O marechal

O militar Manuel Deodoro da Fonseca foi o primeiro presidente da república do Brasil. Amigo do Imperador e com fortes ideias monarquistas, os republicanos só o conseguiram convencer a entrar na revolução fazendo correr o boato de que teria sido emitida uma ordem de prisão contra ele. Sofria de dispneia, que o impedia de dormir. Morreu pouco menos de um ano depois de terminar o seu conturbado mandato de dois anos. O seu desejo de ser enterrado em trajes civis não foi respeitado. Deu nome a várias praças e cidades por todo o Brasil. E, a partir de hoje, eu sou o mais recente morador da Praça com o seu nome.

Escrever: 5 anos, 10 regras

Notei há umas semanas que ando a trabalhar exclusivamente nisto de escrever prosa há já cinco anos. Por isso, lembrei-me de escrever uma série de regras que aprendi na prática ao longo desse tempo. Não se trata de coisas só para quem trabalha com TV ou cinema, até porque não acho que "escritor" e "romancista" sejam os sinônimos que às vezes parecem querer que sejam. Simplesmente, são noções de quem trabalha profissionalmente com histórias.

1. 5% de inspiração, 95% de transpiração
Somos privilegiados por trabalharmos sentados à frente de um computador em vez de carregarmos tijolo na construção civil. As pessoas que desvalorizam as suas vidas tendem a esquecer-se de que poderiam sempre estar pior, e isto não quer dizer que o trabalho na construção civil seja menos nobre, mas só de que não tem a ver com aquilo que somos. Seja como for, isto é trabalho. Temos de fazer uma história funcionar e, para isso, temos de reunir conhecimentos e capacidade de imaginação suficiente para poder vê-la acontecer na nossa mente antes de a passarmos ao papel. Seja lá qual for a modalidade de escrita em que nos apliquemos, o nosso trabalho é pré-ver e registar em papel essa pré-visão, e de um modo absolutamente fascinante, porque as pessoas que vão ler vão ter que se sentir movidas de alguma forma. Já aqui citei Carolina Kotscho: um roteiro é um objeto de sedução. Poder-se-ia dizer o mesmo de qualquer texto, até da legenda de uma foto de meias num catálogo de roupa.

2. Uma história é um castelo de cartas
Um filme são múltiplos setups e payoffs a acontecerem. Causas e consequências. Ações e reações. Como quando se constrói um prédio, um tijolo encaixa no outro e a mudança de um único elemento pode afetar toda a estrutura. Por isso, é preciso conhecer os pilares que podem ser retirados e os que não podem, as paredes que são mestras e as que as não são, porque um dia alguém vai pedir para mudar alguma coisa e nesse momento temos que estar prontos para dizer "Sim, posso mudar isso" ou "Vai ser difícil mudar isso, mas" ou "isso vai ser outra coisa diferente daquilo que começou por fasciná-lo".

3. Manuais de escrita são a teoria específica da nossa atividade
Nós não temos uma sebenta. Existem livros sobre literatura, existem livros sobre cinema. Mas para construir uma história é preciso ler o "Story" do McKee. Para conhecer a arquitetura narrativa cristalizada na experiência dos espetadores, é preciso ler o "Script" do Syd Field. Por muito que se diga que esse tipo de livros passa uma visão limitada e estereotipada do que um filme deve ser - e eu não concordo com isso -, eles são a literatura que ensina na prática a construir uma história e temos a obrigação de os ler e de dominar o seu jargão. Mas...

4. Manuais de escrita não são verdades indiscutíveis e válidas para tudo
Até porque nenhum desses livros ou teorias quer sê-lo. Um caso claro para mim é a jornada do herói de Joseph Campbell. Para mim, ela serve para histórias com um herói claro, como O Feiticeiro de Oz, Matrix, Harry Potter, Star Wars. Pode-se sempre tentar analisar através dela um filme de um outro tipo, com enredos paralelos, multiprotagonistas, miniplot, mas no final dá-me sempre a sensação de exercício formal. A jornada do herói é um modelo que tem os seus méritos, mas é preciso saber quando ela nos pode servir, tal como qualquer outro modelo de construção narrativa. Contar histórias é, antes de tudo, uma aplicação da nossa experiência humana de ouvi-las e sonhá-las. Às vezes, vamos dar por nós a escrever algo que nos surpreende sem entendermos de onde vem tudo aquilo e sem que nisso consigamos reconhecer nenhum modelo. Esse é um momento de pureza absoluta. Por isso, concordo com Unamuno quando ele diz que escrevemos para nos conhecermos a nós mesmos.

