MAD MEN (2007)


Foi das poucas séries da "nova era dourada" que não vi em modo "binge". De 2007 a 2015, no início da semana, eu sentava-me e via um episódio, normalmente depois de "Game of Thrones", um costume que devo à TVI dos anos 90 quando, aos sábados, passava um episódio de "Third Rock From The Sun" seguido de dois de "The X-Files". Revê-la hoje permite-me reparar em algumas sutilezas de que não me apercebera. Pete Campbell tem mais de anti-herói patético do que de vilão, a Peggy parece ainda mais fria e, sempre que Don Draper acende um cigarro, ele estará a lembrar-se daquele momento definidor da sua vida (não o vou mencionar, mas quem viu a série lembra-se) que aconteceu por causa de um isqueiro mal apagado.

PEEP SHOW (2003)

Acabo muitas noites a ver vídeos de programas de auditório ingleses no YouTube, como "QI" ou "Would I Lie To You", porque assim é a vida. O ator David Mitchell é convidado frequente neles e, no outro dia, enquanto procurava algo para ver na Netflix, reconheci-lhe o rosto na imagem que me sugeria esta série. Tinha a sensação que já tinha ouvido falar ou lido algo sobre ela e, quando a vi, lembrei-me logo: uma série admiradíssima e cultuada do início do século, com comédia de embaraço filmada em planos subjetivos. Envelheceu muito bem e faz rir muito — tanto que vi a primeira temporada numa única noite. Para quem gosta de perguntar "mas tem na Netflix?", é do melhor que podem encontrar por lá.

DUNE (1984)

Não achei grande graça ao trailer do "Dune" de Denis Villeneuve. Aliás, tirando "Enemy" ("O Homem Duplicado", 2013), nunca achei grande graça ao Villeneuve. Fui rever o filme do Lynch (que deveria ter sido do Jodorowsky, mas não foi) e confirmei o que já se sabia: são precisamente as esquisitices de estilo e o tom "new age" exagerado que dão a este filme toda a sua graça. Curiosamente, isso revela algo sobre o Cinema que se faz hoje em dia: a maquia que custa fazer um filme é hoje tão grande que toda a gente morre de medo de espantar o público com um pouco de bizarria. É como se, por ver tantos belos voos, as pessoas se tivessem esquecido de como é belo ver Ícaro queimar as asas.

THREADS (1984)

Descobri "Threads" graças a posts muito elogiosos em grupos de cinéfilos no Facebook, aos quais um amigo meu sempre adicionava um comentário mais elogioso ainda. Depois de vê-lo, só posso dizer o seguinte: nunca pensei que o filme pós-apocalíptico mais assustador de sempre fosse um telefilme da BBC de 1984, mas assim é.

I'M THINKING OF ENDING THINGS (2020)

Vi-o há algumas semanas, um dia depois da estreia. Nessa mesma ocasião, escrevi a anotação: "quem gosta de Charlie Kaufman vai adorar. Quem não gosta vai odiar. Quem não sabe se gosta ou não gosta, nunca viu Charlie Kaufman". É um filme que encanta e assombra e fica a pairar na alma, e acho que em breve o vou ver outra vez.

THE CRUCIBLE (1996)


Deu-me vontade de ver este filme escrito pelo Arthur Miller a partir da sua peça. Por alguma razão, uma história que mostra como o ardor religioso e a fofoca podem levar toda uma comunidade à chacina - principalmente se tiverem um tribunal disposto a fazer-lhe as vontades - pareceu-me adequada aos dias de hoje. E vocês, o que acham?

SUBMARINE (2010)


Conhecia Richard Ayoade como ator e comediante e não sabia que ele também realizador. Aqui, eu diria que ele até é mais do que isso: é o criador refinado de duas das melhores e mais complexas personagens adolescentes do cinema recente.

BLACK EARTH RISING (2018)

Eu já tinha visto o primeiro episódio desta série antes e ela não me agarrou, talvez porque me faltava um anzol que me prendesse mais seguro. Nesta segunda tentativa, esse anzol, claro, foi Michaela Coel, e ainda bem que assim aconteceu, porque bastou só um pouquinho de atenção a mais para confirmar que o autor Hugo Blick é hoje o grande criador de narrativas que mostram a interdependência entre o pessoal e o geopolítico no mundo globalizado.

I MAY DESTROY YOU (2020)


Saber que Michaela Coel sofreu o abuso aqui abordado enquanto escrevia a 2ª segunda temporada de "Chewing Gum" deixa um travo amargo. "I May Destroy You" impressiona, não só pela honestidade bruta com que aborda o tema, mas também pela forma (assumida) como, de história sobre consentimento, se transforma em história sobre o próprio ato de contar uma história, em tudo o que este tem a ver com a memória e a reconfiguração do tempo segundo a perspetiva humana. O seu episódio final é uma obra-prima.

EAT MY SHIT (2015) e PIELES (2017)


A curta-metragem "Eat My Shit" é uma mistura ultrajante de "body horror" com comédia ácida, "Pieles" é como se Douglas Sirk tivesse concebido um projeto de homenagem ao "Freaks" de Tod Browning que Almodóvar concluiu no século XXI, e eu espero muito filmes novos do realizador Eduardo Casanova.

FEMALE TROUBLE (1974)


Divine já era tão importante para a obra de John Waters e uma figura tão culturalmente marcante que o realizador fez-lhe a história de origem que ela merecia: absurda, e divertidíssima.

THE PINK PANTHER (1963)


Quando era miúdo, odiava os filmes da série "The Pink Panther", porque não conseguia acreditar que só tinham o desenho da pantera no início e depois se transformavam numa comédia policial que não interessava ninguém. Hoje, já penso diferente. Vê-se a Claudia Cardinale numa coprodução internacional gigante lançada no mesmo ano de "8½", vê-se o Peter Sellers a esbanjar brilhantismo e vê-se o Blake Edwards a dinamitar a estrutura teatral do policial clássico ("um hotel, cada pessoa no seu quarto, será que se vai descobrir quem é o criminoso?") com um ato final absolutamente delirante.

FORBRYDELSER (2004)

A estagnação do Dogma 95 não foi tão formal quanto foi temática. Os filmes do séc. XXI do movimento perdem a malícia agitadora de "Idioterne" e "Festen" (1998) e a "malaise" profunda de "Julien Donkey Boy" (1999). Parafraseando o manifesto do movimento, o cinema antiburguês tornou-se burguês ao preferir o melodrama amoroso ("Elsker dig for evigt", 2002) ou o neorrealismo ligeiro deste "Forbrydelser".

VARIAÇÕES (2019)

No ano passado, vi algumas polémicas na minha timeline do Facebook sobre este filme. Não entendo porquê. É um "biopic" musical bem escrito, bem realizado, bem interpretado. Ficaria bem na cinematografia de qualquer país. Porque não na de Portugal?