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COBRA KAI s03 (2021)

As temporadas anteriores de Cobra Kai levaram a história do Karate Kid a um delírio delicioso enquanto faziam algo inacreditável: recuperar um formato de entretenimento que parecia condenado a sobreviver na pura nostalgia e recuperá-lo para o presente utilizando o seu anacronismo e a sua cafonice como uma força. Dito isso, pareceu-me que os novos episódios perderam um pouco a força e entraram perigosamente no terreno do "mais do mesmo". Apesar de momentos muito simpáticos (a viagem de Daniel a Okinawa fará sorrir qualquer pessoa que viu os filmes originais) e de esclarecer a história como a do "bromance" entre Daniel e Johnny, as personagens adolescentes começam a parecer meros sacos de pancada que são empurrados de um lado para o outro. Esperemos que a temporada seguinte feche esta audaciosa aventura audiovisual melhor do que está agora.

O que vi esta semana

The 40-Year-Old Version (2020). Um filme muito pessoal sobre teatro, hip hop e poesia que é também uma comédia sensível e extremamente divertida. Se o tivesse visto antes, é bem possível que o tivesse posto na minha lista de melhores de 2020. Aproveitem enquanto ainda está na Netflix.

Never Rarely Sometimes Always (2020). Não se aventura pela agudeza trágica de 4 luni, 3 săptămâni și 2 zile, de Cristian Mungiu, mas o estilo documental faz dele um filme exemplar para mostrar como o aborto nos EUA, embora liberado, continua a ser um desafio terrível para muitas mulheres. 

The Exorcist 3 (1990). É um erro esperar dele uma simples continuação de The Exorcist. O que William Peter Blatty fez aqui é puro "arthouse film" com um tom bem teatral (no bom sentido) e diálogos sofisticadíssimos, tanto que os seus desequilíbrios têm muito a ver com pedidos do estúdio para que a coisa ficasse mais do mesmo. 

The Trip to Greece (2020). A verdade nua e crua, para o bem e para o mal, é que The Trip é sobre dois homens, ingleses, brancos e ricos a envelhecerem. Pode-se não gostar da premissa ou não achar graça a Rob Brydon e Steve Coogan, mas uma coisa é inegável: The Trip é um caso raro na forma como expõe o humano por trás da celebridade, e muito disso deve-se à realização elegante e respeitosa de Michael Winterbottom. As séries e filmes da franquia são como os filmes do Woody Allen: de uma forma ou de outra, já sabemos o que vamos ver, mas vemos de qualquer forma, como se fosse um remédio periódico. Belas paisagens, comida incrível e imitações de gosto duvidoso? Estou dentro. 

Lorena (2019). Li algumas críticas a este documentário da Amazon Prime que apontavam a falta de crítica ao contexto cultural e social que levou a que Lorena Bobbitt pudesse ter sido abusada e estuprada pelo marido durante anos antes que ela lhe tivesse cortado o pénis e a ridicularização a que foi sujeita depois. Parece-me uma crítica injusta, considerando que o documentário é mais expositivo do que argumentativo e, desse ponto de vista, faz um bom trabalho condensando o antes, durante e depois dos julgamentos que, nos idos anos 90, fizeram todo o mundo parar e pensar um pouco sobre violência doméstica.

North By Northwest (1959). Um ano antes, Hitchock realizara Vertigo. Um ano depois, realizaria Psycho. Que colheita, senhoras e senhores, que colheita.

O MEU TOP 11 DE 2020

Estas são as produções audiovisuais de 2020 de que mais gostei. Não distingo entre séries e cinema, porque, caramba, é 2020, não 1990. Ficaram de fora dois grandes filmes — Portrait De La Jeune Fille en Feu e Martin Eden — porque as primeiras estreias nacionais foram no ano passado e aqui trabalhamos com rigor. 

É da HBO e empata com Tales From The Loop na categoria "série tão triste que nos faz ansiar por um raiozinho de sol de vez em quando". A entrega de Mark Ruffalo para interpretar dois gémeos é notória, até fisicamente: depois de ele gravar todas as suas cenas enquanto Dominick, a produção parou seis semanas para que ele pudesse engordar 15 quilos e então regravar todas as cenas enquanto Thomas. Porém, não é um puro exercício de comiseração ou de virtuosismo, mas uma história poderosa e melodramática sobre descoberta e autodeterminação com personagens com tantos defeitos e qualidades que evitam julgamentos morais chatos. 

