Parar (4)

É difícil explicar  o porquê do vício para quem nunca o teve. Ao longo da minha vida, vi duas explicações que me satisfizeram. Uma foi em This Must Be The Place, de Paolo Sorrentino, quando uma mulher que chora em silêncio pelo filho desaparecido diz "You never took up smoking because you remain a child. Children are the only ones that never get the urge to smoke".

Há uma verdade nisto. O vício mata-nos um pouco de cada vez que o praticamos, não no sentido do extermínio de saúde, mas da mais pura sensação imediata. Uma névoa escura invade-nos e a agitação interna é silenciada, aplacada. De cada vez, nós deixamos de ser um pouco nós e podemos descansar de nós mesmos. É por isso que as campanhas de sensibilização são ineficazes: a morte não assusta, porque o vício implica estarmos permanentemente num malabarismo com ela. Ela está sempre presente, e essa consciência do nosso fim também faz parte da condição de ser adulto.

A outra explicação foi de David Sedaris em Letting Go. "as if he’d been allotted a certain number of cigarettes, three hundred thousand, say, delivered at the time of his birth. If he’d started a year later or smoked more slowly, he might still be at it, but, as it stood, he had worked his way to the last one, and then moved on with his life".Eu adicionaria que talvez o fim do nosso período de vício não seja ditado pelo número de doses tomadas, mas pelo total de tempo. O meu tempo com isto, para isto, acabou, penso eu.

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