2010

Fui às compras para o fim-de-ano e não consegui deixar de pensar, ao ver os congelados com ar triste dentro da arca, nos lombos rubros do camarão-tigre que comi por uma ninharia no Clube Naval de Maputo há uns anos. Sou sincero, nesse momento pensei "nunca comi coisa igual". Também nunca tinha sentido na pele a coisa estranha que senti quando disse que não achava o Acordo Ortográfico maningue nice e um escritor moçambicano me respondeu que os portugueses gostam de se sentir donos da língua. Acordo Ortográfico que, por acaso, é tema de capa no Público de hoje e lá se diz que Moçambique não está a achar a cena maningue nice também, tanto que ainda não o ratificou. Quem o curte tótil é o Brasil, e o meu ano que vem vai passar muito por esse país. Por isso, bom 2010.

mensagem

Sempre que o fazes pões-te em causa. Não há como não acontecer. Se corre bem, vais conseguir fazê-lo para sempre. Serás adorado por isso, vão pedir-te que repitas uma e outra vez. Se correr mal, não vais saber repentinamente onde estás ou quem és. Vais pensar que vais sempre falhar e que não estás no caminho certo. Vais achar que precisas de reformular a vida toda, que algures pelo caminho baralhaste as prioridades e agora, quê?, agora não tens mais a fazer do que seguir em frente, aproveitar o balanço da onda e esperar que não pare de repente, que te continue a levar por terras que não conheces sem que tenhas de dar aos pés. E, de repente, um dia, pam!, caíste e vais ter de descobrir o melhor lugar para dar o primeiro passo, para te voltares a erguer, para olhares o céu, contar as estrelas e aprender tudo outra vez. É mesmo assim, alguém te vai dizer. E é mesmo.

Simiolitude

Precisamente no dia em que A Origem das Espécies fez 150 anos, no eléctrico vi ser lido um paper de título Genes e Ambiente: Um Modelo Evolutivo da Linguagem. E o mais extraordinário é que quem lia era um macaco.

Diz-me onde entroncas

Mais do que pelos legumes gigantes e avistamentos de ovnis, o Entroncamento fascina pelo nome. Não tem qualidade orográfica como Monsanto, religiosa como São Bento da Porta Aberta, política como Vila Real. Não tem nada a ver coma História dos Comportamentos, como Odivelas (onde o rei ia às putas - "ir de vê-las") ou Freixo de Espada à Cinta (terra do famoso esgrimista José Freixo). O Entroncamento tem nome por cruzar ferrovias. Podia chamar-se Ramal, Carril ou Pouso de Pica-Bilhetes. Só me lembro de um caso semelhante, um lugar pouco antes da estação de Ermesinde que se chama Travagem - e juro que não estou a inventar. Era giro que houvesse mais destas coisas por aí. Sítios com grande circulação automóvel podiam chamar-se Engarrafamento. Por esse país fora, espalhar-se-iam as vilas chamadas Rotunda. Poderíamos ter uma Lomba mesmo antes de um Semáforo. E porque não passarmos dos transportes para os afectos? Se em Alfama há um Largo das Pichas Murchas, o que impede que haja uma Praça do Desgosto? Uma Avenida do Matrimónio? Um Beco da Má Queca? Talvez isso ajudasse as gentes do Entroncamento a sacudir a sensação de que a terra deles é só o que nasceu à volta da linha de comboio. Afinal, à volta de qualquer coisa se fez tudo. Este texto também é só o que apareceu à volta duma conhecida crónica de um conhecido escritor. Daí o seu nome.

Uma mulher que vende o exclusivo do seu implante mamário a uma revista NÃO ESTÁ "a envelhecer bem"

Há pouco, no Chiado, vinha do jantar de aniversário da Susana e cruzei-me com um actor nocturno enquanto ia para o metro. O monólogo dele consistia em "A minha mãe dizia para eu mijar no penico. Eu perguntava 'qual penico?' e ela dizia 'o que tens debaixo da cama'." Quero acreditar que esta história tem algum significado profundo, como "debaixo de cada cama há o penico que a mãe deixou", mas, antes de aí chegar, quero lembrar aquele homem que, há dez anos, ainda eu andava de expresso no sobe-e-desce de Coimbra-Monção, vi na estação do Porto a mijar para um canto (com a casa de banho a 3 metros), a andar desorientado, a entrar no primeiro autocarro que viu e a cair no primeiro lugar que encontrou. Adormeceu profundamente, a respiração a fazer-lhe subir e descer a generosa farripa de cabelo que lhe caía sobre a testa. Então o autocarro arrancou e eu pensei, algo aflito, "aquele homem não vai ter bilhete! Vão acordá-lo, ele ainda vai estar bêbedo, não vai ter bilhete, vão expulsá-lo e ele vai morrer enregelado e bêbedo!". Não soube de mais nada, mas o que lhe aconteceu nunca vai ser tão interessante como o que lhe podia ter acontecido. E isto é tudo o que se pode dizer sobre a Maya.