10. Druk 
É um filme centrado no conceito da perda em mais do que um sentido: é a perda de quem chega à meia idade sem perspectivas, mas também a do próprio realizador Thomas Vinterberg, cuja filha morreu num acidente no início da gravação. Isso tudo parece resultar em personagens e numa obra em estado de vertigem, que, na maior parte do tempo, parece arrastar-nos com ela numa queda livre sem que saibamos onde e quando vamos cair. A ambiguidade do seu final é marcante e talvez seja mesmo inevitável. 

Homecoming tinha um problema grande a resolver na segunda temporada: como continuar uma história que parecia fechada sem fazer muitas concessões ao género antológico? Os autores Eli Horowitz e Micah Bloomberg entenderam certeiramente que o elemento central da série é a consciência e o conflito entre o mundo e a nossa percepção, e resolveram a equação de forma brilhante.

Já quase tudo foi dito sobre esta série da Netflix, então, não vou ser repetitivo. Só vou reparar que, após 62 milhões de pessoas a terem visto, as vendas de tabuleiros de xadrez triplicaram, desmentindo qualquer argumento possível sobre o fim da influência da ficção. 

Uma das características de Michaela Coel como atriz que mais me agrada é a forma como ela dá corpo às personagens. É um corpo às vezes forte, outras frágil, às vezes agitado, às vezes destruído, mas sempre presente, nunca se escondendo por trás das palavras. Isso permanece no seu trabalho como autora: Chewing Gum era uma comédia sobre uma jovem evangélica que não conseguia perder a virgindade, I May Destroy You é uma análise pungente sobre o abuso que a própria Coel sofreu. O corpo intocado tornou-se corpo roubado, e a autora não perdoa ninguém — nem ela própria — nesta série que parece ser sobre consentimento, mas acaba por ser sobre o próprio ato de narrar.

6. Ramy
2020 continuou um bom ano para o género "melancómico", com as segundas temporadas de After Life e de Kidding a proporcionarem grandes momentos de televisão. No mesmo tom, Ramy destacou-se por aprofundar o que já parecia impossível em 2019: criar uma comédia romântica através da perspectiva da crise de identidade e do encontro com o sagrado. As personagens e o elenco maravilhosos só ajudam.

Comecei a ver esta série de pé atrás. Nunca fui o maior fã do Luca Guadagnino e acho que ele tem a tendência para resvalar para o pretensioso. Porém, meses depois, há cenas e momentos de We Are Who We Are que ainda me vêm à memória. Por isso, dou o braço a torcer e me retrato do que escrevi sobre ela na época: Guadagnino pode não ter ido ao encontro das convenções televisivas, mas isso acabou por ser o seu maior trunfo. O ritmo, tom e organização narrativa pouco comuns fazem desta série um objeto híbrido, entre cinema e televisão, muito especial e que merece ser visto. 

É uma série discreta e breve, como um sopro. Conduz-nos, não ao longo de uma história ou de um evento, mas de um pensamento, que é desenvolvido de forma hesitante, porém honesta, como se fosse uma conversa com o espectador. Como em qualquer conversa, o que ouvimos nem sempre corresponde ao que vemos, e isso é precioso aqui: as coisas são reveladas lentamente e, no fim, depende de cada um dizer o que viu em How To With John Wilson.

3. Mank
Para explicar porque Mank é tão bom, só consigo fazer uma comparação com a música: da mesma forma que o instrumento de um maestro é a sua orquestra, o instrumento de David Fincher aqui foi toda a história do Cinema americano, e a distribuição de um objeto tão extemporâneo na Netflix também faz parte dessa equação. Um filme cheio de fantasmas (incluindo o falecido pai do realizador, que escreveu o guião) e que constantemente questiona o lugar do passado no presente e no futuro. 

Não gostar de Charlie Kaufman é um direito individual e inegável. A obra do autor americano acontece muito marcadamente dentro do seu espaço mental, e não se pode obrigar um espectador a gostar da sensação de estar dentro da cabeça de outra pessoa. A questão é que não é preciso gostar das idiossincrasias de Kaufman para apreciar a monumentalidade deste filme e a forma musical e fantástica como aborda as suas personagens e mundo. 

