Os Oscars: os nomeados e algumas previsões

Ao contrário do que é costume, vi vários filmes nomeados ao Oscar deste ano, cuja cerimónia será amanhã. Isto foi o que eu escrevi sobre eles ao longo destes meses. No final, do texto, coloco alguns desejos e previsões. As imagens são daqui.


The Father: Lembrou-me muito o episódio "The Queen" da série Castle Rock e, mais curiosamente, o filme La Moustache (2005), em que Emmanuel Carrère fala sobre conjugalidade e consciência usando ferramentas narrativas muito parecidas com as que Florian Zeller utiliza para conseguir que o espectador entre na história através da demência da personagem principal. Comovente, doloroso e com um elenco incrível, principalmente o gigantesco Anthony Hopkins.

Minari: Não é incrível, mas também não tenta ser. É um filme bonito, sensível e que emocionará muitas famílias de emigrantes. Está ótimo.

NomadlandÉ curioso como, aqui e também no seu filme anterior, The Rider, Chloé Zhao olha para os EUA de uma forma que é, ao mesmo tempo, estrangeira e extremamente americana. Esta é a América dos grandes espaços, dos territórios livres que parecem disponíveis para serem ocupados, mas também a América onde o sentido das vidas é uma interrogação permanente e o famoso "sonho" já não é mais do que uma recordação distante. Na obra da diretora de origem chinesa, a ficção e a realidade também parecem territórios concomitantes, sempre prestes a entrarem um pelo outro, e aqui isso traduz-se em nómadas verdadeiros que se interpretam a si mesmos e que, nas cenas de conversas, raramente aparecem no mesmo plano que Frances McDormand. Isso não é um mero pormenor de estilo: tal como a protagonista atravessa a terra sem nunca criar raízes (apesar de, ironicamente, ela se chamar "Fern", como a planta), a ficção aqui passeia pelo mundo real, alimentando-se da sua contemplação ao mesmo tempo que não o ocupa ou apaga. É um filme vagaroso e sensível, mas nunca inocente, sobre pessoas que em algum momento se feriram e seguiram em frente porque não há muito mais a fazer.

Judas and the Black Messiah: Não é um filme espetacular, porque o espetáculo não lhe interessa. A história de Fred Hampton é a história de um dos maiores crimes que o governo dos EUA já perpetrou contra um dos seus cidadãos e ele merecia um filme à altura do que Spike Lee fez para Malcom X. Finalmente conseguiu-o.

Mank: Muitas pessoas não gostam de Citizen Kane porque lhes disseram que deviam gostar e acabaram por ficar de pé atrás. Ver ou gostar de Citizen Kane não é pré-requisito para gostar de Mank, mas pelo menos conhecê-lo ajuda. O novo filme de David Fincher é como a segunda fala de uma conversa. É uma resposta ao filme de Welles e ao cinema clássico americano que às vezes é homenagem (a mistura de áudio, com todos os canais centralizados, e a edição tensa marcada por diálogos rápidos emulam os filmes da época) e outras crítica, mas, na maior parte do tempo, prefere mostrar que o passado ainda nos acompanha no presente, num pernicioso eterno retorno. Além disso, é uma espécie de homenagem de Fincher ao pai Jack, que lhe escreveu o filme e morreu antes que o filho conseguisse fazê-lo. É um feito cinematográfico extraordinário e arriscaria dizer que é um dos melhores filmes da década.

Promising Young Woman: Depois de I Care a Lot, mais uma bela e inesperada junção de comédia e thriller. Carey Mulligan está ótima, tanto no filme quanto na sua carreira: ela traz para as suas personagens peso e profundidade, compondo-as de forma silenciosa e refinada. O melhor filme de vingança que vi desde Blue Ruin (2013).

Sound of Metal: É possível que Riz Ahmed seja um dos melhores atores da sua geração. A sua entrega ao papel só rivaliza com o outro grande protagonista deste filme: o som, claro, tão intensamente desenhado que até dá pena que a grande maioria dos espectadores deste filme o tenhamos visto em casa e ouvido em colunas roufenhas. 

