Ir de bicicleta dobrável para o trabalho em São Paulo

Isto é só um complemento às dicas preciosas da Sabrina Duran.

Lisboa, um dia de 2008. Chego a casa frustrado por perceber que é impossível enfrentar a subida até à Graça, onde moro, com a bike que comprei. Penso que poderia ter gasto um pouco mais e comprado uma dobrável, que, se dobrada, é considerada bagagem e, portanto, pode entrar a qualquer hora nos transportes públicos.

Corta para São Paulo, 2016. Na última Black Friday, comprei uma Durban One, uma bike dobrável bem simples, de uma marcha. Passei um mês pedalando para a produtora e reduzindo a caminhada de 20min para metade. Mas vou gravar um programa em breve, o que significa um percurso até ao estúdio de caminhadinha-metrô-trem-caminhada. Então, decidi testar essa integração da dobrável com os transportes.

Veredicto: funciona.

Assim que cheguei ao metrô, no momento em que punha a dobrável do outro lado da porta de quem passa de cadeira de rodas ou com carrinhos de bebês, um funcionário avisa-me: "tem que estar embalada". Já sabia disso. Passo na catraca, tiro da bolsa o saco de lixo que pedi ao porteiro no dia anterior e ponho a bicicleta dentro. Sim, o saco de lixo serve como "embalagem". E o resto do percurso de trem será assim.

A dobrável no saco, esperando o trem parar.

Isso da bicicleta ser embalada parecia-me frescura da CPTM e do Metrô, mas dou o braço a torcer, faz todo o sentido. Uma bicicleta tem metais saindo, correia com óleo, rodas com poeira. É uma exigência absolutamente razoável para que, no aperto, ninguém suje a calça nela sem querer.

A Durban dentro do trem.

Há outras regras de "etiqueta de usuário ciclista" que eu poderia não ter seguido, porque a bike dobrada e embalada deixa de ser "bicicleta" e passa a ser "bagagem", mas a verdade é que elas também acabaram por me facilitar a vida. É mais confortável pegar o último vagão, porque normalmente tem menos gente. E é bom esperar todas as pessoas embarcarem ou desembarcarem, porque evita bater com a bike em alguém e faz a tarefa de carregá-la bem mais confortável.

No trabalho, a bike ficou num cantinho, sem incomodar ninguém.

Em suma, o tempo das caminhadas foi reduzido, carregar a bike no metrô não foi complicado e, no final, deu tudo certo. E, só para desfazer possíveis enganos, apesar de não ter alergia a me mexer, não sou nada "Geração Saúde". Odeio academias, fumo e como tudo o que dizem que não se deve comer. Mas acho que a vida deve ser prática, e a bicicleta dobrável sem dúvida torna a vida na cidade bem mais prática. Por isso, é importante dizer que usá-la não é para superpessoas.

A loucura dos outros (contínuo)

(07-02-2016, Domingo de Carnaval)
e o Thiago França dedicou uma música aos moradores de rua do Anhangabaú, e eles festejaram lá mesmo na frente do palco, sem camisas, um ou outro com os sacos pretos meio cheios de latinhas, e as pessoas limpas começaram a dançar em volta, e os da rua dançavam também, um tinha um balde na cabeça e passava uma escova pelo balde imaginário, e outro olhava calado e bêbedo as mulheres limpas que não costumava ver assim porque nos outros dias elas não chegam tão perto, e outro era gordo e tinha um boné caído sobre os olhos e o rapaz limpo abraçava-o e os amigos tiravam fotos rindo, e o homem posava porque nos outros dias ninguém lhe tira fotos, e então o gordo tentou abraçar todas as pessoas limpas para lhe tirarem mais fotos, mas algumas não quiseram e fugiram. Quando o Thiago França acabou o show, toda a gente foi embora, mas não os homens da rua, porque eles ainda pegaram nos sacos pretos e acabaram de enchê-los com as latas que as pessoas limpas tinham deixado no chão do no vale do Anhangabaú.

(03-02-2016)
O farol está verde para os carros. Uma moça estilo compro-artesanato-na-rua-com-o-dinheiro-que-meu-pai-me-dá atravessa a faixa sem ligar muito para o moço estilo leio-a-Veja-toda-semana-e-gosto-de-bebidas-com-energético que subia a rua de carro e já estava bem próximo dela. Ela ainda manda um sorrisinho e acena para o moço, mas ele não trava, ou não consegue travar, e passa encostadinho nela. O sorriso dela cai e, em protesto, bate com força no carro. O motorista avança uns metros, para não arriscar um pontapé, talvez, e grita "vaca!". Ela manda-o tomar no cu. Ambos seguem os seus caminhos,

O aborto

Depois da excelente entrevista de Drauzio Varella sobre o aborto:

Eu não gosto quando alguém aborta. Se isso acontecesse na minha vida privada, eu preferiria trazer a criança ao mundo.

Mas a nossa opinião sobre o aborto não tem a ver com o que queremos para a nossa vida. Tem a ver com o que queremos para a vida dos outros.

Proibir o aborto não para o aborto. Os dados que o artigo da BBC indica ("uma brasileira morre a cada dois dias por conta de procedimentos mal feitos e um milhão de abortos clandestinos seriam feitos no país todos os anos") comprovam isso.

Ou seja, a proibição só entrega a mulher que aborta à clandestinidade e a arriscar a saúde e a vida nas mãos de pessoas que não pode processar se o fizerem mal (porque se arrisca a ser ela própria presa e condenada).

E proibir o aborto não tem nada a ver com a questão "uma mulher deve poder abortar?". Tem a ver com a questão "uma mulher que aborta deve ser presa?". Gostaria que o Brasil entendesse isso, como Portugal entendeu há alguns anos.

Se você acha que não conhece ninguém que tivesse abortado, pergunte a uma amiga, à sua mulher, à sua namorada, e talvez se surpreenda ao descobrir que alguém bem próximo de você o fez. Muito provavelmente, você vai descobrir que a situação que levou essa pessoa a se submeter a uma intervenção clandestina não foi fácil, que ela não o fez feliz e contente, que, na verdade, o fez com muito custo e sacrifício.

E depois pense: essa pessoa merece ser presa? Se você acha que não, não deve ser presa ou punida porque já foi punição suficiente submeter-se a essa provação, então, seja qual for sua opinião sobre o aborto na sua vida privada, você é favorável a uma despenalização. E é isso que está em causa.