Small Axe é uma série de cinco filmes realizados por Steve McQueen para a BBC e a Amazon Prime sobre a comunidade afrocaribenha de Londres nos anos 60 a 80. O formato híbrido já seria suficiente para o considerar um marco de 2020, mas isso não leva em conta a absoluta vitória artística que ele representa. Cada episódio de Small Axe parece espelhar uma dimensão da obra de McQueen, desde a luta contra o Estado até à importância da consciência individual, e parece estar a pedir para ser contado há décadas. Lovers Rock, o segundo filme, tem um enredo fino e não pretende mais do que mostrar como era uma festa acalorada num "sound system". Porém, cada gotícula de suor está carregada de história, tanto com minúscula quanto com maiúscula. As personagens pairam pelo ambiente, como em Chega de Saudade de Laís Bodanzky, e as suas pequenas intrigas vão brotando ao som da música até atingirem o clímax na sequência de "Silly Games", um momento audiovisual majestoso, sagrado, indispensável. Num ano com poucas razões para festejar e em que a doença parece pairar no ar, o melhor filme só poderia ser aquele que entende como uma festa respira. 

O que também tenho visto


SOUL (2020). O último da Pixar tem tanto de divertido quanto de comovente e ensina duas lições importantes: os adultos devem aproveitar mais a vida e as crianças devem aprender a gostar de jazz. 

DRUK ("Another Round", 2020). O vencedor dos European Film Awards é marcado pela tragédia pessoal do diretor Vinterberg: a sua filha Ida, que seria atriz no filme, morreu no início das gravações. Talvez por isso, é um filme sobre pessoas que se perdem das outras e também de si mesmas, desde as personagens que seguimos até toda a Dinamarca. É um "coming of age" da meia idade que nalguns momentos nos lembra "Idioterne" de von Trier e noutros "I Vitelloni" de Fellini e que nunca, nem mesmo no seu final aparentemente iluminado, larga inequivocamente a dor que o motivou. É como se o filme nos dissesse que, na vida, segue-se em frente, sim, mas carregado de cicatrizes.

LONG STRANGE TRIP (2017). Na Amazon Prime. De Grateful Dead só conheço a fama, as histórias e a "Dark Star", mas se há uma coisa certa nesta vida é que os documentários sobre músicos produzidos pelo Scorsese entretêm. 

SPOORLOOS (1988). Aparece muito em listas de terror, mas isso é enganoso. "Spoorlos" é, na verdade, um ótimo suspense, apesar das marcas do tempo, como aqueles sintetizadores chatos que de vez em quando se fazem ouvir na trilha. No final, lembra Haneke: o destino das personagens é consequência tanto das suas ações quanto da vontade insaciável do espectador "voyeur" e cruel, que quer saber mais e mais independentemente do que acontecer. 

MONOS (2019). Um filme colombiano sobre um grupo paramilitar de adolescentes que é uma mistura de "Lord of the Flies" com "Apocalypse Now" e que deve ser visto considerando a história do país com as FARC. Fantasioso e com locações incríveis, é um filme poderoso, que nos surpreende constantemente e que parece dizer que a violência é bem menos fluida do que o género.

HOW TO WITH JOHN WILSON (2020)

Uma série intrigante e inusitada. Foi produzida por Nathan Fielder, então, já se esperaria a mistura entre documentário e comédia, mas aqui vai-se mais longe. É uma espécie de videoensaio com cenas do cotidiano que fica entre o riso e a melancolia, entre a inconsequência e a genialidade, entre o hipster e o atemporal. Tem momentos que nos fazem rir descontroladamente, outros que nos deixam em absoluto estado de constrangimento e outros que nos comovem. São seis episódios bem curtinhos e recomendo vê-los em sequência: o final é inesperado e muito, muito bonito.

THE INVISIBLE MAN (2020)

Representou uma mudança de direção no universo cinemático dos monstros da Universal (menos efeitos especiais, mais história e personagem) e é uma absoluta vitória. Revisita a história do Homem Invisível fortalecendo a perspectiva da personagem feminina, revelando aquela como um conto sobre relacionamento abusivo e perseguição, em sintonia com os tempos e conseguindo grandes momentos de suspense.

ROOM 2806: THE ACCUSATION (2020)

Sinceramente, eu pensava que Dominique Strauss-Kahn estava preso e, se não fosse esta série da Netflix, ainda o pensaria hoje. Ao contrário de outros documentários de "true crime", ela não tenta desenterrar novos fatos e prefere fazer algo que, arrisco, talvez seja até mais interessante: ela revela o ex-dirigente do FMI como a prova cabal de que as brechas do sistema servem para os poderosos se abrigarem. As vítimas de Strauss-Kahn são muitas, mas as do sistema somos todos nós.

