O passado e o futuro

Vi Rocketman. Achei-o bom. Um pouco melodramático - as relações com os familiares pareceram-me um pouco forçadas -, mas extremamente divertido de assistir. Depois de Bohemian Rhapsody e The Dirt, parece ser mais uma adição a um novo género, que chamaria "biopic rock autorizado e com produção executiva dos próprios artistas". Não deixa de ser uma forma boa de rockers semiaposentados deixarem um testemunho, não só sobre o que viveram, mas também sobre as suas opiniões sobre o mundo. As cenas de sexo homossexual em Rocketman, que, parece, foram censuradas na Rússia, são absolutamente banais para qualquer pessoa normal (ou seja, qualquer pessoa que não tem problema em ver duas pessoas seminuas se beijando) e o discurso nada moralista sobre drogas combina com um homem que nunca quis ser moralista. Além disso, e ainda que o filme tenha bastante de fantasia musical à All You Need Is Love, ter Elton John como colaborador criativo dá-lhe um certo tom de exatidão, como se as canções aparecessem nos momentos corretos - não cronologicamente, mas tematicamente. "Your Song" terá sido uma ode de amor fraternal de Bernie Taupin? Se o próprio cantor sugere que acreditemos nisso, porque não? Enquanto espectador, é reconfortante esta sensação de que o assunto fica encerrado.

Lembrei-me que Elton John não é novato em utilizar a si mesmo como material criativo audiovisual. Em 2001, no vídeo para a sua canção "This Train Don't Stop There Anymore", Justin Timberlake interpretou-o num plano-sequência admirável (na mesma época em que Robert Downey Jr, na fase final do seu namoro com os excessos, deu cara a "I Want Love").



Também achei graça à personagem de John Reid, o manager/amante de Elton, que aqui é interpretado pelo ator Richard Madden. Madden ganhou fama como Robb Stark de Game of Thrones. Ora, o mesmo John Reid fora manager dos Queen e, por isso, também é uma das personagens de Bohemian Rhapsody. Curiosa coincidência: também aqui ele é interpretado por um ator de Game of Thrones, Aidan Gillen, o "Littlefinger".


Por fim, houve um pormenor de segundos no filme que me deixou bastante pensativo. Quando Elton e Taupin chegam a Los Angeles, os planos gerais da cidade parecem imagens de época - não são reconstituições, nem CGI. Faz sentido. Os anos 70 já foram há meio século, mas deve haver por aí muito "stock footage" bom das ruas americanas. Creio que Scorsese tinha feito a mesma coisa no primeiro episódio da sua Vinyl, incluindo imagens da Nova Iorque noturna de Taxi Driver (sem certezas).

Não é apenas uma questão de se poupar nos cenários. Isto mostra que já há 50 anos que o cinema chegou no primor técnico necessário, não só para se fazer, mas também para se preservar. Também mostra mais uma faceta da manipulação do Tempo, de que o Cinema sempre foi o manipulador-mor. Como será daqui a 50 anos, quando o acervo de vídeo em 4k, 8k e 16k gravado agora estiver livre para os cineastas usarem? Juntem isso com o avanço da tecnologia de ressurreição digital (ver Peter Cushing em Rogue One) e é possível que, em 2070, os grandes filmes de efeitos especiais não sejam sobre um futuro tecnológico e espacial, mas sobre um passado e sobre nós. Se vocês passarem na rua no momento certo, pode até ser que sejam figurantes póstumos num sucesso de bilheteria.

Enquanto esse momento não chega, fiquem como meu cover preferido de "Rocket Man".

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