Enquanto lucubro, penso:

Há tempos, uma amiga disse-me que esperava que eu não me tornasse cínico. Está muito difícil controlá-lo. Tenho ao mesmo tempo uma confiança muito grande nas pessoas e uma certeza inabalável que elas são incapazes de não errar. Ao longo do tempo, fui trabalhando esse desejo, como vi o David Lynch dizer uma vez que sabe que uma escultura está pronta porque sente-o nas pontas dos dedos. Eu fui trabalhando esse desejo e expetativa até uma condição em que esse erro me aparece carinhoso, do tipo "que carinhosa, esta pessoa, não conseguiu manter a pila dentro das calças e fodeu a cena boa que tinha" ou "que querida, esta pessoa, encheu-se de dívidas e agora vai redescobrir que a natureza humana não é muito melhor do que a da lama" ou "que carinhosa, esta pessoa, fez um casamento e um bebé porque achava que queria ser igual à amiga e agora já olha para o marido e para o filho com ar de quem quer estar longe, longe, longe". Ou seja, não tenho fé nenhuma em ninguém. Ao mesmo tempo, adoro toda a gente. É divertido.

It's funny how things go

Tenho três coisas para fazer, mas não vou citar Pessoa, não vou citar Pessoa, não vou citar Pessoa, não vou citar Pessoa, não v...
Ai que prazer não cumprir um dever.

Foda-se.

Era desnecessário, isto. Até porque não tenho prazer nenhum em não cumprir os deveres. Não os cumprir agora significa ter que os cumprir depois e com menos tempo. Estou velho, está visto.

A razão para adiar é não conseguir tirar da cabeça que não me lembro de nenhum equivalente em inglês para as palavras "escarrar" e "escarro". "Spit" é insuficiente, "sputum" é insatisfatório. Mas "escarro" lembra muito "escara", ou "scar", o que faz sentido, de algum modo, porque "Scar" é o álbum que contém uma canção que tenho ouvido muito.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vii5ydVSNec

Isso faz ainda mais sentido, até porque este texto começou com música. Vocês não sabem, não podem saber da minha vida, mas tudo tem a ver com ter visto um filme quando era muito novo. Aos 1m55 deste vídeo, fica explicado.

httpv://www.youtube.com/watch?v=ZS_GagmpfvU

Fico feliz por ter esclarecido tudo.

Poema de ler baixo

entre o que vês e dizes
não existe nada
és simples e sem malícia
não sabes nada
de computadores
não temes pedir
ajuda a estranhos

entre o que vês e dizes
não há teias ou
imundície há só
o que és e aquela
transparência
do que é real
e luz

entre o que vês e dizes
sorris porque
achaste enfim quem
te matasse a fome

fizeste um sanduíche
com minhas palavras

e comeste-me
a vergonha.

Quero subsídios estatais para programas de reality!

Cheguei hoje à conclusão que os programas de reality TV promovem a imagem de um país no estrangeiro e é essencial que eles sejam apoiados pelos Ministérios de Turismo. Sinceramente, que país preferiam visitar?

Portugal...
httpv://www.youtube.com/watch?v=10jnI1DtaOY

...o Brasil...
httpv://www.youtube.com/watch?v=CP64KdHAqBs

...ou a Suécia?
httpv://www.youtube.com/watch?v=ZPKacexvc6s

"Brasileiro não é de confiança": negando ideias, 2

Série de posts sobre coisas que se poderão pensar sobre o Brasil e os Brasileiros e que não são assim bem verdade.

Em Portugal, é normal pensar-se que a palavra dos brasileiros não é confiável, que não se pode contar com aquilo que eles prometem, que não se deve esperar muito dos seus acordos. Como em muitos outros mal entendidos entre as nossas duas nações, isto surge de um desencontro que é mais semântico do que psicológico. É o mesmo tipo de engano que leva os brasileiros a pensar que português precisa de ter tudo muito bem explicadinho porque é menos provido de capacidade cerebral. Não é por isso (a menos que seja um português pertencente à classe política), mas sim porque não falamos a mesma língua. A palavra "camisola" em Portugal é como falar "blusa". Tipo, não é uma coisa para as senhoras usarem enquanto dormem, significado de "camisola" no BR, mas à qual a gente chamaria "camisa de dormir". Um português que chega aqui e percebe aquilo que tem para jogar tem duas alternativas: ou é chatinho com explicações ou morre soterrado numa avalanche de confusão.

