Coisas de Portugal: João César das Neves


Desde que moro no Brasil e faço os possíveis para aproximar as duas margens deste lago atlântico, tenho principalmente falado aos portugueses sobre coisas brasileiras. Por isso, talvez tenha chegado a hora de falar aos amigos brasileiros sobre Portugal. E escolhi para começar algo bem especial, tanto que me intriga saber se conseguirei explicá-lo bem: João César das Neves.

Então, digamos assim: César das Neves é professor universitário, doutorado em economia pela Universidade Católica Portuguesa. É uma das caras mais conhecidas do conservadorismo português pelas suas aparições frequentes na TV e a sua coluna de jornal Não Há Almoços Grátis, sendo populares as suas apologias da família e dos valores tradicionais. César das Neves tem algumas ligações com pessoas importantes do Partido Social Democrata, o partido de centro-direita que está agora no poder. E ele tem uma barba muito viril e cara de quem não muda de roupa interior muitas vezes só para a poder usar como ataque para com interlocutores adversários, do estilo "este gajo a falar e a sentir-me o cheiro das cuecas: como lhe deve estar a custar!". Mas César das Neves é, além disso tudo, capaz de algumas das afirmações mais corretas e certeiras na história das afirmações. Peguemos por isso nalgumas da sua crónica de 20 de Junho, de título "O poder dos bobos" (sendo que "bobos" não deve ser tomado necessariamente no sentido brasileiro de "fracos de espírito", mas mais no de bobos da corte, jograis, ou seja, gente do entretenimento em geral).
Hoje a opinião mediática despreza e ridiculariza as referências morais tradicionais - pais, professores, sacerdotes, chefes e responsáveis - enquanto exalta as opiniões de artistas, bandas de música, comediantes e celebridades.
Reparem que César das Neves aqui não fala especialmente mal da autoridade moral destas últimas categorias de gente. Ele só não gosta que eles não sejam tradicionais. Se estivermos a falar de um ator com 80 anos, ele já é tradicional. Aí tudo bem. O único problema desta afirmação é que permite uma série de situações ambíguas. Como é que os media devem tratar alguém que é artista, mas também é pai? Ou um sacerdote que é também celebridade? Um comediante que é chefe numa empresa? E o meu pai, que é músico - como é que eu o devo tratar? Deverei sempre tentar entender se ele me está a falar como pai - e aí devo ouvi-lo e considerá-lo - ou como malvado e perigoso boémio? Seja como for, ao colocar "responsáveis" de um lado e os entertainers do outro, César das Neves implica que estes não são responsáveis, o que só lhe fica bem, pois é bem sabido que todas as pessoas do meio artístico não são sérias, não cumprem compromissos e, no geral, não merecem a confiança de ninguém.
Será que as séries, filmes e canções que hoje nos inundam a vida moldam o nosso comportamento? Se o fazem, não será para o bem. As preocupações oficiais com a moralidade nos filmes perderam-se nos anos 1960, passando a liberdade de expressão a critério ético absoluto, acima de todos os valores. Como os bons exemplos e temas educativos não criam emoção, cinema e televisão entraram numa espiral imparável de crime, vício, erotismo e aberração. Tem graça que os jornais, que mais apregoam essa influência, sejam os primeiros a declarar a inocência do espectáculo quando se verificam consequências nefastas.
