O dia e a noite

Pouco a pouco, vou sendo mais deste lugar do que do outro que era. Sempre foi assim, mas nunca me deixa de surpreender a rapidez. Nem uma semana passou e já conheço as padarias, os cafés, os mercados. Também já conversei com um nóia dos que circulam errantes pela São João. Chamava-se Eduardo, devia ter vinte e poucos anos. As compras estavam a cair-me da mão, porque tinha caixas a mais, e ofereceu-me ajuda. Perguntei-lhe se me ajudava a levar as panelas até casa e ele veio. No meio da brisa lá me disse que o tentaram matar enquanto estava a dormir. Pode ser verdade. Havia uma moda de deitar fogo aos gajos da rua, deitar-lhes querosene em cima enquanto dormiam ou estavam chapados e acender uma faísca para os ver morrer. Na primeira noite que passei aqui, havia vários a dormir por baixo do Minhocão. Sossegados, sem fazer mal a ninguém, só a dormir. Devem ter vindo para aqui depois de a Polícia limpar a Cracolândia ou do incêndio da favela do Moinho. Acredito que um fato não estará desligado do outro, mas isso é o que eu acho. No Minhocão que os abriga, tenho visto passar à noite dois gajos. Parecem-me sempre os mesmos. Presumo que vendam droga, ou pelo menos a andem a procurar. Eles podem fazer isso porque o Minhocão fecha aos carros todas as noites às 22h e só reabre às 6h. No domingo, está fechado o dia todo e enche-se de famílias, corredores, ciclistas, que vêm curtir o sol do fim de semana como se estivessem no Ibirapuera, mesmo que não haja árvores. Hoje vi uns cinco ciclistas que juntaram o dia à noite e se sentaram de lado a fumar um. Quando acabaram, não podiam com as bicicletas. Lembrei-me do Eduardo. Quando chegamos à porta do meu prédio e ele me passou as panelas, dei-lhe os 4 reais que tinha no bolso e disse-lhe para ir comer alguma coisa. Ele sorriu.

O dilema

Às vezes na vida temos que fazer coisas que nunca pensamos que faríamos. Uma delas é elogiar os Backstreet Boys. Eles são o que são, fazem a música que fazem. E, se não fosse o fato de eu preferir pessoas que não se levam muito a sério, talvez me doesse muito afirmar isto. Como prefiro, é só com uma ligeira estranheza que digo que este vídeo é admirável.
httpv://www.youtube.com/watch?v=EDvRs3SceGo
Agora podem chamar-me nomes e tal. Abraços.

O marechal

O militar Manuel Deodoro da Fonseca foi o primeiro presidente da república do Brasil. Amigo do Imperador e com fortes ideias monarquistas, os republicanos só o conseguiram convencer a entrar na revolução fazendo correr o boato de que teria sido emitida uma ordem de prisão contra ele. Sofria de dispneia, que o impedia de dormir. Morreu pouco menos de um ano depois de terminar o seu conturbado mandato de dois anos. O seu desejo de ser enterrado em trajes civis não foi respeitado. Deu nome a várias praças e cidades por todo o Brasil. E, a partir de hoje, eu sou o mais recente morador da Praça com o seu nome.

Escrever: 5 anos, 10 regras

Notei há umas semanas que ando a trabalhar exclusivamente nisto de escrever prosa há já cinco anos. Por isso, lembrei-me de escrever uma série de regras que aprendi na prática ao longo desse tempo. Não se trata de coisas só para quem trabalha com TV ou cinema, até porque não acho que "escritor" e "romancista" sejam os sinônimos que às vezes parecem querer que sejam. Simplesmente, são noções de quem trabalha profissionalmente com histórias.

