O que vi em Julho

Bo Burnham: Inside
(2021). A dado momento do State and Main de David Mamet, uma personagem diz que «temos que fazer a nossa própria diversão, senão não é diversão: é entretenimento». Enquanto Burnham canta e dança, ele vai além duma comédia sobre a pandemia e o isolamento social: ele faz uma sátira dos formatos que inventamos para participar do capitalismo de comunicação de massas, ou seja, sobre a forma como a Internet nos levou a nos entretermos mais e nos divertirmos menos.

1971: The Year That Music Changed Everything (2021). Uma ótima série documental que lembra muito os filmes do Martin Scorsese sobre música. O talento de Asif Kapadia para trabalhar o arquivo continua admirável.

Summer of Soul (…or, When the Revolution Could Not Be Televised) (2021). Para quem viu 1971: The Year That Music Changed Everything, é o acompanhamento perfeito. Para quem não viu, é um documentário brilhante sobre um festival de música negra no Harlem cuja história (e gravações) foram ignoradas até hoje. O dueto da Mahalia Jackson e da Mavis Staples é tão incrível que dei por mim a limpar as lágrimas no fim.

Burden of Dreams (1982). Toda gravação tem os seus desafios particulares, mas, depois deste filme, acho pacífico afirmar que Werner Herzog não gostava de facilitar a própria vida.

Relic 
(2020). A demência, monstro. A casa, memória. O tempo, insuportável. A carne, maldição. A sororidade, imprescindível. Os labirintos psicológicos de "The Haunting" encontram os corpos impossíveis de Cronenberg e, na sua estreia em longas, Natalie Erika James já se junta à conterrânea Jennifer Kent no pódio das diretoras mais interessantes da atualidade.

Minamata (2020). Não é um grande filme, mas é um filme correto e importante. Correto, porque acerta em detalhes a que estará atenta qualquer pessoa que lidou com fotografia ainda na época do analógico. Importante, porque histórias sobre pessoas que se juntam para corrigir as injustiças que lhe são impostas por indústrias e políticos são cada vez mais necessárias. Além disso, consegue escapar de moralismos desnecessários.

The Sparks Brothers (2021). Um trabalho de amor de Edgar Wright sobre uma banda cultuada por muita mais gente além dele próprio. A certo momento, parece longo, mas entende-se: Wright tenta compensar o tempo perdido, dando aos irmãos a homenagem definitiva à obra que criaram ao longo de uma vida. É um filme que parece dar alento a qualquer criador, como se dissesse «aguentem aí, que isto vai dar certo». 

Marianne & Leonard: Words of Love (2019). Um documentário tão amoroso quanto a relação de Cohen com a sua musa norueguesa. Conta essa história sem firulas, e faz bem, porque ela já é interessante que chegue.

Rubber
(2010). Enganou-me. Pensei que ia ver um trash exagerado e esquecível sobre um pneu assassino e, afinal, levei com um filme de arte que homenageia a série Z dos anos 60 e 70 e constrói todo um discurso sobre a relação do espectador com a imagem. Arriscaria dizer que é brilhante.

People, Places, Things (2015). Uma comédia sensível sem ser "dramedy". Faz sorrir mais do que rir, e tudo bem, porque as personagens são simpáticas e extremamente humanas. Dura uns 80 minutos, mais ou menos a duração de Shiva Baby ou a de dois episódios de uma série dramática, e deixou-me a pensar se hoje não será este o novo formato ideal para longas-metragens.

The Incredible Jessica James (2017). Foi curioso ver este filme seguido de People, Places, Things, do mesmo diretor Jim Strouse. Apesar de divertido e ternurento, não parece tão bem conseguido quanto este último, e eu acho que isso tem a ver com um equilíbrio melhor do elenco, uma certa magia especial que é produzida tanto pelo esforço quanto pelo acaso. 

