O casamento real

É possível ver o casamento do príncipe Harry com Meghan Markle de várias formas.

As roupas, os chapéus, o vestido da noiva a barba do noivo, as alianças, o bolo: quem tenta perceber o que poderá ou não ser tendência no consumo dos próximos tempos presta atenção a estes pormenores.

Porém, há uma pergunta curiosa, bem simples, que poucos se fazem: por que este casamento tem o poder de definir tendências?

Porque é real, dirão alguns. Por que, então, os casamentos reais da Dinamarca ou do Butão não têm o mesmo poder de influenciar modas pelo mundo?

Isso leva-nos àqueles dias em que não havia Netflix, a vida das pessoas era cinzenta e o principal função da realeza estava mais à vista: ser corpo que espelha a hegemonia cultural e política da Grã-Bretanha, e do seu império, no mundo.

Ou seja, esmagar os adversários por dentro e por fora, como quem diz "olhem como somos grandes, resplandescentes e respeitáveis".

A família real funciona como os personagens de uma novela, ou como uma mitologia privada, que, num diálogo permanente, molda os seus súditos ao mesmo tempo que é moldada por eles.

Meghan é atriz, americana, filha de uma negra e um branco. Harry casou com ela numa cerimônia ecumênica, com um pastor negro, um coro gospel e convidados famosos conhecidos por suas posições progressistas. A noiva entrou sozinha na igreja e omitiu a obediência ao marido nos seus votos.

Não ponho em causa a sinceridade dos sentimentos do casal nem escondo a minha simpatia com as causas levantadas hoje. Que ótimo que a realeza britânica demonstra abertura.

Só não esqueçamos que ela o fez numa cerimônia que é, como sempre foi, um puro ato de exibição de poder.

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