1. 5% de inspiração, 95% de transpiração
Somos privilegiados por trabalharmos sentados à frente de um computador em vez de carregarmos tijolo na construção civil. As pessoas que desvalorizam as suas vidas tendem a esquecer-se de que poderiam sempre estar pior, e isto não quer dizer que o trabalho na construção civil seja menos nobre, mas só de que não tem a ver com aquilo que somos. Seja como for, isto é trabalho. Temos de fazer uma história funcionar e, para isso, temos de reunir conhecimentos e capacidade de imaginação suficiente para poder vê-la acontecer na nossa mente antes de a passarmos ao papel. Seja lá qual for a modalidade de escrita em que nos apliquemos, o nosso trabalho é pré-ver e registar em papel essa pré-visão, e de um modo absolutamente fascinante, porque as pessoas que vão ler vão ter que se sentir movidas de alguma forma. Já aqui citei Carolina Kotscho: um roteiro é um objeto de sedução. Poder-se-ia dizer o mesmo de qualquer texto, até da legenda de uma foto de meias num catálogo de roupa.

2. Uma história é um castelo de cartas
Um filme são múltiplos setups e payoffs a acontecerem. Causas e consequências. Ações e reações. Como quando se constrói um prédio, um tijolo encaixa no outro e a mudança de um único elemento pode afetar toda a estrutura. Por isso, é preciso conhecer os pilares que podem ser retirados e os que não podem, as paredes que são mestras e as que as não são, porque um dia alguém vai pedir para mudar alguma coisa e nesse momento temos que estar prontos para dizer "Sim, posso mudar isso" ou "Vai ser difícil mudar isso, mas" ou "isso vai ser outra coisa diferente daquilo que começou por fasciná-lo".

3. Manuais de escrita são a teoria específica da nossa atividade
Nós não temos uma sebenta. Existem livros sobre literatura, existem livros sobre cinema. Mas para construir uma história é preciso ler o "Story" do McKee. Para conhecer a arquitetura narrativa cristalizada na experiência dos espetadores, é preciso ler o "Script" do Syd Field. Por muito que se diga que esse tipo de livros passa uma visão limitada e estereotipada do que um filme deve ser - e eu não concordo com isso -, eles são a literatura que ensina na prática a construir uma história e temos a obrigação de os ler e de dominar o seu jargão. Mas...

4. Manuais de escrita não são verdades indiscutíveis e válidas para tudo
Até porque nenhum desses livros ou teorias quer sê-lo. Um caso claro para mim é a jornada do herói de Joseph Campbell. Para mim, ela serve para histórias com um herói claro, como O Feiticeiro de Oz, Matrix, Harry Potter, Star Wars. Pode-se sempre tentar analisar através dela um filme de um outro tipo, com enredos paralelos, multiprotagonistas, miniplot, mas no final dá-me sempre a sensação de exercício formal. A jornada do herói é um modelo que tem os seus méritos, mas é preciso saber quando ela nos pode servir, tal como qualquer outro modelo de construção narrativa. Contar histórias é, antes de tudo, uma aplicação da nossa experiência humana de ouvi-las e sonhá-las. Às vezes, vamos dar por nós a escrever algo que nos surpreende sem entendermos de onde vem tudo aquilo e sem que nisso consigamos reconhecer nenhum modelo. Esse é um momento de pureza absoluta. Por isso, concordo com Unamuno quando ele diz que escrevemos para nos conhecermos a nós mesmos.

5. Contar uma história é guiar a psicologia do público
Samuel Fuller dá-nos em "O Desprezo" de Godard a sua visão do cinema: numa palavra, "emoções". Qualquer produto de entretenimento - e até uma grande obra literária o é - é consumido por quem espera uma viagem emocional, ou seja, uma sucessão de estímulos emocionais que não sentiria se não o fruísse. Diz-se com frequência que é preciso enganchar a atenção do espetador ou do leitor, mas é preciso ir mais longe do que isso. Nós temos que dominar a arte de manipular emocionalmente as pessoas primeiro e de decidir o que fazer com essa manipulação depois. O suspense de Hitchock é um exemplo maior. Nós sabemos que a explosão de um carro vai assustar o público, mas o que é mais eficaz: uma explosão de surpresa ou darmos a saber que o carro tem uma bomba dentro e deixarmos acumular a tensão do público enquanto uma família com 3 crianças vai às compras nele, transformando minutos em horas? Não existe uma resposta certa para esta pergunta fora do contexto da história onde essa cena aparece. Tudo tem de ser decidido caso a caso.

