Porque eu, português no Brasil, disse #elenão

Apesar de ainda não votar no Brasil, é aqui que eu pago os meus impostos. Por isso, preocupo-me com a forma como eles serão gastos e que tipo de governos eles estarão apoiando.

Sempre considerei Jair Bolsonaro um mal necessário: a personagem bocuda que fala frases de efeito machistas, racistas e fascistas e, assim, consegue o voto da extrema-direita, fazendo-a jogar pelas regras da democracia.

E não entendo haver quem acredite que ele é mais do que isso, mesmo depois de ele se ter candidatado à Presidência construindo a imagem de ser o homem de que o Brasil precisa.


Um parlamentar que aprova dois projetos de lei em 27 anos de congresso não demonstra ter a articulação necessária com o Legislativo para ser um presidente competente.

O candidato já disse que nunca foi corrupto porque era do "baixo claro". Ou seja, um político pouco importante, sem influência, que não valia a pena comprar. Mesmo assim, ao longo da sua carreira política, ele conseguiu trazer três dos seus filhos para a política e multiplicar o patrimônio familiar de forma incrivelmente suspeita. Contratou a sua atual mulher e, em um ano de serviço, quase triplicou o salário dela. Paga uma funcionária doméstica com dinheiro público. Tem um irmão que é funcionário-fantasma de uma assembleia legislativa e que é doador da sua campanha.

O candidato diz não saber nada de economia e deixar esses assuntos para o seu assessor e futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes. Mas Paulo Guedes é um liberal, e o seu chefe é um populista. A confusão entre os dois nas últimas semanas sobre a pauta absurda anunciada por Guedes não prenuncia um grande desenvolvimento para o país.

O seu programa de governo é uma mistura desconchavada de lunatismo e de autoritarismo, de obsessão com o exército e a polícia, de intervenção governamental na vida privada. Além disso, o candidato desconsidera as suas frases ofensivas do passado e do presente como piadas, exageros mal entendidos. As suas frases futuras serão legendadas para saber o que deve ser levado a sério?

Sem nem entrar no mérito das propostas que gosta de lançar com fala grossa e alta, Bolsonaro comprovadamente não tem a competência para as cumprir, a postura de quem deve ocupar o mais alto cargo de uma nação nem a idoneidade de quem, como ele diz, quer combater a corrupção no Brasil.

É por isso que eu não quero que ele gaste o dinheiro dos meus impostos.

E é por isso que eu disse #elenão.

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O que eu não entendo

Moro no Brasil há oito anos, mas ainda não voto aqui. Cansaço de burocracias, por um lado. Medo de perder esse vínculo com o meu país natal, por outro.

Isso não significa que não acompanho a política brasileira. Acompanho, e com muita atenção. Mas, ainda hoje, há muitas coisas que não entendo.

Não entendo, por exemplo, a atribuição da culpa pela corrupção brasileira a um ou outro, como se não estivesse claro que há uma mamata instalada desde a Ditadura e que o "presidencialismo de coalizão" democrático foi baseado numa rede suprapartidária de favores, ajudas mútuas e acordos obscuros com o meio empresarial.

Não entendo que não se perceba que o impeachment que expulsou Dilma foi articulado por grandes corruptos, já julgados e condenados, e que certamente eles não o fizeram porque ela facilitava a sua ladroagem.

Não entendo quem não se ligou ainda que a contestação ao PT só veio depois do grande ciclo das commodities, quando muita gente viu minguar o dinheiro que até então lhe vinha facilmente para o bolso.

Não entendo como se fala tão pouco que Dilma foi a primeira a demitir pessoas como Antonio Palocci , Wagner Rossi ou Carlos Lupi após aparecerem as primeiras suspeitas de corrupção sobre elas.

Não entendo quem acusa o PT de "querer transformar o Brasil numa Venezuela" e esquece que os dois pés que legitimaram a Lava Jato - a lei da Delação Premiada e o fortalecimento da Polícia Federal - foram feitos do próprio PT, que também sancionou a Lei da Ficha Limpa.

Não entendo quem ostenta descaso e ódio por quem é mais fraco, mais pobre, diferente, quem celebra essa ostentação e quem faz dela bandeira política.