César das Neves tem, mais uma vez, toda a razão. Monstros, vampiros, sexo e crime nunca tinham sido representados em momento algum da história da narrativa visual ou literária e não se compreende essa mania dessas séries e filmes agora andarem com esses temas que nada têm de apologético à saudável e fabulosa família tradicional, trabalhadora, casada e heterossexual. Foi só desde que as preocupações oficiais com a moralidade terminaram que eles começaram a ser tratados por esses perversos artistas, o que nos leva a pensar no que poderá ter levado sociedades inteligentes e racionais a terminar com os controlos prévios que impediam que eles surgissem antes dessas famigeradas revoluções - ou deveria dizer involuções? - morais dos anos 60. Na Bíblia, meus senhores, não existe nem um indício desses patricídios, fraticídios, infanticídios, mutilações, seduções, decapitações, purgas coletivas, onanismos e prostitutas que pululam na cultura atual.
A promoção de aborto, divórcio, promiscuidade e pornografia tem no espectáculo sólidos aliados. A enorme campanha à volta do casamento homossexual deve-se à influência dos artistas, principal meio poderoso e endinheirado onde essa orientação domina. Assim se entende que uma questão que interessa apenas à ínfima minoria, com implicações só na imagem, consiga mudar em poucos anos as regras seculares das sociedades. O suicídio colectivo do Ocidente por destruição da família sustenta-se por este meio.
É incrível o poder de argumentação de César das Neves. Afinal, como é que esses artistas se atrevem a encher este mundo de casais desfeitos, fetos abortados, sexo e perversão? Isso não é forma de se construir uma civilização. Para ajudarmos o progresso, temos de nos organizar, a todo o custo e independentemente dos nossos sentimentos, desgostos e situações particulares, em casais unidos, com uma prole gorda que aumenta a cada relação sexual (na razão de um filho a cada dois anos) e a quem a masturbação é interdita. Homossexuais, que não podem procriar, não deveriam estar casados, ou melhor, deveriam estar casados com mulheres, a quem eles encheriam o ventre frequentemente, estando depois livres para fazer o que quiserem com os amigos do café, onde, claro, recusariam beber tudo o que fosse alcoólico. São eles que nos matam enquanto sociedade. Se eles recusassem a sua homossexualidade, haveria muito mais crianças no mundo e a Europa poder-se-ia impor a todos os outros países como o avançado, educado e cristiano colosso que já foi em áureos tempos.
Esse poder traz horríveis efeitos sobre os próprios. O filme Sunset Boulevard, de Billy Wilder (1950), com William Holden, Gloria Swanson e Erich von Stroheim, revelou a miséria humana escondida atrás do brilho de figurinos e cenários. (...) A Forbes Magazine declarou a 18 de Maio Lady Gaga a celebridade mais poderosa do ano. Elton John, de 64 anos, e o seu parceiro David Furnish, de 48, foram nomeados candidatos ao prémio de Pai do Ano, (...) Que significa isto? Nada. Meros truques mediáticos que escondem mal a miséria de pessoas infelizes, embriagadas ou sacrificadas à imagem.
É por isso que tenho saudades de Portugal: porque lá, posso ver César das Neves vezes sem conta na televisão a falar sobre pessoas embriagadas pela própria imagem. E a sua autoridade, neste particular, é incontestável. Há muito pouca gente que sabe disto, meus amigos... mas a verdade é que César das Neves é o único português amigo tanto de Lady Gaga e de Elton John, a quem liga frequentemente sempre que anda de autocarro ou a sua higiene íntima está a demorar um bocadinho mais. Se alguém sabe se Elton John e o seu companheiro de 18 anos estão míseros depois de terem casado, assumido uma relação estável e adotado um bebé a quem darão uma vida confortável enquanto pais, é César das Neves. Se alguém sabe se Lady Gaga, a mais brilhante esteta pop da atualidade, é infeliz e sacrificada à imagem que ela parece fabricar e manipular sem problemas, é ele.

