes
essa noite
do que somos no resto do tempo
podemos nos ver um no outro como quem se olha num lago e sabe
que as ondas vão e vêm distorcendo-nos como pensamentos
e talvez amanhã acordemos
e te sintas vulnerável no silêncio
que nos cobre
no lençol
que nos cobre
sempre o mesmo lençol que me cobre
sempre e cobre e sobe sempre
mais alto até me tapar completamente
e estares
vulnerável no silêncio e nua e eu
indefeso sem segredos
sufocado
e teu

Mas eu sou só este momento
dente de leão transformado a cada golfada de vento
e você estuda na Usp
és mais o que vais ser do que aquilo que és
teu futuro é grande
e eu não caibo na mesma sala que ele
tens muito para fazer na vida
tens uma orientação política de esquerda a alimentar
com o dinheiro que toda semana teu pai dá
e anos até descobrires que nada no mundo é bonito
ou bondoso e tua vida é só a estrada possível
por entre árvores cruéis de carne e sangue
e gigantes cínicos falando merda
por isso fala coração fala
amanhã combinamos algo
não te preocupes
sucesso
combinado
e até mais