Quando eu cheguei ao Brasil, o amigo com quem morei uma semana antes de ter arranjado casa (ou seja, antes de ele me ter expulsado), disse-me que, se acontecer alguma coisa, se vir que algo está a demorar muito, que não me estão a dar o que preciso, descontrai. Não te enerves, diz ele, e conversa de boa. Conversar é, realmente, o melhor a fazer. O brasileiro é emocional, comunicativo e dá importância às impressões que vão sendo transmitidas. A partir do momento em que entendemos isso, não há razão para que algo dê errado. É só contar com uma diferente forma de agir. Brasileiro não falta aos compromissos, mas é descontraído com eles, e comprometer-se implica uma diferente forma de agir e de falar daquelas que há em PT. Dizer que "temos de jantar", que "marcamos para sair", que "vamos combinar" não significa que se jante, que se saia ou que se combine. Mas ele está sendo sincero. Se alguém fala isso, é porque quer mesmo que isso aconteça. Porém, a vida no Brasil é um eterno devir e dá muitas voltas. Brasileiro sente que é preciso deixar que a vida aconteça e as vontades se encontrem a certo momento. Por isso, calma.

"O Brasil é um caos para viajar": negando ideias, 1

Série de posts sobre coisas que se poderão pensar sobre o Brasil e os Brasileiros e que não são assim bem verdade.

O Brasil é um país que assenta na necessidade de se movimentar e quem oferece esse tipo de serviços sabe-o muito bem. Os transportes no Brasil são ótimos. Nas grandes cidades, então, nem se fala. O Metro de São Paulo é dos mais eficientes que já vi, com um tempo de espera muito reduzido. Tem muita gente, é verdade, e a hora de ponta é à japonesa, com toda a gente espremida dentro das carruagens, mas funciona relativamente bem mesmo nessas horas. Noutras cidades onde estive, como o Rio, Recife ou Belém, os transportes também são bons, a informação sobre eles é de fácil acesso e fiável e os destinos são inúmeros, para além de lugares de mais difícil acesso terem gerado o um setor que não existe na Europa, o moto-táxi.

Isso é reflexo de um país onde durante muito tempo foi impossível para uma grande parte da população - e não só os mais pobres - comprar um carro. A industrialização dos anos 50 foi feita com um grande companheirismo entre classe política e fabricantes de automóveis e a primeira deixou cair as ferrovias. Com muita gente sem carro a morar nas periferias e a precisar de ir para as cidades vizinhas ou para os centros para poder trabalhar, as empresas de ônibus farejaram a oportunidade.

Sem discutir se o que veio primeiro foi o ovo ou o cu da galinha, há também uma propensão, digamos, psico-social. O brasileiro liga e desliga das relações com facilidade. Pode ter uma conversa super animada e esvaziar a alma com alguém que acabou de conhecer enquanto esperava o ônibus, mas, se o ônibus chega e não dá para conversar mais, se a conversa fraqueja, se algo não bate certo, desliga e, sem problemas, parte para outra. Não há tanto apego às pessoas como há àquilo que o próprio sente. O outro importa na medida do que eu sinto por ele - o "eu" está sempre lá. Movimento, movimento, eterno devir. Também era relativamente normal um homem ter a família oficial num estado e outra noutro. Os soldados portugueses em África nos anos 70 escolhiam se ficavam com a família de guerra ou se voltavam à portuguesa. Aqui não: o homem viajava de estado para estado ou de cidade para cidade para poder estar à vez com toda a gente.

O maior viajante que já conheci na vida é o Claudio Vitor Vaz, que conheci ainda em Coimbra e que já viajou por meio mundo. Ele não precisa de razões: ele vai. E os brasileiros são assim: eles vão correr o mundo, conhecer outros lugares, e voltam. Ou não. Mas a vida é assim mesmo.