A rima

Foi há umas semanas. Eu, a Ana, a Francisca e o António voltávamos para os carros depois do pequeno-almoço de Domingo em Campo de Ourique. Eles iam voltar para Coimbra, nós íamos voltar para a Estefânea. A Marilyne e a Diana ficaram-se pela Estrela, mas não é disso que quero falar. Eu quero falar de: ao voltarmos para os carros, vimos um homem estático à frente do Pingo Doce, olhando para um cão que estava amarrado a um poste pela trela. Este, gozado e sem lhe conseguir chegar com o focinho para arrancar uma boa dentada, rosnava-lhe naquele tom irritantemente almodovariano (i.e., desesperadamente à beira de um ataque de nervos) que só alguns cães conseguem fazer. O homem estava todo vestido de preto e depois disseram-nos que era "sacerdote". Pois bem, há dias, quando subia dos Anjos para a Estefânea, vi um homem ladrar. Não estou a mentir: um ser humano, na rua, ladrava a plenos pulmões como se fosse a sua primeira língua. Não tinha o rigor de vestuário do outro e não sei se havia um cão estático à frente dele. É possível que o homem estivesse amarrado a um poste por uma trela, até que essa fosse a sua forma particular de rezar. É possível. Neste mundo não se sabe nada e a noite, as vezes, é escura demais.

Ontem, hoje e amanhã

As horas estão a acabar a ouvir Gotta Serve Somebody do Dylan e a descobrir que o Lennon escreveu Serve Yourself em resposta. Sobre a mesa, tenho três livros de teatro, um copo e uma tigela, cada uma com a sua colher, muito papel e o dvd do filme do Paulo Vicente, que ele fez o favor de mo enviar. Ao meu lado, pendurado por dois pionaises no fundo do quadro de cortiça, está o poster do Taking Woodstock. Não sei muito bem porque o tenho, para além de ter sido grátis. Na outra parede, já fora do escritório, está a fotografia autografada do Bogosian. Disseram-me há semanas que eu lembrava ele, é mentira, eu gostei. Depois do McKee, achei que a minha vida precisava de um hambúrguer. Fui ao McDonald's de Roma, que por acaso fica ao lado do Londres, apanhei molha, mas comi o hambúrguer. O mobiliário está mudado, ninguém ao meu lado pediu o McRoyal Deluxe e ainda tenho de cortar as unhas contra o tempo. Amanhã vai chegar e quero unhas cortadas para não o magoar sem querer. Gotta serve somebody: serve yourself.

Conversa de Anas

Estou tão cansado que pondero cometer o acto vergonhoso de me deitar à meia-noite, mas antes quero partilhar o diálogo que clandestinamente cresceu na minha folha de papel durante a oficina de escrita de canções do mestre Gimba:
Aná-Fora e Ana Diplose encontram-se.

ANÁ-FORA
Ana quem?
Ana sou eu!

ANA DIPLOSE
Eu é que sou a Ana,
Ana, e mais ninguém.
Eu disse que estava cansado. Saudações.

O hipopótamo e a avestruz

Foi há dias, na hora do almoço, que a Popota apareceu a cantar Buraka. Na conversa que se seguiu, defendendo o grupo contra algo que já não interessa, disse que o kuduro, o funk carioca e o dancehall jamaicano não são assim tão diferentes, o que faz pensar que, muito provavelmente, quando se está "em vias de desenvolvimento" o desenvolvimento se faz pelo cu do povo, que, portanto, o tem de abanar sob risco de atrofia. Seja como for, a verdade é que, se este ano a Popota descobriu as ancas, a Leopoldina descobriu as mamas, o que não deixa de ser deprimente: a hipopótama pôs-se a dançar, mas a avestruz pôs silicone. Triste, muito triste.

No reino

Hoje subi e desci a Avenida (mentira, só subi). Tive de tratar de um assunto de trabalho e revelou-se a melhor opção para apanhar depois o autocarro. Por acaso, trabalho na área de entretenimento e, também por um natural e perspicaz acaso, o assunto tratou-se perto da Faculdade de Ciências Médicas, onde, a certas horas do dia, não se disfarça o cheiro acre que me entrou pela primeira vez nas narinas quando vi a autópsia de um homem que morrera atropelado e que fora desmontado e voltado a montar tantas vezes que, para o abrir, bastou puxar o fio que lhe unia o peito cortado ao meio. A vida, já se sabe, é uma merda: há por aí animais perdidos a chamar pelos filhotes mortos, há mães e pais sem censura a quem o acaso rouba as crianças para sempre. Por mais que subisse e descesse a avenida, o cheiro ficou-me entranhado outra vez. Se o quiserem reconhecer, pensem em algo proibido, cujo simples pressentimento vos faça mais próximos da perversão. No Reino de von Trier um anatomista compara o medo à intimidade com o medo aos mortos, talvez por isso mesmo: aquele cheiro diz para não estar perto dele a menos que queiramos que a morte nos invada. É um dos casos em que as narinas, e não os olhos, são a entrada para a alma.