Talvez haja coisas que não sejam mesmo para entender. A memória das pessoas é curta. E eu sou naturalmente otimista. Quando, há 3 anos, escrevi um artigo de opinião no Diário de Notícias sobre a situação do Brasil, ainda nem tinha começado o impeachment, e eu acreditei muito na possibilidade de ele não acontecer. Aconteceu, e a estabilidade que tanto se esperava só foi sendo adiada e adiada, ao ponto de as instituições e a paz social parecerem às vezes prestes a entrarem em derrocada.

Quando estava no poder, o PT nunca me pareceu um partido tão de esquerda assim, mas mais um bloco abrangente que partia do centro-esquerda, com uma grande preocupação social. O crescimento econômico durante os seus governos foi uma benção e uma maldição. Com mais dinheiro entrando, e sem quebrar a tradição da roubalheira, mais dinheiro era pedido, distribuído e entregue. Não quebrar essa tradição foi culpa do PT, sim, e também de todos os políticos que passaram pelo poder nos últimos 30 anos. Devemos julgar um réu pelos crimes que cometeu - não pelos dos outros.

Silêncio, movimento, o teu rosto

Os silêncios falam o suficiente. Os rostos que se viram para ti e pedem as tuas palavras também não se precisam abrir: as intenções deles são claras. Se dormiste pouco, essa é a hora de acordar.

Outra lição: se está difícil transportar a coisa para o lugar onde a queres, talvez seja melhor seres tu o que se mexe e ires até ela.

E outra: nenhuma pessoa ou browser de internet têm o direito de te obrigar a olhares para o teu próprio rosto.

A moral e o travelling de Kapò

Há já muito tempo que li a frase tutelar que Godard soltou num debate sobre Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais:


Um travelling é uma questão de moral.*

Pela mesma época, li a crítica devastadora de Jacques Rivette sobre um filme obscuro, curiosamente com a mesma atriz de Hiroshima Mon Amour:


Vejam em Kapò o plano em que [Emanuelle] Riva se suicida, atirando-se sobre o arame farpado electrificado: o homem que decide fazer, nesse momento, um travelling para reenquadrar o cadáver em contra-picado, tendo o cuidado de colocar a mão erguida num ângulo preciso do enquadramento final, esse homem só tem direito ao mais profundo dos desprezos.*

Foi preciso ler Serge Daney e mais algumas coisas para entender que o que estava em causa era a espetacularização da guerra e do Holocausto. Um movimento de câmera - que também é um reajuste do olhar do espectador - não vale apenas pela sua beleza, mas pela sua adequação ao que mostra. Kapò é um filme sobre um campo de concentração: será moralmente adequado embelezar o horror para fazer um enquadramento bonito? Disse Daney sobre o plano de Kapò:


[O travelling] quer ser belo, [mas] não é - ou, mais claramente, ele é belo, mas não é correto.*

Daney, porém, admite uma coisa: ele nunca viu o filme.
Serei eu o único a nunca o ter esquecido, apesar de nunca o ter visto? É que eu nunca vi Kapò mas, ao mesmo tempo vi-o. Vi-o porque alguém - através das palavras - mo mostrou.

Não tenho nada contra Daney, mas há anos que vivo com a curiosidade de ver o famigerado plano. Hoje, graças às maravilhas da Internet, matei essa pendência. Aqui está, para todos verem também.

https://www.youtube.com/watch?v=pCud43zOqAM

Terror, campanha, amanhã

Disse há dias que o terror é teimosia. Mas, vendo Profondo Rosso, há algo mais. Nele trabalha-se a cor e fala-se do dentro e do fora, do perto e do longe, da música e do silêncio. E todos são teimosos. Mas será terror?

- Terror é esta campanha, que nos mata, nos trucida, nos tortura, nos condena para sempre.

Nem tenho tido muito tempo de prestar atenção. Gosto muito do meu trabalho. Ainda bem.

- O que importa é haver trabalho.

O que importa é haver vida. Nascemos pequenas bolhas neste mundo e, enquanto fazemos aniversários, teimamos em não ir.

- A vida será terror.

Então. Talvez não. E eu nunca disse que eles são uma e a mesma coisa. Qualquer drama é herói, objetivo, dificuldades; qualquer drama é teimosia. E eu não sei se slasher - ou até gore - é terror.

- Mas isso é muito subjetivo.

