OPERAZIONE PAURA (1966)

Os filmes do Mario Bava são sempre fascinantes pela forma como, por trás da capa de escândalo e de "pulp", revelam um cineasta extremamente detalhista e técnico, com um domínio absoluto sobre as imagens que constrói e a capacidade de engrandecer uma cena com a sua câmara. A história misteriosa e o ambiente de terror gótico de "Operazione Paura" atraem, mas, no fundo, Bava segura-nos porque os filmes dele são, literalmente, para serem vistos.

THE TRIAL OF THE CHICAGO 7 (2020)

Gosto muito do Aaron Sorkin e, mesmo que não gostasse, um filme de tribunal escrito e realizado pelo homem que escreveu a frase "you can't handle the truth" é sempre de saudar. Nos seus "biopics", ele nunca foi um maníaco pela fidelidade às datas, por isso não vale a pena entrar na onda da verificação histórica. De resto, Sorkin entrega aquilo a que nos habituou: um bando de ótimos atores a interpretar personagens carismáticas com excelentes diálogos no contexto duma história política muito bem contada. Porém, tenho que dizer que o final me pareceu precipitado e sentimentalista, bem aquém do resto do filme.

DR. NO (1962)

O primeiro filme do James Bond é, ao mesmo tempo, adoravelmente "kitsch", mais próximo da aventura do que da ação e um festival de atrocidades neocoloniais que só poderia provir de um lugar que ainda tinha uma memória fresquíssima da queda do seu império. Bond, na verdade, revela tudo o que há de atroz na ideia de "gentlemen" britânico: branco, tão fluente nas sutilezas de salão quanto nas peripécias atléticas e uma espécie de farol imperialista que leva a tranquilidade da civilização às partes menos esclarecidas e tranquilas da Commonwealth. Se acham que estou a exagerar, revisitem e deleitem-se com este festival de "cringe".

DE PALMA (2015)

Nunca foi o meu preferido dos "movie brats", mas é inegável que o De Palma filma muito bem. Vocês sabiam que o primeiro filme do De Niro foi realizado por ele? Eu não!

LET THE RIGHT ONE IN (2008)


A primeira vez que ouvi falar sobre este filme foi numa palestra do Robert McKee na FNAC do Chiado, que precedeu o primeiro seminário que ele deu em Portugal. Ele elogiou o filme, dizendo que tinha sido dos últimos que vira que, no final, o fizera soltar um "uau". Seria injusto revelar todos os seus segredos aqui para quem não viu, mas é um filme que continuo a apreciar, principalmente pela forma como administra o subtexto ao longo de toda a sua duração. Adiantaria o seguinte: o resumo que se fez na época — "Twilight feito por Bergman" — é muito redutor: precisaria incluir o Sternberg de "O Anjo Azul" também.

SCORE (2016)


Gosto sempre de ver documentários sobre a área em que trabalho para descobrir coisas novas sobre artistas de que gosto — mesmo que essas coisas sejam apenas coisas como "Hans Zimmer era o tecladista dos The Buggles".