César das Neves deveria ter uma estátua erigida - uma estátua falante, no centro de Lisboa, que todos os turistas pudessem ouvir, só para levarem um pouquinho dos seus ensinamentos de volta para o seu país. E, só para um esclarecimento final, este texto não contém nem um pingo de ironia e eu não penso que João César das Neves é um aglomerado de qualidades ridículas e ignóbeis, das quais a pior é o modo como ele critica os media por estarem comprometidos com uma agenda de perversa imoralidades, os mesmos media que lhe dão repetidamente espaço para ele libertar as suas frustrações em diatribezecas baratas que atira para um mundo que felizmente, se está a cagar para o que ele diz. Não penso isso mesmo nada. Ouçam-no, meus amigos, ouçam-no bem.

This is the end

Angélico Vieira não era uma pessoa que me dissesse muita coisa. Sim, vi em 2005 a meia temporada em que ele espontou nos Morangos com Açúcar, a mesma que revelou a Cláudia Vieira e a Rita Pereira, o que só prova que trabalhar como jurista no setor público não me estava a fazer muito bem à cabeça. Enfim, ele era uma celebridade, famoso não por ter algum especial supertalento. A música que fazia não era especialmente inovadora e, enquanto entretenimento, não era particularmente espetacular. As suas participações na televisão foram em novelas, onde interpretava tipos. No cinema o título mais respeitável que fez foi o 20,13 do Joaquim Leitão, que sinceramente não vi, mas nunca me constou que ele fosse impressionantemente bem nele. De resto, namorava com atrizes e mulheres cobiçadas, publicitava moda, as revistas publicavam fotografias dele em eventos.

Mas há uma coisa que não se está a dizer muito acerca desta morte pública. Angélico Vieira, bom ou mau gosto à parte, era um homem bonito. Ele tinha uma cara bonita, ele tinha um corpo bonito. Era isso que subjazia a tudo o que ele fazia e, às vezes, uma cara bonita vende uma canção melhor do que uma grande voz ou uma personagem-tipo numa novela melhor do que um ator do Método. A questão é que ele era uma celebridade, mas não era grande. Marylin Monroe será grande, porque havia uma dor enorme dentro dela: a de querer provar ser mais do que a loira burra que toda a gente pensava que ela era. Angélico Vieira não teve tempo para ganhar essa dor ou, pelo menos, para integrá-la no seu percurso de artista. Assim, ele acabou por ser só a superfície em que sempre foi representado.

Enquanto artista e figura pública, ele nunca teve complexidade e até pode ser que ela nunca lhe chegasse. Mas, ao rapiná-lo assim, a morte tirou um homem bonito a oportunidade de explorar tudo o que podia ser. A morte tirou a Angélico Vieira a oportunidade de ser interessante, de ser grande. E isso tem tudo a ver com toda a gente.

Criatividade e coiso

Às vezes perguntam-me como é que posso ser criativo (e o fato de ser sempre a mesma pessoa e só quando está bêbeda não importa para o caso). Eu, na verdade, não sei. Conheço pessoas muito mais criativas do que eu e com qualidade muito mais consistente. O que posso dizer é que grande e irrefletida parte da minha vida é ter ideias estúpidas sobre tudo aquilo que estou a ver. A minha cabeça insiste em ver pilas e mamas em arranjos de frutas, pensar "bucetinha" quando ouve "você tinha", ver um homem quase nu a curtir a Rua Augusta à noite e incomodar-se principalmente porque ele pode pisar um caco de vidro com os pés descalços. Para mim, essas coisas estúpidas são o primeiro estádio do que significa ser criativo e todos os artistas e escritores da História têm facilidade em aceder a ele. Por isso é que acredito piamente nas histórias que dizem coisas parecidas com Kafka se mijar a rir sempre que olhava para um par de tomates.

O segundo estádio é um de implicação e de reação contra o mundo. Apetece-te perguntar um "porquê?" permanente, que faz com que perante uma situação simples, como, digamos, um amigo que está com problemas com a namorada, comeces por perguntar quais os problemas e acabes a questionar-te sobre a verdadeira natureza do amor e das relações humanas. É o momento de fedelho ingrato da criatividade, o que demonstra uma superação mal resolvida. Não, à Freud, da fase anal e oral, mas da idade dos porquês, que é muito mais fofinho. Pensando bem, talvez isso venha de as perguntas feitas durante esses anos formadores não terem ficado bem respondidas. Outra característica das pessoas criativas, afinal, é que são teimosas. Daí, quando algum apreciador diz que não gosta, vir a tão criativa resposta "era mesmo essa a intenção".