Sim.

- Devias mentir.

Será culpa da geração ou do Freddy Krueger? Preciso do sobrenatural ou da sua possibilidade. A violência incomoda. A distorção do corpo pode repugnar-me. Mas não me aterrorizam.

- E amanhã?

- Amanhã...

Renoir, disfarces, pessoas

Há muito tempo que não via Renoir, e quis recomeçar por Les Bas-Fonds (1936) porque, no My Voyage to Italy, o Scorsese fala que foi um dos filmes em que ele foi assistido por Visconti, então um mero aristocrata entediado e sem saber o que fazer da vida. A amiga Coco Chanel apresentou-o ao diretor francês que, então envolvido com a Frente Popular, terá sido uma influência fundamental para que o conde se aproximasse do Partido Comunista e dos dramas dos trabalhadores, o que é sempre bom para quem vai fundar o Neo-Realismo.

Visconti não é creditado neste filme, tal como não o é em outros filmes que fez com Renoir. Provavelmente, ele foi mais uma espécie de estagiário, assistente pessoal ou simples penetra. Ainda assim, Les Bas-Fonds é interessante para qualquer pessoa que se interesse por ele, porque junta os dois universos que tratou na sua obra: o aristocrático e o proletário, que aqui corresponde a um lumpenproletariat de ladrões, bêbedos e prostitutas. Todos extremamente simpáticos, por sinal.

Apesar de Les Bas-Fonds ser uma elegia de quem tem pouco, ele não é um filme panfletário, mas uma fábula moral e humanista, que mostra que, com posses a mais ou a menos, somos todos muito parecidos e igualmente sujeitos tanto à perdição quanto à redenção. Toda a gente quer dinheiro, ninguém quer pagar o que deve e, pelo meio, salva-se quem rejeita a aparência e vale por si mesmo.

Esta cena incrível é bem expressiva disso (pulem para os 2min do vídeo). O Barão, que perdeu tudo no jogo, encontra Pépel na sua casa disposto a roubá-lo. Este é o mesmo Barão que, mais tarde, dirá Sinto como se tivesse passado a vida toda trocando de disfarces. Reparem na sutil troca de roupas, sugerindo que ele partirá para o último disfarce ou, quem sabe, se despir de vez.



O encontro de Gabin e Jouvet é histórico e os momentos em que eles contracenam são - não há outra palavra - uma maravilha. Aqui temos dois atores bem diferentes, mas que claramente estão adorando trabalhar juntos e fazem a sua arte como quem brinca. Diz Pascal Merigeau em Jean Renoir: A Biography:

gabin-jouvet

As duas personagens fazem um caminho sincero, e por isso nos agradam tanto. A câmera de Renoir é a ideal para estas figuras. Os seus atores enchem o quadro. A câmera segue-os, precisa deles. Veja-se a cena em que Pépel termina tudo com a sua amante: a forma como o enquadramento é construído a partir dos atores, como as pessoas no fundo enchem o quadro e somam uma serenidade cotidiana ao que poderia ser um simples pastelão melodramático.



O modo como Gabin interpreta este ladrão barato é incrível. Pépel é pobre e criminoso, mas honrado, um ser de valores sólidos, que atravessa a vida e os seus acidentes com uma consciência muito pacífica daquilo que é certo e errado. Ou seja, uma figura de essência chaplinesca. Por isso, não me surpreendeu nada que o final de Les Bas-Fonds invoque do de Tempos Modernos, que Chaplin lançara no início desse mesmo ano de 1936.

Pior, melhor, abrigo

Nada pior do que uma estrada parada.


Nada melhor do que uma sala com amigos.

Nada pior do que chuva em frio.

Nada melhor do que jantar com amigos.

O amor está a um beijo de distância.

Tempo, baton, luz

Há anos que subo a rua do trabalho mais ou menos pela mesma hora, todos os dias. Muitas coisas mudaram. Restaurantes tornaram-se hamburguerias. Lugares mineiros tornaram-se lugares árabes. Um duo de irmãos sapateiros de Viseu veio e foi-se, mas não sem antes me ter feito um trabalho horrível num par de sapatos. O cabelo do manobrista do restaurante italiano está mais branco. O da pet sitter, há uns anos já que deixou de ser liso e cortado à chanel; hoje ela tem-no cacheado e preso num coque alto. Também já a vi passear mais cães ao mesmo tempo do que vejo agora. O problema será da crise ou da minha percepção corrompível?