SMALL AXE (2020)


Acho que esta obra do Steve McQueen é das coisas mais incríveis que vi na televisão nos últimos tempos. Primeiro, por causa do seu formato inusitado: não é bem uma série, mas uma "série de filmes", o que tem levado à indefinição sobre qual a temporada de prémios a que ela deve concorrer. Ao que parece, o próprio McQueen esteve indeciso e, em algum momento durante os dez anos em que ele andou a desenvolver o projeto, ela assumiu a forma de uma série mais convencional. Porém, quando ele percebeu que tinha material muito rico nas mãos, decidiu que o melhor seria fazer cinco filmes, cada um contando uma história da comunidade afro-caribenha de Londres durante os anos 60 e 70. Alguns filmes contam histórias inspiradas em pessoas reais; outros inventam personagens ficcionais para retratar fatos ou ambientes. Eles também variam em estilo, mostrando as diversas facetas autorais de McQueen: "Mangrove" e "Alex Wheatle" lembram "Hunger" no seu retrato da pessoa contra um Estado opressivo, "Red, White and Blue" e "Education" focam na importância da consciência individual na luta contra a injustiça. Para mim, o mais extraordinário é "Lovers Rock", em que McQueen parece voltar às suas raízes de "video artist" para nos apresentar um baile num "sound system". Enredo fino, extremamente visual e, simultaneamente, totalmente realista, com momentos que me deixaram de queixo caído e completamente preso na tela. Com um elenco extraordinário, quase todo negro, e histórias que tocam em feridas profundas do colonialismo, não consigo entender porque a Amazon Prime ainda não estreou esta série no Brasil.

BELUSHI (2020)

Excelente documentário sobre esse meteoro de comédia que foi John Belushi. Além da pesquisa notável, que qualquer "comedy buff" apreciará, chama a atenção o formato de "oral history". Sem mostrar os entrevistados e recorrendo ao material de arquivo para ilustrar as suas falas, concentra-se completamente no esforço biográfico, e as contradições nos testemunhos parecem revelar mais do que apareceria se se tivesse escolhido uma visão predominante.

MANK (2020)


Muitas pessoas não gostam de Citizen Kane porque lhes disseram que deviam gostar e acabaram por ficar de pé atrás. Ver ou gostar de Citizen Kane não é pré-requisito para gostar de Mank, mas pelo menos conhecê-lo ajuda. O novo filme de David Fincher é como a segunda fala de uma conversa. É uma resposta ao filme de Welles e ao cinema clássico americano que às vezes é homenagem (a mistura de áudio, com todos os canais centralizados, e a edição tensa marcada por diálogos rápidos emulam os filmes da época) e outras crítica, mas, na maior parte do tempo, prefere mostrar que o passado ainda nos acompanha no presente, num pernicioso eterno retorno. Além disso, é uma espécie de homenagem de Fincher ao pai Jack, que lhe escreveu o filme e morreu antes que o filho conseguisse fazê-lo. É um feito cinematográfico extraordinário e arriscaria dizer que é um dos melhores filmes da década.

TENET (2020)

Sempre gostei bastante de Christopher Nolan, mesmo sabendo que muita gente o considera irritante e pretensioso. Justo. Cada um gosta do que gosta. Porém, diria duas coisas sobre Tenet. Primeiro, que metade das coisas que se barafustaram sobre ele não teriam sido barafustadas se Nolan não tivesse feito Inception há dez anos. Segundo, que Nolan cumpre aquilo que se espera dele no seu melhor: criar um jogo de engodos com o seu espectador. Sim, Tenet é um filme de espionagem mascarado de ficção científica. E daí?

TIME (2020)

Na Amazon. A plasticidade deste documentário é tão grande, aquele olhar a preto e branco tão maravilhoso, que não poucas vezes dei por mim a pensar que o tema - o encarceramento da população negra enquanto instrumento de repressão e os seus duros reflexos sociais e pessoais - não deveria ser tratado desta forma. De qualquer forma, filme forte e recomendável.

ZAPPA (2020)


Descobri o Frank Zappa quando era adolescente, graças ao VHS que o meu pai tinha do "Does Humor Belong in Music?". Vi aquele concerto dezenas de vezes e, quando fui para a universidade, às vezes aproveitava algum dinheiro que sobrava no fim do mês para comprar um álbum dele. Isto era a época do pré-Napster: bons tempos. Tenho períodos preferidos (nunca gostei muito da fase do Synclavier), mas sempre foi dos músicos que mais admirei. Com este filme, Zappa finalmente ganhou um documentário com a estatura que ele merece, principalmente por focar num aspecto importantíssimo e pouco falado da sua obra: a busca constante e revolucionária por independência criativa e financeira.

