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BLOW THE MAN DOWN (2019)

Uma daquelas histórias de faca e alguidar que constroem a mitologia das cidades piscatórias, com a originalidade de dar a mulheres o protagonismo de motores da ação. Um belo filme na Amazon, com alguns ares do "neorrealismo mágico" que parece andar em voga.

MANK (2020)


Muitas pessoas não gostam de Citizen Kane porque lhes disseram que deviam gostar e acabaram por ficar de pé atrás. Ver ou gostar de Citizen Kane não é pré-requisito para gostar de Mank, mas pelo menos conhecê-lo ajuda. O novo filme de David Fincher é como a segunda fala de uma conversa. É uma resposta ao filme de Welles e ao cinema clássico americano que às vezes é homenagem (a mistura de áudio, com todos os canais centralizados, e a edição tensa marcada por diálogos rápidos emulam os filmes da época) e outras crítica, mas, na maior parte do tempo, prefere mostrar que o passado ainda nos acompanha no presente, num pernicioso eterno retorno. Além disso, é uma espécie de homenagem de Fincher ao pai Jack, que lhe escreveu o filme e morreu antes que o filho conseguisse fazê-lo. É um feito cinematográfico extraordinário e arriscaria dizer que é um dos melhores filmes da década.

TENET (2020)

Sempre gostei bastante de Christopher Nolan, mesmo sabendo que muita gente o considera irritante e pretensioso. Justo. Cada um gosta do que gosta. Porém, diria duas coisas sobre Tenet. Primeiro, que metade das coisas que se barafustaram sobre ele não teriam sido barafustadas se Nolan não tivesse feito Inception há dez anos. Segundo, que Nolan cumpre aquilo que se espera dele no seu melhor: criar um jogo de engodos com o seu espectador. Sim, Tenet é um filme de espionagem mascarado de ficção científica. E daí?

SWALLOW (2019)


Começa na linha "épater la bourgeoisie", segue na onda do "body horror" e termina concluindo-se metáfora forte sobre o trauma e a maternidade. Um belo pequeno filme, e acho que ainda veremos Haley Bennett, a atriz protagonista, a interpretar muita coisa boa.

TIME (2020)

Na Amazon. A plasticidade deste documentário é tão grande, aquele olhar a preto e branco tão maravilhoso, que não poucas vezes dei por mim a pensar que o tema - o encarceramento da população negra enquanto instrumento de repressão e os seus duros reflexos sociais e pessoais - não deveria ser tratado desta forma. De qualquer forma, filme forte e recomendável.

CASSANDRA'S DREAM (2007)

Dois filmes depois de Match Point, um antes de Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen fez esta espécie de Crime e Castigo. Não é um dos filmes maiores de Allen, mas eu tenho a pequena teoria de que, mesmo quando não surpreende, ele sempre nos dá algo interessante para ver. No caso, é o desenrolar absolutamente clássico da tragédia, lembrando-nos que, acima de tudo, Allen é um grande e sabidíssimo guionista.

ZAPPA (2020)


Descobri o Frank Zappa quando era adolescente, graças ao VHS que o meu pai tinha do "Does Humor Belong in Music?". Vi aquele concerto dezenas de vezes e, quando fui para a universidade, às vezes aproveitava algum dinheiro que sobrava no fim do mês para comprar um álbum dele. Isto era a época do pré-Napster: bons tempos. Tenho períodos preferidos (nunca gostei muito da fase do Synclavier), mas sempre foi dos músicos que mais admirei. Com este filme, Zappa finalmente ganhou um documentário com a estatura que ele merece, principalmente por focar num aspecto importantíssimo e pouco falado da sua obra: a busca constante e revolucionária por independência criativa e financeira.

SALINUI CHUEOK ("Memories of murder", 2003)

Quando há mais ou menos um ano eu louvava "Parasita" e dizia que todos os outros filmes de Bong Joon-ho que vira me tinham parecido bons com um "mas", um amigo foi perspicaz e disse-me "vê o 'Memories of Murder' e depois diz o que achaste". Finalmente segui o conselho e ele tinha a mais absoluta razão. Que lição de cinema monumental este filme é.

JOHN MULANEY: THE COMEBACK KID (2015) e JOHN MULANEY & THE SACK LUNCH BUNCH (2019)

Na Netflix. Acho admirável como o John Mulaney me faz gostar tanto da "persona" cómica dele, porque, em princípio, eu não a consideraria nada apreciável: "mais um homem branco, filho de uma família de classe média alta, privilegiado como poucos, a ser irónico e azedo"? O que me parece brilhante é a forma como, ao ser honesto sobre a sua origem e ao mostrar as contradições e vulnerabilidades da sua vida, ele consegue criar empatia e conquistar o público. Depois de ver o seu show de stand-up de 2015 (hilariante e nada datado), tive curiosidade de ver o especial de 2019, em que ele adota os tropos da "Sesame Street" e os adapta à sua comédia. "The Sack Lunch Bunch" é incrível por ser um programa infantil que não infantiliza as crianças (as que lá aparecem e as que o possam ver), mas, ao mesmo tempo, nunca se esquece de que elas são crianças. Parece que, ao fazer isso, ele tem mais respeito pela pequenada do que metade dos programas que são feitos para ela. Aqui há Broadway, há "mockumentary", referências a clipes e filmes clássicos. Acima de tudo, há o desenvolvimento constante de um pensamento sobre a melhor forma de remontar um formato clássico, com uma sofisticação que eu não via desde o "Horace and Pete" do Louis C.K. Muito, muito bom.

