Canção do Asilo (a partir de Gonçalves Dias)

Minha terra não tem palmeiras
Lá não canta o sabiá
Não tem esfiha nem coxinha
Maniçoba ou vatapá

"É assim" é nosso "então"
O "OK" é "entendi"
A saudade que lá existe
É a mesma que existe aqui

Não encontro prazer lá
E não sei se o há aqui
Minha terra é um sonho em pó
Acordei, logo esqueci

Se esta terra tem primores,
Parabéns, mostrem-mos lá.
Não me falem "ora pois"
Nem me falem do que não há
Não sabemos o que é viver
Não aqui e nunca lá

Não tem Deus que traga a conta
Do consumo de maná
Não tem pai que nos corrija
Do erro que a gente fará
Não sabemos o que é viver
Não aqui e nunca lá

NOTA: Disse este poema no dia 21 de Novembro no espectáculo dos Social Smokers no SESC Pompéia. É a (in)versão possível de um português a viver em São Paulo no século XXI da famosa "Canção do Exílio" de Gonçalves Dias, um brasileiro que estudava Direito em Coimbra no século XIX.

Objetos do Brasil: a raquete elétrica


Fazer uma viagem é como levar um pobre num rodízio: não abdica de nada. Uma das coisas de que não abdiquei foi as vacinas. Não fui ao costumeiro centro de saúde, mas ao próprio Instituto de Higiene e Medicina Tropical, talvez porque tenho um fraquinho por qualquer instituição médica que já teve o seu boletim citado na série "House".

A Medicina Tropical é engraçada, porque é a única que não existiria sem medo. Não medo à doença ou à morte, mas ao próprio ser humano, desde que seja exótico. Sim, porque a Medicina Tropical olha para os trópicos com um medo que se pela. A comida pode ser perigosa, os insetos podem ser pestilentos, a doença pode sempre chegar - e, não tenha dúvidas, mais cedo ou mais tarde ela vai chegar. Por isso tudo, é sempre razoável tomar muitas mais vacinas do que aquelas de que precisaríamos, como que justificando na receita que nos passam a receita que lhes damos. Dentro desta paranóia toda, um pequeno actor surge: o mosquito, transmissor de tantas e tão boas doenças como o dengue ou a malária. Para quem não sabe, os mosquitos que pegam o dengue voam de dia e os que pegam a malária de noite. Ou seja, se se for um sujeito com muito azar, pode-se pegar o dengue e a malária no mesmo dia. Também pode ser que o mosquito do dengue goste tanto do que chupou que diga ao da malária onde é que a pessoa se encontra para este ir lá chupar também. Neste caso, o sujeito é na mesma azarado, mas, pelo menos, tem o conforto de ser muito apetitoso.

Para resolver este problema, o brasileiro adoptou um objecto muito peculiar, que junta o útil ao agradável e transforma em jogo a actividade de se manter saudável e livre de chupões de muriçocas: a raquete elétrica. A raquete elétrica torna portáteis aquelas armadilhas, presentes em todo o restaurante com pelo menos um prato na ementa a custar menos de 5€, que chamam os insectos com a sua cor arroxeada e os electrocutam mal eles pousam nelas. Mesmo que sejam borboletas. Doces e inocentes borboletas. Por isso é que, apesar de ela também ser vendida em Portugal, foi no Brasil que ela arrancou: porque, sendo o brasileiro sensível e atento às belezas do mundo, ele acha que a matança de animais voadores não deve ser indiscriminada, mas antes ficar ao critério do próprio sujeito matador. Assim, muniu este de uma raquete com a qual, qual Federer dos infernos, pode aplicar uma descarga eléctrica que fulmina o desgraçado e potencialmente letal bicho. É o mais próximo que uma pessoa normal pode chegar do serial-killer sem arriscar prisão: a raquete elétrica garante a repetição da alegria da matança. Por outras palavras, uma versão adulta do famoso jogo infantil "queimar moscas".

O modelo na imagem é o de uma raquete corrente. Reparem no centro da mesma: tem um raio, igual aos raios que Zeus atirava aos mortais. Ou seja, a raquete aproxima quem a usa das divindades gregas, o que faz todo o sentido, pois, como toda a gente sabe, Deus é brasileiro. E, tal como Deus, a raquete elétrica é omnipresente - pelo menos no Brasil.

Objetos do Brasil: a catraca


Uma das coisas mais fáceis de acontecer no Brasil é multidões. Pois se há coisa que o Brasil tem são pessoas, 190 milhões delas, sempre prontas a juntar-se e fazer coisas disparatadas, como eleger palhaços para altos cargos de governação. Mas deixemos de falar da Dilma e do Serra e falemos do que realmente importa aqui. Mesmo para o observador mais desprevenido, não deixa de surpreender o magnífico sentido de ordem que os brasileiros têm, principalmente os paulistas, que se colocam em fila seja lá para o que for. Mesmo que estejam a apanhar um avião em Frankfurt. E não seja preciso fazer fila. Mas eles fazem, e isso só é de louvar. A menos, é claro, que se seja de Goiânia, como um amigo meu, que tem vontade de dar um tiro a alguém sempre que vai no supermercado. Isso para não falar que, sempre que percebem que sou português, uma das primeiras coisas que qualquer pessoa me pergunta é se em PT usamos mesmo a palavra "bicha" para dizer "fila". Nesse momento, procuro o meu amigo de Goiânia e começo a carregar a carabina.

Para que essas filas não saiam fora do controlo, há um objeto conhecido muito singelamente por "catraca". A função da catraca é tornar lenta uma fila que sem catraca seria rápida. Encontram-se nos ônibus, no metrô e em qualquer outro tipo de transportes, com a vantagem que, se se apanhar o ônibus num terminal, é preciso passar por uma catraca para entrar no terminal e outra dentro do ônibus. Sim, cada ônibus tem uma catraca, para além de um cobrador, que tem como função garantir que o número de voltas à catraca coincide com o dinheiro em caixa no final do dia. Ou seja, nos ônibus não só se paga como ainda é preciso passar por uma máquina que impede que se chegue àquilo por que se paga. Claro que muita gente tem o Cartão Único, o que significa que não precisam de dinheiro, passam o cartão numa máquina e giram elas próprias a catraca. Nesses casos, o cobrador não tem nada para fazer e, por isso, pode adormecer tranquilamente no seu banquinho no embalo do ônibus. Cobrador de ônibus é, aliás, a segunda profissão que conheço onde é aceitável que se durma durante a jornada de trabalho, mas os deputados da Assembleia da República Portuguesa sempre têm a desculpa de não terem uma catraca por que olhar.

Já passei por catracas para ir a concertos, casas nocturnas, para ver jogos de futebol na praia, para ir ao teatro. No meio disto tudo, porém, tem uma coisa boa: ao contrário do Metro lisboeta, em que é preciso passar o passe novamente no leitor da catraca para se poder sair, o Metrô paulista só requer que se empurre a catraca do lado de dentro. Isso realmente ajuda a que a fila, que sem catraca seria rápida, não seja tão lenta como poderia ser - a menos, é claro, que se seja homem, se vá com pressa e se esbarre com as jóias da família na porra da catraca. Nesse caso, a fila fica lenta de novo.

A tartaruga tuga

Uma tartaruga chamada Calantha, que não via o mar há 30 anos, saiu do Aquário Vasco da Gama e nadou durante 332 dias até chegar às Caraíbas. Os biólogos dizem que é "uma das maiores migrações" de tartarugas de que têm conhecimento.

É preciso tecer algumas considerações sobre isto. Primeiro, se é só uma tartaruga a nadar, não é uma migração, é uma viagem. Em 2003 eu viajei pela Europa toda com a mochila às costas e fazia interrail; porque é que uma tartaruga de carapaça é logo migrante? Tem visto de trabalho, é? Vai aguentar uns anos para mandar vir a família também? Por favor.

Segundo, eu posso estar longe, mas tenho acompanhado as notícias, e não me espanta nada que qualquer ser que seja solto em Portugal por estes dias se queira pôr a milhas o mais depressa possível. Aliás, quem é que o Aquário Vasco da Gama quer enganar? Mantiveram a tartaruga com eles durante 30 anos e agora deixam-na ir embora? Podem chamar-lhe "migração" à vontade - eu chamo-lhe despedimento sem justa causa. A tartaruga não precisa de atenção, ela precisa é de um subsídio.