***


Uma noite, quando eu ainda morava em Lisboa, fui ver o Greil Marcus na Cinemateca. Marcus escreveu um livro chamado Lipstick Traces, (Marcas de Baton na tradução portuguesa da Frenesi) que, ao situar o punk numa tradição cultural e filosófica que inclui o Letrismo, o Dadaísmo e o Protestantismo Radical do século XVI, mudou muito a forma como eu pensava o rock e um monte de coisas.


Nessa noite, ele foi apresentar o Great Rock’n Roll Swindle, ou seja, o documentário do Julien Temple sobre os Sex Pistols (não o mais recente; o outro), mas Marcus também conversou sobre outras coisas e outros filmes.


A dada altura, ele disse algo como Se gostaram do The Warriors, deviam ver o Streets of Fire, o grande filme rock do Walter Hill. Por isso, fui vê-lo logo no dia seguinte.


Streets of Fire está muito longe de ser perfeito e, no entanto, é inesquecível. Até hoje, não me saíram da cabeça esta cena e esta música, meio anos 80 e meio memória difusa dos 50, meio synth pop e meio The Crickets. O plano com o ligeiro tilt sobre o público no 1min, o vermelho e o azul no 1min15 (tão marcados que, por um momento, parece que a Diane Lane foi filmada na frente de uma tela verde), a entrada dos motoqueiros aos 2min54: é tudo uma bela lição sobre o uso da luz em cinema.


E, além disso, ainda me traz a memória da noite em que fui ver o Greil Marcus falar na Cinemateca de Lisboa.


https://www.youtube.com/watch?v=arxD3Ro9mAk

Animais, tempo, azul, conta

Gosto de passar na frente de açougues e de peixarias. O umami toca-me a maçã de adão (ou será o hipotálamo?). Eu não see dead people, mas eu smell dead animals.


***


O passado é presente, mas, enquanto futuro, é próximo demais. Sou adepto de parar para respirar. O ar é distância, e eu sempre prefiro as coisas de longe.


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O que vê cada um de nós quando vê uma cor? O azul que eu vejo é o mesmo que tu vês? Se a palavra vem antes, quantas palavras cabem dentro de uma cor? Nada ou o mundo inteiro?


O Blue come forth. O Blue arise. O Blue ascend. O Blue come in.

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O que comprova que eu moro onde moro? Uma conta. Ó malvado e consumista quadrado em que o meu xis foi marcado.

Tempo, Bernardo, Bach

Os historiadores dizem que há séculos longos e séculos curtos. Também os dias podem ser longos e curtos. O meu dia de hoje começou na noite de ontem. Poder-se-ia dizer que uma coisa é o que existe no mundo e outra o que existe nas nossas mentes. Mas dizer 'dia' é pensar naquilo que o 'dia' é. Quando, em algum momento, deixamos de pensar?


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O passado é também presente e futuro. Às vezes, o que parecia morto e enterrado apenas o parece. Para o mal, para o bem.


(já não falo sobre dias)


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Não, 'mandar o Bernardo às compras' não é uma gíria para transar em Portugal. 'Afiambrar', sim. 'Pinocar', com certeza. 'Refustedo', admito que mais do que uma pessoa o diga. Bernardos e compras, não.


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O período é enervante: decisões no horizonte, facadas no estômago e tanta coisa que deveria estar segura e não está. Para este tipo de momentos, recomendo Bach. Não florais, mas suítes. Esta não é nada obscura, acompanhou-me em vários alarmes matinais e proporcionou-me um momento cotidiano de grande beleza, quando começou a tocar enquanto eu corria no Minhocão e, de repente, era como se os telhados dos prédios flutuassem sobre mim e sobre o resto da cidade.


https://www.youtube.com/watch?v=eUtCC5VPwBs

Tempos Modernos, rolezinhos e o fim de Carlitos

Nos Tempos Modernos (Modern Times, 1936), os homens são gado.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=ZyHOi5lY16M?rel=0&w=560&h=315]

Nove anos antes, Metropolis já falara das lutas sociais. A Grande Depressão ainda não tinha acontecido, mas a Alemanha pós I Guerra Mundial já sabia um pouco de greves e revoltas dos trabalhadores. Arrisco que o filme de Lang tenha sido uma influência para Chaplin, até porque não tenho visto muito mais filmes dos anos 30 que incluam conversas de Skype. Porém, repare-se como, em Lang, só o patrão vê o empregado, num plano inferior; e, em Chaplin, ambos se veem, mas ele prefere a perspectiva do empregado olhando o patrão sobre ele.



