O zoológico

Fui a um zoológico pela primeira vez na minha vida e vi duas coisas que provam definitivamente que somos primos dos outros símios.

Uma foi o orangotango esticando o braço e imitando os visitantes que tiram selfies.

A outra foi o chimpanzé que deliberadamente cagou na mão e, com muito gosto, comeu a própria merda.

Já vi humanos fazendo as duas coisas, muitas vezes ao mesmo tempo.

Um tirano

Um tirano institucionaliza a estupidez, mas ele é o primeiro súdito do seu próprio sistema e o primeiro a ser instalado dentro dele. Escravos são sempre comandados por outro escravo. 
Gilles Deleuze, Diferença e Repetição.

Sono, corrida e mimese

Cheguei a casa e, depois de falar com a C. no telefone, encostei-me no sofá e dormi quase até às 22h. É estranho: não só ontem dormi mais do que o normal como hoje também não tive um dia particularmente esgotante. Agora já é bem tarde e não tenho sono. Gostaria de dormir, mas a minha vida é tão excitante e pouco monótona que não dá.
* * *

Por causa do referido imbróglio, fui correr uma hora mais tarde do que o costume. Comecei há pouco mais de um mês para ajudar com a ansiedade e o risco de aumento de peso durante a abstinência. Corro no asfalto do Minhocão e o meu objetivo sempre foi mais melhorar a capacidade aeróbia do que arrebentar os joelhos, mas estou bem contente. Comecei fazendo o percurso de 3,35km em 28 minutos, com muitas paradas para respirar - a primeira logo depois de uns 100 metros. Depois de um mês, já fazia o percurso todo sem parar e, na quinta feira, consegui fazer em menos de 25 minutos. Entretanto, já vou em 23min30, ou seja, cinco minutos a menos do que no início. Um dia escrevo mais sobre isso.
* * *

Entre outras coisas, tenho andado a estudar Aristóteles no mestrado. Este vídeo não mostrará uma ação elevada e completa, mas raios me partam se ele não é capaz de inspirar mil ensaios sobre a mimosa mimese nos dias de hoje.

11 coisas sobre Us


Talvez contenha spoilers.

1. É um prodígio de imagem e fábula: é um filme sobre cinema que é preciso ver no cinema.

2. Em Get Out, Jordan Peele falava sobre classe, mas principalmente falava sobre cor de pele e História.

3. Ele continua a falar sobre cor de pele, mas fala principalmente sobre classe e História.

4. A duplicação é de personagens, mas também é de tudo o resto: a aranha.

5. "I Got 5 on It" é sobre divisão.

6. Jeremias 11:11: "Por isso, assim diz o Senhor: "Trarei sobre eles uma desgraça da qual não poderão escapar. Ainda que venham a clamar a mim, eu não os ouvirei".

7. A cena da explicação: eu dispensaria, mas não atrapalha.

8. O twist final não está a mais. É absolutamente necessário para mostrar que o filme é mais sobre oportunidade do que sobre conformismo. Também é necessário para nos deixar a pensar se torcemos pelos heróis certos.

9. Sem o twist final, o filme seria tão conformista e fascizóide quanto Eden Lake.

10. Os atores. Lupita Nyong'o.

11. Poderia vê-lo de novo hoje mesmo, e veria um filme completamente diferente.

Dogma, Sony, frio

Lovers é um filme Dogma de 1999 (Dogme #5).

Foi gravado em miniDV, com uma Sony DCR-TRV900. Ou seja, esta:



Foi o primeiro filme Dogma não dirigido por um dinamarquês.

Jean-Marc Barr, que atua muito para o Lars von Trier, aprendeu algumas coisas com ele. Infelizmente, aguentar o segundo ato sem enrolar não foi uma delas.

Porém, a sua câmera capta o frio francês com uma veracidade que eu não vi nem nos irmãos Dardenne.




Talvez não devamos comemorar a prisão de Temer

Ontem, 20 de Março, foi notícia que Bolsonaro perdeu 15% nos índices de popularidade.
Nos últimos dias, soube-se também que Moro e Rodrigo Maia estão irritadinhos um com o outro.
O ministro da Justiça mandou mensagens de Whatsapp a Maia durante a madrugada, cobrando a aprovação do pacote anticrime.
Maia, que aparentemente não gosta de ser acordado de madrugada, disse que Moro estava "confundindo as bolas" e que ele era um "funcionário do Bolsonaro”.

Hoje, 21 de Março, é aniversário de Jair Bolsonaro.

Na Lava Jato carioca, o juiz Marcelo Bretas (amigo de Moro, amigo de Witzel, alinhado com o governo) mandou prender o ex-presidente Temer.
A popularidade do presidente e do governo provavelmente deixará de cair.

Prendeu-se também Moreira Franco, antigo ministro de Temer.
Moreira Franco é sogro de Rodrigo Maia.
Há quem fale em vingança.
O pacote anticrime provavelmente não demorará tanto a ir a Plenário.

O mito de nós todos.

Revisitando a Poética
de Aristóteles,
relembro que

uma das partes
da tragédia
é o mythos,
ou fábula,
ou enredo.

Dito de outro modo,

é o mito
que confabula
e nos enreda

e por fim
se encerra
numa tragédia.

Causa
piedade
e temor

mas não
creio muito
nessa catarse.