E isso leva-nos ao terceiro estádio, em que as conexões atrás de conexões deixam de ser ocasionais e se juntam na forma de uma filosofia pessoal sobre o mundo e as pessoas. Toda a filosofia exige uma linguagem, porque o pensamento não existe sem palavras, e a linguagem não se fixa sem registo. Portanto, é a própria visão que exige a sua expressão através da linguagem artística. Este é um estádio ao que se ambiciona chegar e cujo valor só pode realmente ser avaliado por outra pessoa que não o autor, porque não adianta de nada dizer "reparem no valor tão grande daquilo que eu fiz, suas grandes bestas". Essa elaboração, por um lado, e esse apreço, por outro, são ambições permanentes do ser criativo que explicam a sua permanente frustração e o fato de com frequência eles não serem mais do que tristes attention freaks. Ainda, ressalve-se, que o sejam com génio.

Obviamente, há uma questão mais profunda que subjaz a tudo isto: por que fazer o que faço? Por que algumas pessoas se mantém no lado operativo e útil da vida e outras preferem andar a discutir criatividade e fixar em papéis e telas e celulóide coisas que lhe saem da cabeça? Uma reportagem que vi há tempos explicava a criatividade através de uma falha - efetivamente, uma falha - que levava o cérebro a não dar respostas diretas aos problemas e o fazia, em contrapartida, encontrar respostas inusitadas e novas para eles. É uma explicação curiosa, que explica o retardo mental de muita gente genial por esse mundo fora (veja-se Galliano). Mas eu prefiro acreditar que a criação de algo que mexe com os nossos sentimentos, preconceitos e, se tivermos sorte, com os fundamentos com que pensamos e vivemos a vida é tão necessária como aquilo que faz o mundo meramente funcionar. Como disse Oscar Wilde no prefácio do Dorian Gray, "podemos perdoar um homem por fazer uma coisa útil não admirável, mas a única desculpa para fazer uma coisa inútil é que alguém a admire intensamente. E toda a arte é bem inútil". E aí está a resposta à pergunta com que comecei este texto: uma pessoa criativa é uma apaixonada fazedora de coisas inúteis. Parece-me tão boa como outra qualquer.

Sobre não saber falar com as pessoas

Eu sou daqueles que têm algum jeito com palavras, não tanto com pessoas. Ou seja, quando inspirado, consigo comunicar bem as minhas idéias e até, quem sabe, divertir ou emocionar os outros. Para mim, comunicar tem sempre um objetivo. Eu quero que esta pessoa se sinta melhor com ela própria ou com o mundo, quero combater o ponto de vista dela ao ponto de ela se sentir humilhada por ter dito tamanha idiotice, quero convencê-la de que há melhores maneiras de pensar nas coisas e na humanidade. Ou, se ela for o Durão Barroso, quero ridicularizá-lo na frente dos outros. Nessa perspetiva, tudo é válido.

Mas entender, em relações ou momentos concretos, o que é que as pessoas querem sentir é sempre um mistério para mim. Um desafio permanente, como um jogo de xadrez que nunca acaba. Esse desencontro entre o conhecimento do objetivo e o da técnica é uma equação que estás sempre a tentar resolver. E por isso às vezes magoas quem não queres, e por isso dizes as coisas erradas.

A tua ingenuidade pode ser de diversa ordem. Não entenderes o que as pessoas querem de ti pode fazer com que peques por excesso ou por defeito, por dizer demais ou por dizer de menos. E, por muito que gostasses de pensar o contrário, entre a sinceridade e a mentira existem muitos níveis. O fato de não teres sentimentos maus dentro de ti contra alguém (exceto, ocasionalmente, o Durão Barroso) não quer dizer nada. Tens constantemente que escolher as palavras. Ou, então, escolher o silêncio. Isso pode significar pecar por defeito. Mas às vezes é a melhor solução.