Assinei a Carta Aberta pelo cinema e audiovisual portugueses

Apesar de trabalhar no Brasil há dez anos, continuo a considerar-me, agora e sempre, um guionista português. Por isso, acompanhei a discussão sobre "a morte ou a salvação do cinema português" que ocupou as redes sociais nos últimos tempos. Já se falou muito sobre o tema e vou tentar não me estender.
Este artigo do Diário de Notícias é bem claro ao delinear o problema — que, para começar, não parece assim tão problemático, já que o ICA terá mais 5 milhões de euros anuais para apoios (30% do seu orçamento atual). 
A questão que sobra, como muito bem resumiu o João Nunes, é se o dinheiro adicional recolhido de plataformas sem publicidade, como a Netflix e a HBO, "deve ser redistribuído pelo ICA ou elas devem poder optar entre dar ao ICA ou investir diretamente em produtores independentes portugueses?". Sublinho o "podem optar"; nem isso é automático.
Lembrou-me a lei das quotas brasileira, que impôs um número mínimo de horas de programação independente nacional no "prime time" dos canais de cabo. Na época em que ela foi implementada, fui entrevistado por um jornalista português. Ele disse-me que a ideia também estava a circular em Portugal e «há quem ache que isso significará uma invasão por programas de qualidade menor». Repito o que respondi então: nenhum canal tem interesse em comprar programas de qualidade menor apenas para cumprir quota. Se uma produtora independente entregar um programa com resultado insatisfatório, o canal vai simplesmente contratar outro programa de outra produtora no ano seguinte. As produtoras sabem disto e, por isso, ninguém vai desleixar o resultado final por causa de uma quota. O efeito da lei foi incrível e o audiovisual brasileiro beneficiou-se muito dela até à era de Bolsonaro, mas isso é outra história.
A discussão em Portugal é diferente, eu sei, mas as suas consequências podem ser bem parecidas. Quantos mais clientes, maior o setor do audiovisual. Um projeto pode rodar e interessar quem não interessou antes. Mais produtoras podem surgir, alargando o circuito além de duas (que, na verdade, são uma) cidades portuguesas e contando histórias com géneros e pontos de vista diferentes daqueles que têm prevalecido, o que me parece sempre ser a chave para atrair públicos maiores e mais diversos. Como minhoto, é algo que me agradaria muito.
Repare-se que isto não seria uma grande questão se o ICA cumprisse cabalmente o papel de construir um mercado audiovisual forte, variado e amplo. Como podemos saber se o fez? Aqui entra o texto magistral do Luis Campos, fruto da sua pesquisa para uma prometedora tese de doutoramento. Chamou-me particularmente a atenção este trecho: «entre 2004 e 2019, (...) [num universo de 2090 empresas], mais de metade dos montantes atribuídos (53%) ficaram concentrados na actividade de apenas 10 produtores, sendo que 20% do total do dinheiro atribuído ficou concentrado na actividade de apenas dois produtores». O total de entidades beneficiadas em 15 anos é de 202, menos de 10% do setor. Parece muito pouco, mas é o suficiente para responder a pergunta no início do parágrafo. 
É muito normal que questões deste tipo caiam no tudo ou nada. O ICA é importantíssimo para o audiovisual português e é por isso que a sua atuação é merecedora de discussão. De certa forma, todos querem o mesmo: que o setor cresça pujante e saudável. Eu considero que esta lei é um bom começo.

MARTIN EDEN (2019)

Este é um filme sobre individualismo e, ainda que não seja o mais importante, fico pensativo sobre se é um elogio ou uma advertência. A transformação súbita da personagem no último ato custou-me a engolir: não entendi muito bem como é que um proletário, de repente, parece o Ozymandias do Jeremy Irons. As referências literárias dão pistas, enfim. A forma é o que torna este filme intrigante, com o uso de planos de filmes antigos enquanto elemento e a sua construção enquanto objeto extemporâneo, que adapta um romance de 1909 com uma linguagem visual que às vezes lembra o neorrealismo e outras as montagens cinematográficas dos anos 80. Deixou-me com muita vontade de ver os outros filmes do realizador Pietro Marcello.

WE ARE WHO WE ARE (2020)

Nunca fui o maior fã de Luca Guadagnino, e parece-me que aqui ele sofre o mesmo problema que o seu conterrâneo Paolo Sorrentino sofreu quando desenvolveu "The Young Pope": a dificuldade de passar dos ritmos próprios do Cinema para a linguagem televisiva, que pede um estímulo constante (ainda que não necessariamente narrativo) e ganchos mais fortes. O primeiro episódio é desconcertante e marca pela originalidade, mas depois reina uma sensação estranha, como se supusesse que o grande ponto de interesse fosse um realizador a fazer exercícios de estilo autoral. Isso não é suficiente. Se os próximos episódios me fizerem mudar de ideia, eu aviso.