6. Conflito antes de mais nada
A lição de McKee sobre conflito é preciosa e nunca me sai da cabeça. Quanto mais conseguirmos carregar uma cena com conflito, quanto mais conseguirmos fazer com que uma personagem, num determinado momento, esteja em oposição com outra e com ela mesma e, se possível, com o mundo inteiro, mais rica a cena vai ser. A minha experiência prática é que metade das dificuldades com enredo e com progressão dramática ficam resolvidas se pensarmos bem as cenas essenciais em termos do conflito que implicam.

7. Trabalho "estacionado" vai-te morder no cu
É normal trabalharmos em várias coisas ao mesmo tempo e, às vezes, deixamos um projeto de lado para fazer coisas mais urgentes, com prazos mais apertados, como um projeto que está mesmo a calhar para um edital de um canal de TV. Deve fazer parte da nossa rotina de trabalho uma organização sobre o material que temos incompleto, quais os elementos que faltam para o concluirmos e uma expectativa realista de dias até o terminarmos, porque, no futuro, esse projeto deixado de lado vai ser o ideal para um outro edital, um outro canal de TV. E das duas uma: ou o temos debaixo da mão ou nos deixamos levar numa onda como um surfista que não sabe nadar.

8. É preciso dar sempre o melhor
É o que é esperado. E a verdade é que nem sempre ele vai ser bom ou, pelo menos, bom o suficiente para quem o espera. Lidar com a falta de satisfação dos outros faz parte do pacote de se escrever sob contrato. Mas, se se aquilo que saiu foi mesmo o melhor, teremos uma justificação para todas as palavras. Se não a tivermos, talvez seja bom repensar se é mesmo o melhor que conseguimos. Qualquer roteiro, livro, artigo de jornal ou post de blog é a defesa de alguma coisa. Quando o enviamos para o mundo, seja através de um email para o nosso chefe ou clicando no "Publish" aqui do lado, estamos a dizer "este texto é aquilo que eu acho que um texto deve ser".

9. Nem sempre o melhor vai sair
Isto é o que se faz para ganhar a vida. Escrever não é ser um génio. Algum trabalho vai ser melhor do que outro. Todas as coisas que podem atrapalhar um trabalho normal podem atrapalhar aqui. Problemas pessoais, sobrecarga, falta de tempo geral. É preciso saber lidar com as expectativas das pessoas que te vão cobrar. Tu és uma pessoa que te vai cobrar. Lida com as tuas expectativas também. Algum dos trabalhos não vão ser os melhores da tua vida e muitas vezes vais ter que fazer coisas que não gostas de fazer e que não terão até necessariamente que ver com a atividade de escrita. Produção, assistência, redação seja lá do que for. Michael Cunningham fala em Screen Plays: How 25 Scripts Made It to a Theater Near You--for Better or Worse, "só podemos ter a experiência que já temos, só podemos fazer o melhor que podemos e nunca conseguiremos saber o que o mundo vai fazer com qualquer coisa que façamos. (...) É sempre uma aposta. Às vezes, trabalho bom vence; às vezes, trabalho bom falha. Só podemos fazer aquilo que conseguimos fazer e depois esperar para ver como o mundo reage".

10. Toda a gente se esquece de quem escreve
O roteirista é o profissional mais generoso do mundo, porque é o seu trabalho que dá o arranque para o de inúmeros outros profissionais que tendem, na esmagadora maioria dos casos, a esquecer-se dele. Porque é que em curtas-metragens universitárias os técnicos recebem dinheiro, os atores recebem atenção e o roteirista recebe nicles? Só porque toda a gente sabe escrever e nem toda a gente sabe montar uma boa iluminação, isso não quer dizer que toda a gente saiba construir uma história. Sim, devemos ser humildes e aceitar opiniões que são melhores do que as nossas. Mas é precisamente essa humildade que nos vai dar autoridade para depois dizer "eu aceito todas as boas soluções e essa não é uma delas". Todas as pessoas andam no mundo querendo só uma coisa: conseguirem dormir bem à noite. E roterista não é excepção.