5. Contar uma história é guiar a psicologia do público
Samuel Fuller dá-nos em "O Desprezo" de Godard a sua visão do cinema: numa palavra, "emoções". Qualquer produto de entretenimento - e até uma grande obra literária o é - é consumido por quem espera uma viagem emocional, ou seja, uma sucessão de estímulos emocionais que não sentiria se não o fruísse. Diz-se com frequência que é preciso enganchar a atenção do espetador ou do leitor, mas é preciso ir mais longe do que isso. Nós temos que dominar a arte de manipular emocionalmente as pessoas primeiro e de decidir o que fazer com essa manipulação depois. O suspense de Hitchock é um exemplo maior. Nós sabemos que a explosão de um carro vai assustar o público, mas o que é mais eficaz: uma explosão de surpresa ou darmos a saber que o carro tem uma bomba dentro e deixarmos acumular a tensão do público enquanto uma família com 3 crianças vai às compras nele, transformando minutos em horas? Não existe uma resposta certa para esta pergunta fora do contexto da história onde essa cena aparece. Tudo tem de ser decidido caso a caso.

6. Conflito antes de mais nada
A lição de McKee sobre conflito é preciosa e nunca me sai da cabeça. Quanto mais conseguirmos carregar uma cena com conflito, quanto mais conseguirmos fazer com que uma personagem, num determinado momento, esteja em oposição com outra e com ela mesma e, se possível, com o mundo inteiro, mais rica a cena vai ser. A minha experiência prática é que metade das dificuldades com enredo e com progressão dramática ficam resolvidas se pensarmos bem as cenas essenciais em termos do conflito que implicam.

7. Trabalho "estacionado" vai-te morder no cu
É normal trabalharmos em várias coisas ao mesmo tempo e, às vezes, deixamos um projeto de lado para fazer coisas mais urgentes, com prazos mais apertados, como um projeto que está mesmo a calhar para um edital de um canal de TV. Deve fazer parte da nossa rotina de trabalho uma organização sobre o material que temos incompleto, quais os elementos que faltam para o concluirmos e uma expectativa realista de dias até o terminarmos, porque, no futuro, esse projeto deixado de lado vai ser o ideal para um outro edital, um outro canal de TV. E das duas uma: ou o temos debaixo da mão ou nos deixamos levar numa onda como um surfista que não sabe nadar.

8. É preciso dar sempre o melhor
É o que é esperado. E a verdade é que nem sempre ele vai ser bom ou, pelo menos, bom o suficiente para quem o espera. Lidar com a falta de satisfação dos outros faz parte do pacote de se escrever sob contrato. Mas, se se aquilo que saiu foi mesmo o melhor, teremos uma justificação para todas as palavras. Se não a tivermos, talvez seja bom repensar se é mesmo o melhor que conseguimos. Qualquer roteiro, livro, artigo de jornal ou post de blog é a defesa de alguma coisa. Quando o enviamos para o mundo, seja através de um email para o nosso chefe ou clicando no "Publish" aqui do lado, estamos a dizer "este texto é aquilo que eu acho que um texto deve ser".

9. Nem sempre o melhor vai sair
Isto é o que se faz para ganhar a vida. Escrever não é ser um génio. Algum trabalho vai ser melhor do que outro. Todas as coisas que podem atrapalhar um trabalho normal podem atrapalhar aqui. Problemas pessoais, sobrecarga, falta de tempo geral. É preciso saber lidar com as expectativas das pessoas que te vão cobrar. Tu és uma pessoa que te vai cobrar. Lida com as tuas expectativas também. Algum dos trabalhos não vão ser os melhores da tua vida e muitas vezes vais ter que fazer coisas que não gostas de fazer e que não terão até necessariamente que ver com a atividade de escrita. Produção, assistência, redação seja lá do que for. Michael Cunningham fala em Screen Plays: How 25 Scripts Made It to a Theater Near You--for Better or Worse, "só podemos ter a experiência que já temos, só podemos fazer o melhor que podemos e nunca conseguiremos saber o que o mundo vai fazer com qualquer coisa que façamos. (...) É sempre uma aposta. Às vezes, trabalho bom vence; às vezes, trabalho bom falha. Só podemos fazer aquilo que conseguimos fazer e depois esperar para ver como o mundo reage".

