Marighella (2019)

O filme proibido pelo bolsonarismo é bem feito, mas não é perfeito. O Wagner Moura está firme na direção, orienta um elenco seguro e monta uns planos-sequência de arrepiar. Marighella parece colocar-se como um registro para a posteridade da vida e luta armada do político inimigo da ditadura e, por isso, talvez o Che de Steven Soderbergh seja uma boa obra a partir do qual pensá-lo. Como Soderbergh, Moura acerta ao evitar o tom hagiográfico — Marighella é mostrado, não reverenciado — mas enquanto os filmes sobre o argentino* cubano apostavam na solidez histórica (o próprio filme era o ato militante), Moura parece hesitar entre os fatos e o apelo à revolta e à indignação. Com isso, ele acaba por perder força dos dois lados: Marighella é um filme histórico, denso e relativamente longo, sem o sentido de urgência que faria toda a gente querer derrubar o governo depois de vê-lo, mas também com pormenores que o distanciam do fato concreto e nos deixam muitas vezes a perguntarmo-nos se aquilo que vemos aconteceu realmente. Um desses pormenores que me irritou particularmente é o fato de, em geral, as personagens não terem o nome das figuras históricas: o delegado Sérgio Fleury cometeu atrocidades suficientes durante a sua vida para ser reconhecido como algoz da ditadura, não mascarado atrás do nome "Lúcio". Não se pediria para Moura fazer um documentário, claro. O problema é que ele deixa-nos na dúvida, e isso diminui a relevância e o poder de ataque do seu filme, que deixa de ser um acerto de contas com a História e se transforma numa espécie de fábula.
Além disso, a personagem principal perde vapor pelo meio e a força trágica da sua história esvai-se. As cenas deixam de ser impulsionadas pelas ações de Marighella e ele acaba por tornar-se um espectador das ações dos outros. Ao mesmo tempo que isto enfraquece o filme, não deixa de ser uma metáfora perfeita do Brasil atual. Como Marighella, o brasileiro hoje sente-se perdido e acuado, sem saber muito bem o que fazer para escapar ao conformismo odioso que o cerca. Às vezes, a única solução possível parece ser desaparecer e esperar que outros continuem a luta. Isto é bonito, mas não encoraja a resistência — e era isso que se esperava mais deste filme.

O que vi em Abril


Parks and Recreation (2009-2020). Acho que, ao longo dos anos, já tinha visto e revisto temporada e meia de Parks and Recreation. Nunca avançara, porque não me prendia: a série era engraçada, mas faltava alguma coisa no balanço das personagens que me deixasse mais envolvido. Porém, um destes dias, num vídeo do canal de YouTube Entertain The Elk, ouvi algo que me deixou intrigado: que a série engrena de verdade quando Rob Lowe e Adam Scott entram. Retomei-a a partir de onde a deixara e realmente o Elk tinha razão. Não é só por causa dessas personagens propriamente ditas, mas por parecer que é nesse preciso momento que a série entende o seu tom e abandona completamente a acidez e a ironia, concentrando-se naquilo que realmente traz de original: a amizade e o afeto real entre colegas de trabalho, o que parece combinar com o ambiente real da gravação que se percebe nos vídeos de "bloopers" disponíveis por aí. Parks and Recreation é sobre o encontro de pessoas que gostam umas das outras e, ao mesmo tempo, uma elegia do servidor público dedicado que realmente quer melhorar a vida da sua comunidade. Por isso, o episódio especial de 2020, em que o elenco retoma as personagens para passar orientações sobre o Covid-19, faz todo o sentido. Há um grande mérito em fazer uma boa comédia sobre valores positivos: Parks and Recreation é realmente muito especial.

Groundhog Day (1993). Vi-o pela enésima vez e, como no primeiro dia, maravilhei-me com este roteiro perfeito que se encerra em si mesmo e os pormenores meio esquecidos que ressurgem com nova força. É como se, em parte, o filme fosse sempre novo.