Rafinha Bastos faz o que um comediante faz

Rafinha Bastos respondeu à polêmica de que falei no meu texto anterior. E respondeu como só um comediante pode responder. Lamentando-se? Não. Inventando desculpas? Nem por sombras. Zangado? Talvez, mas não importa. Rafinha fez o que é suposto que um comediante faça: comédia. Afinal, é simples assim.
httpv://www.youtube.com/watch?v=zCQHDXe3ENk

Gisele, Rafinha, o humor e o medo

O meu trabalho assenta na liberdade de expressão. Eu ganho a vida a escrever. Se eu não puder escrever o que quero, não posso ganhar a vida. É assim simples. Uma expressão limitada limita-me no meu direito a trabalhar. Por isso, é sempre com alguma aflição e violência que reajo a opiniões que me dizem que não posso escrever ou dizer algo, porque não é "politicamente correto" ou algo parecido. E isso também me acontece sempre que vejo notícias semelhantes sobre pessoas que ganham a vida da mesma forma.

Na semana passada, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SEPM) pediu a suspensão de uma campanha com Gisele Bündchen, considerando que ela continha conteúdo discriminatório. Vejamos um dos anúncios dessa campanha.
httpv://www.youtube.com/watch?v=nk5H_BdxMz8
Vejamos agora um anúncio anterior da mesma marca, também com Gisele Bündchen.
httpv://www.youtube.com/watch?v=W_i6Kf-8C2c
O copy do anúncio antigo é "ela é brasileira. Sexy. Leve. Natural. Ela é Hope". Parece-me que dizer que a mulher brasileira é necessariamente "sexy, leve, natural" é mais tipificador do que dizer "você é brasileira, use seu charme". Também me parece que o corpo de Bündchen no anúncio mais antigo é mais objeto do que no mais recente, que ao menos lhe dá uma personalidade e voz. Porém, foi esse anúncio o que ofendeu a SEPM. A Secretaria divulgou mesmo um artigo que diz que “as agências publicitárias precisam crescer e aprender com os exemplos de maturidade e de cidadania que as mulheres brasileiras vêm oferecendo ao país. E tudo isso sem precisar tirar a roupa".

Podemos sempre discutir como é que uma marca de lingerie feminina faz um anúncio em que uma mulher não tire a roupa. Pode ser genial, quem sabe. Mas não consigo deixar de pensar no que poderá ter levado a SEPM - e grande parte da opinião pública - a ter reações tão diferentes em relação a dois anúncios com um conteúdo tão parecido. Só consigo chegar a uma conclusão: o tom. O anúncio antigo é sensual, fashion, choque q.b. O recente é cômico. Então, na verdade, não é o que o anúncio afirma sobre a Mulher que causou essa reação, mas o tom com que essa afirmação foi feita. O humor é um meio familiar ao público, que comunica instantaneamente. Pode ser corrosivo, provocador e tudo o mais, mas, acima de tudo, é eficaz, porque vai atrás do espetador. No anúncio antigo, olhamos para Gisele, mas, no mais recente, é ela que nos olha e nos aborda, de uma forma anormal e desconcertante em comerciais de lingerie. Assim, na base, a reação não foi contra a mensagem do anúncio; foi contra o seu tom humorístico, única diferença relativamente ao anúncio anterior com a mesmo conteúdo. E isso leva-nos a Rafinha Bastos.

A primeira parte do caso Rafinha Bastos começou há uns meses com a abertura de um inquérito que lhe foi movido por suspeita de apologia ao crime por ter dito num dos seus shows de stand-up que "toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus" e “o homem que cometeu o ato merecia um abraço, e não cadeia". Isto foi considerado uma possível incitação ao estupro.

Não assisti a esse número de stand-up, mas o Rafinha é um cultor do humor negro. A sua comédia é toda agressiva, confrontacional e controversa. Ora, ninguém é obrigado a gostar de Rafinha Bastos e qualquer um o pode criticar. Pela natureza do seu espetáculo, ele sujeita-se a isso. Mas a pergunta é: goste-se ou não dele, faz sentido o Estado intrometer-se desta forma naquilo que claramente faz parte de um número de comédia, especialmente um que inclui frases tão inconcebíveis como "desde que sou pai, concordo com o aborto"? Por outras palavras, Rafinha Bastos é um comediante que lida CLARAMENTE no terreno do absurdo da violência e da ironia. Quem o vê sabe CLARAMENTE que está a ver um show de comédia, não uma missa ou um discurso político (apesar de haver muitos discursos e missas que parecem piada). Um mecanismo de suspensão dramática funciona nesse caso, da mesma forma que um espetador do filme A Queda sabe que as palavras que Hitler fala nele não são do ator ou do roteirista, mas da personagem Hitler. Um humorista apresenta-se sozinho com o seu nome e, portanto, arrisca-se mais. Mas É um discurso artístico, É uma expressão que deve ser protegida pelo direito ao abrigo da qual é dita. E se um Estado utiliza um instrumento legal, a abertura de um inquérito judicial, como meio de intimidação a um espetáculo que CLARAMENTE não é uma incitação ao estupro, mas um exagero do que se pode falar sobre ele, o que garante que não a usará para intimidar peças de teatro que considera controversas, filmes que considera desconfortáveis, livros que considera imorais? Quem define o limite e garante que não teremos uma censura encapotada que, sem instrumentos diretos para maneirar alguém, age pela amolação, pelo desconforto, pela pressão?

