Kira's Reason: ainda o Dogma


Vi En kærlighedshistorie, ou Kira's Reason - A Love Story (2001). Nota-se a influência de Cassavetes, mas também se nota que o filme expôs demais ao puxar para a teatralidade realista e, no caminho, perde-se. Contudo, não deixa de ser um estudo profundo sobre a personagem principal — aproveitando um grande trabalho da atriz Stine Stengade —, o que me deixou a pensar sobre como os Dogma do século XXI ampliaram a paleta de temas do movimento: a comédia do Italiano para Principiantes de Lone Scherfig e o realismo mágico de Åke Sandgren em Verdadeiramente Humano (para só citar os filmes dinamarqueses) já iam além das explorações dos buracos negros sociais e psicológicos por Trier, Vinterberg e os outros fundadores.

O mais curioso é como essa amplitude temática de Kira's ReasonItaliano para Principiantes foi acompanhada pelo aperfeiçoamento tecnológico, trocando as câmeras DV e MiniDV (Sony DCR-VX1000 em Idioterne; Sony DCR-PC3 em Festen; Sony DSR-PD150 em The King is Alive) pela Sony DVW-700WS, que grava em Digital Betacam. Este formato permite uma imagem mais definida e, portanto, uma fotografia mais refinada, ainda que limitada pelos ditames estéticos dos Mandamentos. Resultado: uma edição menos nervosa, sem aqueles pulos típicos do Dogma.

Esta facilidade de ver passa a sensação de que, por esta altura, o movimento se normalizava, como se filmes que correm menos riscos visuais sejam, ao mesmo tempo, menos disruptores, ou seja, mais inofensivos. A forma aperfeiçoa-se, mas, ao fazê-lo, parece construir obras menos marcantes. Ou será que, depois do 11 de Setembro, as rebeldias do séc. XX já cheiravam a coisa antiga?

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