10. Toda a gente se esquece de quem escreve
O roteirista é o profissional mais generoso do mundo, porque é o seu trabalho que dá o arranque para o de inúmeros outros profissionais que tendem, na esmagadora maioria dos casos, a esquecer-se dele. Porque é que em curtas-metragens universitárias os técnicos recebem dinheiro, os atores recebem atenção e o roteirista recebe nicles? Só porque toda a gente sabe escrever e nem toda a gente sabe montar uma boa iluminação, isso não quer dizer que toda a gente saiba construir uma história. Sim, devemos ser humildes e aceitar opiniões que são melhores do que as nossas. Mas é precisamente essa humildade que nos vai dar autoridade para depois dizer "eu aceito todas as boas soluções e essa não é uma delas". Todas as pessoas andam no mundo querendo só uma coisa: conseguirem dormir bem à noite. E roterista não é excepção.

A culpa não é do cachorro!


Numa noite de Novembro, quando ainda estava em Portugal, ia pegar o carro para sair e pus o pé em cima de algo volumoso. Levantei o pé e o volume fez um "cóóóó..." como se fosse um fole. Olhei para baixo. Era uma galinha, que o assassino do meu cão tinha caçado lá fora e trazido para o quintal. Ele faz isso desde pequeno e nunca pensei que isso prejudicasse o meu país. Mas depois de ler este título não tenho tanta certeza.

Comissão Europeia processa Portugal por não proteger as galinhas poedeiras

O que parece que está acontecendo no Pinheirinho...

...é a consequência de um entendimento entre poder e dinheiro para impor os interesses da especulação imobiliária sobre os da população.

O art. 6º da Constituição da República Federativa do Brasil reconhece o direito à moradia como um direito fundamental. Deixemos isso ficar na mente. Em 2006, o Movimento dos Trabalhadores sem Terra ocupou um terreno desocupado pertencente a um grupo empresarial. O curioso é que esse terreno, após o assassinato de antigos proprietários sem herdeiros em 1969, foi bem vago e, como tal, passou para as mãos do Estado. E, ainda assim, acabou misteriosamente incorporado pelo grupo de Naji Nahas, que, aparentemente, deve 15 milhões de reais em impostos à Prefeitura de São José dos Campos. E agora o Estado age para desocupar terra em nome da propriedade privada sem que se saiba bem como ela deixou de ser pública.

Agora vejam este vídeo.
httpv://www.youtube.com/watch?v=H8pPOYHmkCc
Como diz o site Maria Frô, observe com atenção o casal com o carrinho de bebê por volta de 2:40; homens pedindo para a polícia parar de atirar que na rota dos tiros tinha idosos, cadeirantes por volta de 4:40; aos 5:40 mulher e criança tentando passar no meio de tiros; as expressões de terror e indignação da família por volta dos 6:03.. Leiam também a reportagem do Blog do Tsavkko para uma perspectiva in loco do que aconteceu no Pinheirinho.

Independentemente de a ação policial estar apoiada numa decisão de tribunal - suspensa pela Justiça Federal e reafirmada sem base jurídica por um juiz estadual -, o que vemos aqui não é uma simples operação de desocupação. Entrar com helicópteros e balas de borracha e atirar indiscriminadamente em pessoas cujo único crime é morar na sua casa, sem acautelar a segurança de crianças, inválidos e idosos, é um ato injustificado e desmedido. A lógica de "no Brasil é assim" já teve o seu tempo. Nenhuma Polícia, em nenhum país do mundo, tem legitimidade para se virar contra a população que jura proteger. Qualquer ordem superior que a oriente nesse sentido é inconstitucional e, como tal, nula.

Enquanto ventos tristes sopram em São José dos Campos, é bom lembrar Adoniran Barbosa. E também que o art. 6º da Constituição da República Federativa do Brasil reconhece o direito à moradia como um direito fundamental.
httpv://www.youtube.com/watch?v=0NCvDg6E3JQ

Explicação ao Brasil da lista da Vice Portugal

A Popload republicou uma lista da Vice Portugal. Para desvanecer as dúvidas sobre os artistas portugueses que lá aparecem:

B Fachada: bem mais novo do que Marcelo Camelo e bem menos fashion. Mais um Devendra Banhart, se Devendra Banhart tivesse influência de música tradicional portuguesa e pop-rock tuga dos anos 80.
httpv://www.youtube.com/watch?v=Ld2hDc5R9iQ&feature=related

Fausto Bordalo Dias: um dos gigantes da música nacional, veio na onda de cantautores de esquerda ligados à revolução democrática nos anos 70. Autor de "Por este rio acima", um dos álbuns mais importantes de sempre em PT. Pode ser considerado um Caetano, mas, como esteve muito tempo desaparecido, será mais um Tom Zé, menos alegre e menos louco.
httpv://www.youtube.com/watch?v=vPxBNVs0s6E

