No Fórum

O dia amanheceu cedo na Frei Caneca. Era quinta-feira, dia 17, mas estamos a falar de um dos pontos nocturnos mais mexidos de São Paulo, ali mesmo perpendicular à Paulista, e os sinais dos baladeiros das horas anteriores ainda se viam pela rua. São Paulo tem estado frio, surpreendentemente frio. Trouxe um cachecol pensando que nunca o usaria, mas bem que podia processar a TAM por publicidade enganosa nos ecrãs individuais, porque posso já ter visto garotas bonitas, mas praias quentes e sol brilhante é que têm faltado (até pode ser que em Pernambuco seja diferente, mas o avião não me trouxe para Pernambuco). Descendo a rua, cheguei ao Centro de Convenções, onde recorria o Fórum Brasil, também conhecido como Mercado Internacional de Televisão.

Eu devia ter ido no dia anterior, mas caíram-me em cima um deadline e uma viagem no fim-de-semana e tive de fazer uma directa, sempre a pensar que duas horas depois conseguiria acabar o trabalho e seguir directo. O optimismo é uma das qualidades mais admiráveis do ser humano, mas deve ser administrado em doses moderadas. Não foi o meu caso. Mas foi impossível faltar ao segundo dia. O Newton ia falar.

Newton Cannito é roteirista (guionista, em Portugal) e é graças a ele que estou no Brasil. Quando me candidatei ao Inov-Art, era o país que parecia a escolha natural para quem escreve em português e quer passar por um sistema de produção grande. E havia uma empresa chamada FICs - Fábrica de Ideias Cinemáticas que me atraía acima de tudo, principalmente porque ela surgira na sequência de um método desenvolvido num livro chamado, muito simplesmente, "Manual do Roteiro, ou Manuel, o Primo Pobre dos Manuais de Cinema e TV". Só o título  já justificaria o interesse; o conteúdo reforçá-lo-ia; mas o facto de uma empresa ter nascido com base nele, coisa que nunca conheci em mais lado algum, foi o empurrão definitivo. Newton é um dos autores do livro e fundadores da empresa. O contacto foi feito de forma muito modernaça: pelo Facebook, para o que contribuiu a maravilhosa capacidade do Brasil para gerar nomes que mais nenhuma pessoa em mais lado nenhum do mundo tem (pelo menos, com conta no Facebook).

O Newton foi extremamente receptivo e seria hoje o meu orientador de estágio se não tivesse sido convidado para ser o novo Secretário do Audiovisual em Brasília. Enquanto roteirista, ele conhece melhor do que ninguém o sector e, como tal, está na melhor posição para ter uma visão própria desenvolvida e perceber as necessidades do meio. O que ele falou no Fórum não foi diferente do que já tinha afirmado na sua apresentação oficial no início do mês na Cinemateca Brasileira, do que escrevera no seu livro "A televisão na era digital" ou do que foi repetindo ao longo da sua carreira, até na própria índole dos projectos por que deu a cara: por um lado, a ideia de que os meios já não estão numa relação vertical, com a TV no topo, mas horizontal, sem secundarizações de uns quanto aos outros; por outro, uma defesa da posição do autor. O lançamento próximo do Fundo de Inovação Audiovisual e de um edital específico para o desenvolvimento de projectos respondem precisamente a essas duas urgências.

No entanto, a intervenção mais surpreendente acabaria por ser, para mim, a de Marcelo Gluz. O gerente de novos media da Globosat falou sobretudo da ideia do transmediático: da expansão de uma obra através de diferentes dispositivos  que convergem, não num só, mas no usuário e na história. Documentação caótica, universo e personagens fortes, storylines múltiplas em vários gadgets, todas as histórias a contribuírem para a storyline central: é o conceito de story dwelling, em que a perspectiva do espectador é elevada ao máximo de importância, a tal ponto que é a partir da sua entidade que as histórias são contadas. Estas palavras concentram o que sempre senti ao trabalhar com Net, que estava a lidar com o nível estrutural mais próximo do que pode ser a imprevisibilidade da vida real. E isso ainda se evidenciou mais com o "abrir de olhos" que Gluz forçou no final: num mundo em que sabemos da vida dos nossos amigos por portais sociais, em que enviamos fotos por e-mail e postamos vídeos no YouTube, em que conversamos por telemóvel e fazemos vídeochamadas por Skype, em que lançamos snacks de vida no Twitter, no Flickr, no MySpace - nesse mundo, os nossos amigos são já produtos de media e a nossa vida real é transmedia em si mesma.

E felizmente o é, senão eu não estaria no Brasil.