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Já tinha percebido em Luzes da Cidade, mas aqui é mais claro ainda: por resistir ao colocar som nos seus filmes, Chaplin parece ter sido um dos diretores que mais o pensou. Aqui, as falas vêm de gravações ou através de telas, nunca diretamente das bocas das personagens. Ou seja, ele coloca a palavra falada no cinema, a sua grande nêmesis, a assassina da sua pantomina, do lado das máquinas num filme em que as máquinas são fonte de todo o mal. Sutil, senhor Chaplin, mas direto.

O filme tem pedigree. Supostamente, Chaplin terá sido sensibilizado para a influência das máquinas na desumanização do trabalho pelo próprio Mahatma Ghandi. Pode-se argumentar se, ao associar a denúncia social ao seu melodrama habitual, ele não terá antecedido o neorrealismo sete anos antes do Ossessione de Visconti. Na verdade, a sua crítica às autoridades, representantes sérias da sociedade burguesa, acaba por encaixar na perfeição com o tema do filme. A mulher do pastor com gastrite tem algo do anticlericalismo de Buñuel. Carlitos nunca foi amigo da polícia, mas não me lembro de ele ter sido preso tantas vezes quanto aqui.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=KykfDXtZYmI?rel=0&w=560&h=315]

E o que falar da sequência da "invasão" noturna da loja de departamento, que tem ecos ainda hoje? Lembram dos rolezinhos, sobre os quais Eliane Brum escreveu tão bem?  Chaplin já está mostrando os excluídos da sociedade de consumo invadindo as catedrais desta. E brincar com o fogo desta maneira é como patinar ao lado do precipício.

 [youtube https://www.youtube.com/watch?v=vlMFQHbmtpg?rel=0&w=560&h=315]

Chaplin também achou aqui o lugar ideal para colocar algo que ele sabe fazer muito bem pelo menos desde The Gold Rush: filmar uma refeição. Primeiro, Carlitos é alimentado por uma máquina, e não consegue comer nada. Mais tarde, num belo contraponto, ele alimenta um trabalhador que, apesar de preso numa máquina, consegue assim almoçar. Ou seja, um homem sempre conseguirá ser alimentado por outro com boa vontade, apesar da máquina que o sufoca.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=n_1apYo6-Ow?rel=0&w=560&h=315]

Além de ensaio sobre as dificuldades da classe trabalhadora após a Depressão, Tempos Modernos mostra ter uma importância íntima muito grande para o autor. Primeiro, porque é uma espécie de carta de amor à sua recém-esposa da época, Paulette Godard, com cuja personagem Carlitos se alia e tem momentos dignos de jovem casal apaixonado.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Ov--LxnP318?rel=0&w=560&h=315]

Depois, e apesar de tudo que se possa dizer sobre a personagem de O Grande Ditador, para Chaplin Carlitos acabou aqui. Dois momentos marcam esse fim: a primeira vez que ele fala - sem nada dizer, mas fazendo todo mundo rir...

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=0daS_SDCT_U?rel=0&w=560&h=315]

...e o final, que rima com o de O Circo, com a diferença que, desta vez, Carlitos vai acompanhado e sorrindo.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=J3aQkfIvx6k?rel=0&w=560&h=315]

Chaplin, com 47 anos, deixou Carlitos marchar em direção ao horizonte para, finalmente,  o nome do diretor não ser ofuscado pelo da personagem. Bela forma de ilustrar uma virada na obra.

Filmes, comida, dúvida, cura

Comparado com os giallo jovens e intensos do Argento, os de Mario Bava parecem adaptações classiconas de histórias da Agatha Christie. Mas que fotografia, que direção de arte! Um Visconti do terror.


Já Um Lugar Silencioso, nhec, parece uma adaptação caladinha de Jurassic Park.