Norberto Lobo e Filho da Mãe: os dois novos expoentes do violão em Portugal. Com a influência clássica da guitarra portuguesa de Carlos Paredes, mas já com trejeitos de jazz e rock - ao contrário da geração anterior -, fazem música melancólica, muito, muito portuguesa e muito, muito bela.
httpv://www.youtube.com/watch?v=XL6r9E7dR1c&feature=related
httpv://www.youtube.com/watch?v=O3J0OHNHOEw

Paus: a banda rock que está acontecendo em Portugal. Têm um toque eletropunk, um tanto de pós-rock e, mais uma vez, bastante de rock português dos anos 80. Estive em Portugal em Outubro e posso dizer que todo mundo lá adora Paus.
httpv://www.youtube.com/watch?v=SMwbye9H84Q

As chouriças pretas da Rosinha do Lapa


Não lhes vou chamar morcelas, porque toda a vida lhes chamei isto: chouriças pretas. Ou de sangue, pronto. Digo com segurança que as da Rosinha do Lapa, que tem o talho na Praça da República de Monção, são as melhores do mundo. Não sei se é do fumeiro ou da carne, mas alguma coisa elas têm, porque são diferentes de quaisquer outras. Em Monção, notava logo a diferença quando a Rosinha não as tinha e a minha mãe tinha de comprar outras noutro lado qualquer. Em Coimbra, ficava-me pelas alheiras que a minha amiga Cândida trazia de Macedo. Deliciosas também, mas alheira é outra liga. Quando almoçava cozido à portuguesa nos cafés de Lisboa e provava aquele sucedâneo com sabor de plástico de embalado, chorava por elas. Aqui, no Brasil, foram das primeiras coisas que trouxe, porque o André, com quem fiquei na primeira semana, me disse logo que isto não era famoso de enchidos e que, se lhe queria mostrar gratidão, era um bom jeito. Nunca mais deixei de as trazer. Se Marcel Proust tivesse conhecido a Rosinha do Lapa, não se tinha andado a meter nas madalenas para lembrar a infância.

Não é normal cozinhar-se com sangue em São Paulo e os nativos ficam meio surpreendidos quando as vêem. No Natal, levei uma para um churrasco na minha produtora (ver foto) e as reações variaram entre a repugnância e a adesão total. Pelo meio, houve quem tivesse franzido o sobrolho no início e repetido a dose no final.

Durante a minha vida aqui, as chouriças pretas da Rosinha do Lapa acompanharam-me por alegrias e tristezas. Uma alegria foi o cozido à portuguesa que o pessoal do Inov-Art armou quando ainda cá estávamos todos e pude vê-los, todos de diferentes regiões de Portugal, a confirmar o que eu já sabia: que são as melhores da História. As tristezas deram-se normalmente como, quando ontem, assei a última chouriça. Mas talvez esqueça isso quando hoje estiver a almoçar a outra metade dela com um belo arroz de açafrão.

Ação e reação

Há um limite para escrever filmes. Um roteiro é um exercício de causalidade. Aquilo que acontece no início tem que ter uma justificação mais à frente. Um guião perfeito é aquele que se fecha em si mesmo, que apresenta um conjunto fechado de causas e consequências conduzido irremediavelmente para um final catártico. Mas a vida não é lógica ou consequencial. Por exemplo, estive a ver o primeiro filme dos X Files, que começa com uma cena em que um cavernícola encontra um amigo morto e com uma ferida aberta na pele. Ele poderia pôr o dedo na ferida e provar o seu sangue. Está dentro do universo selvagem da pré-história, a lógica não se feriria com isso. Mas não faria sentido no filme, porque não serviria para nada mais tarde. A vida é construída com acasos, acessos inexplicáveis, coisas que as pessoas fazem sem justificação. E uma história, com essa ordem ou não, tem de ter um princípio, meio e fim, porque as narrativas servem para acreditarmos que a nossa passagem livre e desorientada por este mundo segue uma continuidade e não faz parte do caos que reina sobre tudo o mais. Uma história não pode copiar a ordem natural das coisas na sua desconexão. Se o fizer, perde a sua motivação, desencontra-se do seu DNA.