Toda a verdade sobre Michael Jackson


Leaving Neverland lembrou-me várias vezes uma frase em Spotlight:
If it takes a village to raise a child, it takes a village to abuse one.
Porém, também me lembrou o Dave Chappelle:
Every time there’s wars going out of control, or the economy is bad or something is wrong with the world at large it’s always these moments in history that Michael Jackson will coincidentally jerk off a kid.
A comédia de Chappelle acaba perdendo um pouco da graça depois de ver o documentário, mas o seu argumento continua válido. Porquê agora? Talvez porque agora é melhor do que nunca. Uma coisa não invalida a outra. Essa é uma lição que fica.

É possível que Jackson tenha abusado, é possível que quem o acusou quisesse dinheiro, é possível que ele tivesse a mente de uma criança, é possível que ele não tenha tido infância, é possível que ele não visse maldade naquilo que fazia. Uma coisa não invalida a outra.

As histórias detalhadas destes dois homens fazem-nos cruzar o limite das intimidades do abuso. Por um lado, não queremos entrar nesse mundo: sentimos que há coisas que não deveríamos saber. Ao mesmo tempo, assumindo que ouvi-los faz parte do seu processo de cura, nós, espectadores, tomamos esse encargo como uma expiação e, por isso, aceitamos que o documentário não procure ouvir  a outra parte.

Há coincidências nas suas histórias que parecem satisfazer a nossa inquietante vontade de tornar definitivo o nosso juízo. Outros detalhes parecem contraditórios. Não importa: nós queremos escutar. Porquê?

Leaving Neverland não é desconfortável de assistir apenas porque estampa em Jackson o carimbo de abusador, mas também porque mostra que todas estas pessoas foram culpadas de alguma coisa.

Pais cegos pela fama deixaram que os seus filhos fizessem festas de pijama com um homem de 30 anos. As vítimas defenderam Jackson em tribunal e mantiveram relacionamentos pessoais com ele até à idade adulta. Quem trabalhava para o artista, presumivelmente, não disse coisas que deveria dizer.

Não é tanto a figura de Jackson que é monstruosa quanto toda a situação, à qual - ironia das ironias - este filme não deixa de pertencer enquanto possível e marcante epílogo.

Toda a gente colaborou para que, numa peça com atores cegos pela luz da fama, todas as inocências acabassem. E nós assistimos Leaving Neverland porque também fomos culpados de algo enquanto espectadores de uma fábula com feridas reais, de um eclipse da ilusão que se tornou real e ilusão de novo.

Assistir Leaving Neverland é o final de uma história também nossa e a nossa penitência por permitirmos que, ao consumi-lo como entretenimento, nos tenhamos tornado peças do profundo e terrível grotesco do mundo. 

Antonin Artaud

Quando tudo nos incita a dormir, olhando com olhos fixos e conscientes, é duro acordarmo-nos e olharmos como num sonho, com olhos que não sabem mais para que é que servem, e cujo olhar está virado para dentro.
O Teatro e o Seu Duplo (1938).

Johnny

Estava vendo um filme com um homem chamado Johnny que sofre um acidente e entra em coma. A namorada chorosa vem visitá-lo e diz "Você vai ficar bom, Johnny! Eu sei que você vai ficar bom!".

Ou seja, ela queria que Johnny be good.

Pé no chão

O potencial criativo do porsche-alapata é bem conhecido. Kant bolou o imperativo categórico enquanto caminhava. Thoreau refletiu sobre a desobediência civil enquanto dava os seus passeios. E, agora, ouso dizer que chegou a minha vez. Hoje mesmo, enquanto corria, eu me lembrei que sei de cor as falas do primeiro comercial de teleshop em Portugal. Era um diálogo entre um locutor em off e Suzanne Somers em on e era assim:
- Que pernas! Lindas!
- Obrigada.
- Qual é o segredo?
(A câmera sobe das pernas para o rosto de Suzanne)
- Eu costumava fazer ginástica até que descobri o Thighmaster!

Obrigado!

Sinestesias

Olha, cara,

ele não toca
porque não tem som.

e eu sei que isso não tá

cheirando nada bem,
mas encaro

como uma prova.

Parar (9)

Permito-me uma indulgência por dia.Às vezes, quando saio, uma ou outra a mais. Não mais do que isso. Continua-me na mente uma certeza íntima. Sei-a algo ridícula, mas é sincera: não quero chegar aos 40 com vontade de ter um palito em fogo entre os dedos.

Noite

Dois homens, uma mulher, por baixo do Minhocão. Ela era magra. Trazia uma garrafa de cerveja na mão, mas não bebia. Eles eram gordos. Um deles tinha vestida uma camiseta da Vai-Vai. Cantavam, mas tristes.A canção acabou e não os ouvi dizerem mais nada.

A estranheza do presidente

Acho esta história do José de Abreu presidente divertida, ao mesmo tempo que algo nela me deixa desconfortável. Na Folha de hoje, Bruno Boghossian exprime bem essa sensação de "andamos a brincar com coisas sérias". Por outro lado, são as coisas mais deliciosas com que se brincar.

George Steiner

Nenhuma língua divide o tempo ou o espaço exactamente da mesma maneira que outra língua faz (tenhamos em consideração os tempos dos verbos hebraicos, se assim lhes podemos chamar); nenhuma língua tem tabus idênticos ao de qualquer outra (daí o profundo donjuanismo do acto de fazer amor em línguas diferentes; nenhuma língua sonha exactamente como outra qualquer.
De "O que é a Literatura Comparada?", in Paixão Intacta