Terceiro, analisemos bem as ações da Calantha. Chegou ao Vasco da Gama nos anos 70, tem à volta de 40 anos, esteve cinco anos em recuperação para reaprender a "capturar o seu alimento" e que "os humanos não são amigos". 40 anos, acha que os humanos não são amigos e à primeira oportunidade raspa-se para as Caraíbas? Não nos enganemos, meus amigos - esta tartaruga é uma divorciada. Arranjem-lhe um mulatinho e uma margarita e não se preocupem mais com ela.

Pau e brasil

Não deixa de ser curioso que a primeira vez que ouvi o hino brasileiro tenha sido no início da parada gay - momento, aliás, devidamente documentado para a posteridade. Em Portugal, o brasileiro é visto como animado, divertido e irremediavelmente liberal e folgado. No Brasil compreende-se, no entanto, que, se em Portugal a lei anda à frente da sociedade, no Brasil a sociedade está à frente da lei. Não é possível abortar, não é possível andar na rua com drogas leves ou pesadas (ainda que em doses para consumo individual), os homossexuais não se podem casar. Ao mesmo tempo, basta um passeio normal pela Avenida Paulista ou uma saída nocturna sem grandes espalhafato para encontrar casais homossexuais beijando-se sem vergonha, as prostitutas da Consolação - curiosa coincidência toponímica - esperam os clientes sem se esconderem na sombra ou no anonimato da estrada, a cocaína circula aos montes e a maconha aos fardos. Uma ressalva no afirmado anteriormente: a sociedade está à frente da lei no comportamento, porque a mentalidade, estranha, masoquista, mantém-se apertada, mesmo no seio de grupos que se imaginava serem mais progressistas. Apesar de tudo, o brasileiro é bem comportado e de um estranho conservadorismo relaxado: não gosta de ruptura e leva a mal que se aponte falhas. A ditadura militar será explicação para parte deste comportamento, o comportamento será parte da explicação da ditadura militar. Enfim, "o brasileiro", "basta um passeio" e "a sociedade" são sempre aquelas generalizações bacocas e com quota-parte de perigo. Ainda assim, confesso que senti algum orgulho quando, assistindo à parada gay, me lembrei que o meu país acabara de promulgar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nesse momento, o hino do Brasil cantado de modo bem divertido por um travesti começou a enfraquecer nos meus ouvidos. E, contente, ouvi, claro e distinto, como se estivesse ao meu lado e não a um oceano de distância, o som ainda mais divertido de Cavaco Silva a engolir um enorme, indiscreto e liberalíssimo sapo.

Tenho uma casa para olhar

Ao que parece, Vinicius de Moraes fez o seu apontamento na guerra Sampa-Rio quando disse que o samba vinha a São Paulo para morrer. Até certo ponto, dá para entender. O brasileiro tão musical que é tão conhecido em Portugal é, na verdade, o carioca. Com as vogais ainda mais abertas do que o costume e o "jeitinho" a borbulhar, o Rio é terra de samba e lugar onde personagens como Wilson Simonal ou Leon Eliachar são naturais. Voltaremos a eles noutro dia. São Paulo, por outro lado, cidade de ética de trabalho férrea, sem praia, sem calor, terra de garoa, de lazer e dor, não tem muito a ver com garotas de Ipanema. Dizia uma das últimas Piauí que a afirmação de Vinicius era contradita por um homem, um italiano de nome original João Rubinato e que acabaria por se tornar conhecido como ator, personalidade propagandística (da Antártica) e sambista melancólico sob o nome de Adoniran Barbosa. Com uma voz rouca, das profundezas, o homem, que às vezes parece deixar o coro cantar os agudos para depois lhe vir contramarcar o desvairo, é, mais do que um letrista, um verdadeiro cronista. "Trem das Onze" é uma canção certeira num lugar onde a especulação imobiliária leva a que vários filhos continuem a viver com os pais até uma idade adulta, "Tiro ao Álvaro" é uma canção de amor em sotaque dos italianos do Brás, "Despejo na Favela" é uma melopeia de pobres. A melancolia profunda de Adoniran marca bem a diferença entre as duas cidades. Nela estão os paulistas a acusarem os cariocas de preguiçosos e os cariocas a acusarem os paulistas de obsessão com trabalho e dinheiro, os meus amigos atores a queixarem-se de que no Rio se fazem intervalos de 30 minutos no teatro e no fim é preciso ir buscar o público ao bar da esquina, os meus amigos cariocas a rirem-se do modo como em SP se continua a trabalhar depois dos jogos da Copa mesmo que o jogo seja de manhã. O samba alegre encontra a cidade triste de Adoniran e fica mais alegre, a cidade mais triste fica.

O “POLITIQUÊS” E O PODER DA AUTO-CLASSIFICAÇÃO, ou As Variações Pachecoldberg

(a partir de PP)

Olhando para os encontros dos políticos que venceram os cidadãos, encontramos um dos mundos menos conhecidos e escrutinados da vida pública portuguesa. Porém, existe uma relação directa entre a ausência de escrutínio do seu trabalho e a capacidade que têm de influenciar os media a favor das suas causas, quer porque o seu lugar é central em certas "indústrias da comunicação", a que os media estão associados, quer pelo preconceito da intangibilidade da "administração", da "governação", da "política".

Este mundo funciona em circuito fechado, e desconhece-se que critérios presidem ao seu funcionamento e como são verificados os resultados dessa aplicação do dinheiro dos contribuintes. Sabe-se que não é pelo interesse dos cidadãos, visto que estes ramos de "administração" e "política" abominam tal critério vulgar, de serem avaliados, entre outras coisas, pelo interesse que suscita o seu trabalho pelo comum dos portugueses.

É verdade que a verba que gastam do erário público é elevada e é dinheiro dos contribuintes que têm direito de saber onde e com quem é gasta. Os grupos de "políticos", principalmente na área autárquica e da administração autónoma, empregam um número significativo de pessoas, cuja trabalho individual é desconhecido e não avaliado. São "políticos" e como se auto-classificam como tal, quase tudo lhes é permitido, e respondem com enorme arrogância a qualquer avaliação.

Organizados em vários "partidos", PCP, PS, PSD, a que se juntaram o CDS e o Bloco de Esquerda, representam uma miríade de grupos cuja existência pública é quase ignorada se exceptuarmos alguns comentadores, personalidades televisivas, arguidos judiciais e o Alberto João Jardim. O Bloco "reúne 3 partidos políticos anteriores" e o CDS "agrega cerca de alguns milhares de velhinhos, betinhos e pessoas suburbanas que já se assustaram com uma sombra na rua, maioritariamente de Cascais e das áreas das feiras". Só o PSD inclui a comunidade de filiados mais sequiosa por uma mudança de poder no país, um ou dois Governos-sombra, o Pacheco Pereira e o Pedro Santana Lopes, a Zita Seabra e a Maria José Nogueira Pinto.

Tanto"político", tanto "governante", que nós temos por metro quadrado! O modo como se apresentam tem toda a prosápia burocrática e institucional. O PS quer com ousadia "defender inequivocamente a democracia e procurar no socialismo democrático a solução dos problemas nacionais e a resposta às exigências sociopolíticas do mundo contemporâneo" para o que defende "uma economia de bem-estar, aberta à pluralidade das iniciativas e das formas económicas privadas, públicas e sociais, e regulada pelo mercado e por instituições públicas adequadas"O PCP explica-nos que na sua festa na Atalaia"pavilhões dos países socialistas, de jornais de Partidos irmãos, pavilhões dos novos países africanos com exposições sobre as conquistas dos povos que avançam decididamente na construção do socialismo, sobre a luta das forças progressistas de todo o mundo - e também bancas onde poderão ser compradas recordações e produtos de todo o mundo!". Uma coisa chamada JSD explica-nos que a dita é "uma estrutura autónoma do PSD, apresentando um posicionamento programático claramente mais à esquerda, uma voz crítica e sem tabus, mas que, com o tempo, passou a alinhar mais com a base programática do partido. Mais ao centro e abandonando a ‘irreverência esquerdista’ que a caracterizou inicialmente". E por aí adiante.

Este bla-bla do "politiquês" é como o "culturalês" e o "eduquês", mas ninguém lhe toca. Só faltava tratar os "políticos" como gente vulgar!

