As chouriças pretas da Rosinha do Lapa


Não lhes vou chamar morcelas, porque toda a vida lhes chamei isto: chouriças pretas. Ou de sangue, pronto. Digo com segurança que as da Rosinha do Lapa, que tem o talho na Praça da República de Monção, são as melhores do mundo. Não sei se é do fumeiro ou da carne, mas alguma coisa elas têm, porque são diferentes de quaisquer outras. Em Monção, notava logo a diferença quando a Rosinha não as tinha e a minha mãe tinha de comprar outras noutro lado qualquer. Em Coimbra, ficava-me pelas alheiras que a minha amiga Cândida trazia de Macedo. Deliciosas também, mas alheira é outra liga. Quando almoçava cozido à portuguesa nos cafés de Lisboa e provava aquele sucedâneo com sabor de plástico de embalado, chorava por elas. Aqui, no Brasil, foram das primeiras coisas que trouxe, porque o André, com quem fiquei na primeira semana, me disse logo que isto não era famoso de enchidos e que, se lhe queria mostrar gratidão, era um bom jeito. Nunca mais deixei de as trazer. Se Marcel Proust tivesse conhecido a Rosinha do Lapa, não se tinha andado a meter nas madalenas para lembrar a infância.

Não é normal cozinhar-se com sangue em São Paulo e os nativos ficam meio surpreendidos quando as vêem. No Natal, levei uma para um churrasco na minha produtora (ver foto) e as reações variaram entre a repugnância e a adesão total. Pelo meio, houve quem tivesse franzido o sobrolho no início e repetido a dose no final.

Durante a minha vida aqui, as chouriças pretas da Rosinha do Lapa acompanharam-me por alegrias e tristezas. Uma alegria foi o cozido à portuguesa que o pessoal do Inov-Art armou quando ainda cá estávamos todos e pude vê-los, todos de diferentes regiões de Portugal, a confirmar o que eu já sabia: que são as melhores da História. As tristezas deram-se normalmente como, quando ontem, assei a última chouriça. Mas talvez esqueça isso quando hoje estiver a almoçar a outra metade dela com um belo arroz de açafrão.

Um comentário:

  1. Uma... eu levava às nnnn, tinha de dar para muitas semanas.

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