MEET THE CENSORS (2020)


Da Amazon Prime. Um cineasta norueguês (Håvard Fossum) viaja pelo mundo e conversa com pessoas que, ou estão encarregadas de organizar a censura no seu país, ou convivem diariamente com algum tipo de censura do seu trabalho. A sua insistência é admirável, tal como as revelações nas suas viagens (Sudão do Sul, Alemanha, Índia, China, Irão e EUA), mas a construção do documentário enquanto viagem de autodescoberta resulta numa certa redundância narrativa: como Fossum não consegue tirar grandes conclusões, parece que voltamos ao ponto de partida. A pergunta que fica é se isso faz dele um documentário falhado ou se, pelo contrário, chegamos exatamente ao lugar aonde deveríamos chegar: ao impasse sobre como uma democracia pode limitar as mensagens antidemocráticas.

RAMY S02 (2020)


A forma como explico "Ramy" rapidamente para quem não a conhece é «uma espécie de "Master of None", mas em que a personagem principal é um jovem muçulmano». Sendo uma definição rápida, é também insuficiente, mas continuo a defendê-la. A busca pela identidade em "Master of None" passa pela posição do filho de imigrantes e pela experiência moderna do amor, tal como aqui. Porém, Ramy complica a equação juntando-lhe o questionamento permanente sobre a religião e o encontro com o sagrado. Tenho ainda um prazer especial: os episódios isolados centrados na personagem da mãe, interpretada pela maravilhosa Hiam Abbass.

THE THIRD DAY (2020)

Esta série intrigou-me mais do que me fascinou. Ainda assim, intrigou-me tanto que a vi até ao fim, o que é mais do que se pode dizer sobre muita coisa. Apreciadores de "folk horror" vão ter interesse especial.

ON THE ROCKS (2020)

O novo da Sofia Coppola começa morno, tentando encontrar-se num território geográfico e narrativo próximo do de Woody Allen. Porém, quando Bill Murray entra, o filme transfigura-se. Não é apenas por ele ser um grande ator, mas por principalmente por ser uma criatura do Cinema, uma espécie de património performático ambulante que chega para reclamar o seu território. Mais do que um filme com Bill Murray, este é um filme do Bill Murray.

THE QUEEN'S GAMBIT (2020)


Sempre se poderia criticar esta série dizendo-a previsível, mas isso seria uma patetice. A sua grande genialidade é a forma como, a partir da personagem, une dois géneros — a história de desporto, à falta de melhor termo (como "Rocky" ou "Karate Kid"), e a "coming of age". O caminho da vitória para Beth enquanto jogadora de xadrez encontra-se com o que a leva a tornar-se uma mulher adulta e independente, às vezes da forma mais crua possível. Mais do que ver, é uma série que se devora.

I KNOW THIS MUCH IS TRUE (2020)

Se algum dia estiverem a procurar um melodrama recente, e não se importarem com ele contrariar as tradições do género, tendo como protagonista um homem de classe média-baixa, vejam esta série da HBO. O primeiro episódio é tão triste, tão triste, que cheguei a levar as mãos à cabeça. Acabamos por recuperar do baque inicial e o Mark Ruffalo está incrível a interpretar dois irmãos gémeos, mas, meu deus, nem um raiozinho de sol de vez em quando...

BORAT SUBSEQUENT MOVIEFILM (2020)

O novo Borat tem um final amarradíssimo, arma uma cilada monumental para o Rudy Giuliani e tenta ir além da caricatura dos seus "alvos" (por exemplo, os sujeitos que recebem Borat na sua casa são, ao mesmo tempo, teóricos da conspiração e defensores dos direitos das mulheres), mas a direção mais limpa não tem aquela tensão suja e caótica da do Larry Charles no primeiro filme. Além disso, quando o primeiro Borat saiu, estávamos no segundo mandato do George W. Bush e os absurdos nacionalistas e racistas dos EUA pareciam nunca terem sido explorados em humor daquela forma tão crua. O impacto então foi muito forte, mas, na era Trump, não só o radicalismo tomou o poder como é pauta diária e constante de todo o humor que se faz no mundo, incluindo a série "Who Is America?" do próprio Sacha Baron Cohen. O que antes era "cringe" agora é banal.