O passado roubado na algibeira

Eu tive uma banda dos 15 aos 16 anos. Chamávamo-nos Spinning e tocávamos quase só originais. As nossas influências eram Nirvana, Pearl Jam, Rage Against The Machine, Red Hot Chili Peppers, Soundgarden, Faith No More, Rollins Band, Primus, Primitive Reason. Éramos os rockeiros da vila, tínhamos cabelo comprido e, por causa do grunge, não pensávamos muito no que vestíamos.

Uma vez, demos um concerto num bar de Monção. Descarregámos os instrumentos, esperámos que a sala enchesse, tocámos. Tínhamos muitos amigos na vila, que faziam as vezes de fãs encorajados. Era verão, estavam as meninas de Lisboa a visitar a terra dos pais, toda a gente se divertia. E tu sentes-te em cima do mundo durante uma hora. Tens 16 anos, o corpo não te pesa, tens o cabelo comprido para abanar enquanto tocas guitarra. É como se o Hendrix baixasse em ti e te fizesse sentir como ele durante esse tempo. Durante uma hora, és a maior pessoa do mundo.

Mas depois o som termina, a tua adrenalina baixa. As pessoas voltam às suas vidas normais, viram-te as costas e continuam a conversa que estavam a ter antes. E tu carregas os instrumentos para o carro, fechas a porta e pensas: terminou. Num momento, és o maior. No outro, és um merdas. Ficas à espera do próximo concerto, se houver, e a tentar reproduzir o sentimento durante os ensaios. Nunca é a mesma coisa.

Isso foi uma lição para a vida. Sempre que te sentires o maior, lembra-te que em breve te sentirás um merdas. O grande segredo é não deixar que o concerto termine. Mas isso, lá está, não depende de ti.

MEDIANO vencedor no Festival Silêncio

http://vimeo.com/25535394
A curta metragem que eu e o Victor Lemos preparámos para o Filmagens, do Festival Silêncio, arrecadou ontem o Prémio do Público e o Primeiro Prémio do júri. Estamos muito contentes e agradecemos a todos os que nos apoiaram, incentivaram, votaram ou simplesmente nos manifestaram o seu apreço, seja lá por que forma. Significou muito para nós.

Eu tenho que dar uma palavra especial aos Social Smokers. Sempre pensei que ler em público não é um mero ato em que um público aprecia, passivo, um texto lido para ser admirado, mas tem de ser necessariamente uma forma de entretenimento no mais nobre que a palavra implica. Por muito slam que tenha feito ou continue a fazer, foram os meus concertos com o Alex Cortez, o Silva o Sentinela, o B.I.R.U.L.ex, o Zé Lencastre, o João Pedro Gomes e, mais tarde, com o Ivo Palitos e o Sérgio Costa que fizeram com que realmente começasse a pensar no público que tinha à frente e nas soluções para que o ato performático ganhasse força junto dele. O MEDIANO, que adapta o texto com que abri a minha performance na Casa das Rosas em Abril, é um exemplo dessas soluções. Não o teria feito assim se os Smokers não me refrescassem a cabeça. Um grande abraço, amigos.

MEDIANO a concurso no Festival Silêncio


Depois de ter sido exibido na sexta-feira no Filmagens, no Festival Silêncio, MEDIANO, a curta-metragem que gravei com o meu grande amigo Victor Lemos, está a concurso para o Prémio de Público. Para votar, é só clicar na imagem acima (ou aqui) e fazer "Like" ali do ladinho direito.

O Festival Silêncio é um evento pelo qual tenho muito carinho. Foi lá a primeira vez que fiz slam e que conheci o resto dos Social Smokers. Foi ele que me permitiu ir ao European Poetry Slam em 2009, a Berlim, e chegar à final para dizer o meu poema à frente de 500 pessoas. É uma honra ter um filme lá. E é uma honra estar a pedir-vos para o verem.