Não acredito em ter vida privada

Pelo menos, enquanto escritor. Por duas razões, ou talvez três. É preciso trabalhar muito, sentado a escrever e de pé a viver. Mesmo quando se vive, trabalha-se, porque o nosso trabalho é conhecer o mundo, as pessoas, os temperamentos. Sair à noite e conhecer alguém, amar alguém, quebrar um coração ou ter o teu quebrado, tudo isso é trabalho. Como todo o trabalho, tem objetivos a serem cumpridos. O nosso é dominar o conhecimento da polpa humana. Mas o escritor também não pode ter vida privada porque a vida do escritor é pública. Tudo o que se vive vai alimentar o que se produz. Por isso não acredito em vida privada.

Alô, alô, estupro, Brasil

Os fatos são que uma moça ficou bêbeda no Big Brother, andou aos amassos com um rapaz, foi dormir e ele saltou para baixo dos lençóis. Desde essa noite, o Brasil anda a discutir se ela foi estuprada. Se uma mulher bêbeda pode ser violada, os limites do consentimento, se o rapaz estava bêbedo também, se um bêbedo pode estuprar, etc. A Globo não mostrou nada na versão editada e, se não fosse o pessoal que viu tudo no pay per view e fez barulho nas redes sociais, talvez a polícia nem tivesse sido chamada.

Talvez seja o final da reality TV nos moldes que conhecemos dos últimos 15 anos. Parece-me claro que um programa que chega ao ponto de tornar tópico de discussão se uma mulher foi estrupada ou não em frente às câmeras foi longe demais. O formato BB assenta em fazer coisas acontecer para gerar fofoca, esse é a motivação dele. Um noticiário informa, uma novela conta histórias, o BB gera fofocas. Tudo bem. Ninguém é santo, a fazer TV muito menos. Mas permitir-se colocar pessoas numa condição em que este tipo de dúvida pode surgir é chegar no puro vazio. O atrativo que o BB poderia ter foi-se. A fantasia que ele criava, o mundo além do mundo que, como a Disneylândia, ele arquitetava, desfez-se quando ele se perdeu dentro dele mesmo e bateu de frente contra o real. E essa fantasia nunca mais se recuperará, porque mais ninguém volta a acreditar no Papai Noel depois que sabe que ele é o tio com uma barba.

Marcelino Freire tem razão:
Acho que virei puritano,
melhor eu ficar na minha.

Só não posso concordar
que apenas o negro
tenha de pagar pelo abuso
coletivo.

Por debaixo dos panos,
todas as noites,
sempre foi este
o nosso programa
preferido.

Pensando

Uma vez, ouvi Carolina Kotscho dizendo que um roteiro é um objeto de sedução. A frase é em cheio e não se costuma ler em manuais de escrita. É um texto técnico, ao mesmo tempo uma obra artística que alimenta outros artistas. Ou combate, pois, como disse Truffaut, filma-se contra o roteiro e monta-se contra a filmagem. Mas, para além disso tudo, um roteiro é um instrumento de engate. Escreve-se para fascinar o teu chefe, colegas, produtores, investidores, canais de televisão, estrelas, gajos do marketing. E escreve-se para ti mesmo também, porque qualquer sedução é um discurso com que, na verdade, te conquistas a ti mesmo e a outra pessoa é só alguém que te confirma. A cada história nova que me é proposta, o meu primeiro desafio antes de escrever uma palavra é entender como me posso apaixonar pelo projeto. É uma atividade em que me questiono, me guerreio e me encontro ou desencontro. Entregar-me a um trabalho, como entregar-me a uma pessoa, exige que me apaixone por ele. Que me conquiste a mim mesmo através dele, que ele me confirme. Mas os trabalhos variam por necessidade e uns entram no lugar dos outros. Por isso, a diferença entre mim e as meninas que vendem amor no Love Story não é assim tão grande.

Cine Qua Non nos prémios LER BLOGTAILORS


A Cine Qua Non, fenomenal revista com que colaboro, concorreu a um prémio de edição para melhor design de Arte e Fotografia e foi seleccionada para a fase final do concurso. As três “finalistas” estão agora a votação. Podem votar aqui!

o livro

O livro tem que ser um grito. Do início ao final, um grito de terra e dor. Sem divisão de capítulos, porque os gritos não têm capítulos. Um monólogo que junte tudo o que tenho feito. E tudo é um grito de mim mesmo e um alívio e uma confissão e uma condenação e uma penitência. Uma continuidade de dor e escândalo que merece existir de tão negra e violadora e fundamental. O livro tem que ser a verdade no que diz e como diz. O livro tem que ser meu e um escolho um incómodo um berro bruto com que o passado insulta o futuro e todos os tempos e pessoas se encontram para odiar. O livro tem que ser ódio ódio ódio tudo o que é negro e toda a raiva quente de um confronto. O livro é negro e sangue e sangue negro. O livro é eu.

