Nós e Bozo

Quem me lê por aqui sabe que eu nunca fui entusiasta deste governo. Arriscaria dizer que a grande maioria de vocês, meus amigos, também não é. Não gosto de bloquear ninguém (quem sou eu para bloquear alguém?), mas acho que quem não tem razoabilidade suficiente para conviver com opiniões que não concorda fique por aqui muito tempo. Como se devem lembrar, tive um ou outro desaguisado durante estes meses, com tanto de escandaloso quanto de divertido. Deixei de seguir algumas pessoas que apoiavam Bolsonaro, não por conta do seu apoio, mas porque o que diziam e divulgavam ultrapassava limites de bom senso e eu não tinha paciência (e, sim, também fiz isso com alguns apoiantes da atual oposição). Há algumas coisas de que não gosto na vida; aguentar loucuras alheias é uma delas. Ainda assim, de vez em quando, viajo pelos seus perfis, para ver o que contam dos últimos acontecimentos. Na maior parte das vezes, não contam nada. Como não acredito que estejam muito satisfeitas - não acredito que ninguém esteja muito satisfeito -, isso revela ou uma grande hipocrisia ou, pelo contrário, a serenidade de quem acredita estar em boas mãos e não tem que se preocupar com mais nada. Tenho a sensação que sei qual é a resposta, mas não a vou revelar já.

Diziam que estávamos torcendo para que desse errado, mas a incompetência, a loucura e o egocentrismo de Bolsonaro já eram notórias desde a campanha. Ou melhor, eram notórias desde os seus dias de deputado inconsequente. Eram notórias desde o momento em que ingressou na vida política, entrando para a reserva do Exército após a sua prisão no Rio de Janeiro. Então, não é tanto que nós torçamos para que isto tudo dê errado quanto estarmos bastante certos que vai dar errado. Todas as evidências apontam nesse sentido. É como se, vendo as nuvens negras no horizonte, disséssemos “vem chuva” e alguém reclamasse que estávamos pedindo chuva.

Porém, eu não gostaria, e acho que ninguém gostaria, que tudo desse errado. Esta é, então, a minha, a nossa ambivalência: exceto naqueles momentos de confronto desesperado com o absurdo total (em que dizemos “eu quero é que tudo expluda”), eu acho que todos torcemos um pouco para que Bolsonaro tente elevar-se acima do seu passado. Eu estou muito certo que Bolsonaro vai continuar a piorar a vida das pessoas, mas eu torço para que ele não destrua por completo o tecido socioeconómico do Brasil. Estou muito certo que ele e Araújo vão manchar a imagem internacional do Brasil, mas torço para que não o façam indelevelmente. Estou muito certo que ele vai diminuir a instituição da Presidência, mas torço para que isso não corresponda a uma simples transferência não sancionada dos seus poderes para outros lugares onde vigora a mesma escola de oportunismo e aproveitamento que o formou.

A evidência, constante e repetida, de que Bolsonaro é um político incompetente dá-nos, em segredo, o contentamento de vermos certezas confirmarem-se. Nós não estávamos errados antes e continuamos a não estar, pensamos. Porém, também nos frustra, porque percebemos que tudo pode piorar além daqueles limites temidos. Por isso compartilhamos tanto meme, por isso fazemos tanta piada. A tensão entre essas duas pulsões contraditórias tem que ir para algum lugar: ou ficamos loucos ou rimos. Bolsonaro não sabe construir bases de apoio e mantém relações suspeitíssimas com o crime organizado. A despeito da sua crítica ao PT, pratica um governo altamente ideológico e sem qualquer efeito prático a não ser atolar o funcionamento das instituições e o progresso do país. Efetivamente perdeu o controle da Reforma da Previdência, que hoje é uma lei do Congresso. Se se sente Rainha da Inglaterra, só pode culpar a si mesmo: Bolsonaro, que sempre pareceu estar na política sem outro intuito que não fosse estar nela, claramente não entende o seu poder. Ele não entende os limites do seu poder, ele não entende como funciona o seu poder, ele não entende para que serve o seu poder. Pelo menos - e isto é “wishful thinking” - ele finge não entender para, no meio do caos, ir seguindo em frente, surfando na onda das suas próprias idiotices. No início, desculpava-se dizendo que os seus falhanços eram fruto da sua inexperiência como presidente, mas eu nunca vi um presidente tão despreparado ao ponto de ter que dar essa desculpa. Bolsonaro é muito competente a empurrar problemas com a barriga enquanto garante a sobrevivência política, a sua e a dos seus filhos. Sim, porque nos esquecemos às vezes (ou tentamos esquecer) que há três ou quatro Bolsonaros mais jovens por aí que assombrarão a política brasileira por mais 30 ou 40 anos.

Muito se falou de Bolsonaro como um último estertor dos defensores do poder do homem branco heterossexual. Eu gostaria de propor uma teoria adicional: a de que grande parte dos que o aclamaram tinha total consciência de que aclamava um homem de palha. Essas pessoas não acreditaram por um segundo no rótulo de “fora do sistema”, sabiam que o indivíduo que chamavam de “mito” era o tiozão do pavê inconveniente que assombra as festas e os grupos de família no Whatsapp e simplesmente votaram com vontade de ver o circo pegar fogo. A grande perda de popularidade de Bolsonaro deve-se tanto à sua nulidade do seu governo quanto ao fato de parte de seu eleitorado ter votado rindo dele. Hoje, mais do que nunca, o apelido “Bozonaro” faz todo o sentido.

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