Insuficiências

Conheci um dono de padaria português. Na verdade, conheci vários. Confirmam-se os rumores, eles são muitos e estão por todo o lado, suprindo as necessidades do café da manhã de toda uma nação - sim, porque também conheci um que vendia o seu pão francês lá mesmo no amazónico Pará. Diz-se "pão francês", curiosamente, e não bijou, trigo, de Mafra ou de Avintes. Por Sampa, o máximo que encontrei foi um pão bem gostoso que parecia broa, assim consistente, cheiinho, mas chamavam-lhe pão italiano. Adiante.

No Rio Grande do Sul, o pão francês é o "cacetinho", ou seja, um pequeno cacete, o que em São Paulo é o mesmo que uma pilha eléctrica é em Espanha. Isso mesmo, uma pila. Ou, mais precisamente, uma pilinha. Portanto, o que não falta por aí são hordas de gaúchos a pedirem pilas em padarias. O Brasil, definitivamente, é um país divertido.

É muito normal que os portugueses das padarias tenham bigode, para além de imagens católicas (não do candomblé, não espíritas) hasteadas nos estabelecimentos. Curiosamente, o dono de padaria que conheci ontem não tinha bigode, não tinha imagens nas paredes e também não tinha um dedo, o médio direito, provavelmente porque lho exigiram na Polícia Federal para estender o visto de residência.

Sem brincadeira, a insuficiência deste senhor, jovem, bom gestor, passava bem despercebida. Ele era de Fafe, e, curiosamente, tive na Faculdade um colega de Fafe que era conhecido também por uma insuficiência que passava despercebida. Digamos só que um habitante do Rio Grande do Sul chamar-lhe-ia um pão. Seja como for, lembrei-me do homem hidrocéfalo que vi na Feira Nordestina do fim de semana que passei no Rio. Imaginem o ambiente: Alceu Valença tocando, um público apertando-se em amálgama de cores, protuberâncias e pernas, o forró rolando para uma audiência que passou o dia em praias munidas de estruturas metálicas para fazer exercícios abdominais e inchar os músculos dos braços - e um homem hidrocéfalo, com a camisa suja, passeia-se pelo meio, fumando e com cara de poucos amigos. Realmente, amigos não devia ser uma coisa fácil para ele fazer.

O Brasil é um país de gente bonita, gente feia, gente de todas as lindezas. Alguns são donos de padaria. E alguns são portugueses. E pronto.

No Fórum

O dia amanheceu cedo na Frei Caneca. Era quinta-feira, dia 17, mas estamos a falar de um dos pontos nocturnos mais mexidos de São Paulo, ali mesmo perpendicular à Paulista, e os sinais dos baladeiros das horas anteriores ainda se viam pela rua. São Paulo tem estado frio, surpreendentemente frio. Trouxe um cachecol pensando que nunca o usaria, mas bem que podia processar a TAM por publicidade enganosa nos ecrãs individuais, porque posso já ter visto garotas bonitas, mas praias quentes e sol brilhante é que têm faltado (até pode ser que em Pernambuco seja diferente, mas o avião não me trouxe para Pernambuco). Descendo a rua, cheguei ao Centro de Convenções, onde recorria o Fórum Brasil, também conhecido como Mercado Internacional de Televisão.

Eu devia ter ido no dia anterior, mas caíram-me em cima um deadline e uma viagem no fim-de-semana e tive de fazer uma directa, sempre a pensar que duas horas depois conseguiria acabar o trabalho e seguir directo. O optimismo é uma das qualidades mais admiráveis do ser humano, mas deve ser administrado em doses moderadas. Não foi o meu caso. Mas foi impossível faltar ao segundo dia. O Newton ia falar.

Newton Cannito é roteirista (guionista, em Portugal) e é graças a ele que estou no Brasil. Quando me candidatei ao Inov-Art, era o país que parecia a escolha natural para quem escreve em português e quer passar por um sistema de produção grande. E havia uma empresa chamada FICs - Fábrica de Ideias Cinemáticas que me atraía acima de tudo, principalmente porque ela surgira na sequência de um método desenvolvido num livro chamado, muito simplesmente, "Manual do Roteiro, ou Manuel, o Primo Pobre dos Manuais de Cinema e TV". Só o título  já justificaria o interesse; o conteúdo reforçá-lo-ia; mas o facto de uma empresa ter nascido com base nele, coisa que nunca conheci em mais lado algum, foi o empurrão definitivo. Newton é um dos autores do livro e fundadores da empresa. O contacto foi feito de forma muito modernaça: pelo Facebook, para o que contribuiu a maravilhosa capacidade do Brasil para gerar nomes que mais nenhuma pessoa em mais lado nenhum do mundo tem (pelo menos, com conta no Facebook).

O Newton foi extremamente receptivo e seria hoje o meu orientador de estágio se não tivesse sido convidado para ser o novo Secretário do Audiovisual em Brasília. Enquanto roteirista, ele conhece melhor do que ninguém o sector e, como tal, está na melhor posição para ter uma visão própria desenvolvida e perceber as necessidades do meio. O que ele falou no Fórum não foi diferente do que já tinha afirmado na sua apresentação oficial no início do mês na Cinemateca Brasileira, do que escrevera no seu livro "A televisão na era digital" ou do que foi repetindo ao longo da sua carreira, até na própria índole dos projectos por que deu a cara: por um lado, a ideia de que os meios já não estão numa relação vertical, com a TV no topo, mas horizontal, sem secundarizações de uns quanto aos outros; por outro, uma defesa da posição do autor. O lançamento próximo do Fundo de Inovação Audiovisual e de um edital específico para o desenvolvimento de projectos respondem precisamente a essas duas urgências.

No entanto, a intervenção mais surpreendente acabaria por ser, para mim, a de Marcelo Gluz. O gerente de novos media da Globosat falou sobretudo da ideia do transmediático: da expansão de uma obra através de diferentes dispositivos  que convergem, não num só, mas no usuário e na história. Documentação caótica, universo e personagens fortes, storylines múltiplas em vários gadgets, todas as histórias a contribuírem para a storyline central: é o conceito de story dwelling, em que a perspectiva do espectador é elevada ao máximo de importância, a tal ponto que é a partir da sua entidade que as histórias são contadas. Estas palavras concentram o que sempre senti ao trabalhar com Net, que estava a lidar com o nível estrutural mais próximo do que pode ser a imprevisibilidade da vida real. E isso ainda se evidenciou mais com o "abrir de olhos" que Gluz forçou no final: num mundo em que sabemos da vida dos nossos amigos por portais sociais, em que enviamos fotos por e-mail e postamos vídeos no YouTube, em que conversamos por telemóvel e fazemos vídeochamadas por Skype, em que lançamos snacks de vida no Twitter, no Flickr, no MySpace - nesse mundo, os nossos amigos são já produtos de media e a nossa vida real é transmedia em si mesma.

E felizmente o é, senão eu não estaria no Brasil.

18h15

Eu espero um ônibus. Já faz noite. O primeiro aparece com uma caixa na mão. "Moço, compra uma bala". Dentro da caixa, embalagens de rebuçados coloridos. Digo que não. Reparo então: ele tem os olhos marejados de lágrimas. Vira-se para trás. "Anda, Henrique". O irmão aproxima-se. Pequenino, quatro anos no máximo. Eles afastam-se, o maior claramente liderando. Está frio em São Paulo, eles não estão mal agasalhados. Têm camisolas, o mais novo tem um casaco vermelho, estão bem lavados. Se são moleques de rua, alguém toma bem conta deles, ainda que seja só eles mesmos. O maior vê algo no chão, aponta, o mais novo apanha. O que é? Não se vê, mas o maior faz que sim com a cabeça. É coisa boa, alguém jogou fora, alguém perdeu, não interessa, agora é deles. Penso que lhe devia ter perguntado porque chorava e dado uns trocos, mas agora é tarde. Eles estão lá longe, entre a estação de serviço e a cafetaria com as paredes cobertas de revistas finas,  e eu penso que estes são dias que o Henrique nunca mais vai esquecer: os dias em que, bem abrigado, andava pela rua a vender balas com o irmão mais velho.

As pequenas diferenças

Parece mentira, mas já estou em São Paulo há 21 dias. O primeiro mês do meu visto está quase a esgotar-se, o que parece justo, já que uma parte substancial dele foi passada a tentar registrar esse mesmo visto na Polícia Federal - ou PF, para os amigos. Por outro lado, PF é também um sistema de restaurante (Prato Feito, diferente da comida a peso), para além, é claro, das Produções Fictícias. A Ana hoje percebeu um padrão nas minhas ocupações: Cabra, Bode Expiatório; Produções Fictícias, FICs. Estou mortinho por descobrir o que vai emparelhar com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro.