A chuva

A chuva de São Paulo lembra-me do documentário do Possidónio Cachapa sobre o Urbano Tavares Rodrigues. O documentado diz a dada altura que a mulher compreende a necessidade de solidão dele enquanto escritor. Experimentei a solidão um destes dias, quando não tinha nada para fazer, nada para dizer a ninguém, nenhum lugar aonde ir. Um rumor remexeu-se do fundo e cavou caminho até acima. E eu pude escrever como quando era adolescente e não pensava, com os olhos fechados, só os abrindo de vez em quando para ver se as linhas não se estavam a atropelar. Estava a chover também. Não havia carros, não havia pessoas a passar na rua. O meu quarto pequeno, existir num lugar e tempo sem propósito, sem nada a entender, nenhum livro para ler, nenhum filme para ver, nenhum grito urgente a que assistir: tudo resultou em linhas negras, impensadas, puras, num caderno. Existir simples, básico, sem aplicativos, e deixar o resto falar.

Conto inédito: "Carta aberta do Grupo das Sextas Feiras relativa ao falecimento do Presidente da República"


Escrevi este conto em 2010 para uma revista institucional. Compreensivelmente, ela recusou-o e, para o substituir, escrevi uma carta triste. Ele ficou guardado no meu computador, até que hoje, enquanto via o V for Vendetta, me lembrei que estive em Londres no 5 de Novembro, onde me encontrei com manifestações a serem travadas, e que hoje vi um vídeo de estudantes, que se manifestavam sentados e pacificamente, a serem sprayzados com gás pimenta, como quem passa Raid em melgas porque nos vêm perturbar o sono. Por isso tudo, acho que chegou o momento de o dar a ser lido.


Caro leitor, se nada mais fixar deste texto, eu desejo, em representação do Grupo das Sextas-Feiras, que pelo menos fixe a seguinte mensagem: não fomos nós a matar o Presidente da República. Nós apenas operámos a consequência da causa que foi a acção do Governo e de uma classe política corrupta, do mesmo modo que um buraco numa parede é causado, não pela bala que a fura, mas pelo homem que a dispara. Os motivos para o rapto e condições para a libertação do sequestrado foram assumidos desde o início e tinham como principais pontos os seguintes:

- Fiscalização de todos os actos governamentais por uma entidade civil, apartidária e independente;
- Suspensão das quotas de produção impostas pela União Europeia;
- Reforma agrária, com limitação dos hectares apropriáveis pela mesma pessoa singular ou colectiva;
- Obrigatoriedade das multinacionais se submeterem a uma fiscalização prévia de merecimento ético e ecológico antes de poderem actuar no país;
- Possibilidade de expulsão das mesmas, caso esse merecimento se perca;
- Declaração de nulidade de todas as regras de propriedade intelectual;
- Nacionalização de toda e qualquer forma de propriedade em zonas seleccionadas, com especial rigor na ilha da Madeira;
- Definição de intervalos rigorosos que progressivamente anulem as diferenças salariais entre os trabalhadores dentro da mesma empresa, em todas as empresas portuguesas;
- Fim do ensino universitário tendencialmente exclusivo, privatizado e com finalidade lucrativa, com um pedido oficial de desculpas à nossa geração e ao país.


Estes pontos foram ditados ao PR assim que ele acordou do transe que lhe induzimos e repetidos a todos os nossos interlocutores durante o processo de negociação que se arrastou durante uma semana. Recordo que, após essa primeira leitura, o comentário feito pelo PR foi particularmente insultuoso relativamente às nossas boas intenções e, como tal, tivemos de pô-lo a dormir outra vez. Mas isso agora não interessa.

Durante a negociação, ficámos surpreendidos com o modo como o Governo e também a Casa Civil pareceram particularmente indiferentes aos nossos apelos. Os nossos telefonemas não eram atendidos e, quando o eram, não ouvíamos os famosos ruídos que indiciavam escutas. Ao contrário de tantos cidadãos, ninguém se interessava pelo que dizíamos, mesmo que tivéssemos raptado o Presidente. Riram-se das nossas condições, não acreditavam em nós, ainda que (e talvez precisamente porque) não exigíssemos qualquer quantia monetária para a libertação e apenas o cumprimento daqueles nove pontos, que considerávamos, ainda e sempre, necessários para que este país se tornasse, se não recomendável, pelo menos tolerável. Já num período de míngua de soluções que não se resolveu nem quando propusemos que o PR falasse directamente ao telefone com o PM e o presidente da AR – as agendas carregadas deles não o permitiam - vimo-nos obrigados, em desespero, a recorrer à solução que não desejávamos, mas que na altura se apresentou como a única possível.