MEET THE CENSORS (2020)


Da Amazon Prime. Um cineasta norueguês (Håvard Fossum) viaja pelo mundo e conversa com pessoas que, ou estão encarregadas de organizar a censura no seu país, ou convivem diariamente com algum tipo de censura do seu trabalho. A sua insistência é admirável, tal como as revelações nas suas viagens (Sudão do Sul, Alemanha, Índia, China, Irão e EUA), mas a construção do documentário enquanto viagem de autodescoberta resulta numa certa redundância narrativa: como Fossum não consegue tirar grandes conclusões, parece que voltamos ao ponto de partida. A pergunta que fica é se isso faz dele um documentário falhado ou se, pelo contrário, chegamos exatamente ao lugar aonde deveríamos chegar: ao impasse sobre como uma democracia pode limitar as mensagens antidemocráticas.

LORD OF WAR (2005)

Conhecia Andrew Niccol como o homem de "The Truman Show" e "Gattaca", por isso, não esperava que este seu filme sobre o tráfico de armas fosse tão fortemente baseado na realidade, com inspiração em figuras verdadeiras e uma precisão da história geopolítica pouco habitual no cinema americano "mainstream". Duas coisas limitam-lhe a força: espetaculariza demais a morte, esvaziando-a, e, por não focar numa figura específica, não deixa que a sua denúncia vá muito longe. Ponto extra por um Nicholas Cage contido.

ROLLING STONE: LIFE AND DEATH OF BRIAN JONES (2019)

Quando se fala sobre a vida de uma estrela (do rock, no caso), é preciso lidar com duas possibilidades: pesar mais no fato ou na lenda. Este documentário na Amazon Prime escolhe o primeiro caminho,  mas não lhe teria feito mal se tivesse equilibrado o jornalismo de investigação com um pouco de imaginação. De qualquer forma, é uma investigação bem contada, tanto que quase esquecemos que, por questão de direitos, não se ouve uma única música dos Rolling Stones.

THE JUNIPER TREE (1990)

Um belíssimo filme com uma Björk muito jovem. Livremente inspirado num conto macabríssimo dos irmãos Grimm, deixa-nos a pensar sobre como o Cinema tem, para o ambiente e o folclore, um lugar muito maior do que o Terror.

THE FOG (1980)

A mãe solteira que ama o seu menino acima de todas as coisas, a pequena cidade no litoral perturbada por uma ameaça extraordinária, as personagens que precisam sair das suas "ilhas" e comunicarem umas com as outras para poderem sobreviver: descontados o fascínio pelo sobrenatural e pela morte, é curioso como este filme de John Carpenter está tão próximo dos temas e motivos do Steven Spielberg da mesma época.

ONIBABA (1964)


Telúrico, sensual, elementar e assustador. "Onibaba" é um filme construído com sensações, mas com a moralidade a persegui-las de perto. Nem vinte anos tinham passado sobre as bombas em Hiroshima e Nagasaki e a catástrofe de Minamata tinha sido pouco antes. Isso talvez explique porque pareça sempre pender sobre ele a interrogação sobre o que faz de nós humanos, principalmente num lugar em que a violência e a crueldade extremas parecem ter um lugar reservado de relativização. Uma poderosa experiência de Cinema.

SERIAL MOM (1994)

Sempre que quero passar hora e meia a rir, vejo um filme do John Waters. A característica mais fascinante do realizador é a forma como, mesmo já longe da sua raiz "underground", ele mantém a sua acidez e predisposição para expor e ridicularizar a sociedade estadunidense pelas suas hipocrisias burguesas. Aqui, Kathleen Turner interpreta uma dona de casa que se torna "serial killer" de forma tão tranquila que até surpreende como isso não acontece mais vezes. Ou será que acontece?...

THE 13TH WARRIOR (1999)

Antonio Banderas interpreta um árabe que é "adotado" por um grupo de vikings e levado para batalhas em países do Norte distante. Por baixo desta manta de retalhos, esconde-se um filme de guerra que foi um fracasso de bilheteira, mas que hoje se vê relativamente bem, principalmente pelo espetáculo da grandeza de produção pré-CGI.

THE HAUNTING (1963)


É incrível o quão prolífica foi a carreira de Robert Wise e como ele se movimentava tão bem entre géneros. Entre a realização dos eternos musicais "West Side Story" e "The Sound of Music", ele fez este filme a preto e branco, com tão poucas personagens e cenários que poderia ser uma peça de teatro. O que torna "The Haunting" uma das obras fundamentais do terror psicológico tem muito a ver com a sua atriz principal, Julie Harris, a interpretar uma protagonista que é talvez das mais fascinantes que o Cinema viu: uma mulher de meia idade cheia de invejinhas e irritações e frustrada com a sua vida banal. É uma personagem tão pequena que é grandiosa na sua pequenez — e como ela cresce aos nossos olhos, e como toda a dor da sua vida comezinha aflora ao longo do filme! Por entre o estilo eminentemente clássico de Wise rompem os ecos da modernidade subjetiva que logo viria. Um filme fascinante.

INDIANA JONES AND THE LAST CRUSADE (1989)

Porque a morte de Sean Connery me deixou melancólico e porque o "tatarata" do tema do Indiana Jones sempre dá aquele calorzinho na alma.

ALTERED STATES (1980)


Filme do Ken Russell, esse grande cineasta dos excessos da década de 70. Foi o primeiro papel de William Hurt no cinema, e cai-lhe como uma luva a personagem de um professor universitário que se submete a experiências com alucinógenos em busca de uma conexão primordial entre espírito, mente e corpo. Uma mistura de ficção científica com misticismo "new age" e a boa e velha viagem psicotrópica. Muito divertido.