The Trial of the Chicago 7: Gosto muito do Aaron Sorkin e, mesmo que não gostasse, um filme de tribunal escrito e realizado pelo homem que escreveu a frase "you can't handle the truth" é sempre de saudar. Nos seus "biopics", ele nunca foi um maníaco pela fidelidade às datas, por isso não vale a pena entrar na onda da verificação histórica. De resto, Sorkin entrega aquilo a que nos habituou: um bando de ótimos atores a interpretar personagens carismáticas com excelentes diálogos no contexto duma história política muito bem contada. Porém, tenho que dizer que o final me pareceu precipitado e sentimentalista, bem aquém do resto do filme.

Druk: É um filme centrado no conceito da perda em mais do que um sentido: é a perda de quem chega à meia idade sem perspectivas, mas também a do próprio realizador Thomas Vinterberg, cuja filha morreu num acidente no início da gravação. Isso tudo parece resultar em personagens e numa obra em estado de vertigem, que, na maior parte do tempo, parece arrastar-nos com ela numa queda livre sem que saibamos onde e quando vamos cair. A ambiguidade do seu final é marcante e talvez seja mesmo inevitável. 

Ma Rainey’s Black Bottom: A Viola Davis é um gigante e o Chadwick Boseman era outro. Belo, belo filme.

The United States vs. Billie Holiday: Tem menos foco do que a câmera embaçada do meu celular e as personagens parecem tão perdidas quanto o filme. Andra Day impressiona, mas parece que a vemos mais do que à personagem que interpreta.

Soul: O último da Pixar tem tanto de divertido quanto de comovente e ensina duas lições importantes: os adultos devem aproveitar mais a vida e as crianças devem aprender a gostar de jazz. 

Eurovision Song Contest: É claro que, sendo europeu, a minha memória afetiva da Eurovisão é tão grande e irrazoável quanto a que um brasileiro tem de carne louca. A Eurovisão é um lugar estranho: todos sabemos que aquilo é piroso e o espetáculo mais artificial que pode haver, mas, em algum momento, todos entramos numa discussão sobre qual deve ser a canção escolhida. Há algo de muito comunitário nesse ritual, e o filme soube captar isso muito bem, talvez porque o Will Ferrell, ao que parece, tem esposa sueca e acompanha o festival há anos. As aparições de verdadeiros vencedores da Eurovisão (incluindo o Salvador Sobral) devem ser lidas por aí. O filme é uma homenagem simpática a este universo, com purpurina, luzes, cores e a exaltação das emoções desbragadas. Mais do que rir, faz-nos sorrir — mas sorrimos muito.

Two Distant Strangers: Intenso, militante e bem interessante. O formato de curta fá-lo sofrer um pouco: a personagem do polícia merecia mais desenvolvimento.

Colectiv: Jornalistas perseguidos, um sistema de saúde colapsado, corrupção enraizada em todos os setores da sociedade e uma balada que pegou fogo matando dezenas. Se não fosse o ministro da Saúde que realmente tenta ajudar as pessoas, poderíamos pensar que é o Brasil.

El Agente Topo: Um documentário chileno sobre um idoso que é contratado por um detetive particular para se internar numa casa de repouso e investigar se ela maltrata os seus residentes. Tem tanto de divertido quanto de emocionante.

My Octopus Teacher: Em Grizzly Man, Herzog soltou uma frase que nunca mais esqueci: "o denominador comum no universo não é harmonia, mas caos, hostilidade e assassinato". Este filme é uma memória suave de que a vida neste mundo é cruel e rápida — e que talvez essa seja a razão para procurarmos a beleza e o amor enquanto aqui estamos.

Time: Na Amazon. A plasticidade deste documentário é tão grande, aquele olhar a preto e branco tão maravilhoso, que não poucas vezes dei por mim a pensar que o tema - o encarceramento da população negra enquanto instrumento de repressão e os seus duros reflexos sociais e pessoais - não deveria ser tratado desta forma. De qualquer forma, filme forte e recomendável.

Tenet: Sempre gostei bastante de Christopher Nolan, mesmo sabendo que muita gente o considera irritante e pretensioso. Justo. Cada um gosta do que gosta. Porém, diria duas coisas sobre Tenet. Primeiro, que metade das coisas que se barafustaram sobre ele não teriam sido barafustadas se Nolan não tivesse feito Inception há dez anos. Segundo, que Nolan cumpre aquilo que se espera dele no seu melhor: criar um jogo de engodos com o seu espectador. Sim, Tenet é um filme de espionagem mascarado de ficção científica. E daí?