18h15

Eu espero um ônibus. Já faz noite. O primeiro aparece com uma caixa na mão. "Moço, compra uma bala". Dentro da caixa, embalagens de rebuçados coloridos. Digo que não. Reparo então: ele tem os olhos marejados de lágrimas. Vira-se para trás. "Anda, Henrique". O irmão aproxima-se. Pequenino, quatro anos no máximo. Eles afastam-se, o maior claramente liderando. Está frio em São Paulo, eles não estão mal agasalhados. Têm camisolas, o mais novo tem um casaco vermelho, estão bem lavados. Se são moleques de rua, alguém toma bem conta deles, ainda que seja só eles mesmos. O maior vê algo no chão, aponta, o mais novo apanha. O que é? Não se vê, mas o maior faz que sim com a cabeça. É coisa boa, alguém jogou fora, alguém perdeu, não interessa, agora é deles. Penso que lhe devia ter perguntado porque chorava e dado uns trocos, mas agora é tarde. Eles estão lá longe, entre a estação de serviço e a cafetaria com as paredes cobertas de revistas finas,  e eu penso que estes são dias que o Henrique nunca mais vai esquecer: os dias em que, bem abrigado, andava pela rua a vender balas com o irmão mais velho.

As pequenas diferenças

Parece mentira, mas já estou em São Paulo há 21 dias. O primeiro mês do meu visto está quase a esgotar-se, o que parece justo, já que uma parte substancial dele foi passada a tentar registrar esse mesmo visto na Polícia Federal - ou PF, para os amigos. Por outro lado, PF é também um sistema de restaurante (Prato Feito, diferente da comida a peso), para além, é claro, das Produções Fictícias. A Ana hoje percebeu um padrão nas minhas ocupações: Cabra, Bode Expiatório; Produções Fictícias, FICs. Estou mortinho por descobrir o que vai emparelhar com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro.

Tenho-me lembrado muito desta conversa durante estes 21 dias. É tudo um bocadinho diferente em São Paulo, apesar de ter tudo o que Portugal tem menos a língua. Um x-acto é um estilete, uma rotunda é uma rotatória, um rissol é um risoli. Pastéis de bacalhau rareiam, mas há coxinhas. Ninguém pergunta se queremos factura, mas nota fiscal paulista. Não há c's e p's nas palavras. As vogais são abertas como uma fronteira sem PF. Há cromos do Mundial, mas chamam-lhes "figurinhas" e aos Sábados centenas de pessoas vão para baixo do MASP trocar zagueiros por goleiros. Bebe-se muita cerveja, mas nos cafés, que se chamam lanchonetes, é preferível comprar uma garrafa grande e dividir. E nas caixas automáticas, que não servem para todos os cartões, não dá para carregar o telemóvel, que se chama celular,  mas nas caixas de supermercado e nas bombas de gasolina já dá.

Na 3ª feira da semana passada, cansado de ser estrangeiro, apeteceu-me ir jantar a um lugar (e não digo "sítio" porque sítio aqui é fazenda) onde não tivessse que aprender nada. Um lugar onde não tivesse de me confrontar com termos como bauru, virada, açaí, catupiry. Um lugar que fosse um vazio cultural, onde comer fosse quase intuitivo, mecânico e sem prazer. Mas onde encontrá-lo? Felizmente, perto de nós, há-de sempre haver um McDonald's.

Fui no da Rua Augusta e entrei. Tudo muito normal e calmo: os vermelhos, os amarelos, os brinquedinhos e as coisinhas todas para atrair crianças para os poliinsaturados desde o berço. Há Big Tasty? Há, e chama-se mesmo assim: não preciso de dizer "le Big Tasty". Pego no meu hambúrguer, pego na minha cola (que cá é mais "coca"), pelo nas minhas batatas (que cá são mais" fritas") e sento-me. Ah, o prazer de comer comida igual em todo o mundo, com aquele inconfundível sabor a fritonguice a jorrar de todos os poros, das pontas afiadas das batatas, dos molhos enfiados no pão, e empurrar tudo com um grande golo de...

Falta-me a palhinha.

Tudo bem, não há-de haver problema, há mais no balcão. Levanto-me, ando até lá e pergunto à menina Olhe, por favor, queria uma palhinha. Ela não percebe. Não faz mal, é do barulho, há mais gente a ser servida nas caixas ao lado. Quero uma palhinha, por favor, e neste momento já puxo pelo sotaque brasileiro. Ela continua a não entender. Então, fecho uma mão, estico o mínimo e o polegar, mínimo para baixo e boca no polegar, e digo, com as vogais todas abertas e sem c's nem p's pelo meio, Uma palhinha! Para beber! e a moça exclama Ah! Um canudo! Aqui tem!