A culpa não é do cachorro!


Numa noite de Novembro, quando ainda estava em Portugal, ia pegar o carro para sair e pus o pé em cima de algo volumoso. Levantei o pé e o volume fez um "cóóóó..." como se fosse um fole. Olhei para baixo. Era uma galinha, que o assassino do meu cão tinha caçado lá fora e trazido para o quintal. Ele faz isso desde pequeno e nunca pensei que isso prejudicasse o meu país. Mas depois de ler este título não tenho tanta certeza.

Comissão Europeia processa Portugal por não proteger as galinhas poedeiras

O que parece que está acontecendo no Pinheirinho...

...é a consequência de um entendimento entre poder e dinheiro para impor os interesses da especulação imobiliária sobre os da população.

O art. 6º da Constituição da República Federativa do Brasil reconhece o direito à moradia como um direito fundamental. Deixemos isso ficar na mente. Em 2006, o Movimento dos Trabalhadores sem Terra ocupou um terreno desocupado pertencente a um grupo empresarial. O curioso é que esse terreno, após o assassinato de antigos proprietários sem herdeiros em 1969, foi bem vago e, como tal, passou para as mãos do Estado. E, ainda assim, acabou misteriosamente incorporado pelo grupo de Naji Nahas, que, aparentemente, deve 15 milhões de reais em impostos à Prefeitura de São José dos Campos. E agora o Estado age para desocupar terra em nome da propriedade privada sem que se saiba bem como ela deixou de ser pública.

Agora vejam este vídeo.
httpv://www.youtube.com/watch?v=H8pPOYHmkCc
Como diz o site Maria Frô, observe com atenção o casal com o carrinho de bebê por volta de 2:40; homens pedindo para a polícia parar de atirar que na rota dos tiros tinha idosos, cadeirantes por volta de 4:40; aos 5:40 mulher e criança tentando passar no meio de tiros; as expressões de terror e indignação da família por volta dos 6:03.. Leiam também a reportagem do Blog do Tsavkko para uma perspectiva in loco do que aconteceu no Pinheirinho.

Independentemente de a ação policial estar apoiada numa decisão de tribunal - suspensa pela Justiça Federal e reafirmada sem base jurídica por um juiz estadual -, o que vemos aqui não é uma simples operação de desocupação. Entrar com helicópteros e balas de borracha e atirar indiscriminadamente em pessoas cujo único crime é morar na sua casa, sem acautelar a segurança de crianças, inválidos e idosos, é um ato injustificado e desmedido. A lógica de "no Brasil é assim" já teve o seu tempo. Nenhuma Polícia, em nenhum país do mundo, tem legitimidade para se virar contra a população que jura proteger. Qualquer ordem superior que a oriente nesse sentido é inconstitucional e, como tal, nula.

Enquanto ventos tristes sopram em São José dos Campos, é bom lembrar Adoniran Barbosa. E também que o art. 6º da Constituição da República Federativa do Brasil reconhece o direito à moradia como um direito fundamental.
httpv://www.youtube.com/watch?v=0NCvDg6E3JQ

Explicação ao Brasil da lista da Vice Portugal

A Popload republicou uma lista da Vice Portugal. Para desvanecer as dúvidas sobre os artistas portugueses que lá aparecem:

B Fachada: bem mais novo do que Marcelo Camelo e bem menos fashion. Mais um Devendra Banhart, se Devendra Banhart tivesse influência de música tradicional portuguesa e pop-rock tuga dos anos 80.
httpv://www.youtube.com/watch?v=Ld2hDc5R9iQ&feature=related

Fausto Bordalo Dias: um dos gigantes da música nacional, veio na onda de cantautores de esquerda ligados à revolução democrática nos anos 70. Autor de "Por este rio acima", um dos álbuns mais importantes de sempre em PT. Pode ser considerado um Caetano, mas, como esteve muito tempo desaparecido, será mais um Tom Zé, menos alegre e menos louco.
httpv://www.youtube.com/watch?v=vPxBNVs0s6E