Woodstock 99: Peace, Love, and Rage
(2021). Comecei a adolescência a ver as bandas do Woodstock 94 e acabei-a com as do de 99, então, lembro-me muito bem de todo o contexto e das controvérsias em volta deste festival fatídico. Habituei-me a pensar nele como o enterro do rock, o momento a partir do qual a MTV se concentraria no pop e eventualmente deixaria de ser um canal de música, o evento a partir do qual os preços de bilhetes subiriam e em que os promotores perceberam que, se o público aguentava isto, conseguia aguentar pistas VIP numa boa. O documentário deixa isso muito claro, mas pareceu-me que, a certo momento, ele tenta fazer exatamente aquilo que também diz ser impossível: apontar culpados do descalabro, quando, na verdade, o que fica a pairar como uma sentença terrível para os anos que se seguiriam — o pós-11 de Setembro, a vigilância em massa, o trumpismo — é a frase final de Michael Lang: «Quisemos fazer um Woodstock contemporâneo. E o contemporâneo era isto». Só faltou falar mais sobre a ascensão da Internet enquanto fenómeno da segunda metade dos 90, fator primordial para a epidemia de hipersexualização e frustração de que esta gente branca estadunidense (e não só) sofre até hoje.

The Adventures of Tintin (2011). Vendo-o pela primeira vez dez anos depois da estreia, diria que é um filme-charneira na obra de Spielberg. A aventura e o humor criam uma ponte com Indiana Jones, referenciando-o de uma forma ambígua, como se, ao fazê-lo, também se homenageasse Tintin enquanto herói-irmão do arqueólogo (não influência — Spielberg só o conheceu depois de ter lido uma crítica que comparava Raiders of the Lost Ark aos livros de Hergé). Por outro lado, essa referência e o uso da animação "motion capture" prenunciam esse grande compêndio da cultura popular que se chama Ready Player One.

The Kid Stays in the Picture (2002). A vida de Robert Evans, lendário produtor, entre outros, de Love StoryThe GodfatherRosemary's Baby e Chinatown, contada pelo próprio com o contentamento de quem cria o seu próprio mito. Quem gostar de histórias sobre os bastidores da velha Hollywood vai ver como se se babasse com um doce — e eu adoro.

Hacks (2021). O mundo da comédia profissional está lá, o subtexto sobre mulheres tentando colaborar para se desviarem das agressões do mundo também, mas, para mim, esta série foi resumida num artigo de forma brilhante com a expressão «boomers vs. zoomers». É o conflito geracional que a move, é ele que nos faz rir, além da magnífica Jean Smart. É uma série divertida, mas acho que lhe falta uma pontinha de audácia. Quem sabe nas próximas temporadas.

The Flight Attendant
(2020). Fui vê-la por causa da nomeação ao Emmy, que acaba por ser meio enganadora, porque é mais uma série de espionagem bem-humorada do que uma comédia. É estranho dizer, achei-a, ao mesmo tempo, interessante, bem feita e irritante. Kaley Cuoco está muito bem, mas a sua personagem é como aquele amigo insuportavelmente carente que nos obriga a concentrar as atenções nele quando tudo o que nos apetece é deixá-lo estraçalhar-se por aí. Ao mesmo tempo, é uma espécie de resposta (quase literalmente uma ressaca) a uma “persona” cómica de moça festeira que foi bem popular no início dos 2010s, muito por causa de Amy Schumer. Isso, e a forma como a série constrói cuidadosamente os símbolos e os vai revelando devagar ao longo da narrativa, merece que a experimentem.

PEN15
(2019-). Ainda nem terminei a primeira temporada e já consigo dizer que é das comédias mais originais e divertidas que vi nos últimos tempos. Nela acompanhamos duas meninas de 13 anos enquanto enfrentam os desafios da escola, dos primeiros amores, da família, da puberdade — e que são interpretadas pelas próprias criadoras da série, Maya Erskine e Anna Konkle, já bem entradas nos seus trinta anos, enquanto todos os outros atores têm a idade das suas personagens. É uma premissa dramatúrgica extraordinária e extremamente arriscada, mas elas conseguem fazê-la funcionar. Parece que, ao interpretarem estas versões semificcionais delas mesmas, Erskine e Konkle sabem por instinto como fazer delas personagens simultaneamente com graça e dignidade. A empatia é imediata, porque, às vezes, todos fazemos o mesmo: rimos das nossas encarnações adolescentes ao mesmo tempo que lembramos esse tempo num misto de ternura, saudosismo e azedume. Parece beber um pouco de Superbad, um outro tanto de Big Mouth e é uma grandiosa representação da adolescência feminina. 