Tenho-me lembrado muito desta conversa durante estes 21 dias. É tudo um bocadinho diferente em São Paulo, apesar de ter tudo o que Portugal tem menos a língua. Um x-acto é um estilete, uma rotunda é uma rotatória, um rissol é um risoli. Pastéis de bacalhau rareiam, mas há coxinhas. Ninguém pergunta se queremos factura, mas nota fiscal paulista. Não há c's e p's nas palavras. As vogais são abertas como uma fronteira sem PF. Há cromos do Mundial, mas chamam-lhes "figurinhas" e aos Sábados centenas de pessoas vão para baixo do MASP trocar zagueiros por goleiros. Bebe-se muita cerveja, mas nos cafés, que se chamam lanchonetes, é preferível comprar uma garrafa grande e dividir. E nas caixas automáticas, que não servem para todos os cartões, não dá para carregar o telemóvel, que se chama celular,  mas nas caixas de supermercado e nas bombas de gasolina já dá.

Na 3ª feira da semana passada, cansado de ser estrangeiro, apeteceu-me ir jantar a um lugar (e não digo "sítio" porque sítio aqui é fazenda) onde não tivessse que aprender nada. Um lugar onde não tivesse de me confrontar com termos como bauru, virada, açaí, catupiry. Um lugar que fosse um vazio cultural, onde comer fosse quase intuitivo, mecânico e sem prazer. Mas onde encontrá-lo? Felizmente, perto de nós, há-de sempre haver um McDonald's.

Fui no da Rua Augusta e entrei. Tudo muito normal e calmo: os vermelhos, os amarelos, os brinquedinhos e as coisinhas todas para atrair crianças para os poliinsaturados desde o berço. Há Big Tasty? Há, e chama-se mesmo assim: não preciso de dizer "le Big Tasty". Pego no meu hambúrguer, pego na minha cola (que cá é mais "coca"), pelo nas minhas batatas (que cá são mais" fritas") e sento-me. Ah, o prazer de comer comida igual em todo o mundo, com aquele inconfundível sabor a fritonguice a jorrar de todos os poros, das pontas afiadas das batatas, dos molhos enfiados no pão, e empurrar tudo com um grande golo de...

Falta-me a palhinha.

Tudo bem, não há-de haver problema, há mais no balcão. Levanto-me, ando até lá e pergunto à menina Olhe, por favor, queria uma palhinha. Ela não percebe. Não faz mal, é do barulho, há mais gente a ser servida nas caixas ao lado. Quero uma palhinha, por favor, e neste momento já puxo pelo sotaque brasileiro. Ela continua a não entender. Então, fecho uma mão, estico o mínimo e o polegar, mínimo para baixo e boca no polegar, e digo, com as vogais todas abertas e sem c's nem p's pelo meio, Uma palhinha! Para beber! e a moça exclama Ah! Um canudo! Aqui tem!

Um canudo. Um canudo. Um canudo. E aí eu lembrei-me do "mostrar" e de como o PT-BR do Consulado de Lisboa é ainda mais diferente do PT-PT. Quando em PT-BR consular vos dizem que é necessário "mostrar" o protocolo na PF depois de chegar, isso significa preencher uma GRU na Internet, pagá-la num banco ou casa lotérica, tirar duas fotos 3x4, preencher um formulário chato, tirar fotocópias ao passaporte, chegar na fila pelas 7 da manhã, entrar e entregar tudo para depois ter que esperar até às 15h com uma senha que não se pode perder para tirar impressões digitais, reaver o passaporte e um talão que comprova que já se está legal. Isso, claro, se não houver um problema nos documentos com o nome da mãe, porque, nesse caso, é preciso ir ao consulado português pedir uma nota consular e perder mais uns dias de trabalho numa sala com o único atractivo de se poder conversar com uma data de bolivianos que por cá andam a tentar a sorte.

Saí do McDonald's com as mãos sujas de gordura. Saí da Polícia Federal com as mãos sujas de tinta. Essa é a conclusão possível: isto deixa marca.

Lula para todos

Uma refeição completa e bem saborosa (frango guisado, feijão, arroz, jardineira, salada, sumo de kiwi e, para sobremesa, um fruto que é um diospiro, seja lá qual for a palavra acabada em i, u ou ã que por cá se inventou) num Bom Prato, um dos restaurantes sociais criados pelo senhor Lula para acabar com a fome, incluindo a de portugueses que vão à Lapa registrar o visto: 1 real.

Um café expresso na Casa do Pão de Queijo ao lado: 2 reais e 40 centavos.

Ir ao Bom Prato da Rua Afonso Sardinha é como ir à cantina em Coimbra. Aliás, a fila estava cheia de gente de todas as carteiras, desde vagabundos a antropólogas em doutoramento, passando por estudantes universitários, aposentados, lojistas, os motoboys que estacionam por ali, os empregados das lojas das redondezas... isso ajudou-me a ultrapassar o remorso prévio que me atacou. É que um Bom Prato não tem hora certa para fechar - abre às 10h45 e fecha quando as 1500 refeições que disponíveis acabarem. E eu lá pensava "se calhar, vou estar a tirar a refeição a alguém que precisa mais". Afinal, não. Aquilo é mesmo de todos.

Sobre a minha participação como guionista no filme "Um funeral à chuva"

As notícias sobre o filme Um Funeral à Chuva, que estreia hoje em Portugal, e principalmente uma entrevista publicada ontem no blog do João Nunes onde o meu nome é mencionado, levaram a que eu e o guionista Luís Campos fôssemos questionados  sobre a possível existência de atritos entre nós e sobre a minha posição neste processo. Para esclarecer os mal-entendidos, fica aqui uma explicação breve.

Em 2006, logo após ter escrito a curta Utensílios do Amor para o realizador Telmo Martins, produzida por aquilo que viria a ser as Lobby Productions, foi-me passada uma história original sobre o reencontro de estudantes universitários na Covilhã com a missão de a transformar em guião. Na altura, fui pago com uma soma justa e, ao longo de dois anos, escrevi mais dois drafts enquanto a produção tentava conseguir fundos pelas vias normais dos subsídios públicos, a fundo perdido ou não. Em 2009, após uma aprovação com reservas pelo FICA, eu desliguei-me do processo e a Lobby decidiu passar o guião ao Luís Campos para uma reescrita. O Luís foi mais longe e transformou o guião em algo novo, algo dele e, naturalmente, mais próximo da visão da produção, já que todos eles foram estudantes na Covilhã e partilhavam um património comum. Após uma rejeição desse guião pelo FICA, a Lobby decidiu avançar para a produção da maneira heróica que é conhecida, e agora o filme está aí a estrear em 20 salas por esse Portugal fora.

Não tenho qualquer tipo de conflito com o Luís Campos, com quem troco guiões e opiniões frequentemente e que considero um excelente profissional. Enquanto excelente profissional que também penso ser, acredito que, num mercado audiovisual maduro e saudável, a reescrita deveria acontecer mais vezes e, arrisco, de forma bem mais conflituosa (quando se justificar um departamento de arbitragem na APAD semelhante ao da WGA, o negócio vai estar bem). De resto, o assunto resume-se a isto: eu fui compensado e a minha contribuição criativa creditada; o Luís escreveu o guião de uma longa-metragem com resultados felicíssimos, tão eficaz que foi o empurrão final para a concretização do projecto; e a Lobby, depois de muitos sacrifícios durante 4 anos, produziu a primeira longa-metragem independente de qualidade em Portugal, estreando em 20 salas da Zon/Lusomundo. Acredito que o futuro da produção audiovisual portuguesa passa necessariamente pelo modo como se trabalhou em Um Funeral à Chuva e, aqui do meio da selva de pedra paulista, espero que o público o veja e aprecie.

Tou ficando atoladinho

Um autocarro de São Paulo não passa em muitas ruas. Primeiro, porque se é autocarro em São Paulo é ônibus. Depois, porque as avenidas são tão longas que é mais fácil fazer piscinas do que começar o corta-mato. Subir e descer a Paulista à procura da minha paragem foi um passatempo muito agradável para a minha manhã.

Por falar em Paulista, depois de me ter sentido como um alcoólico no meio da maior adega do mundo, prometi a mim mesmo que não voltava à Livraria Cultura. Mas aquela autobiografia do Tom Zé estava mesmo com cara de quem não se ia ler sozinha.