Norberto Lobo e Filho da Mãe: os dois novos expoentes do violão em Portugal. Com a influência clássica da guitarra portuguesa de Carlos Paredes, mas já com trejeitos de jazz e rock - ao contrário da geração anterior -, fazem música melancólica, muito, muito portuguesa e muito, muito bela.
httpv://www.youtube.com/watch?v=XL6r9E7dR1c&feature=related
httpv://www.youtube.com/watch?v=O3J0OHNHOEw

Paus: a banda rock que está acontecendo em Portugal. Têm um toque eletropunk, um tanto de pós-rock e, mais uma vez, bastante de rock português dos anos 80. Estive em Portugal em Outubro e posso dizer que todo mundo lá adora Paus.
httpv://www.youtube.com/watch?v=SMwbye9H84Q

As chouriças pretas da Rosinha do Lapa


Não lhes vou chamar morcelas, porque toda a vida lhes chamei isto: chouriças pretas. Ou de sangue, pronto. Digo com segurança que as da Rosinha do Lapa, que tem o talho na Praça da República de Monção, são as melhores do mundo. Não sei se é do fumeiro ou da carne, mas alguma coisa elas têm, porque são diferentes de quaisquer outras. Em Monção, notava logo a diferença quando a Rosinha não as tinha e a minha mãe tinha de comprar outras noutro lado qualquer. Em Coimbra, ficava-me pelas alheiras que a minha amiga Cândida trazia de Macedo. Deliciosas também, mas alheira é outra liga. Quando almoçava cozido à portuguesa nos cafés de Lisboa e provava aquele sucedâneo com sabor de plástico de embalado, chorava por elas. Aqui, no Brasil, foram das primeiras coisas que trouxe, porque o André, com quem fiquei na primeira semana, me disse logo que isto não era famoso de enchidos e que, se lhe queria mostrar gratidão, era um bom jeito. Nunca mais deixei de as trazer. Se Marcel Proust tivesse conhecido a Rosinha do Lapa, não se tinha andado a meter nas madalenas para lembrar a infância.

Não é normal cozinhar-se com sangue em São Paulo e os nativos ficam meio surpreendidos quando as vêem. No Natal, levei uma para um churrasco na minha produtora (ver foto) e as reações variaram entre a repugnância e a adesão total. Pelo meio, houve quem tivesse franzido o sobrolho no início e repetido a dose no final.

Durante a minha vida aqui, as chouriças pretas da Rosinha do Lapa acompanharam-me por alegrias e tristezas. Uma alegria foi o cozido à portuguesa que o pessoal do Inov-Art armou quando ainda cá estávamos todos e pude vê-los, todos de diferentes regiões de Portugal, a confirmar o que eu já sabia: que são as melhores da História. As tristezas deram-se normalmente como, quando ontem, assei a última chouriça. Mas talvez esqueça isso quando hoje estiver a almoçar a outra metade dela com um belo arroz de açafrão.

Ação e reação

Há um limite para escrever filmes. Um roteiro é um exercício de causalidade. Aquilo que acontece no início tem que ter uma justificação mais à frente. Um guião perfeito é aquele que se fecha em si mesmo, que apresenta um conjunto fechado de causas e consequências conduzido irremediavelmente para um final catártico. Mas a vida não é lógica ou consequencial. Por exemplo, estive a ver o primeiro filme dos X Files, que começa com uma cena em que um cavernícola encontra um amigo morto e com uma ferida aberta na pele. Ele poderia pôr o dedo na ferida e provar o seu sangue. Está dentro do universo selvagem da pré-história, a lógica não se feriria com isso. Mas não faria sentido no filme, porque não serviria para nada mais tarde. A vida é construída com acasos, acessos inexplicáveis, coisas que as pessoas fazem sem justificação. E uma história, com essa ordem ou não, tem de ter um princípio, meio e fim, porque as narrativas servem para acreditarmos que a nossa passagem livre e desorientada por este mundo segue uma continuidade e não faz parte do caos que reina sobre tudo o mais. Uma história não pode copiar a ordem natural das coisas na sua desconexão. Se o fizer, perde a sua motivação, desencontra-se do seu DNA.