THE TWILIGHT ZONE (1959)


Tenho andado a ver a série original e a confirmar o seu estatuto de canónica. Os episódios têm meia hora, 8 a 10 cenas se tanto e não mais do que 3 ou 4 personagens principais. Ainda assim, com tão pouco, faz mais do que muito boa gente hoje, o que me deixa a pensar se não devemos considerar o teatro e, mais especificamente, a radionovela como a raiz fundamental a partir da qual deve entendida a ficção televisiva. A primeira temporada de 1959-60 começa lúgubre e trágica, termina cómica e fantasiosa e lança pistas para toda a ficção científica (e talvez não só) que se fez depois. O episódio "The Monsters Are Due on Maple Street" deveria ser ensinado no mundo inteiro em aulas de Educação Cívica.

RATCHED (2020) e ONE FLEW OVER THE CUCKOO'S NEST (1975)


Pode ser por "American Horror Story: Coven" ter esgotado a minha paciência para o Ryan Murphy, pode ser por ver os mesmos trejeitos narrativos e estilísticos a repetirem-se série após série, mas não acho que esta nova enfermeira Ratched seja comparável à personagem nada glamorizada e esvaziada de compaixão que Lousie Fletcher interpretou no filme clássico de Miloš Forman. Nalgumas coisas, definitivamente, menos é mais.

REPO MAN (1984)

Há dias, li sobre algum filme a crítica de que “tinha ideias demais”. “Repo Man” também tem. A sinopse do filme na Wikipedia descreve-o assim: «a 1984 American science fiction black comedy film (...). Set in Los Angeles, the plot concerns a young punk rock enthusiast who is recruited by a car repossession agency and gets caught up in the pursuit of a mysterious Chevrolet Malibu that might be connected to extraterrestrials». É muita coisa, cada uma mais inaudita do que a outra. Porém, por alguma razão, o filme funciona muito bem. Talvez seja o fato de tudo ser muito divertido e ter ótima música como fundo, mas eu acho que é porque ele deixa as ideias passarem sem se acumularem, transpondo o absurdo da sua premissa para a construção da sua própria narrativa. Às vezes, seria muito fácil dizer “isto não faz sentido algum”, mas isso seria cair na sua doce armadilha. É como se o filme nos dissesse “eu posso levar-me a sério – mas vocês não”. Não vejo a hora de o ver outra vez.

REAL LIFE (1979)


Uma bela comédia de Albert Brooks que, de certa forma, prevê o que seriam os caminhos futuros da “reality TV” numa época em que o único exemplar era a série seminal “An American Family”, da PBS. Também parece firmar o estilo de “mockumentary” que hoje identificamos com o género e que seria depois desenvolvido por Christopher Guest (Harry Shearer, que co-escreveu o filme e contracenou com Guest em “Spinal Tap”, é também uma das suas figuras proeminentes). Porém, no final ficou-me a sensação de que há Brooks demais e de que a família filmada merecia mais tempo de ecrã.

SCREAM (1996)

Parece impossível só ter visto “Scream” agora, mas a verdade é que, sempre que o apanhava na televisão, ele parecia-me “teen” demais e acabava por me desinteressar. Fiz um esforço para me concentrar e decidir finalmente se ele fica à altura de “Wes Craven's New Nightmare” (1994), um dos meus filmes de terror mais adorados de sempre. Percebi uma coisa: “Scream” não é exatamente um filme de terror. É claro que ele é realizado por um mestre imortal do género, é claro que ele é cheio de citações e é claro que ele é uma belíssima obra meta-narrativa. Porém, acho que lhe falta um elemento que considero essencial para dizer que algo é “terror”: o motor da sua narrativa não é a superação da normalidade interrompida por uma força que desafia a Razão, mas sim descobrir quem é o assassino. Ele não nos dá vontade de exclamar “sai daí”. Na verdade, nós queremos é que a Neve Campbell fique, para conseguir arrancar a máscara do sujeito que a atormenta. Ele não nos confronta com o absurdo e o medo, mas com a lógica do “whodunnit”, que nos leva a juntar mentalmente as pistas e tentar  descobrir o culpado antes da protagonista. De qualquer forma, fiquei muito contente por finalmente ter feito as pazes com o ótimo “Scream”.

RBG (2018)

Documentário sobre a falecida juíza Ruth Bader Ginsburg, com um foco curioso na forma como, em anos recentes, ela ganhou fama online e se tornou ícone da cultura popular. Respeitoso, mas interessante.