Um tecnólogo é um técnico, pereba é um atleta mau, não tem choro nem vela é não ter alternativa, um dia pode ser pipi se for problemático e isso é massa véio se for bom, porque se for mau é paia - assim parece que os traficantes de droga definiram. Os polícias andam com rojões, mas quem comem são os outros.

Felizmente, encontrei café numa lanchonete - muito insípido e muito doce, mas já estava prevenido. O senhor era simpático, principalmente porque lhe comprei pão de queijo, uma linguiça, um pastel de carne dentro do que sabia a pão de leite e uma paçoquinha. O jet-lag vai melhorando dia após dia. Hoje o meu cérebro já só estava três horas adiantado.

Brasil via Alemanha

A ver a fila que se fazia para o avião em Frankfurt, percebi: isto é outra gente. Todas as cores, tamanhos e expressões e todos a falarem a mesma língua, a partilharem o mesmo país. Num guia que li há dias, dizia-se que o passaporte brasileiro é dos mais cobiçados no mercado negro, porque qualquer um passa por brasileiro. É algo que eles têm em comum com os habitantes do Vaticano, tirando o facto de estes usarem hábitos e não treparem com adultos. É algo que não têm em comum com os habitantes de Frankfurt, que são invariavelmente mulheres, mal-dispostas e trabalhadoras em estações e aeroportos. Nunca vi gente com tão má vontade de dar indicações, esclarecer, ser simpático. E gostava que acabassem já com o mito de que os alemães são um povo muito organizado. Eles não são organizados, eles organizam é tudo segundo uma lógica que está muito clara na cabeça deles, tão clara que questioná-la é questioná-los a eles. Mas os homens não são tão maus. Enquanto esperava a ligação, comi um gulash, umas salsichas (frankfurter, evidentemente) com salada de batata, uma cerveja e um expresso, tudo servido por um homem tão simpático que não hesitou em trazer-me tudo ao mesmo tempo. Talvez sejam assim os frankfurtianos: prestáveis, mas toscos. Isso, claro deve ser chato para as mulheres. Assim fica tudo explicado.

Em trânsito

Tu gostas da viagem. Sempre gostaste de aeroportos e estações, porque um aeroporto é sempre um local onde alguma coisa começa, seja a viagem ou tudo aquilo que vem a seguir. Quando vais levar alguém, gostas de ficar sempre mais um bocadinho, antes ou depois, só para ver as pessoas passar, notar-lhes as expressões e pensar no que estará a começar para elas. O problema, portanto, não é a viagem, mas o facto de a cabeça não parar e de te estar constantemente a anotar os fins. Esta é a última viagem de Metro. Este é o último jantar no restaurante aonde costumas ir quando estás sozinho. Esta é a última vez que passas a esfregona no chão de casa. A última coisa que entra nas malas, a última coisa a imprimir, a última mensagem. Esvazias a carteira, tiras tudo aquilo que não te vai fazer falta ou já estava a mais e ia continuando lá por inércia, e pensas "Metade das coisas que trago comigo só servem para deitar fora" e tu pensas "O que mais poderia caber nesta divisão?". Trabalho? Afectos? Memórias? Mas depois há o momento em que paras de pensar e as coisas deixam de acabar. É quando a viagem começa. E por isso mesmo esta é a última palavra deste texto.

O criado brasileiro

Naquela fase de me ir orientando, deparo-me com o seguinte anúncio: O quarto é bem iluminado, tem uma cama box casal, uma mesa para tv e um criado mudo. Luz e mesa para tv é claro; cama box casal também se percebe; mas criado mudo?

Saber que é uma mesa de cabeceira é muito menos excitante do que  a perspectiva de, no escuro, ir depositando porcarias na mão de um desgraçado que não consegue dizer "que merda do trabalho".

Papa

Um grupo de católicos espanhóis teve um acidente. O autocarro que os trazia a Fátima e ao Papa Bento XVI ia entrar numa estação de serviço, falharam-lhe os travões e espetou-se contra o rail de protecção. Aparentemente, iam todos a rezar e o meu comentário irónico foi logo se calhar, não estavam a rezar bem, mas o líder do grupo apareceu então a dar a perspectiva também razoável de que foi graças à Senhora de Fátima que não houve consequências de maior, para além de uma rapariga com um hematoma nas costas e outra que teve uma quebra de açúcar. Assim, só essas duas raparigas estariam a rezar mal. A Senhora de Fátima não os livrou de serem espanhóis, mas isso já é outra conversa. Ironias à parte, não se pode ter senão respeito por quem é capaz de fazer centenas de quilómetros, castigando corpo e alma, para se despojar, para suplicar algo com toda a força possível. Os putos dos Tokio Hotel têm muito a aprender.

Monção

Esta terra é três cores: verde, castanho e cinzento. Vêm das árvores, da vinha, da terra e do céu. Se fecho os olhos e me quero lembrar, a imagem é a de encostas cheias de pinheiros e fasco, atravessadas por caminhos de terra batida que, do que devem ter custado a conquistar, bem podiam ser feridas abertas no chão. O som da televisão ao meu lado ou do rádio na cozinha a atravessarem o silêncio enorme, aquele em que aprendi a pensar, a inventar histórias na minha cabeça, a fechar-me. Sabemos que estamos todos sozinhos no meio deste silêncio, somos desconfiados. As ligações com os outros são acidentais, corpos que se encontram ao calhas no meio de percursos aleatórios. Uma vez disseram-me que Torga chamou ao Minho o inferno verde, mas isso não está certo. O Inferno deve estar cheio de ruído. Em Monção não pára de chover.

A vigília

Quem escreve online há já uns anos sabe que esta coisa de se justificar silêncios é desculpa de mau postador. Em blog recente, então, é como não dar de comer a um bebé, a versão Internet da incubadora de Santana Lopes. Mas não tive outra hipótese. Nas últimas três semanas, o meu mundo tem sido uma sucessão de contratos, marcações, cartões, assinaturas, filas, senhas, vistos, passaportes, seguros, malas, cerimónias, e-mails, bilhetes, pagamentos, vacinas, viagens, talões, recibos e facturas. Aparecem-me flutuando, como se eu estivesse num sonho, sem conseguir prever a ordem com que preparar as placagens. E, ainda assim, vou ouvindo os anos dizer-me na cabeça não te canses com a preparação, porque vais precisar de força depois ou aguenta-te, fofo, tens de ganhar o céu de alguma forma. Nos momentos mais baixos, em que o stress e o cansaço me fazem doer os olhos se os viro muito para os lados, olho para o que aqui está e pergunto vale a pena só para poder responder logo que não tenho outra opção, porque, se queres entrar no jogo, tens de saber que podes chegar ou não ao outro lado e, se tiveres sorte, chegas esmurrado e a sangrar dos pés à cabeça, mas com a quantidade de língua suficiente para poderes dizer consegui. Não tinha de ser assim, talvez, mas se não for a doer não sentias nada. Não vou estar aqui com merdas, podia dizer que o melhor que faço é escrever, mas o que quero dizer não é bem isso, é que, do que fiz, o melhor foi a escrever. A Estrada Curva, A Peste, o João Ícaro, A Chorona, As Portas, a Agenda, o Cidadão, a Passagem, o 13 de Março. Algumas tu conheces, outras não, nenhuma é perfeita, mas em todas houve sempre pelo menos uma coincidência entre o meu gosto e o de outra pessoa qualquer. E esse apreço é uma coisa tão rara, um modo tão profundo de conseguires comunicar com outrem que nem conheces e nem vais conhecer, que tu sabes que não queres procurar mais do que isso: mais oportunidades de perceber que o caminho que os outros fazem também passou pelo que fizeste dentro de ti. É por isso que vou. Se parar, não valho a pena para ninguém. Pelo menos, não a valho para mim.

Uma história pessoal

Uma vez, quando eu era pequeno mas já tinha idade para ter juízo, o meu avô, que tinha andado pelos órgãos autárquicos da vida, fez-me prometer-lhe que não me meteria na política. De uma maneira ou de outra, sempre lhe fiz a vontade. Assumo opiniões, mas não aspiro a jobs. Mando-me a discutir, mas não assino cédulas nem pagarei quotas. Concordo ou discordo e renego a disciplina. E a verdade é que ele tinha razão, pois há-de haver sempre um cargo político a mais à face da terra. Num mundo perfeito, poderiam entender a derradeira afirmação? Poderiam. Mas não seria a mesma coisa.

