Pau e brasil

Não deixa de ser curioso que a primeira vez que ouvi o hino brasileiro tenha sido no início da parada gay - momento, aliás, devidamente documentado para a posteridade. Em Portugal, o brasileiro é visto como animado, divertido e irremediavelmente liberal e folgado. No Brasil compreende-se, no entanto, que, se em Portugal a lei anda à frente da sociedade, no Brasil a sociedade está à frente da lei. Não é possível abortar, não é possível andar na rua com drogas leves ou pesadas (ainda que em doses para consumo individual), os homossexuais não se podem casar. Ao mesmo tempo, basta um passeio normal pela Avenida Paulista ou uma saída nocturna sem grandes espalhafato para encontrar casais homossexuais beijando-se sem vergonha, as prostitutas da Consolação - curiosa coincidência toponímica - esperam os clientes sem se esconderem na sombra ou no anonimato da estrada, a cocaína circula aos montes e a maconha aos fardos. Uma ressalva no afirmado anteriormente: a sociedade está à frente da lei no comportamento, porque a mentalidade, estranha, masoquista, mantém-se apertada, mesmo no seio de grupos que se imaginava serem mais progressistas. Apesar de tudo, o brasileiro é bem comportado e de um estranho conservadorismo relaxado: não gosta de ruptura e leva a mal que se aponte falhas. A ditadura militar será explicação para parte deste comportamento, o comportamento será parte da explicação da ditadura militar. Enfim, "o brasileiro", "basta um passeio" e "a sociedade" são sempre aquelas generalizações bacocas e com quota-parte de perigo. Ainda assim, confesso que senti algum orgulho quando, assistindo à parada gay, me lembrei que o meu país acabara de promulgar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nesse momento, o hino do Brasil cantado de modo bem divertido por um travesti começou a enfraquecer nos meus ouvidos. E, contente, ouvi, claro e distinto, como se estivesse ao meu lado e não a um oceano de distância, o som ainda mais divertido de Cavaco Silva a engolir um enorme, indiscreto e liberalíssimo sapo.

Tenho uma casa para olhar

Ao que parece, Vinicius de Moraes fez o seu apontamento na guerra Sampa-Rio quando disse que o samba vinha a São Paulo para morrer. Até certo ponto, dá para entender. O brasileiro tão musical que é tão conhecido em Portugal é, na verdade, o carioca. Com as vogais ainda mais abertas do que o costume e o "jeitinho" a borbulhar, o Rio é terra de samba e lugar onde personagens como Wilson Simonal ou Leon Eliachar são naturais. Voltaremos a eles noutro dia. São Paulo, por outro lado, cidade de ética de trabalho férrea, sem praia, sem calor, terra de garoa, de lazer e dor, não tem muito a ver com garotas de Ipanema. Dizia uma das últimas Piauí que a afirmação de Vinicius era contradita por um homem, um italiano de nome original João Rubinato e que acabaria por se tornar conhecido como ator, personalidade propagandística (da Antártica) e sambista melancólico sob o nome de Adoniran Barbosa. Com uma voz rouca, das profundezas, o homem, que às vezes parece deixar o coro cantar os agudos para depois lhe vir contramarcar o desvairo, é, mais do que um letrista, um verdadeiro cronista. "Trem das Onze" é uma canção certeira num lugar onde a especulação imobiliária leva a que vários filhos continuem a viver com os pais até uma idade adulta, "Tiro ao Álvaro" é uma canção de amor em sotaque dos italianos do Brás, "Despejo na Favela" é uma melopeia de pobres. A melancolia profunda de Adoniran marca bem a diferença entre as duas cidades. Nela estão os paulistas a acusarem os cariocas de preguiçosos e os cariocas a acusarem os paulistas de obsessão com trabalho e dinheiro, os meus amigos atores a queixarem-se de que no Rio se fazem intervalos de 30 minutos no teatro e no fim é preciso ir buscar o público ao bar da esquina, os meus amigos cariocas a rirem-se do modo como em SP se continua a trabalhar depois dos jogos da Copa mesmo que o jogo seja de manhã. O samba alegre encontra a cidade triste de Adoniran e fica mais alegre, a cidade mais triste fica.

O “POLITIQUÊS” E O PODER DA AUTO-CLASSIFICAÇÃO, ou As Variações Pachecoldberg

(a partir de PP)

Olhando para os encontros dos políticos que venceram os cidadãos, encontramos um dos mundos menos conhecidos e escrutinados da vida pública portuguesa. Porém, existe uma relação directa entre a ausência de escrutínio do seu trabalho e a capacidade que têm de influenciar os media a favor das suas causas, quer porque o seu lugar é central em certas "indústrias da comunicação", a que os media estão associados, quer pelo preconceito da intangibilidade da "administração", da "governação", da "política".

Este mundo funciona em circuito fechado, e desconhece-se que critérios presidem ao seu funcionamento e como são verificados os resultados dessa aplicação do dinheiro dos contribuintes. Sabe-se que não é pelo interesse dos cidadãos, visto que estes ramos de "administração" e "política" abominam tal critério vulgar, de serem avaliados, entre outras coisas, pelo interesse que suscita o seu trabalho pelo comum dos portugueses.