A primeira orelha do PR foi enviada no dia 18 de Março para a sede oficial do maior partido da oposição e não, como correu nalguns fóruns anarquistas na Internet, directamente para a Primeira-Dama. Reacção: silêncio, apesar de lá estarem bem claros todos os nossos devidos contactos e motivações. Tememos por um extravio postal e, a 20 de Março, cortámos a segunda orelha, que remetemos para a sede do partido do Governo em envelope verde registado, o que, para uma pequena organização clandestina, representou um grande custo… mas não suscitou impacto maior do que os CV que enviámos logo após acabarmos a licenciatura.

Quero salientar o seguinte ponto: todas as intervenções cirúrgicas foram executadas pelos nossos membros estagiários de Medicina, com recurso ao material que conseguiram surripiar dos respectivos locais de trabalho. Somos raptores, mas não somos bárbaros. O sofrimento do PR foi reduzido ao mínimo possível e foi com satisfação que verificámos que, nos seus breves intervalos de semi-consciência, nada de reprovador exprimiu sobre a nossa acção. Enquanto órgão unipessoal, o PR compreendia que o extirpássemos dos órgãos de modo lento e calculado. Isso animava-nos e levava-nos a entender que estávamos no caminho certo.

Considero que, após esta contextualização, o leitor conseguirá entender e, quem sabe, ser compassivo com o nosso acto seguinte, discutido até à exaustão em várias reuniões extraordinárias e levado a cabo com grande esforço e mobilização de meios. O aterrador silêncio que era contraposto às nossas acções só podia ser quebrado, sabíamo-lo, com uma atitude drástica. Como tal, no dia 22 de Março anestesiámos e desmembrámos o PR. Distribuímos os seus membros pelos seguintes locais: as pernas para o centro do campo dos dois estádios da Segunda Circular; o braço esquerdo para o nariz do Cristo-Rei; e o braço direito masturbando um dos leões nas escadas da Assembleia da República.

Concordando ou não com o método escolhido, o leitor diria que isto terá chegado, que esta acção foi suficiente para que pelo menos alguém se interrogasse sobre o se passava. Mas isso não aconteceu. Da noite para o dia, os monumentos foram limpos dos elementos perturbadores, a normalidade foi reposta. Então compreendemos: alguém tinha interesse em que não se soubesse que o PR fora sequestrado, como se pudesse beneficiar de um Palácio de Belém silencioso. Ou então alguém preferiu assistir à lenta decomposição de um homem a fazer cumprir nove simples pontos - presumindo, claro, que saberia fazê-los cumprir.

Quando o estado de fraqueza extrema do PR causou o seu falecimento (ao que parece, ele padecia de anemia crónica, o que nunca nos foi comunicado), o Grupo das Sextas-Feiras foi desactivado e todas as suas actividades suspensas. Colocámos o semi-presidente no chafariz do Freeport de Alcochete, onde considerámos que seria fácil encontrá-lo. Porém, até hoje não ouvimos qualquer notícia que relatasse a descoberta do corpo ou mencionasse os factos enumerados na nota que deixámos com ele. O tempo foi passando e a única conclusão possível é que não nos faremos entender por quem de direito. Ninguém nos vai ouvir, ninguém nos vai ligar. Nem você, caro leitor, que provavelmente estará a ler este texto como se de ficção se tratasse. Passados todos estes dias, percebemos enfim que nem a morte do Presidente da República chega para alguma coisa neste mundo estúpido. Jogando limpo ou fazendo batota, nunca venceremos nada e essa é a única certeza possível.

Cumprimentos.

O poema novo que disse no Slam Lx na semana passada

Eu sou um homem de metáforas
Perdido nas diásporas
Tudo o que digo
Pode ser mal entendido
Tudo o que faço
Pode ser um embaraço

Um dia, disse a uma amiga
“Dás-me frio na barriga”
E ela, agradecida,
Ofereceu-me a perseguida
Mas não era frio de paixão
Era só indigestão

Há pouco, a moça do bar
Fixou em mim o olhar.
E perguntou “queres gelo?”. Não era feia
E falei de mamilos e nove semanas e meia
Porque a mente não me pára
E ela atirou-me o gelo à cara

Eu sou homem de metáforas
Hipérboles e anáforas
Aquilo que falo
Será burro ou cavalo.
E acostumei-me, de murro em murro,
A passar de cavalo pra burro.

