BANDE À PART (1964) e PIERROT LE FOU (1965)

Vi os dois na sequência, e percebi algo que nunca percebera. 

No final de BAP, o próprio Godard diz-nos que «um próximo filme vai revelar, em CinemaScope e Technicolor, as novas aventuras de Odile e Franz nos países quentes». Ora, PLF é em CinemaScope e Technicolor (na verdade, é em Techniscope e EastmanColor, mas não me estraguem o raciocínio) e acontece nas belíssimas e ensolaradas praias da Riviera. Então, uma pessoa vê isto e já pensa "tu queres ver que". 


Anna Karina interpreta Odile em BAP e Marianne em PLF. No início de PLF, há uma Odile, mas não a vemos: é a ama das filhas de Ferdinand, que a deixa ir ao cinema nessa noite e a vê ser substituída por Marianne. Seria a mesma Odile? Em arte, tudo é uma escolha. Talvez seja problemático não haver nenhum Franz em PLF: Ferdinand é interpretado por Jean-Paul Belmondo, não por Sami Frey. Porém, da mesma forma que Franz via Odille preferir Arthur, também Ferdinand vê Marianne escapar-lhe para outros amores, tal como Pierrot via Columbina fugir-lhe para Arlequim. 

Estão a entender aonde quero chegar?

Ferdinand/Pierrot fala-nos muito de duplos, de reflexos, do "William Wilson" de Poe. Marianne olha para a câmera entre as suas falas, talvez porque Karina espera indicações de Godard entre planos. Godard, então, é diretor, mas também marido, e o seu olhar replica tanto o de Ferdinand/Pierrot quanto o do espectador. A dado momento, Ferdinand/Pierrot vai ver um filme no cinema, no qual vê Jean Seberg virar-se para ele e apontar-lhe uma câmera. Jean Seberg, lembre-se, fora a coprotagonista de Belmondo em "À Bout de Souffle". O olhar devolvido para quem olha parece lembrar Ferdinand que ele foi Michel numa encarnação anterior ou lembra-o que ele ocupa, tal como Michel ocupara, um homem chamado Jean-Paul Belmondo? 

Arrisco a leitura lacaniana: o desejo e a angústia nascem do "regard" que nos mostra o abismo entre o real e o simbólico. Então, talvez Franz e Ferdinand/Pierrot se reflitam um no outro, e talvez Odile e Marianne se reflitam uma na outra, e talvez as personagens e os seus atores se reflitam uns nos outros, e talvez elas e os espectadores se reflitam uns nos outros. 

Não é só porque, em BAP, se diz que «Franz pensa se o mundo se transforma num sonho ou se o sonho se transforma no mundo» e, em "Pierrot", Ferdinand/Pierrot diz que «nós somos feitos de sonhos e os sonhos são feitos de nós». 

É também porque "Franz Ferdinand" é o nome da pessoa cuja morte inaugurou as guerras europeias do século XX, e a guerra é uma presença constante em PLF. 

É também porque Franz é um nome tão parecido com "France" e Ferdinand/Pierrot, a dada altura, nos diz ser "só um enorme ponto de interrogação que paira sobre o horizonte do Mediterrâneo". 

É também porque Ferdinand/Pierrot tem as cores vermelha, branca e azul a aparecerem repetidamente nas suas roupas e termina o filme com a cara pintada de azul ou porque ele, tal como a França da época, está perdido num mundo novo enquanto carrega a cultura do passado. 

É também porque Marianne é o nome da personificação da República francesa desde a Revolução de 1789 e, em BAP, um bêbedo anuncia que "les empires s'écroulent, les républiques s'effondrent et les imbéciles demeurent" ("os impérios desmoronam, as repúblicas colapsam e os imbecis permanecem").

Ou seja, estes dois filmes parecem ser o duplo ou o reflexo um do outro — e talvez o sejam também dos seus atores, dos seus espectadores, de toda a obra de Godard e, quem sabe, da relação entre o real e o Cinema.

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