É verdade que a verba que gastam do erário público é elevada e é dinheiro dos contribuintes que têm direito de saber onde e com quem é gasta. Os grupos de "políticos", principalmente na área autárquica e da administração autónoma, empregam um número significativo de pessoas, cuja trabalho individual é desconhecido e não avaliado. São "políticos" e como se auto-classificam como tal, quase tudo lhes é permitido, e respondem com enorme arrogância a qualquer avaliação.

Organizados em vários "partidos", PCP, PS, PSD, a que se juntaram o CDS e o Bloco de Esquerda, representam uma miríade de grupos cuja existência pública é quase ignorada se exceptuarmos alguns comentadores, personalidades televisivas, arguidos judiciais e o Alberto João Jardim. O Bloco "reúne 3 partidos políticos anteriores" e o CDS "agrega cerca de alguns milhares de velhinhos, betinhos e pessoas suburbanas que já se assustaram com uma sombra na rua, maioritariamente de Cascais e das áreas das feiras". Só o PSD inclui a comunidade de filiados mais sequiosa por uma mudança de poder no país, um ou dois Governos-sombra, o Pacheco Pereira e o Pedro Santana Lopes, a Zita Seabra e a Maria José Nogueira Pinto.

Tanto"político", tanto "governante", que nós temos por metro quadrado! O modo como se apresentam tem toda a prosápia burocrática e institucional. O PS quer com ousadia "defender inequivocamente a democracia e procurar no socialismo democrático a solução dos problemas nacionais e a resposta às exigências sociopolíticas do mundo contemporâneo" para o que defende "uma economia de bem-estar, aberta à pluralidade das iniciativas e das formas económicas privadas, públicas e sociais, e regulada pelo mercado e por instituições públicas adequadas"O PCP explica-nos que na sua festa na Atalaia"pavilhões dos países socialistas, de jornais de Partidos irmãos, pavilhões dos novos países africanos com exposições sobre as conquistas dos povos que avançam decididamente na construção do socialismo, sobre a luta das forças progressistas de todo o mundo - e também bancas onde poderão ser compradas recordações e produtos de todo o mundo!". Uma coisa chamada JSD explica-nos que a dita é "uma estrutura autónoma do PSD, apresentando um posicionamento programático claramente mais à esquerda, uma voz crítica e sem tabus, mas que, com o tempo, passou a alinhar mais com a base programática do partido. Mais ao centro e abandonando a ‘irreverência esquerdista’ que a caracterizou inicialmente". E por aí adiante.

Este bla-bla do "politiquês" é como o "culturalês" e o "eduquês", mas ninguém lhe toca. Só faltava tratar os "políticos" como gente vulgar!

Insuficiências

Conheci um dono de padaria português. Na verdade, conheci vários. Confirmam-se os rumores, eles são muitos e estão por todo o lado, suprindo as necessidades do café da manhã de toda uma nação - sim, porque também conheci um que vendia o seu pão francês lá mesmo no amazónico Pará. Diz-se "pão francês", curiosamente, e não bijou, trigo, de Mafra ou de Avintes. Por Sampa, o máximo que encontrei foi um pão bem gostoso que parecia broa, assim consistente, cheiinho, mas chamavam-lhe pão italiano. Adiante.

No Rio Grande do Sul, o pão francês é o "cacetinho", ou seja, um pequeno cacete, o que em São Paulo é o mesmo que uma pilha eléctrica é em Espanha. Isso mesmo, uma pila. Ou, mais precisamente, uma pilinha. Portanto, o que não falta por aí são hordas de gaúchos a pedirem pilas em padarias. O Brasil, definitivamente, é um país divertido.

É muito normal que os portugueses das padarias tenham bigode, para além de imagens católicas (não do candomblé, não espíritas) hasteadas nos estabelecimentos. Curiosamente, o dono de padaria que conheci ontem não tinha bigode, não tinha imagens nas paredes e também não tinha um dedo, o médio direito, provavelmente porque lho exigiram na Polícia Federal para estender o visto de residência.

Sem brincadeira, a insuficiência deste senhor, jovem, bom gestor, passava bem despercebida. Ele era de Fafe, e, curiosamente, tive na Faculdade um colega de Fafe que era conhecido também por uma insuficiência que passava despercebida. Digamos só que um habitante do Rio Grande do Sul chamar-lhe-ia um pão. Seja como for, lembrei-me do homem hidrocéfalo que vi na Feira Nordestina do fim de semana que passei no Rio. Imaginem o ambiente: Alceu Valença tocando, um público apertando-se em amálgama de cores, protuberâncias e pernas, o forró rolando para uma audiência que passou o dia em praias munidas de estruturas metálicas para fazer exercícios abdominais e inchar os músculos dos braços - e um homem hidrocéfalo, com a camisa suja, passeia-se pelo meio, fumando e com cara de poucos amigos. Realmente, amigos não devia ser uma coisa fácil para ele fazer.

O Brasil é um país de gente bonita, gente feia, gente de todas as lindezas. Alguns são donos de padaria. E alguns são portugueses. E pronto.