Não faço a mínima ideia do estado de espírito dos membros da Academia e do lado para que o voto lhes terá ido, o que sempre dá surpresas (às vezes boas: Parasite é um exemplo).  No geral, este ano os nomeados são bons: os prêmios serão bem entregues. De qualquer forma, aqui seguem os filmes que eu acredito que vencerão e também aqueles que eu preferia que vencessem.

MELHOR FILME
Queria que ganhasse: Promising Young Woman
Acho que vai ganhar: Nomadland (vencedor)

MELHOR DIREÇÃO
Queria que ganhasse: Thomas Vinterberg, Druk, ou David Fincher, Mank
Acho que vai ganhar: Chloé Zhao, Nomadland (vencedora)

MELHOR ATOR
Queria que ganhasse: Anthony Hopkins, The Father (vencedor)
Acho que vai ganhar: Chadwick Boseman,  Ma Rainey's Black Bottom 

MELHOR ATRIZ
Queria que ganhasse: Carey Mulligan, Promising Young Woman
Acho que vai ganhar: Frances McDormand, Nomadland (vencedora)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Queria que ganhasse: Daniel Kaluuya, Judas and the Black Messiah (vencedor)
Acho que vai ganhar: Daniel Kaluuya, Judas and the Black Messiah

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Queria que ganhasse: Olivia Colman, The Father
Acho que vai ganhar: Olivia Colman, The Father
Vencedora: Yuh-Jung Youn, Minari

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Queria que ganhasse: The Father (vencedor)
Acho que vai ganhar: The Father

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Queria que ganhasse: Promising Young Woman (vencedor)
Acho que vai ganhar: Judas and the Black Messiah

MELHOR ANIMAÇÃO
Acho que vai ganhar: Soul (vencedor)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Queria que ganhasse: Colectiv
Acho que vai ganhar: Crip Camp
Vencedor: My Octopus Teacher

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Queria que ganhasse: Druk (vencedor)
Acho que vai ganhar: Druk

MELHOR FOTOGRAFIA
Queria que ganhasse: Mank (vencedor)
Acho que vai ganhar: Nomadland

MELHOR MONTAGEM
Queria que ganhasse: The Father
Acho que vai ganhar: The Father
Vencedor: The Sound of Metal

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
Acho que vai ganhar: Soul (vencedor)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Queria que ganhasse: “Husavik”, Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga
Vencedor: "Fight for You", Judas and the Black Messiah

MELHOR SOM
Queria que ganhasse: The Sound of Metal (vencedor)
Acho que vai ganhar: The Sound of Metal

MELHOR FIGURINO
Queria que ganhasse: Ma Rainey's Black Bottom (vencedor)
Acho que vai ganhar: Ma Rainey's Black Bottom

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM
Queria que ganhasse: Mank
Acho que vai ganhar: Ma Rainey's Black Bottom (vencedor)

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Queria que ganhasse: Mank (vencedor)
Acho que vai ganhar: Ma Rainey's Black Bottom

Them (2021- )

Alguns momentos de Them, a nova série da Amazon Prime, parecem desenhados com traços grossos e um pouco de clichê. Não consigo ver mais pontos fracos nela, até porque, ao mesmo tempo, ela vem carregada de simbolismos e sutilezas. É uma revelação do "americana" como território de demónios e violência e do racismo estrutural como condenação física e psicológica que impõe limites aos corpos e máculas aos espíritos. Homenageia a família (principalmente a Mãe) como núcleo fundamental de resistência, faz um paralelismo brilhante entre a protagonista e a vilã — um papel tão bom da Alison Pill que merece todos os prémios do mundo — e usa a música de forma certeira e cheia de significado. 

Them não é "torture porn". Ela angustia mais com a representação da injustiça do que com a da tortura física. "Injustice porn", talvez? Ela é claramente influenciada por The Terror, por American Horror Story, por The Twilight Zone (a vizinhança poderia ser a mesma do episódio The Monsters Are Due on Maple Street) e pelas obras de Jordan Peele, que venceu a História e levou o negro ao lugar de protagonista de Terror.* Porém, ela também é a série que Lovecraft County queria ser e não foi, a série que AHS já não é há muito tempo. Ela prende-nos, leva-nos para o seu mundo e dá vontade de ver todos os episódios de enfiada. Recomendo muito.

* Ver o excelente documentário Horror Noire para saber mais, incluindo a construção histórica do Negro como antagonista no género.