Tu, baterista com quem falei ontem, tens razão, porque o rock



(A famosa pose "quem és tu, romeiro?"; ver aqui por volta dos 4m12)

é mesmo a celebração cega do indivíduo, a coisa mais egoísta, manipuladora e incrível. Sim, porque que mais se pode chamar a um som pensado para conduzir o público através de pulsões à celebração de um gajo com esta entrega, seja ele um génio chamado Iggy Pop ou um idiota saltitante chamado David Lee Roth? Isso é o que muitas vezes se esquece quando se faz uma banda, quando três a cinco putos decidem entregar-se ao som e à arte e se esquecem de que é preciso quem dê som e é preciso quem dê show. O rock tem de levar à idolatria, à entrega cega a alguém que consiga pôr toda a gente a olhar para ele e, durante umas horas, deixar todos mais à beira de um êxtase desconhecido. Se Iggy Pop aqui tivesse querido seguir em frente para a pilhagem, tinha-o conseguido. O concerto rock é - deve ser sempre - uma espécie de sucedâneo para a experiência do motim. E por isso é que é preciso ter cuidado com as flores e as luzes e as maquilhagens pipis, porque isto não é para ser bonito, não é para ser respeitável, não é para ser animado - é para ser do caralho. Acho que concordamos. Que tudo te corra bem nos teus projectos, compres lá a Ludwig em Braga ou compres uma de raiz ao contacto que te deram. Sê do caralho e vai tudo correr bem. Agora vou só ali comer uma sandes de manteiga de amendoim e já volto.

OS NANDAMENTOS

(escrito para o espectáculo dos Social Smokers de 22 de Abril)

1. Não afagarás os joelhos do próximo.
2. Não falarás com mulheres de barba.
3. Não criarás documentos do Microsoft Word que precisam de conversão para serem lidos por versões mais antigas do Office.
4. Reconhecerás sempre o dever de te rires da classe política.
5. Não saxofonearás o Zé Lencastre do próximo.
6. Amarás as pessoas acima de todas as coisas.
7. Babar-te-ás durante o sono.
8. Orgulhar-te-ás da distribuição dos teus pêlos corporais.
9. Honrarás a memória dos teus animais de estimação falecidos.
10. Não Sentinelarás o Silva do próximo.
11. Viajarás principalmente de transportes públicos.
12. Nunca aprenderás a estacionar um carro devidamente.
13. Andarás sempre com o livro de recibos atrás.
14. Pendurarás nos ombros tudo o que conseguires.
15. Não Cortezarás a próxima do Alex.
16. Farás xixi e irás para a caminha.
17. Nunca saberás explicar muito bem o que fazes na vida.
18. Nunca saberás muito bem o que fazes na vida.
19. Aprenderás muita coisa que te vai sempre ser útil.
20. Não Biruarás as Queijas do próximo.
21. Serás um bom rapaz que todos os dias fala com os pais.
22. Serás um mau rapaz que todos os dias tem pensamentos impuros.
23. Serás um homem assim-assim.
24. Não calarás o que tens para dizer, mas nunca dirás o suficiente.
25. Não Joãopedroarás os vídeos do próximo.
26. Respeitarás todos os homens, até o Filipe Fonseca.

As repetições

O dia começou no Ministério da Administração Interna, onde umas senhoras muito simpáticas me fotografaram, recolheram impressões, registaram assinatura, receberam pagamento, passaram recibo. Encontrei lá duas pessoas que iam para o Brasil. Fomos tomar café. Falei da língua geral, a tal que se falou no Brasil na época dos Bandeirantes e que misturava o português com o tupi, a tal que o Marquês de Pombal proibiu, a tal que tem o mesmo nome da editora do José Eduardo Agualusa. Pensei nisso nesse momento e apercebi-me pela primeira vez como o José Eduardo Agualusa tem tudo a ver com o seu nome. À tarde, fui escrever para o Kaffeehaus. Depois de uma hora, olhei para o lado e lá estava o José Eduardo Agualusa, numa mesa ao fundo, conversando. E eu pensei "olha que engraçado". Fiz o que tinha a fazer, fechei o computador, segui para a Fnac para gastar algum tempo. Enquanto tentava perceber os títulos de livros mais ridículos das últimas fornadas, apareceu-me o José Eduardo Agualusa, também a cirandar pelo meio dos livros. E eu pensei "olha que engraçado". Logo encontrei um amigo que trabalha no Governo Civil e que, portanto, tinha acabado de passar à frente do Kaffeeehaus. Procurava uma prenda para uma amiga de uma colega de trabalho. Ajudei a procurar a prenda e, quando estávamos a sair da Fnac, o último livro que vi tinha uma citação do José Eduardo Agualusa. E eu pensei "olha que engraçado". À noite, voltei a falar do Brasil com mais algumas pessoas, mas não repeti a história da língua geral. Não voltei a ver José Eduardo Agualusa.

O dinheiro

Sempre que gasto dinheiro, percebo: nada é mais fácil. De uma maneira ou de outra, se não há notas há cartão, se não há cartão dá-se algo de penhor, vai-se levantar, faz-se o resgate. Um advogado da Figueira da Foz contou-me que uma empregada dele dizia "o dinheiro não é de quem o ganha, é de quem o poupa". "Uma senhora com a terceira classe", sublinhava ele. Não sei mais do que isso sobre a mulher, mas dele sei que era filho de pescador, que um dia o pai não voltou da faina quando era esperado e que se lembrava de ir para a praia de madrugada com a mãe e a tia mais as mulheres dos outros a pensar que podiam estar viúvas, e que de madrugada gritaram contra o mar e Deus e a vida e o futuro que não sabiam, choraram aquela forma de desespero que não compreendemos, aquela em que não há culpa, só o reconhecimento da nossa derrota no jogo contra o acaso. E gastar dinheiro é isso, é uma certeza recorrente e acessível, como uma bebedeira, uma oração ou a Construção do Chico Buarque. O vício ocidental de gastá-lo não tem a ver com o que se compra, mas com a certeza que comprar implica. Certezas num mundo caótico são coisas raras. E caras também.

Cais

British Bar. O retrato do Cardoso Pires lá em cima, e eu perguntando-me se ele terá estado sentado na mesma cadeira, bebido uma Budweiser checa de pressão porque não têm de garrafa e não há por que sentir pena. De certeza que não estava a dar luta livre feminina  num televisor de canto de parede, que os empregados não eram os mesmos - ou será que estava, ou será que eram? Antes, passear ao lado do Cais do Sodré, ouvir o ar atravessar os respiradouros no chão, ser respingado pelos pingos daquela respiração de animal velho que luta contra a morte, lutou todo o tempo contra a morte. Lá ao fundo, a água muda de cor no momento em que deixa de ser da terra, em que se liberta e transforma em algo de selvagem e elementar que homem algum tocou. Imaginar nadar através dela, o momento em que o corpo muda de água para água. Os barcos ao longe, levando pessoas de uma margem para a outra e eu pensando: "nunca fui à outra margem de barco". Mas, pensando melhor, "nunca" também é longe demais.

SÓ HOJE: PORTES DE GRAÇA NA BUBOK



Hoje, sexta-feira dia 16 de Abril, os portes de envio na Bubok são de graça. Aproveitem para encomendar o meu livro Viagens na Minha Peste por quase metade do preço!



Mas, já agora, se não o fizerem... comprem este, que é provavelmente do melhor que lá anda.

Amador

Hoje estive na Loja do Cidadão a pensar no tempo fenomenológico e como os minutos passam tão devagar quando se está à espera e tão depressa quando se age. Por isso, decidi sair e agir e, portanto, fui a um sítio aonde nunca tinha ido: à livraria do Teatro Nacional D. Maria II. Não é o sentido mais vantajoso para a expressão "tempo é dinheiro", mas encontrei a revista n.º3 dos Artistas Unidos, de que andava diletantemente à procura desde que em 2007 fiquei de boca aberta a ver a peça Amador - e, não, isso não quer dizer que bocejei, mas que fiquei pasmado com aquele quase-monólogo e muito curioso sobre o modo como a peça estaria escrita. Depois de uns 15 minutos à procura nas coisas do Jon Fosse, lá descobri que a peça é na verdade de Gerardjan Rijnders, que eu nunca conheci, mas que de certeza possui um grande par de testículos, pois qualquer pessoa que escreva uma peça quase em verso que começa com a indicação "o texto representado pode divergir do texto publicado" e contém a didascália "(peter faz amor com a mãe, orgasmo)" só pode ter um grande par de testículos. E isso não impediu que ainda tivesse de voltar à Loja do Cidadão e esperar que umas 100 pessoas fossem atendidas até chegar a minha vez, orgasmos não incluídos.