Shrill
s03 (2021). No especial Talking Funny, Chris Rock revelou um dos seus lemas de trabalho, e ele pareceu-me desde então um excecional medidor de bom gosto cómico: «ri-te do que as pessoas fazem, não do que elas são». Na sua temporada final, Shrill confirmou o que sempre pareceu ser: uma série “woke” por excelência, mas que percebe que isso não é nenhum impeditivo para satirizar a cultura “millennial”, porque o que importa, lá está, é rir do que as pessoas fazem, não do que elas são. É uma série muito representativa dos nossos tempos pós-Seinfeldianos, em que se prefere o cómico de situação ao de personagem ou, melhor, em que se recusa a caricatura se esta não for conquistada com o aprofundamento das contradições da personagem. Perceber que os vilões não são assim tão vilões e os bonzinhos não são assim tão bonzinhos atrapalha a comédia? Absolutamente nada, porque nós, pessoas, somos um poço infindável de falhas, exageros e passos em falso, e a comédia está aí. O final da série — sem spoilers — é um exemplo claro disso, mostrando-a como uma história “coming of age” que celebrou a juventude e, de repente, se descobre adulta sem saber o que isso significa.

Dracula (2020). Depois de Sherlock, Gatiss e Moffat releem um outro clássico literário novecentista. O “modus operandi” deles parece o mesmo – explorar a fundo as características da personagem, usar as histórias canônicas como premissa para extrapolações – e isso acaba por traí-los no episódio final, mas, no geral, é uma bela releitura, principalmente pela forma como a personagem do Drácula é pensada para a atualidade: como um predador, uma espécie de Harvey Weinstein/stalker/psicopata/minion que suga a vida dos outros para ganhar a sua. Considerando isso, não me parece acaso que Claes Bang interprete o conde como se roubasse um pouco de cada um dos seus grandes atores (Schreck, Lugosi, Lee, Oldman), construindo um vilão fascinante e contraditório tal como Andrew Scott fez com o Moriarty dos mesmos autores. O seu Drácula é insaciável, nada romântico, sarcástico e até engraçado. Bem divertido.

Katla
(2021). Já vimos as paisagens geladas da Islândia nos “nordic noir” Trapped e The Valhalla Murders e no terror psicodélico de Fortitude, mas Katla é outra coisa. Constrói um paralelismo brilhante entre espaços físicos e psicológicos talvez como nenhuma outra série nórdica antes dela, deixando-nos numa tensão constante que nunca parece dissipar-se. Isso parece ser a sua grande vitória e, ao mesmo tempo, aquilo que a torna vulnerável a críticas, porque não há nela variações de tom para aliviar um pouco o peso do espectador. Vê-la é um exercício de inquietude e de reflexão sobre o tempo, a memória e a individualidade. 

It’s a Sin
(2021). Russell T Davies chegou àquele Olimpo autoral em que o seu nome chega para chamar o público, mas isso não significa que ele caia na preguiça. Esta é uma belíssima história sobre os primeiros dias da AIDS em Londres e Davies, como já tinha mostrado em Years and Years, é um mestre do tom – muitas lágrimas contrabalançadas com muitos sorrisos – e das personagens, todas cheias de contradições morais, todas com pelo menos um momento para brilhar. Os atores devem amá-lo.

Sobre Nasce Uma Estrela


O Youtube pôs a tocar o ShaShaShaShalloooow e lembrei-me de algo que pensei quando vi o Nasce Uma Estrela. A gente que gosta de filmes vê muita coisa diferente, do trash a realismo poético, e isso acontece porque, quanto mais filmes vê, mais sabe que muitos serão iguais. Até certo ponto, tudo bem, né? Há momentos que só queremos aquele novo filme de super-herói que repete a curva do filme de super-herói anterior e não pensar em mais nada enquanto comemos pipoca. Mas cansa, daí procurarmos coisas diferentes, que não conhecemos e às vezes nem sabemos se vamos gostar, mas vemos — porque talvez o filme desconhecido nos ensine algo novo, ou nos mostre um dilema em que nunca nos tínhamos colocado, ou nos leve a percebermos que algo que damos por certo não o é. É por isso que a cinefilia é uma aventura e uma dedicação, porque, no fim, seja por qual razão for, o que importa é o encontro conosco mesmos a que o filme nos leva. 