Stranger Than Fiction (2006). Não sabia como ele teria resistido ao avanço do templo. Porém, resistiu muito bem e continua um ocupante brilhante desse território perigoso entre a comédia, o drama e a metanarrativa. A versatilidade de Will Ferrell é quase assustadora.

Happy-Go-Lucky (2008). Quando o vi pela primeira vez, há dez anos ou mais, pareceu-me um filme menor do Mike Leigh com um elenco muito bom. Hoje, mudei um pouco de opinião. O papel de Poppy é complexo e cheio de sutilezas, mas também traiçoeiro para quem não estiverer disposto a entendê-lo por inteiro. Uma atriz menos boa poderia tê-lo arruinado, mas Sally Hawkins é grandiosa nele, e é precisamente porque o filme escolhe centrar-se nela que ele cresce acima da média.

Quo Vadis, Aida? (2020). Diz-se que Pedro fugiu de Roma e encontrou Jesus ressuscitado. Pedro perguntou "quo vadis?", ou seja, "aonde vais?". Jesus respondeu "vou para Roma para ser crucificado outra vez". Então, Pedro voltou para Roma, onde foi capturado e crucificado de cabeça para baixo. Como Pedro, Aida regressa e enfrenta o pior que o mundo depois duma guerra civil tem a oferecer. É um martírio, mas talvez também a forma de ela se apropriar da História.


Shiva Baby (2020). Há tempos, revi vários filmes do início da carreira do Godard e percebi que aquelas obras-primas são invariavelmente pequenas (poucas locações, poucos meios, poucos atores) e curtas. Não só isso, como essas características dão-lhes força, como se cada uma fosse uma pequena bofetada de Cinema. Shiva Baby é assim. É bem interpretado, bem escrito, bem dirigido Com 77 minutos, é menor do que dois episódios de uma série dramática. Porém, esses 77 minutos são suficientes para ele contar a sua história e propor a sua estética. Será o início de uma tendência, o cinema indie do pós-pandemia a assumir que, numa época de streaming e binge-watching, não precisa alongar-se no tempo para ser memorável? Veremos.

Sinister (2012). Já vi filmes de terror piores, mas o final abrupto deixa a sensação que lhe falta um ato. Vale muito pelo Ethan Hawke, que praticamente carrega o filme nas costas.

Sasquatch (2021). Quando os créditos iniciais começaram a aparecer, pensei "um documentário sobre o Pé Grande produzido pelos Duplass? O que é isto?". Mais interessante do que fascinante, mas, ainda assim, um bom "true crime", que intriga o espectador tanto com o crime quanto com aquilo sobre que a série realmente é.

Black Bear (2020). Poderia ter o subtítulo "Polanski e Cassavetes através do mumblecore". Bom papel da Aubrey Plaza.

Eve’s Bayou (1997). Não é normal ver um filme sobre personagens "cajun", ainda incluindo parte substancial de diálogo falado no dialeto próprio. É um filme sensível, elementar, com aquele tom e ritmo do "southern gothic" que revela o misticismo do cotidiano e as pulsões partilhadas entre natureza e pessoas. Um belo achado.


Shrill (2019- ). Esta série da Hulu consegue o feito de ser muito engraçada sem precisar entrar no disparate e de ser muito humana sem ser "dramedy. Fala sem clichês sobre ser mulher, ser gorda e ser jovem, com personagens que erram constantemente e parecem tão perdidos na idade adulta quanto qualquer pessoa. Assisti-la é um privilégio.

C'eravamo tanto amati (1974). Tem cheiro de cinema novo influenciado pela Nouvelle Vague francesa, mas, ao mesmo tempo, presta homenagem ao neorrealismo italiano em geral e a De Sica em particular (o estilo nas sequências a preto e branco não difere apenas na cor) e, mais, não deixa de ser uma comédia bem italiana, com figuras "larger than life", conflitos familiares, casamentos desavindos e amigos que discutem e brigam. Uma maravilha.

Cinema Paradiso (1988). Revi-o na Sexta-feira Santa, curiosamente o único dia que Alfredo, o projecionista, tinha de férias durante o ano. Já o vi muitas, muitas vezes. Desta vez, como sempre, chorei um rio de lágrimas.