24 HOUR PARTY PEOPLE (2002)

Rever este filme provocou-me um movimento duplo da memória: o tempo que passou desde a sua estreia é mais ou menos o mesmo que o separava da “Madchester” dos anos 70-80 que retrata. Sempre fico um pouco melancólico quando me lembro dos cinemas Avenida em Coimbra, mas aqui a melancolia não dura muito, porque, mal começamos a ouvir Happy Mondays, a gente quer é dançar e ser tão feliz quanto o Bez.

GANJA & HESS (1973)


Um filme difícil de encontrar, cuja versão original só existiu, durante anos, numa única cópia guardada no Museum of Modern Art de Nova Iorque. É também um filme extremamente inteligente: o realizador Bill Gunn manipula os tropos da “blaxploitation” (violência, erotismo, crime) para, na verdade, construir uma história muito sofisticada sobre vício e assimilação cultural. Um apontamento final: se o fabuloso Duane Jones não tivesse morrido em 1988, hoje ele teria um estatuto comparável ao de Morgan Freeman.

APT PUPIL (1998) e 1408 (2007)


Duas adaptações honestas de Stephen King. Veem-se bem, apesar de nenhuma ser perfeita. “Apt Pupil” é muito eficaz ao montar um jogo de gato e rato que nos faz duvidar constantemente sobre quem é herói e quem é vilão. “1408” parece uma espécie de exegese dos temas em “The Shining”, mas ainda dá para dar uns pulos de susto  no sofá.

DAZED AND CONFUSED (1993)

Mereceria um lugar na história da cinefilia apenas por ser o primeiro filme em que Matthew McConaughey diz “alright, alright, alright”. Porém, é muito mais do que isso. Enquanto retrato geracional, poderia formar um díptico com o “American Graffiti” de George Lucas, feito vinte anos antes e sobre uma noite vinte anos anterior à que vemos aqui. Se considerarmos o quanto Richard Linklater gosta de abordar a passagem do tempo enquanto tema (“Boyhood”, a trilogia “Before”), talvez isso não seja apenas pura coincidência.

THE MIDNIGHT EXPRESS (1978)


Não sei se é por os últimos 40 anos de filmes terem mostrado prisões muito cruéis (“The Shawshank Redemption” vem-me imediatamente à mente só por mencionar o género), mas, sinceramente, não achei as prisões turcas assim tão más. O sistema jurídico, sim. De qualquer forma, pela forma como cria um Outro primitivo e incapaz de lidar com as suas próprias limitações, este é um filme modelo de olhar hegemónico norte-americano, não é?

LES ANGES DU PÉCHÉ (1943)

Um filme sobre freiras escrito por um frade e primeiro longa de Robert Bresson. O estilo e temas são convencionais, mas os filmes franceses da era da ocupação alemã sempre me fascinam: em tempo de clandestinidade e Resistência, uma das primeiras sequências, em que as freiras executam um plano de fuga noturna para conseguirem levar uma prisioneira para o convento, não pode ser vista como mero e inocente elogio ao êxtase religioso. De resto, pergunto-me se não terá servido de inspiração para o "Entre Tinieblas" de Almodóvar.

THE SOCIAL DILEMMA (2020)

O debate sobre este filme nas redes sociais foi mais um daqueles que se fazem por não haver muito mais a falar. Não diz nada de novo? Talvez não, mas manter o público em alerta constante sobre os perigos da partilha de dados nas redes sociais e a forma como elas podem ser usadas para atingir objetivos odiosos é hoje uma necessidade tão premente como a de lembrar sempre as pessoas que o cigarro faz mal.  Ainda assim, a ficção e o tom final de "vai ficar tudo bem" espetacularizam a mensagem de forma dispensável.

CHEF'S TABLE: BBQ (2020)

A gente diz que o Chef's Table está velho, mas depois ele atira-nos com uma velhinha norte-americana que faz um brisket que sai da churrasqueira a derreter e com mulheres maias que nos ensinam a "cochinita pibil" e vamos fazer o quê? Comer pelos olhos, certamente.