Um canudo. Um canudo. Um canudo. E aí eu lembrei-me do "mostrar" e de como o PT-BR do Consulado de Lisboa é ainda mais diferente do PT-PT. Quando em PT-BR consular vos dizem que é necessário "mostrar" o protocolo na PF depois de chegar, isso significa preencher uma GRU na Internet, pagá-la num banco ou casa lotérica, tirar duas fotos 3x4, preencher um formulário chato, tirar fotocópias ao passaporte, chegar na fila pelas 7 da manhã, entrar e entregar tudo para depois ter que esperar até às 15h com uma senha que não se pode perder para tirar impressões digitais, reaver o passaporte e um talão que comprova que já se está legal. Isso, claro, se não houver um problema nos documentos com o nome da mãe, porque, nesse caso, é preciso ir ao consulado português pedir uma nota consular e perder mais uns dias de trabalho numa sala com o único atractivo de se poder conversar com uma data de bolivianos que por cá andam a tentar a sorte.

Saí do McDonald's com as mãos sujas de gordura. Saí da Polícia Federal com as mãos sujas de tinta. Essa é a conclusão possível: isto deixa marca.

Lula para todos

Uma refeição completa e bem saborosa (frango guisado, feijão, arroz, jardineira, salada, sumo de kiwi e, para sobremesa, um fruto que é um diospiro, seja lá qual for a palavra acabada em i, u ou ã que por cá se inventou) num Bom Prato, um dos restaurantes sociais criados pelo senhor Lula para acabar com a fome, incluindo a de portugueses que vão à Lapa registrar o visto: 1 real.

Um café expresso na Casa do Pão de Queijo ao lado: 2 reais e 40 centavos.

Ir ao Bom Prato da Rua Afonso Sardinha é como ir à cantina em Coimbra. Aliás, a fila estava cheia de gente de todas as carteiras, desde vagabundos a antropólogas em doutoramento, passando por estudantes universitários, aposentados, lojistas, os motoboys que estacionam por ali, os empregados das lojas das redondezas... isso ajudou-me a ultrapassar o remorso prévio que me atacou. É que um Bom Prato não tem hora certa para fechar - abre às 10h45 e fecha quando as 1500 refeições que disponíveis acabarem. E eu lá pensava "se calhar, vou estar a tirar a refeição a alguém que precisa mais". Afinal, não. Aquilo é mesmo de todos.

Sobre a minha participação como guionista no filme "Um funeral à chuva"

As notícias sobre o filme Um Funeral à Chuva, que estreia hoje em Portugal, e principalmente uma entrevista publicada ontem no blog do João Nunes onde o meu nome é mencionado, levaram a que eu e o guionista Luís Campos fôssemos questionados  sobre a possível existência de atritos entre nós e sobre a minha posição neste processo. Para esclarecer os mal-entendidos, fica aqui uma explicação breve.

Em 2006, logo após ter escrito a curta Utensílios do Amor para o realizador Telmo Martins, produzida por aquilo que viria a ser as Lobby Productions, foi-me passada uma história original sobre o reencontro de estudantes universitários na Covilhã com a missão de a transformar em guião. Na altura, fui pago com uma soma justa e, ao longo de dois anos, escrevi mais dois drafts enquanto a produção tentava conseguir fundos pelas vias normais dos subsídios públicos, a fundo perdido ou não. Em 2009, após uma aprovação com reservas pelo FICA, eu desliguei-me do processo e a Lobby decidiu passar o guião ao Luís Campos para uma reescrita. O Luís foi mais longe e transformou o guião em algo novo, algo dele e, naturalmente, mais próximo da visão da produção, já que todos eles foram estudantes na Covilhã e partilhavam um património comum. Após uma rejeição desse guião pelo FICA, a Lobby decidiu avançar para a produção da maneira heróica que é conhecida, e agora o filme está aí a estrear em 20 salas por esse Portugal fora.

Não tenho qualquer tipo de conflito com o Luís Campos, com quem troco guiões e opiniões frequentemente e que considero um excelente profissional. Enquanto excelente profissional que também penso ser, acredito que, num mercado audiovisual maduro e saudável, a reescrita deveria acontecer mais vezes e, arrisco, de forma bem mais conflituosa (quando se justificar um departamento de arbitragem na APAD semelhante ao da WGA, o negócio vai estar bem). De resto, o assunto resume-se a isto: eu fui compensado e a minha contribuição criativa creditada; o Luís escreveu o guião de uma longa-metragem com resultados felicíssimos, tão eficaz que foi o empurrão final para a concretização do projecto; e a Lobby, depois de muitos sacrifícios durante 4 anos, produziu a primeira longa-metragem independente de qualidade em Portugal, estreando em 20 salas da Zon/Lusomundo. Acredito que o futuro da produção audiovisual portuguesa passa necessariamente pelo modo como se trabalhou em Um Funeral à Chuva e, aqui do meio da selva de pedra paulista, espero que o público o veja e aprecie.