"Introduction" ("Cruel Shoes", de Steve Martin)

Vais por uma estrada campestre. Está uma tarde tranquila. Olhas lá mesmo para o fundo da estrada e vês alguém a andar na tua direcção. Estás surpreendido por teres percebido uma pessoa a tão grande distância. Mas continuas a andar, não esperando mais do que um aceno amigável quando se cruzarem. Reparas que ele tem cabelo laranja e brilhante. Está mais perto - um fato de cetim branco com pontos coloridos. Mais perto - uma cara pintada de branco e lábios rubros. Tu e ele estão a cinquenta metros de distância. Tu e um autêntico palhaço com uma buzina, separados por vinte metros. Aproximam-se na solitária estrada campestre. Tu acenas. Ele buzina e passa.

Táxi Mistério

Fiz a viagem até Lisboa a dormir. Dois dias a trabalhar até tarde deram cabo de mim a um ponto de me encontrar perdido no meu cansaço, como se acordar de repente quando as luzes da auto-estrada me batiam na cara fosse emergir de surpresa em água gelada, vir à tona ganhar respiração quando já não se pensava sair. Foi nessa hipnose que entrei no táxi, indiquei o destino e me deixei ficar a ouvir a música que passava lá dentro, que não era nada que se assemelhasse a M80 ou Rádio Amália. Desculpe lá, ò amigo, isso soa muito bem. O que é?, e o homem olhou para mim pelo retrovisor e disse Isto é jazz-rock, tem 30 anos, o disco chama-se "Ripping Stones" e o músico é o Stanley Jordan. Para o caso, é irrelevante que Jordan só tenha começado a editar em 1982 e que não encontre nenhum título remotamente semelhante a esse na sua discografia - relevante é que o taxista, que andava depressa e tinha olhar de quem não é parvo nenhum, perguntou Gosta?, eu respondi que sim, ele continuou Então também vai gostar mais alto, e encheu a noite do Conde Redondo com finger-tapping.

A compostura

Ali atrás a televisão está a dizer que "temos de ser uns para os outros". Ao meu lado está o poster de um filme de que eu nem gostei acima de tudo, mas que pendurei porque sim, porque não há por aí posteres de filmes aos pontapés e este até é bonito, imita o estilo dos posteres de concertos psicadélicos dos anos 60 e está tudo onde deve estar. A janela tem a persiana aberta, mas vivo num quarto andar e ninguém me pode ver. Há um mapa semi-caído, dependurado da parede, mas só o vou ajeitar no domingo, porque esse é o dia que eu reservei para me preocupar com coisas assim. Segunda-feira preocupo-me com outras coisas, no domingo com essas e, de cabelo branco em cabelo branco, tudo se há-de compor, não?

A luta

Quem é que quer alguma coisa com a luta? Temos televisão, internet, jornais, livros, álcool, tabaco, tabaco-que-faz-rir, frigorífico que refresca tão bem a cervejinha, máquina de lavar roupa e loiça, carro, casa, sofá a condizer com os móveis da sala, aparelhagem, aquecimento-central. Luta? Lutar? Para quê?

Justificação dum Pente 4

E, de um momento para o outro, os sentidos perdem-se porque alguma coisa desapareceu. Dormir: porquê? Ir comer: com que fim? O que fazer nos finais de tarde e depois do jantar, aqueles tempos que já tinham donos e fins bem, bem precisos? A questão em causa não é, como a poria um adolescente, a da utilidade da vida, mas a da finalidade daquilo que ela tem de ocupação do tempo. Entretenimento, conhecimento, vaidade: se quisermos ver até ao tamanho mínimo, tudo é passatempo avulso a precisar de justificação, como um preso num tribunal. Eu posso fazer desaparecer o cabelo só porque o cabelo comprido não serve para nada. Eu posso fazer um manifesto anti-sol só porque trabalho numa cave e não tenho uso para a luz natural. Eu posso fugir e isolar-me só porque não tenho utilidade para a companhia. Tudo isso é possível. Porém, este porquê não é um que se responda: é um porquê que se encontra. E, no caso do meu cabelo, foi muito difícil encontrá-lo num momento em que me vi ao espelho pelos meus próprios olhos, sozinho.

O silêncio

Um dos monólogos que mais me tocou aqui na moleirinha foi o da Michelle Pfeiffer no The Fabulous Baker Boys, o da discussão com o Jeff Bridges: "Every time you walk in those places, you're selling yourself cheap. l know all about that. l find myself at the end of the night with some creep, and l tell myself it doesn't matter. You kid yourself you've got this empty place inside to put it. But do it long enough and all you are is empty". É mais uma daquelas coisas à volta das quais anda toda à gente sem saber muito bem como resolver, porque o trabalho e o filho e as aulas e as contas e os terremotos ocupam o tempo todo e fica por responder a pergunta: como se preenche o espaço vazio? Desde os meus amigos jornalistas, que têm as colunas de papel a preencher com letras e imagens e o ar de rádio, que está morto a não ser que seja varado por palavras, até aos meus amigos contabilistas, que todos os dias se sentam ao computador com folhas de Excel a olhar para eles, ninguém é indiferente à questão. E esse é um problema que os aparelhos não têm, porque já enchi o disco do Sony Reader com e-books e o do disco externo com tudo o mais e difícil será que eles fiquem com o peso aligeirado. Ou seja, os aparelhos não têm problemas com o silêncio; esse é um problema só nosso, humano.

Presente:

s.m. Acto de remediar o passado. O.m.q. "andar constantemente pelo mundo como que a resolver equações com desconhecimento de pelo menos uma das variáveis". Momento cujas existência e percepção nunca se encontram. Geralmente benigno.

The Invention of Lying e Adaptation

Qualquer argumentista, dramaturgo ou alguém que alguma vez tenha lido um manual, sebenta ou rabisco sobre a construção do texto dramático conhece a importância da palavra subtexto. Um literato poderá chamar-lhe uma nuance da metáfora; um psicólogo irá logo decerto sacar para fora o id, ego e superego; e alguém mais preocupado com os reflexos quebradiços entre arte e realidade dirá que não é mais do que uma versão do que acontece no mundo, onde ocultamos a verdade crua do que dizemos e fazemos, até porque, na maior parte das vezes, essa verdade nos escapa. A comédia é a arte do conflito por excelência, por isso, nunca seria de esperar que nela nascesse uma obra como The Invention of Lying, onde Ricky Gervais cria um mundo onde a mentira não existe e, mais longe do que isso, onde toda a gente tende a dizer tudo o que lhe vai pela alma. Ou seja, The Invention of Lying é, à primeira vista,  um filme sem subtexto - ou melhor, um filme onde todo o subtexto é concentrado na personagem principal, a única em toda a Humanidade que consegue mentir (ainda que não saiba que nome dar a isso). O modo como o filme contorna essa quase armadilha que colocou a si próprio é um dos seus aspectos interessantes - vejam o jantar de Anna com Brad Kessler. Outro é o modo como a personagem principal, ao inventar a mentira, inventa também o entretenimento e a religião. Não era mau reler os situacionistas, não. Adaptation, curiosamente, também trata do entretenimento e da vida, traçando o paralelismo entre a construção de ambos. Quando o vi há 8 anos, pareceu-me que o último acto fazia uma concessão àquilo que condenava no primeiro - os clichés superficiais da história holywoodesca - mas compreendo agora que o metadiscurso sobre guionismo nunca poderia estar completo se assim não fosse. O jogo de espelhos é levado a tal ponto, a progressão da escrita está tão enrodilhada na progressão do tempo diegético (e não só) que uma não poderia existir sem a outra. É, com certeza, o antecessor directo na cabeça de Charlie Kaufman de Synechdoche, New York, onde o tempo é o tema e matéria ficcional (nas palavras de Rogert Ebert ao considerá-lo o melhor filme da época, "it isn't about a narrative, although it pretends to be. It's about a method, the method by which we organize our lives and define our realities"), é o filme definitivo sobre a experiência de escrever um argumento e, talvez, o filme definitivo sobre o acto de escrita em si mesmo.