Ora, o curioso é que, quando vi o Nasce Uma Estrela, fiquei impressionado. Mais do que isso: fiquei impressionado por ficar impressionado. É uma versão refrescada de uma história que já foi contada várias vezes, mas que não infantiliza o espectador. As personagens não são particularmente originais, mas têm as contradições e feridas todas à mostra e são muito bem interpretadas. É um filme de amor que não é uma comédia romântica e teve um orçamento médio para os padrões de Hollywood (36 milhões de dólares). Enquanto o via, dei por mim a pensar que, um dia, este cinema "do meio", que não procura a ruptura estética nem a produção gigantesca, já foi o padrão, o igual, oferecido em massa todas as semanas a públicos de todo o mundo: apenas uma história bem contada sobre gente adulta. O que diz sobre nós que não o seja mais?.

O que vi de Maio até agora

Nestas últimas semanas, vi séries tão boas que os filmes pareceram ficar para segundo plano.
 
Exterminate All the Brutes (2021). Não é um simples documentário, é um ensaio visual devastador que revela o mundo de hoje como o resultado de um longo processo histórico com três pilares: civilização, colonização e aniquilação. Ler as obras em que se inspira e que, no fundo, são a sua bibliografia: Exterminate All the Brutes, de Sven Lindqvist, An Indigenous Peoples' History of the United States, de Roxanne Dunbar-Ortiz, e Silencing the Past de Michel-Rolph Trouillot.

Elvis Presley: The Searcher (2018). Ótimo documentário na Netflix. Põe em relevo, não as fofocas ou a fama, mas a música de Elvis enquanto somatório e encontro da música americana e, por extensão, do próprio país. 

Devs (2020). Recomendaram-ma depois de ter dito que não era o maior fã de Alex Garland. Fizeram bem. Misteriosa, viciante e com um roteiro impecável. Alison Pill mostra mais uma vez que é uma coadjuvante que adiciona ainda mais valor a qualquer coisa onde entra. 

Mare of Easttown (2021). Já se disse tudo sobre ela. Semanas depois de a ter visto, retenho a força imensa do primeiro episódio, que nos faz pairar sobre as personagens como se realmente fôssemos recém-chegados a uma cidade — entendendo mais ou menos quem é quem, mas só o suficiente para nos deixar curiosos para saber mais — e o tom de "nordic noir" aplicado a um retrato realista da classe média americana. 

Garth Marenghi's Darkplace (2004). Acho que a tentava verhá uns 15 anos e finalmente consegui. Mirabolante e divertidíssima. Impressiona ver como Richard Ayoade e Matt Berry,  aqui ainda nos seus vinte anos, sempre foram brilhantes.

The Comedy Store (2020). A história deste clube de comédia lendário de Los Angeles, repleto com os testemunhos das estrelas que o fizeram e que se fizeram nele.

Servant (2019). Ao contrário de muita gente, não tenho nada contra M. Night Shyamalan, mas Servant tem um problema: é tão competente a construir tensão que se nota o seu enredo muito fino. Terror psicológico não é só atmosfera.

What We Do In The Shadows (2019- ). Nunca pensei que pudesse ser ainda mais divertida do que o filme de Taika Waititi e Jemaine Clement, mas é isso mesmo que ela é. Atores e personagens apuradíssimos e episódios muito bem construídos mostram que o "mockumentary" ainda continua vivo e muito bem.

Master of None (s04). Das ruas de Nova Iorque aos interiores de Ingmar Bergman: a mudança de rumo estético e narrativo nesta temporada é inusitado, mas funciona e mostra de novo que Aziz Ansari não tem medo de correr riscos. Porém, será que ele está consciente do tanto que parece imitar a trajetória artística de Woody Allen?

Vi três minisséries inglesas que recomendo a qualquer pessoa. The Cry (2018) manipula constantemente a atenção do espectador, como um prestidigitador fazendo um truque de magia. Nunca esquecerei o prólogo do primeiro episódio, que, em poucos minutos e quase sem diálogo, consegue fazer-nos entender perfeitamente a história que vamos ver e, ao mesmo tempo, não revela quase nada sobre ela. Já The Virtues (2019) é triste e melodramática — talvez até um pouco exagerada. As suas ótimas personagens de classe trabalhadora dão-nos a sensação de estarmos a ver algo feito pelo Ken Loach, mas ela parece perder-se um pouco nos seus próprios labirintos. E Time (2021) é triste, mas esperançosa, trágica, mas sem lamúrias. Tem umas meras 3 horinhas e é uma das melhores histórias de prisão que vi nos últimos tempos, com personagens que vão além do clichê. Sean Bean está incrível e Stephen Graham é um monstro, um dos melhores atores ingleses em atividade hoje.