A revista Veja chamou a Rafinha Bastos "o novo rei da baixaria", mas isso é errado. Baixaria não ofende. Baixaria reduz-se ao que é, todo mundo a reconhece como tal e, por isso, não liga. No Brasil, funk é baixaria. Em Portugal, os Malucos do Riso eram baixaria. Mas Rafinha Bastos é mais do que baixaria: é incômodo. Faz humor perturbante e, goste-se ou não do que ele faz, a comédia deve ser uma forma de expressão livre num estado democrático.

Compreendam-me: não se trata de negar o direito do Estado de atuar contra uma apologia ao crime ou de toda e qualquer expressão ser ilimitada. Eu aceito que o Estado atue contra ações ou palavras que perturbam a ordem democrática - mas não contra ações ou palavras que são meramente malcriadas. O exagero é parte necessária da comédia, a suspensão dramática também. Um comediante tem direito a ser malcriado e ofensivo e a submeter-se ao arbítrio do público, que pode ou não gostar dele. Mas agir legalmente contra más educações é coisa de ditadura religiosa.

É preciso dizer-se que há uma tendência para a educação no Brasil. Há uma espécie de consenso silencioso que diz até onde se pode ir nos comportamentos, na exposição do corpo, no sexo, e um temor, silencioso também, de ultrapassar esse limite. Na praia, não há qualquer problema em usar um bikini de fio dental que expõe completamente a bunda, mas é muito incorreto uma mulher fazer topless. O jogo de casino é ilegal, mas o jogo do bicho (uma espécie de loteria clandestina com figuras de animais) é geral e feito às abertas, apesar de continuar ilegal, ao que se diz porque essa ilegalidade beneficia muita gente, incluindo membros da classe política. Cada país tem as suas hipocrisias, nenhum é melhor do que o outro. No entanto, estejamos onde estivermos, não podemos deixar de chamar as hipocrisias pelo nome.

A segunda parte do caso Rafinha Bastos aconteceu há uns dias, quando ele foi afastado do programa que co-apresentava, o CQC, por ter respondido "comeria ela - e o bebê!" à notícia de que a cantora Wanessa Camargo está grávida..
httpv://www.youtube.com/watch?v=_iRScEQU9p0
Agora vejamos o refrão do último êxito da cantora, que trilha uma carreira internacional:
"You gotta zoom zoom zoom, get in my room room room, you gotta boom boom boom, rock me like vrum vrum vrum".
Sejamos sinceros: a carreira de Wanessa assenta largamente na sua representação sexual. Quando Rafinha Bastos exclama que "comeria ela - e o bebê!", ele está a evidenciar esse fato claro. Por muito que se queira, ainda não se pode ser sexual sem sexo. Uma atriz não pode fazer capas de revista evidenciando o decote e esperar que não se fale sobre isso. Um ator de filmes pornos não pode esperar que o considerem pelo seu conhecimento de Shakespeare. Se Rafinha Bastos se coloca a jeito para que não gostem dele e do seu humor, Wanessa Camargo coloca-se a jeito para ouvir piadas sobre a persona sexual que representa na sua imagem pública. Rafinha Bastos foi malcriado, mas não foi gratuito. Foi duro e agressivo como sempre é, como já se espera que seja, e a piada funcionou - a plateia riu, tal como riu Marco Luque, o colega de apresentação, cuja retratação mostra fraqueza de espírito e um desejo de consenso que é contrário ao que deve ser o instinto disruptivo de um humorista.