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No restaurante, disse ao garçom que tentei uma adaptação caseira de uma sobremesa deles, mas troquei o requeijão de corte por queijo coalho e, em vez de uma chapa simples, coloquei manteiga para conseguir a casquinha crocante. Ele riu e soltou um "a gente vai inventando". Lembrei-me de Michael Pollan contar, no Cooked, que há quem opine que a humanidade não começou a cultivar cereais para comer, mas porque queria embebedar-se com cerveja. Associamos "civilização" com seres sábios e precavidos; talvez a devamos começar a associar com bêbedos epicuristas que foram inventando, sempre inventando.


***


Na rua, uma mulher contava uma história a outra. Aí ela falou 'Eu me mudei para essa casa e quem deu ela foi Deus!'. E eu falei 'Duvido!!!'.


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Gente demais para a exposição na Pinacoteca. Fomos então passear no parque, e tirei uma foto com o Garibaldi.


https://www.instagram.com/p/BnfmcMaAdCi/?taken-by=jvnande

Depois ouvi: If you slip going under/ Slip over my shoulder/ So just pull on your face / Just pull on your feet/ And let's hit opening time/ Down on Fascination Street.

Corrida, ave, Coltrane

A vida não pára. Ou talvez ela pare, mas nós não. Feriados eram dias de festejar santos. Os santos de amanhã festejam os dias de hoje?

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Entre dois momentos, liguei Hitchcock a um sonho e pensei no pássaro invisível que ataca as pessoas na rua.

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O feriado acaba e, no documentário, o John Coltrane diz Obrigado, Deus.

Matéria, História, Moby Dick

Lia Moby Dick. Melville falava sobre as antigas espécies de baleias. Pensei numa hipótese comprovável só por uma conta impossível: e se a vida, ou a matéria orgânica, for como a água e nenhuma se perder? E se o número de células vivas for o mesmo desde o início dos tempos, sendo elas só distribuídas e redistribuídas entre vegetais e animais?

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História é o conto da tensão. Interessam-lhe mais os Grandes Conflitos do que as Grandes Pazes. Enquanto os peixes do Padre António Vieira se perseguem, eles também avançam. Exceto um, que espera num consultório médico por um acompanhante obrigatório entretanto comido.
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Também de Moby Dick: "é necessário dar-se conta (...) de que os próprios deuses nem sempre são felizes".

Meteorito, sala de roteiro, chuva

Parece que, no Museu, pouco mais se salvou do que o Meteorito do Bendegó.

https://www.instagram.com/p/BnRTb_YBpW6/?utm_source=ig_web_copy_link
Já não é vermelho e liso como o vi há seis anos. Está escuro, coberto de cinzas. Cão assustado no meio das ruínas. Mas penso que ele veio do espaço e que, há muito tempo, ele incandesceu, parou, esfriou. Hoje, assustado, continua. Cão, altivo, presente, testemunha de todo o Tempo.

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Pouco se diz que salas de roteiro são abrigo na tempestade de horas e confusão. Talvez nem todas sejam.
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Choveu hoje, mas não chegou para nos lavar.

(diário)

(diário)

Há uma frase que não me sai da cabeça e ainda não consegui escrevê-la. Falta de tempo ou tempo de faltas. Queria que ela saísse bem, na máquina de escrever, da qual não se perde nada. Talvez seja só falta de coragem. Sem fazer, nada se perde.

Fui ouvir o Archie Shepp no SESC Pompeia É a segunda pessoa que tocou com o John Coltrane que vi ao vivo (há seis anos vi o McCoy Tyner na República, num palco da Virada). Jazz à moda antiga, solos, comunhões, entregas, aquele que traduz uma certa forma de ser humano: estar-se acompanhado e sozinho; o esforço é de todos, mas o valor é de cada um. Isso tudo porque achei o pianista pouco inspirado. Talvez por ser o mais jovem ali, sentir-se-ia intimidado. Pena ser solista.

Em casa, apeteceu-me reouvir a Richard Pryor Addresses a Tearful Nation, do Joe Henry. Agora escuto Leonard Cohen.

Cada vez me apetece menos compartilhar coisas. Ou dizê-las. Aqui ninguém, ou quase ninguém, me escuta. Falo só para mim, um pensamento.

A frase está pronta. É tarde. Será hoje?