Quando ligo a televisão
E vejo o estado da nação
No Parlamento
Não sinto qualquer sofrimento.
Enquanto tomam conta de nós
Não precisamos levantar a voz

Tudo está bem
Não olhes para além
Deixa-te ficar onde estás
As coisas não são más.
Tens a vida assegurada
Não te incomodes com nada.

Sou um homem de ironias
Sarcasmos e alegrias.
Entende-me quem quiser,
O resto só se puder.
Não confundam a minha voz,
Ela é minha, ela é nós.

Eu sou um homem de metáforas,
Digo palavras tão ásperas.
Vagueiam entre o bem e o mal
Como o pecado original
E vêm plenas de prazer
Doam a quem doer.

Eu não sou quem aqui está
Neste palco, pessoa má
Ou boa, depende da perspectiva.
Eu não sou da gente ativa
Que faz o mundo funcionar
Com o Excel a dar e a dar.

Eu sou dali atrás,
Só no escuro estou em paz
E sozinho é que me encontro
Me defino ponto a ponto.
Eu não sou eu.
Eu não sou eu.

Enquanto lucubro, penso:

Há tempos, uma amiga disse-me que esperava que eu não me tornasse cínico. Está muito difícil controlá-lo. Tenho ao mesmo tempo uma confiança muito grande nas pessoas e uma certeza inabalável que elas são incapazes de não errar. Ao longo do tempo, fui trabalhando esse desejo, como vi o David Lynch dizer uma vez que sabe que uma escultura está pronta porque sente-o nas pontas dos dedos. Eu fui trabalhando esse desejo e expetativa até uma condição em que esse erro me aparece carinhoso, do tipo "que carinhosa, esta pessoa, não conseguiu manter a pila dentro das calças e fodeu a cena boa que tinha" ou "que querida, esta pessoa, encheu-se de dívidas e agora vai redescobrir que a natureza humana não é muito melhor do que a da lama" ou "que carinhosa, esta pessoa, fez um casamento e um bebé porque achava que queria ser igual à amiga e agora já olha para o marido e para o filho com ar de quem quer estar longe, longe, longe". Ou seja, não tenho fé nenhuma em ninguém. Ao mesmo tempo, adoro toda a gente. É divertido.

It's funny how things go

Tenho três coisas para fazer, mas não vou citar Pessoa, não vou citar Pessoa, não vou citar Pessoa, não vou citar Pessoa, não v...
Ai que prazer não cumprir um dever.

Foda-se.

Era desnecessário, isto. Até porque não tenho prazer nenhum em não cumprir os deveres. Não os cumprir agora significa ter que os cumprir depois e com menos tempo. Estou velho, está visto.

A razão para adiar é não conseguir tirar da cabeça que não me lembro de nenhum equivalente em inglês para as palavras "escarrar" e "escarro". "Spit" é insuficiente, "sputum" é insatisfatório. Mas "escarro" lembra muito "escara", ou "scar", o que faz sentido, de algum modo, porque "Scar" é o álbum que contém uma canção que tenho ouvido muito.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vii5ydVSNec

Isso faz ainda mais sentido, até porque este texto começou com música. Vocês não sabem, não podem saber da minha vida, mas tudo tem a ver com ter visto um filme quando era muito novo. Aos 1m55 deste vídeo, fica explicado.

httpv://www.youtube.com/watch?v=ZS_GagmpfvU

Fico feliz por ter esclarecido tudo.

Poema de ler baixo

entre o que vês e dizes
não existe nada
és simples e sem malícia
não sabes nada
de computadores
não temes pedir
ajuda a estranhos

entre o que vês e dizes
não há teias ou
imundície há só
o que és e aquela
transparência
do que é real
e luz

entre o que vês e dizes
sorris porque
achaste enfim quem
te matasse a fome

fizeste um sanduíche
com minhas palavras

e comeste-me
a vergonha.

Quero subsídios estatais para programas de reality!

Cheguei hoje à conclusão que os programas de reality TV promovem a imagem de um país no estrangeiro e é essencial que eles sejam apoiados pelos Ministérios de Turismo. Sinceramente, que país preferiam visitar?

Portugal...
httpv://www.youtube.com/watch?v=10jnI1DtaOY

...o Brasil...
httpv://www.youtube.com/watch?v=CP64KdHAqBs

...ou a Suécia?
httpv://www.youtube.com/watch?v=ZPKacexvc6s