Uma breve história de fracassos

Fui a um museu e vi uma das placas metálicas com que Alves dos Reis falsificou dinheiro. Ou melhor, com que quase falsificou dinheiro, porque o golpe famoso que deu série de televisão era com notas de quinhentos escudos. A placa de mil que vi era para uma fraude posterior, que ele não chegou a levar a cabo porque já tinha sido apanhado.

Também vi as chapas que serviram para as FP-25 criar um cubículo de cerca de 2mx1m no meio de uma floresta, no qual planearam prender a vítima de um sequestro até que chegasse o resgate. Nas fotografias da operação policial que encontrou a coisa por baixo de um monte de galhos e terra, viam-se pacotes de Compal e comida. Seriam a ração. O plano foi descoberto e as placas ficaram sem uso.

No espólio fotográfico havia belos negativos de vidro de fotografias probatórias, as famosas mugshots. Nunca tinha visto um negativo de vidro. Alguns já tinham 90 anos e o detalhe era irrepreensível. A guia disse não resistir a uma provocação e perguntou-me se conseguia adivinhar quem era o homem retratado num positivo que tinha em cima da mesa. Olhei para ele e reconheci o Mário de Sá-Carneiro. Não há notícia de o escritor alguma vez ter estado na prisão, mas A Confissão de Lúcio começa precisamente com a frase "Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos… nada podendo já esperar e coisa alguma desejando — eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência". Portanto, talvez aquele não fosse Sá-Carneiro, mas Lúcio. Seja como for, estava demasiado sorridente.

O que o meu avô disse ontem

Amanhã é Domingo
De pé de cachimbo.
E o touro é bravo.
Arreguicha o rabo
e dá uma pinga ao Nelo do Cabo!

Casa nova

Nos últimos meses, o mundo sofreu muitas incertezas e apenas uma coisa se tem afigurado segura: a minha necessidade de concentrar num único sítio as páginas, conteúdos, blogs futuros e passados e quejandos que tenho vindo a acumular ao longo do tempo. A necessidade de transformar o jvnande.com, que já existia, mas só redireccionava para um espaço ainda muito estático, impôs-se assim, de mansinho, como um milhão de euros a sair de uma conta estatal.

Este novo espaço - e o à-vontade com que digo isto leva-me a pensar que ainda há uma bela carreira de agente imobiliário à minha espera - tem várias novidades, principalmente as secções Imprensa, onde juntarei os artigos (online ou não), reportagens e entrevistas onde vou aparecendo, e Ver/Ler/Comprar, onde porei o maior número possível de filmes, textos e restantes produtos da minha autoria. Enfim, uma espécie de baú para guardar coisas, ao contrário da categoria "textos" que podem ver aqui ao lado, para onde irão as publicações correntes.

Os geeks de entre vós já terão percebido que, depois de muitos anos com o Blogger, rendi-me ao Wordpress como plataforma. A razão principal é simples: páginas estáticas. E mais não digo. Não porque não queira, mas porque não sei. Algumas secções ainda se encontram em construção e é razoável esperar que os próximos tempos ainda sejam de trabalhar no código, de limpar e polir e pôr bonitinho, para a minha mãe não passar vergonhas por causa do rapaz. Mas também é razoável esperar exactamente o oposto. Por isso, vão passando por cá e, olhem, tenham esperança.

Tradução de um poema de Allen Ginsberg

UNDER THE WORLD THERE'S A LOT OF ASS A LOT OF CUNT

Dois textos de Daniil Harms

Algo sobre Pushkin e A Conferência.

Divine Comedy

Divine Comedy, de Julian Gough, um dos melhores ensaios sobre Comédia que já li.

Yau e Drummond

Tradução de In the Kingdom of Poetry, de John Yau, em referência a Carlos Drummond de Andrade.

Duas traduções de Bob Dylan

It's Alright, Ma (I'm Only Bleedin') e Ballad of a Thin Man.

e.e. cummings

Tradução de um texto de um dos meus autores preferidos.

The Other Mexico: Critique of the Pyramid

Tradução de um excerto do livro de Octavio Paz.

Numa sala cheia

Talvez poema, talvez não.

já não consigo digo

Menti. O poema é meu.

O poema

Sim, eu perdi. A partir de Manuel de Freitas, Jorge Melícias e João Luís Barreto Guimarães.

Os poemas antigos

Para recordar tempos de masoquismo.

5 microcontos sobre o desejo

Escritos para o número 11 da revista Minguante.

O Parênteses

Um pequeno conto escrito para os leitores do meu antigo blog. Joaquim Nando ainda teve continuação.

Um microconto de Natal

A minha primeira incursão pelos terrenos da micronarrativa.

People try to put us down

Não consigo concordar com Samuel Úria, com quem partilho geração. Não seremos progressistas no futuro porque não o somos agora e metade dos adultos que conheço, à frentex para o seu tempo e parceiros de revoluções ou movidas e coisas parecidas, queixam-se dos filhos que se querem casar, perguntando quem é que se casa. Sim, quem é que se casa, a não ser um exército que cresceu a ouvir contos de fadas? Olho à volta e não vejo progresso. Nos olhos há medo, nos ânimos confusão. We know not what tomorrow will bring e, sim, pode sempre arguir-se que a necessidade aguça o engenho e, entregues a nós próprios, menos dependentes do conforto da vida persistiremos. Mas a minha geração não vai ter velhos jarretas, nem censores do restelo, nem reaccionários quadrados? Achas mesmo, Samuel? Fechamos os olhos ao presente ou devemos contar com um futuro que nos regenere?

It's just a restless feeling by my side

Fala-se de melancolia, mas perfeição é esta, a da ainda-manhã de domingo, com o lastro desarrumado da semana à minha volta e as pernas frias a sofrerem da preguiça do dono. Há dias escrevi algures a nota "começamos a entrar na idade em que as coisas se vão perdendo", mas não sei exactamente o que isso queria dizer. Isto, porém, nunca se perde: o silêncio, o prazer de um tipo se sentir solidamente consigo no meio de uma desarrumação reversível. A solidão, insuportável à noite, é apetitosa agora.

A meio, o fim

Quanto tempo demora até que tudo fique igual, ouço perguntar dentro da minha mente (o que não quer dizer, atenção, que a pergunta seja minha). De outro modo, poder-se-ia dizer que é precisamente por estes meados de Janeiro que se descobre que resoluções de ano novo valem ou caem por completo. Eu, por mim, fiz uma. Tem-se aguentado, com algum sacrifício. Se assim não fosse, o falhanço seria total. É o problema de se ser pelo fatalismo no mundo e achar que não há nada de muito sólido, ou que se desmanche no ar, ou que se chame poder transformador da mente. Quanto tempo demora até que tudo fique igual? Resposta rápida: nenhum.

O regresso

Entre viagens planeadas e viagens feitas, um tipo começa a perguntar qual é o sentido disto tudo, o que ajuda a compreender porque é que a assistência das igrejas é de faixa etária mais avançada. Aí ainda não cheguei, mas tenho de me sentar nalgum lado a esquecer-me da vida, por isso fui ao cinema comer pipocas. O Avatar do Cameron não é tão fascinante como o Avatar do Carnivale. O eyeware, ainda assim, é mais à maneira. Ainda me lembro de uma transmissão muito anunciada d'O Monstro da Lagoa Negra na televisão, aí para 1986. Até a TV Guia andara na distribuição de óculos de armações de cartolina com lentes de acetato vermelho e azul e depois não deu em nada, já não sei porquê. Ora, os do Avatar não só funcionam como são de armação de plástico de massa com lentes escurecidas. Durante aquelas horinhas, podemos fantasiar a gosto que somos o Woody Allen ou o Pinochet e optar por soprar no clarinete ou mandar entrar a caravana da morte. O problema é que o filme acaba, a Michelle Rodriguez não se dá bem e um tipo pergunta-se qual é o sentido daquilo tudo, o que implica outra viagem e, claro, um sítio diferente para se sentar.

Um clássico

Na casa natal, vi passar na televisão um Concerto de Ano Novo da Filarmónica de Viena. Chamou-me a atenção a valsa "Vinho, Mulheres e Canções", que não consigo de pensar como eufemismo de Strauss para se referir a huren und grüne wein na Viena novecentista. O meu avô é sempre o grande responsável por se deixar ficar no canal com música clássica e também descobri porquê: foi amigo do maestro Miguel de Oliveira, líder da banda musical durante vinte anos. Compôs De Cádiz a Tanger e teve um primo do meu avô na trompa. Este primo, curiosamente, chamava-se Fausto.