Retrato do artista enquanto Zapeão


Foto de Tide Gugliano
Fazer crescer uma cena nunca é tarefa fácil, ainda para mais se estivermos a falar de algo que, pura e simplesmente, não existe. Apesar do tamanho e do cosmopolitismo de São Paulo, o slam só começou a ser organizado enquanto tal (poesia + performance + competição) há cerca de três anos, quando a Roberta Estrela D'Alva organizou os seus comparsas do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, ali pertinho da Pompéia. Como o mundo é um penico, a Roberta é amiga desde a infância do Newton Cannito, um dos maiores responsáveis pela minha vinda para o Brasil, e, interessada pela proposta dos Social Smokers, aproveitou os conhecimentos comuns para meio que se auto-convocar para nos acompanhar quando a banda esteve no Brasil em Novembro do ano passado. Foi então que conheci o Núcleo e o ZAP!, a noite de slam mensal que eles organizam. Já lá tinha ido uma vez, mas só como jurado - fiquei na mesma mesa de um gaúcho e, curiosamente, éramos sempre os dois a dar as notas mais baixas, o que nos fez temer pela nossa integridade física face ao pessoal da Zona Leste. Ainda bem que poesia é amizade. Mas aconteceu que, na última quinta feira, deu-me uma vontade de fim de tarde de ir à competição e, contra todas as minhas expetativas, a noite acabou comigo a ser o Zapeão, ao mesmo tempo que a Roberta Estrela D'Alva sacava o terceiro lugar na Copa do Mundo do Slam em Paris. Ganhar é sempre bom, mas os minutos em que ouvi a poeta e atriz Ana Roxo fazer este poema foram o momento de slam ou recitais ou saraus ou leituras públicas ou seja lá o que for que mais me emocionaram na vida. Por isso, deixo-o aqui, desejando uma vida longa ao ZAP!
Comecei a escrever aquele texto triste

talvez não seja triste ou não tão triste
quanto deveria ser um texto sobre eu e você
talvez só seja assim, melancólico
com medo do sofrimento
que viria, e veio devagar
começa assim de repente
meio no meio de uma tarde chuvosa e com enchente
depois tem um espaço onde cabe o silêncio
e por onde podem escorrer umas lágrimas
não tem fluxo o texto
começa de supetão
e para um tempão num vácuo
depois fica bonito a beça
eu falo de cores que eu conheço e queria te contar
conto de coisas que vi e vivi
e te faço convites incríveis
descrições inimagináveis de lugares em que estive sozinha
falo de montanhas que são ondas, deuses hindus, mitologias inventadas
animais fantasiosos, deuses pagãos, sagas heróicas,
dançarinas de vários braços, de um homem com três bocas cantantes
do dia em que o capeta me paquerou
e de como os deuses as vezes descem a terra e brincam com a gente
conto quase tudo de impensável
e nessa parte eu te impressiono.
Depois vai ficando mais cafona,
porque meu repertório não é tão bom assim.
Mais pra frente fica triste e bonito de novo.
Eu vou dizendo que te amo de vários jeitos
primeiro clichês e mais pra frente novos,
que nem aquele dia
que eu disse eu te amo só com o olho,
no meio de uma frase e você não esperava
(porque eu passei grande parte da nossa história
inventando jeitos diferente de dizer eu te amo
então nada mais justo do que colocar isso naquele texto)
Coloco um mar no meio, pra deixar mais água
e nessa hora fica feio, um pouco infantil
eu me fragilizo muito e digo
que foi tudo culpa minha
como se a culpa existisse mesmo e eu acreditasse nisso
mas é só pra você se impressionar de novo
e ficar mais um pouco do meu lado.
Mas nem assim adianta
você parte mesmo assim
e talvez até por causa disso
(no final dos meus textos você sempre vai embora)
mas aí no texto eu minto
dizendo te dei um mais beijo
e disse tchau com muita dignidade
(e não chorei nem fiquei aflita
nem me joguei no chão
e quis tomar formicida)
ou talvez eu coloque uma piada
não sei, eu ainda não terminei o texto.
Mas acho que no fim
eu saio com uma desculpa esfarrapada
dizendo por exemplo
que eu ainda não terminei.