Uma amiga fez-me um reparo: Rafinha Bastos não estava a falar num teatro cheio do seu público, que pagou R$100 para o ver, mas na televisão aberta. Ela tem razão. Podemos acusá-lo de falta de bom senso. Mas isto leva-nos a outra pergunta: porque o discurso de uma TV aberta tem que ser normalizador e não expor esses choques sociais? Porque a comunicação que toda a gente pode ver tem que fingir que o mundo é um lugar sem conflitos, sem opiniões, onde nada tem implicações em coisa nenhuma? De certa forma, a televisão esvazia o sentido do que diz para poder sobreviver enquanto entidade comunicativa no mundo. Parece que o ideal televisivo implica que as pessoas se respeitem umas às outras fazendo com que o que dizem seja inconsequente, como naqueles concursos de 3 horas na late night tv em que o espetador telefona para ganhar dinheiro: um discurso que não afirma, se oferece ao consenso, evita todo e qualquer tipo de conflito e em que perder e ganhar não importa, porque tudo é nivelado pela planura da transmissão.

Repito: o Brasil não é diferente de qualquer outro país. Portugal não está isento disto (o caso Rui Sinel de Cordes ainda é recente), nenhuma sociedade moderna o está. Mas as democracias constroem-se com os conflitos acontecendo no aberto e discutidos no espaço público. Estas reações, ao contrário, são reflexo de uma sociedade regida pelo medo. Eu não gosto de medo. Metade do meu esforço de sobrevivência consiste em enfrentá-lo, e não consigo aceitar quem se rende a ele. Deita-me abaixo. Só gostaria que mais pessoas pensassem assim.

Coisas do Brasil: a lei do psiu

No cardápio do Papo, Pinga e Petisco, na Praça Roosevelt, vem uma "curiosidade" entre as cervejas e as caipirinhas:
Aqui, neste local, foi realizado o primeiro show de Elis Regina em São Paulo, no ano de 1964.

Era meia noite e o White Album dos Beatles tocava a altos berros. Na verdade, parecia uma versão condensada do White Album, porque as canções soavam mais rápidas do que o costume. E, talvez, não seja o White Album, porque, no preciso momento em que escrevo isto, está a tocar a Let It Be, que é do álbum homónimo. Enfim. O fato ainda mais curioso do que a "curiosidade" é que, logo por baixo da info sobre a mãe da Maria Rita, vem o aviso a bold:
Nosso Bar respeita a "Lei do Psiu", pedimos que não excedam no barulho.

O que me leva a duas perguntas. A primeira: será que a Elis poderia ter tocado aqui em 1964 se já houvesse lei do "psiu"? A segunda: quem batizou ela de lei do "psiu"? É que "psiu" pode ser "silêncio", mas também pode ser "psiu, ó para mim aqui te chamando...". Porque não lei do "chut"? Ou lei do "calou!"? Ou lei do "eu quero dormir, poha!"? Ou lei da "coña marinera"? Definitivamente, houve falta de imaginação.

Sleep Now In The Fire

Os tempos em que pensava que excessos policiais estão sempre errados já passaram e, felizmente, nunca pensei que eles estivessem sempre certos. Mas olhem o que a polícia fez durante a manifestação Occupy Wall Street.
httpv://www.youtube.com/watch?v=Zgr3DiqWYCI
Lawrence O'Donnell é um homem sem medo, e o fato de se assumir "socialista" nos EUA comprova-o. O principal aqui é: a polícia controlou uma manifestação pacífica com particulares e desnecessários requintes de crueldade, abusando da sua força com gritante mal senso e contra os próprios cidadãos que a legitimam. Ou seja, em vez de defender a paz e ordem democráticas contra os seus inimigos, ela perturbou o povo no exercício de um direito democrático elementar. Pode-se dizer que O'Donnell tem um estilo que puxa para o sensacional, mas as suas palavras são verdades cruas e duras. Parece que, em Wall Street, não fazer absolutamente nada pode justificar uma prisão ou uma descarga direta de gás pimenta no rosto. Só para que, como dizem os RATM no vídeo de Sleep Now In The Fire - gravado em Wall Street e que levou à suspensão da atividade da Bolsa por uns minutos -, nenhum dinheiro seja ferido.