Friends: The Reunion (2021). Este especial é como a série era: bem-humorado, emotivo, lamechas qb. É um "divertissement", um pacote de Doritos que se come para enganar a fome. No caso, a fome é o saudosismo, aquele sentimento enganador que nos confunde entre o mundo que existiu e aquela outra pessoa que fomos nele.

The Fresh Prince of Bel-Air Reunion Special (2020). Comparado com o do Friends, parece mais arejado e mais disposto a enfrentar os elefantes na sala, como o encontro de Will Smith com Janet Hubert, a primeira "tia Vivian" que saiu em desgraça da série. Esse, que é o momento principal, parece dar-nos uma lição importante: as pessoas cometem erros, arrependem-se e mudam em função deles, mas não somos grande coisa se não tentarmos escutar o outro. Moralista, mas importante.

Mistress America (2015). Personagens que são simultaneamente ridículas e simpáticas: uma comédia "mumblecore" que mostra como todos os filmes "mumblecore" deveriam ser.

Irresistible (2020). Dirigido pelo Jon Stewart, é, no fundo, uma versão em filme daquilo que ele representa desde os tempos do Daily Show: um pensador satírico dos EUA, um explorador incansável das absurdas contradições do seu sistema político enquanto combustível cómico e um manipulador hábil das expectativas do público.

The Amusement Park (2019). Não é o filme mais assustador de George Romero, como já vi escrito por aí, mas certamente é um dos filmes corporativos mais divertidos de sempre.

Santiago, Italia (2018). Uma obra de denúncia de Nanni Moretti e mais um documento importante sobre as atrocidades do absurdo regime de Pinochet. 

…And Justice for All (1979). Um filme bem anos 70: masculino, denso, com personagens fortes e surradas que tentam cavar um caminho através da confusão. Talvez tenha um pouco de confusão a mais, no entanto: às vezes parece disperso.

O What We Do In The Shadows levou-me a revisitar os filmes de Taika Waititi. Em Boy (2010),  ele mostra as pessoas e a cultura da sua comunidade maori de forma muito bonita e sempre muito engraçada, além de deixar saliente uma característica central da sua obra: a forma como as crianças parecem muito mais sensatas do que os adultos. São estes que, perdidos em interesses e pulsões pouco nobres, perturbam as vidas até então equilibradas daquelas. A maestria de Waititi para trabalhar com crianças também se vê no lindíssimo Hunt for the Wilderpeople (2016). Acho que o seu olhar combina com o sentido de aventura, magia e ternura infantil, além de se notar o amor pelos estranhos e deslocados que já mostrara em Eagle vs Shark (2007).

Heavenly Creatures (1994). É curioso perceber como Peter Jackson revela neste drama temas das obras de terror "gore" que tinha feito até então: o fantástico como escape do cotidiano familiar, o poder do amor tanto para condenar quanto para salvar as personagens, a obsessão. E Kate Winslet já era ótima logo no início da sua carreira no cinema.

Queen & Slim (2019). Em Abril, Daniel Kaluuya ganhou o Oscar por Judas and the Black Messiah. Acho que houve nessa vitória um reconhecimento, não só do grande ator que ele é, mas também do fato de, desde Get Out, ele protagonizar algumas das narrativas que melhor revelam a consciência da população negra americana perante a encruzilhada de injustiças e desigualdade de que é alvo. Este filme é uma dessas narrativas.

Stardust (2020). Mais do que um filme mau, é um filme estranho. É um filme sobre o David Bowie sem músicas do David Bowie e com atores que lembram muito pouco as pessoas reais. No fundo, parece usar a ideia mítica de Bowie enquanto personagem de si mesmo para invocar o seu conjuro, mas tanto Bowie quanto outros filmes, como Velvet Goldmine, o fizeram muito melhor e de forma muito mais memorável. 

Old School (2003). É interessante pensar como Todd Phillips, desde esta comédia até Joker passando pelos Hangover, se especializou em dirigir filmes sobre homens adultos que batalham para aceitar e reformular a sua maturidade. É uma obra fundamental para entender a crise da masculinidade no século XXI, e ainda tem o Will Ferrell.

Spring (2014). Uma história de amor num universo de terror. Interessante e original, mas a força da premissa acaba por se perder.